Arquivo do mês: janeiro 2019

Frases

Toda mulher saber parir e todo bebê sabe nascer” é uma frase muito utilizada no mundo da humanização. Ela me parece uma boa frase, como tantas outras que usamos para nos alinhar a uma proposta. Fala da programação natural e inconsciente que todos possuímos para a garantia de nossas funções reprodutivas. Automática, inconsciente e natural. Em outras palavras, se deixarmos o processo ocorrer sem a interferência da consciência e da razão ele dará conta do desafio por si mesmo. Nosso corpo “sabe” o que faz e como faz.

Outras frases também nos servem de guias. “Tudo é possível àquele que crê“, “Ofereça a outra face“, “O amor cobre a multidão de pecado“. Entretanto, para serem bem usadas é necessário entender que são frases de estímulo e direcionamento, e não leis cósmicas imutáveis. Para usar qualquer uma delas é preciso bom senso e adequação. Tomadas literalmente e sem contexto são axiomas brutos e inúteis, que mais limitam e atrapalham do que auxiliam e apoiam.

A frase “Para mudar o mundo é necessário mudar a forma de nascer” é quase um lema da humanização do nascimento, mas pode ser facilmente mal utilizada se não a colocarmos no seu devido lugar. Usada com sensibilidade pode ser útil como um guia para as nossas atitudes diante da importância civilizatória de um nascimento digno e respeitoso. Todavia, se for usada como uma lei selvagem e rígida perderá todo seu valor e sua função.

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Mitos médicos

Como barrar um exame ritualístico que foi incorporado ao imaginário popular nas últimas três décadas? O sucesso das ultrasonografias ocorreu de forma avassaladora mesmo sem ter jamais comprovado seu impacto positivo sobre o parto, tanto para as mães quanto para seus bebês. Poderíamos chamar de “um case de sucesso“.

Entretanto, por agir sobre os mistérios que envolvem o amnionauta, jogando luz sobre as capas de escuridão que o envolvem, esse exame assumiu uma posição tão primordial quanto imerecida no cenário do pré-natal.

De lição nos resta o fato de que a medicina não se move por descobertas que vão imprimir qualidade e segurança aos pacientes, mas pelas mesmas regras que movem o capitalismo e o mercado. Muitas luzes e propaganda, quase nada de efeito real.

O que realmente tem valor no pré-natal é o contato, a vigilância sobre os possiveis desvios, o vínculo, poucos exames e medicamentos e uma atitude de confiança e positividade sobre o parto. Todavia, estas não são coisas que podem ser facilmente embrulhadas, colocadas em uma prateleira e vendidas aos clientes.

Veja aqui https://midwiferytoday.com/mt-articles/prenatal-ultrasound-does-not-improve-perinatal-outcomes/ os resultados das pesquisas sobre o uso de ecografias na gestação. 

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Militares

Minha experiência de seis anos como militar serviu para sacramentar a minha visão da caserna.

No tempo que fui militar vi colegas meus, militares médicos (anestesista), se aposentando com 43 ANOS. O ministro astronauta (aquele brutal desperdício de recursos para passear em foguete) se aposentou bem antes dos 50. As forças armadas são cheias de pequenas falcatruas institucionais, essa é uma realidade de longa data. Não sei como isso é hoje, mas fui militar há 30 anos e achava inacreditáveis os desvios LEGAIS atuando em benefício dos militares. Não esqueçam que o pagamento do imposto de renda só passou a acontecer a partir de 1964.

Vou citar alguns exemplos do que vivenciei:

Naquela época você tinha direito a pedir adiantamento de 13o salário. A medida era para auxiliar no pagamento de dívidas ou estimular o consumo. Se você ganhasse 1000 dinheiros mensais podia tirar 500, metade do seu salário. Todo mundo fazia, e eu não entendia exatamente o porquê. A verdade era simples quando lembramos que tínhamos inflação se 80% ao mês no tempo do Sarney. Você tirava 500 em junho e no fim do ano ganhava o 13o menos os 500 que tirou antes. Só que o salário já não era mais mil, mas 5 mil ou mais, e você ganhava 4.500!!! Sim, 5 mil de salário menos os 500 já recebidos. O desconto era NOMINAL e não percentual!!!. Isso oferecia quase um salário a mais por ano!!! (Bem verdade que naquela época meu salário de tenente médico chegou a ser 500 dólares mensais).

As transferências “fantasma” pré aposentadoria eram comédia. Umas poucas semanas antes de ir para a reserva – com menos de 50 anos – os militares eram transferidos para onde o diabo perdeu as botas. Recebiam auxílio transporte, mudança, auxílio uniforme, passagens e o escambau. Chegavam na unidade, se apresentavam ao comandante e avisavam que estavam entrando para a reserva. Toda a manobra – conhecida por qualquer militar – era para garantir uma boa grana extra “falsificando” uma transferência para ganhar as indenizações. Tudo legal, e tudo absolutamente imoral, tipo auxílio moradia de juiz com casa(s) própria(s).

No hospital da Policia Militar da minha cidade, onde atendi como civil há mais de 25 anos, eu não tinha salário, mas atendia pacientes do IPE (previdência dos funcionários do Estado) e recebia direto da instituição através de uma lista de atendimentos. Entretanto, os médicos militares do hospital atendiam estes mesmos pacientes em seu horário de trabalho e recebiam DUPLAMENTE – do IPE e pelos seus salários. A direção do hospital sabia, o Instituto sabia, todo mundo conhecia essa malandragem, mas ninguém tinha coragem de denunciar essa falcatrua e se indispor com a Polícia Militar e com a corporação médica. Havia boa razões para o silêncio: afinal, quem julgaria este caso? Um juiz que ganha penduricalhos também!!! Portanto, era caso perdido….

