Arquivo do mês: março 2018

Direita Chucra

O problema da direita chucra é essa tolice de que “a corrupção é o grande problema nacional”. Que bobagem; nem de longe esse é nosso grande drama. Os Estados Unidos são muito mais corruptos do que o Brasil e a Coreia do Sul então, nem se fala. Nosso problema que se mantém, apesar de outros avanços, é a estrutura escravocrata de nossa sociedade, que herdamos de mais de 500 anos de história.

O problema é a iniquidade e a injustiça social; a divisão do país entre o que podem e os que servem. A corrupção PRECISA ser combatida, mas sem a crença de que ela é a “grande tragédia da nação”.

Todavia, a direita tenta sempre moralizar a questão criando estratégias para poder classificar nossos problemas dentro do seu maniqueísmo habitual: “bandidos x cidadãos de bem”, que nada mais é do que a manutenção da dualidade “Casa Grande x Senzala”. A estrutura é a mesma, mas hoje é feio admitir que sempre foi o horror aos negros e pobres que criou o ódio ao PT, enquanto o combate à corrupção sempre foi a capa encobridora da realidade odiosa do racismo e da exclusão.

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Homenagens a Marielle

“As homenagens a esta mulher foram exageradas”

Sério? Por que não homenagear Marielle??

Negra, moradora da favela da Maré, homossexual, mãe, socióloga e defensora dos direitos humanos cruelmente assassinada por defender a população vítima da brutalidade policial!!! Quem merece homenagens nessa sociedade? Jogadores de futebol? Políticos burgueses da Zona Sul? Cantores de axé? Sertanejo? Artistas da Globo?

Marielle era uma verdadeira heroína, uma batalhadora contra a injustiça social e a barbárie. Mereceu tudo que recebeu de homenagens, e espero que seu nome não seja jamais esquecido. Marielle sintetiza a bravura e a coragem de quem nunca se calará.

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Tristes solilóquios

“Muitos insistem em vociferar verdades nas mídias sociais, mesmo que elas não venham acompanhadas de uma prova sequer do que afirmam. São sujeitos carregados de certezas e ideias simples, repletas de embates do “bem contra o mal”. Acusam a todos, julgam e condenam sem piedade. São carrascos virtuais, prontos a colocar seus desafetos no pelotão de fuzilamento.

Porém, é fácil perceber que estas pessoas se comportam tal qual os fanáticos religiosos que gritam versículos bíblicos na praça. Seus discursos cheios de fervor não servem para que os outros se convertam; são ferramentas para que eles mesmos acreditem em suas palavras. Diante da incerteza do que afirmam insistem na veemência de suas convicções, mesmo quando tudo à sua volta lhes prova que estão no caminho errado. Não são discursos reais; são tristes solilóquios.

Seus gritos funcionam como uma proteção contra o medo de estarem errados. Com este discurso tentam bloquear a realidade, porém esta, mais cedo ou mais tarde, acaba mostrando sua face dura. Triste o momento em que percebem que suas convicções não eram mais do que seus desejos transformados em discurso. Mas não será esta a verdadeira iluminação?”

André Capuani Riggo, “Mídia e psicanálise”, Ed. Lambert, pág 135

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Calaboca

Não tenho nenhuma dúvida dos meus inúmeros privilégios, e mais alguns que a maioria nem percebe. Entretanto, nenhum deles me obriga a ficar quieto diante de uma discordância ou mitificar a fala alheia como se fosse dotada de valor inquestionável. Não; reconhecer seus privilégios e de onde provém sua fala não é o mesmo que se calar culposamente e permitir que outra fala seja opressora. Oferecer o contraditório sem jamais atacar os sujeitos de quem discorda é um ato de civilidade.

