Arquivo do mês: setembro 2017

Rocket Man

Why do american people so easily condemn Kim, the president of North Korea? Why do you think he is a “horrible dictator”? Where do you get reliable information about his behavior or his attitudes? In America’s newspapers? The same “free press” that said Iraq had “Weapons of Mass Destruction” to justify a tragic invasion? Fox News?

How many countries do you think “the crazy Kim” invaded in the last 60 years? How many bombs USA droped last year over sovereign countries? The answer to these 2 questions is “zero and 26k”. Yes… 26.000 bombs in 7 countries…. in 2016!!!!

Why a country that never posed a threat to any of its neighbors in more than six decades is a threat to world peace? Why do you think North Korea is a dangerous country for having atomic weapons but Israel is not? Analise the invasions and massacres perpetuated by Israel in Syria, Lebanon, Egypt and the genocide, ethnic cleansing and settler colonialism of Palestine and compare to North Korea and tell me who is the “evil dangerous dictator”: Kim or Netanyahu?

Remember: if North Korea didn’t have the bomb what would stop Americans to destroy this small country like they did to Japan, Lybia, Iraq, Afganistan or Syria? The bomb exists in North Korea BECAUSE of America’s imperialism.

Trump is Darth Vader and Kim is Luke Skywalker. But all you know about the possible war is from a newspaper published in the Death Star. Try thinking outside the box.

What kind of information do we have about the real life of people in North Korea? And…. by the way, what kind of freedom people have in Saudi Arabia, the dear friend of US of A? Shall we bomb the Saudis as well? How about Brazil, that is under civil dictatorship right now. Are the American government ok with that? Shall they bomb us to restore our “democracy”?

Obviously I agree with many experts that North Korea must have great problems concerning democracy. But why that specific dictatorship is a threat, and Saudi Arabia is not considered an insult to freedom os speech? And how could Cuba and North Korea have a “life of roses” with comfort and happiness while they are under a blockade by USA for decades?

My question is: why it is so easy to condemn Korea with almost NO real and reliable information about the country and why do americans treat like an enemy a country that never attacked any neighbor in six decades?

Sorry if I seem furious, but my only concern is that people in United States are being manipulated AGAIN by the media to believe that a country is a real threat to the Empire. Let me tell you something about that: this country is not North Korea. The real danger to world peace lies is a place between Canada and Mexico.

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Uma história curta

A gorda senhora entra na emergência do hospital pálida, fraca, sem quase conseguir respirar. Vinha acompanhada da filha, uma moça de rara beleza – e talvez também por isso a história continue viva para mim. Esta segura as mãos sobre o peito e pede que ajudemos sua mãe,  que há muitos anos sofre do coração.

Enquanto os enfermeiros e médicos instalam oxigênio e pegam suas veias para colocar o soro a senhora me encontra com o olhar, e no meio da confusão hipóxica de seus pensamentos me pergunta afirmando: “Eu vou ficar boa, não é doutor?”.

Envaidecido por ser confundido com um médico enquanto ainda estudante eu lhe confirmo: “Pode ter certeza que sim”. Ela responde com o olhar sonolento, desfaz seu sorriso frágil, sua face perde a expressão e fecha os olhos pela última vez.

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Champagne

Quando a gente fica velho as coisas passam a ter um valor relativo. É mais difícil ficarmos vivamente emocionados com um show de música ou mesmo um filme, mesmo que sejam realmente bons.

Lembro do meu amigo, Major Rogério, que me contava da vez em que foi convidado a experimentar uma Champagne de uma cave exatamente dessa região região da França. O anfitrião vinha de um longa família de tradicionais vinicultores franceses na região mais famosa do mundo nesse cultivo e nessa prática.

A abertura da garrafa empoeirada na adega escura e úmida foi rodeada de cerimônia.  Um ar circunspecto e solene envolvia as ações do velho champanheiro. O ambiente foi marcado pela mais austera religiosidade, e as ações eram pontuadas de rituais que confirmavam a gravidade da abertura da garrafa há tanto tempo guardada.

Ploc!! O som da rolha liberta de sua camisa de força vítrea ecoou pelos porões da mansão e liberou o gás naturalmente formado pela fermentação.  Abriu-se a caixa com as taças de cristal e o líquido borbulhante chiou em efervescência diante do seleto grupo. O contato com o sabor se fez obedecendo o protocolo mais rígido.

O major me relatou da seguinte forma sua experiência:

“Eu sequer ousava pensar o quanto custariam os poucos goles daquele líquido se houvesse eu que pagar por eles. Entretanto, o sabor foi tão diferente e tão inusitado que produziu efeitos insólitos e paradoxais. Primeiro, e mais importante, me garantiu uma memória gustativa inesquecível e perene. Tenho certeza que em meus derradeiros momentos de vida ainda terei a lembrança dessa preciosidade. Por outro lado essa experiência produziu para mim uma condenação triste e solitária: daquele dia em diante eu nunca mais fui capaz de tomar champanhe comum com o mesmo prazer e entusiasmo. A excelência daquela maravilha matou algo genuíno que eu tinha: o prazer simples das coisas comuns.”