Militares são tão honestos quanto qualquer outro cidadão, e tão desonestos quanto todos nós. Não há diferenças morais e éticas, mas são poderosos (como médicos e juízes) e em nome desse poder (e não do seu valor ou do trabalho) acabam recebendo vantagens indevidas, imorais e injustas, mesmo quando legais. Assim como juízes ou médicos. A aposentadoria dos militares, mesmo que reconheçamos algumas peculiaridades menores, deve ser como a aposentadoria de TODO O BRASILEIRO. Sem castas especiais.

Eu não creio que as Forças Armadas sejam o Mal sobre a terra. Conheci militares íntegros, dignos, honestos e dedicados. O mesmo digo de médicos e magistrados. O que eu não aceito é o abuso de poder – em especial dessas categorias – que se expressa através de penduricalhos de toda ordem para garantir vantagens legais sobre as outras categorias, como se a proteção das fronteiras do país, a justiça e a saúde fossem atividades mais nobres e necessárias do que alimentar, educar, cuidar ou garantir a segurança interna da nação. As vantagens absurdas do judiciário, e algumas das forças armadas, existem apenas pela ameaça dessas corporações de produzir retaliações. O judiciário contra o legislativo (como agora na Lava Jato) e as forças armadas pela ameaça constante de golpe e ruptura democrática (como ficou claro nas ameaças do general no dia anterior ao julgamento de Lula).

Militares fora da reforma da previdência é mais um capítulo do golpe militar “branco” que estamos vivendo no Brasil .

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Quotas

Fernandinho Feriado, vereador negro e gay de SP, quer acabar com cotas para negros em concursos públicos para a prefeitura. Ele é um opositor ferrenho das cotas raciais em todos os níveis. Chama esse processo de coitadismo e vitimismo e usa a si mesmo como exemplo de meritocracia. “Se eu venci sendo negro, qualquer um consegue“.

Eu pergunto: quem seria a favor da discriminação? Se nascemos iguais deveríamos todos ser tratados iguais, certo? Portanto, seria justo pensar que qualquer sujeito que acredita que “somos todos iguais perante a lei” defenderia o fim das cotas raciais e sociais (positivamente) discriminatórias.

Verdade. Todavia, o fim das cotas não é a questão, mas quando. Eu mesmo serei o primeiro a festejar o fim das cotas quando elas não forem mais úteis e necessárias para acelerar o processo de equidade, e não precisemos mais dessa ferramenta para tapar o fosso que separa brancos e negros surgido com quase 400 anos de escravidão. Da mesma forma, quando tivermos uma sociedade economicamente mais equilibrada não quero mais que sejam oferecidas vagas sociais para pobres. Que todos lutem por seu espaço com igualdade de condições.

Enquanto houver racismo e a brutal iniqüidade social que separa os brasileiros em castas o dispensável não são as cotas, mas os capitães do mato que tanto a criticam.

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Arquivado em Ativismo, Política, Violência

Atitude

Afinal, onde está a humanização? Será ela um protocolo, uma rotina, uma série de regras a seguir? Ou estará ela no espaço que separa as palavras e nas finas camadas etéreas que separam nossos olhares? Que corpo tem uma ideia que se expressa muito mais pelos silêncios do que pelos discursos?

Diante da criação de espaços para a atenção ao parto altamente sofisticados nos Estados Unidos, creio que se impõe uma análise  sobre os significados e perspectivas da criação destes Centros de Atenção ao Parto caro e acessíveis a uma fatia muito pequena da sociedade. Por certo que não acho errado a existência desses lugares, mas acho perigosa a relação que se pode estabelecer entre parto humanizado e “sofisticação de ambiência” tornando esse produto algo que apenas pessoas abastadas podem pagar; como se dignidade, respeito e atenção às evidencias cientificas fossem artigos de luxo, muito caros, cuja aquisição seria reservada apenas às elites econômicas de uma localidade. Este é um risco que precisa ser entendido e assimilado.

Há 32 anos quando comecei a atender partos pela perspectiva da humanização a ideia era outra: só teria condições de se submeter a um parto humanizado – de cócoras – quem tivesse “preparo”. Físico, sim, como se o parto fosse um desafio atlético para poucas mulheres determinadas e preparadas com denodo. “Eu queria muito parto humanizado (SQN), mas não tive como me preparar“. Lorota. O preparo para o parto emergia como a desculpa ideal para a desistência do projeto de um parto onde a mulher era protagonista. A alienação sempre é muito sedutora.

Essa foi uma das razões para começar a fotografar partos. Minhas primeiras fotografias – com maquininha Kodak – foram tiradas em hospitais do SUS de periferia, sem banqueta, sem mesa elétrica de parto, sem doula, sem óleos e essências, sem glamour, sem nada de sofisticado, apenas eu e alguém para escorar a paciente por trás, no chão da sala forrado de campos limpos sobre um colchonete.

Sim, a gourmetização é um risco ali na esquina e precisamos estar atentos à sedução que ela nos apresenta. Por outro lado, oferecer o melhor ambiente possível para o mais importante momento é um esforço que sempre vale a pena. Todavia, se é verdade que um atendimento humanizado pode ocorrer em qualquer lugar, por outro lado a humanização não exclui ambiência; só não pode se reduzir a ela

Podemos concordar que não é o óleo, o incenso, a banqueta, os quadros na parede, a música ou a parafina que se situam no centro da humanização, e não seria a sua presença o que caracterizaria uma atenção humanizada. Esta, nas palavras de Robbie, se constitui em uma ATITUDE onde os recursos externos – dos óleos essenciais às suítes de luxo – desempenham tão somente papel secundário. O cerne da humanização está no olhar de quem ajuda.

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