Sei como começam as desqualificações e o “calaboca” sutil dos grupos que acreditam no monopólio das narrativas – que se expressa pelo desprezo à fala alheia – mas sei também onde terminam. Para mim o “lugar de fala” é um câncer que impede o debate, mesmo que eu concorde plenamente com a ideia que o sustenta. Entretanto, esse recurso é usado de forma a criar exclusividade de discursos que, por serem incontestes e não sofrerem contraditório, viram dogmas pétreos que emperram qualquer movimento. E podemos citar qualquer movimento libertário pois, mais cedo ou mais tarde, a sedução de ter a fala última (ou única) nos debates contamina qualquer ativista.

No movimento de humanização do nascimento esse problema ocorreu desde o seu surgimento e certamente 70% da minha reconhecida e inquestionável antipatia vem do fato de que eu nunca baixei a cabeça para as pessoas que me mandaram calar a boca, até porque acho que feminismo, parto, nascimento, racialismo, direitos LGBT ou Palestina Livre são assuntos humanos que me atingem direta ou indiretamente, e por essa razão eu tenho o direito – e o dever – de me manifestar diante de erros ou condutas que considero equivocadas.

Sobre o fato recente, a morte violenta de um ser humano me atinge diretamente, mesmo que eu não seja mulher, negra ou lésbica, porque compartilho com Marielle algo muito mais importante do que estas diferenças: a minha condição humana. Se é impossível entender por completo a “dor de ser quem ela foi”, existem dentro de mim dores que só eu sei e apenas eu compreendo a dimensão, mas que podem produzir ressonância com as dores dela por similitude, assim como os sofrimentos de tantas outras pessoas. Para isso Terêncio já dizia “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”, deixando claro que qualquer experiência do humano existe em todos nós e pode ser despertada pela empatia.

Se as pessoas não entenderem essa ideia simples também de nada adiantará fazerem campanhas por qualquer solidariedade, porque se nada além do meu mundo particular me diz respeito como seria possível mobilizar alguém na busca por ajuda?

Enclausurar as falas e as ideias e liberá-las apenas aos escolhidos é sintoma de degeneração e fragilidade. Escutar todas as vozes, em especial as discordantes – mesmo respeitando e hierarquizando os lugares de onde elas provém – é um elemento de sucesso de um movimento.

Sou solidário ao movimento palestino e não passo de um branquelo de origem europeia, mas das vítimas da limpeza étnica só recebo abraços e sorrisos pela minha simpatia à sua luta de libertação. Talvez porque eles não precisem me odiar para forjar uma identidade.

Jamais aceitarei “calaboca” disfarçado de “lugar de fala”.

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Amarras

“Havia a esperança que o destravamento das amarras sexuais femininas levaria ao fim das angústias que se associam à repressão das pulsões, como bem descreveu Freud em seus “Estudos sobre a Histeria”. Parece que a pergunta sobre a sexualidade feminina não pode ser respondida de forma tão simples.”

Juliette de Saint Etienne, “Les Fleures du Mardi”, Ed. Gallimard, pág. 135

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Amor e Verdade

Ah, a ilusão do amor…

Dedicamos uma porção enorme de nossas vidas à busca desse sentimento que acalenta, conforta e dá sentido às nossas angústias. Entretanto, seu preço é por vezes amargo. E quando o amor é confrontado com a verdade? E quando a palavra afiada corta como navalha os cordéis de fina tessitura que sustentam a delicadeza desse encontro?

Entre a verdade e o amor, com qual deles você escolheria passar o resto de sua vida?

“Sons e palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém sem querer ferir ninguém”. (Belchior)

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Ódio nosso de cada dia

Diante do desafio simples de pedir uma única prova de um deslize do ex presidente Lula que justificasse ser chamado de “ladrão”, a resposta é igual para todos os que assumem uma atitude autoritária. Na verdade estes sujeitos não conhecem nenhum crime de Lula, mas isso não lhes impede de odiá-lo com todas as forças porque este sentimento não tem absolutamente NADA A VER com algo que ele tenha feito ou deixado de fazer, mas com sua figura simbólica, o que ele representa como ameaça à estrutura social do Brasil.