Ficar velho e experiente lhe faz desconfiar das “novidades”. Isso é bom, mas as vezes triste.

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Justiça

“Temos hoje, acima de tudo, a falência do direito como elemento regulador da sociedade. Quem aceita uma justiça parcial quando lhe convém está alimentando os corvos que, no futuro, comerão seus olhos.”

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Tipos de Ultrassom

O ultrassom é outra novela capitalista. Existem três tipos fundamentais: ultrassons médicos, sedativos e recreativos.

Os ultrassons MÉDICOS  possuem como característica “uma pergunta, uma resposta e uma ação“, sendo esta última diretamente ligada à resposta oferecida pelo exame. São exames raramente feitos, mas são os únicos justificáveis.

Os ultrassons SEDATIVOS são subproduto da indústria do medo. As pacientes durante o pré natal são tão danificadas emocionalmente pelo modelo médico que passam a desconfiar de sua capacidade de produzir bebês saudáveis. Por esta razão, precisam de um reforço visual, uma comprovação do bem-estar fetal pela via tecnológica. As lágrimas na sala de ecografia não são – via de regra – de alegria, mas de alívio.

Os ultrassons RECREATIVOS são para olhar, espiar, socializar o bebê e para descobrir seu gênero antes do nascimento. Hoje em dia são exigidos pelas famílias como um ritual tecnológico de apropriação e introdução social do “nascituro”. Uso essa palavra controversa de propósito, exatamente porque as ecografias contribuem para a noção contemporânea do “feto como sujeito”, que tanto estrago traz às mulheres, tanto no debate sobre o direito ao aborto quanto na ocorrência de uma perda gestacional. É sabido também que tanto este tipo de ultrassom quanto o “sedativo” são incapazes de produzir melhora nos resultados perinatais.

Em verdade, as ecografias na gravidez como método de RASTREIO (em mulheres com gestações saudáveis) não oferecem nenhuma vantagem para mães e bebês do ponto de vista do decréscimo da morbi-mortalidade materna, fetal e neonatal. São “brinquedos eletrônicos” que, na imensa maioria das vezes,  não  justificam – com resultados positivos – a quantidade enorme de recursos neles aplicados.

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Vanguarda do Atraso

Existe uma cidade nos Estados Unidos que fica no meio de uma região muito careta, mas o que a salva é ser um polo universitário muito grande, o que traz estudantes do mundo inteiro que oferecem a diversidade e a pluralidade de gostos, jeitos, caras, cheiros e idiomas que se entrelaçam na malha social. Estou falando de Austin, Texas.

Pois esta cidade tem um “bumper stick”, um adesivo famoso e que se vê em muitos lugares: automóveis, jornais, lojas e até nas casas. Nele se lê: “Keep Austin Weird” – Mantenham Austin Bizarra – normalmente acompanhado de uma foto de algo muito estranho que ocorre na cidade, como uma corrida de gente pelada, festival de tatuados, galerias de arte com amostras curiosas, arte e eventos LGBT, gente jovem de qualquer combinação de gêneros se beijando, etc. Para os moradores de Austin, ser “weird” significa ser diferente, ser progressista, desafiar os limites e enfrentar corajosamente as mentes mais atrasadas que se recusam a avançar. Ser bizarro é um orgulho para seus moradores, e algo pelo que querem ser conhecidos.

Quando vejo isso fico pensando nas mentes atrasadas e estúpidas que regulam nossa sociedade. Somos comandados pela vanguarda do atraso do Brasil, e não é à toa que a nossa obstetrícia obedece ao mesmo padrão de caretice e anacronismo. Mesmo quando o mundo inteiro já tiver se dado conta da imperiosa necessidade de trocar o modelo obstétrico baseado em cirurgiões – que falhou no mundo inteiro – por um controlado por parteiras profissionais, o Rio Grande do Sul se manterá atrelado aos sistemas de poderes que oferecem supremacia para uma corporação, mesmo em detrimento do bem-estar de mães e bebês. Aqui o atraso é chique, a abertura das mentes uma dor insuportável, e a perseguição aos dissidentes um ato de desespero que se dissimula como “defesa da família” ou “práticas consagradas”.

O que testemunhamos hoje em dia é uma brutal humilhação para quem conheceu uma Porto Alegre que prometia a pluralidade, a diversidade e o sonho de “um mundo novo possível”. O que acontece agora, esse salto para trás, é muito triste e deprimente, mas tem tudo a ver com um estado que sempre se orgulhou de seus fracassos.

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Com açúcar com afeto

– Então Ric, quer saber como foi?