A verdade é que se ele fez algo de errado ou não é totalmente irrelevante para quem escolhe odiá-lo por ser quem é. Isso explica que as acusações de corrupção ou de roubo nunca tenham materialidade; nenhum acusador é capaz de citar uma prova sequer, e todos dizem “ah, Moro escreveu 300 páginas, está tudo lá”, e fogem de qualquer desafio de mostrar uma evidência qualquer de que tenha “roubado”, “prevaricado” ou se corrompido. Nada… Nenhuma conta, imóvel, mansão, carros de luxo, conta secreta, telefonema, recibo, gravação (compare com as do Aécio), joias, dinheiro vivo. Nada, absolutamente nada.

Sabem porquê? Porque não se trata de uma acusação racional. O ódio aos pobres e aos negros não pode ser dito em voz alta em uma sociedade que condena racismo e preconceito de classe, mesmo que estes sentimentos existam no submundo de nossas emoções. Por esta razão eles surgem na superfície com a fantasia do moralismo. Até os pastores travestem seu ódio com essas ferramentas – como o Pastor Feliciano falando da bala na cabeça dos esquerdistas – e ainda o fazem em nome de Jesus.

Portanto, minhas palavras em defesa da democracia e da constituição servem apenas de retórica jogada ao alto, e não direcionada a quem se nega a pensar com justiça e com respeito ao Estado Democrático de Direito. Quem se alegra e faz carnaval com a possível prisão de Lula está completamente alheio a qualquer abordagem racional e já mergulhou profundamente no poço das emoções mais primitivas, onde a luz da razão é incapaz de alcançar.

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V.O.

“A Violência Obstétrica, de acordo com a definição dada pela lei venezuelana, é caracterizada pela apropriação do corpo e processo reprodutivo das mulheres por profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso de medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda da autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na vida das mulheres”.

Nesta definição da lei venezuelana o foco é basicamente materno, talvez porque foram as feministas que estiveram sempre à frente desta luta e sua maior preocupação é com a mulher e sua proteção.

Feita essa ressalva, não sei se existe consenso a respeito desse tema, mas vou falar exclusivamente do meu ponto de vista. Ao meu juízo a violência obstétrica compreende a atenção danosa que ocorre no NASCIMENTO, tanto para a mãe quanto para o recém nascido. A justificativa para que esse termo seja usado de forma abrangente é que no nascimento não existe “mãe e bebê”, mas uma unidade a qual convencionais chamar de mãebebê (motherbaby unit) exatamente porque tudo que ocorre para um (mãe ou o bebê) terá imediatas repercussões para o outro – sejam elas boas ou ruins.

Logo após o nascimento – e por um tempo longo e variável – é importante considerar a ambos como sendo partes de uma unidade indissociável. Desta forma, qualquer ato agressivo realizado no bebê (intervenções, procedimentos, luz, corte prematuro do cordão, injeções, sondas, som em excesso ou o simples afastamento de sua mãe) terá repercussões negativas para a puérpera.

Se isso for considerado não há porque subdividir em “violência materna” e “violência neonatal” se ambas fazem parte de ações prejudiciais e/ou intempestivas contra uma UNIDADE que precisa ser mantida e analisada como se fosse um único corpo.

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Frida

O julgamento das escolhas emocionais e sexuais de uma mulher é um item que jamais sairá de moda. Os ataques vem de todos os lados: dos homens e até das próprias mulheres. Frida, mesmo depois de morta, é acusada e combatida por seu amor por “Gordo”, o pintor Diego Rivera, seu marido. Ainda hoje continua a ser condenada e jogada na fogueira por amar quem amou, e na intensidade que apenas ela seria capaz de entender e decifrar.”

Maria Cândida Valcáceres, “Las Cejas de Frida”, Ed. Simón Cruz, pág. 135

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Iluminação

“Há quem diga que a iluminação é um salto em direção à luz; eu a enxergo como um mergulho corajoso na própria sombra”

Kimberley McCaulin, “Leap into Darkness”, Ed. Bethesda, pág 135

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