– Pode contar

– Diga aí uma droga que já ouviu falar. Qualquer uma.

Minha relação com as drogas sempre foi de aversão e uma certa repulsa. Quando nos anos 90 criei o PAOH – Protocolo de Assistência Obstétrica Humanizada – um simples protocolo de atendimento baseado em premissas simples de acompanhamento ao parto de baixo risco, um dos elementos fundamentais na lista de seis itens era “Uso judicioso e restrito de medicamentos durante o trabalho de parto”. Portanto, minha relação de distância com as drogas incluía tanto as drogas ilegais quanto as legais. Entendia eu que a “legalidade” de uma droga não se referia à sua periculosidade ou dano possível, mas a questões contextuais e culturais ligadas ao seu controle e produção. Maconha é ilegal e cachaça é legalizada, mas o álcool tem uma mortalidade milhares de vezes superior à maconha. Portanto, eu sabia o quanto esse valor era volátil na sociedade. As descrições de Freud sobre seu uso de Cocaína no início do século passado são curiosas, enquanto as propagandas com médicos fumando e fazendo publicidade de Camel – aliado ao (agora) estranho patrocínio da indústria do tabaco às instituições médicas – também nos ajudam a entender um pouco mais a complexidade do tema.

Fiquei olhando para Bruno com atenção enquanto pensava em uma resposta para seu desafio. Não queria dizer uma droga muito simples para não ser considerado ingênuo, mas também nenhuma muito pesada para não ser ofensivo. Ele continuava parado à minha frente com um sorriso instigante. Era alto, levemente grisalho e ostentava uma barba bem cortada.

– Cocaína, disse eu finalmente.

Com um sorriso respondeu

– Muito, doutor. E por muitos anos. Diga outra.

– Maconha? Heroína? Metanfetamina? Crack?

A todas elas me respondia afirmativamente, e para cada uma acrescentava outras em sua longa lista de drogas experimentadas. Todas tinham sua história, as quais descrevia como quem relata as lembranças de uma amante do passado: um início fulgurante, a lua-de-mel, a convivência conturbada e a longa dor de uma relação catastrófica.

Levantou-se do assento em que estava e foi até a estante logo atrás. Trouxe um grosso livro de capa dura em que se lia na capa “O Pão dos Deuses”, de Terence de McKeena, uma espécie de enciclopédia das drogas. Folheei algumas páginas lustrosas ricamente ilustradas com fotos de plantas, equipamentos, cigarros artesanais, cachimbos e seringas.

– Estou limpo há três anos, doutor. Nada mesmo. Fiz essa promessa a ela.

Olhamos ambos para o quarto onde a ação se desenrolava. Ali, sua mulher respirava profundamente enquanto aguardava que suas contrações voltassem. Seu semblante era sereno, no intermezzo melífluo entre duas ondas de contração. Atrás dela a doula massageava suas costas deixando o ambiente com um suave aroma de lavanda. Abraçada a ela a parteira dançava os passos de uma dança tão antiga quanto conhecida. São dois prá lá, dois prá cá. Respire fundo, deixe seu corpo se inundar de energia.

Ficamos escutando por alguns segundos os sons do quarto adjacente enquanto eu fechava o livro de capa dura à minha frente.

– Sabe qual foi a mais difícil de largar?, perguntou

– Nunca tive que largar nenhuma, disse eu, quase envergonhado da minha caretice. Eu diria que o cigarro, pelo menos é o que tantos pacientes me disseram ser tão complexo e difícil.

Ele abriu um sorriso.

– Negativo. Não digo que larguei o cigarro de forma fácil, mas nem se compara à droga mais difícil de todas elas. Abra de novo o livro, está nas primeiras páginas.

Folheei as páginas brilhantes desde o início até o momento em que ele me pediu para parar e apontou para um montinho de grãos brancos.

– Esse aí, doutor. Para mim o açúcar foi a droga mais difícil para me libertar.

Sorri com ele. Subitamente me senti um viciado e pensando comigo “Não, eu paro quando quiser”….

Nossa conversa se manteve entre risadas, comentários sarcásticos e sussurros até o momento que Zeza me chamou.

Completou”, disse ela, com aquele sorriso cheio de satisfação que eu bem conhecia.

– Você pode ir para a banheira agora, se quiser, disse ela para a bela menina que sentia suas últimas dores.

Zeza se posicionou à sua frente, enquanto a doula permanecia ao lado. O marido abraçou-a por trás firmemente, enquanto esperávamos pela chegada do bebê. Seu corpo semi-submerso se contorcia a cada onda contrátil, e depois relaxava no espaço silente entre elas. A tudo eu observava atentamente, mantendo a câmera a postos para gravar o momento da chegada.

Enquanto as velas ao redor da banheira iluminavam o espaço do banheiro minha atenção se concentrava no rosto sereno da mãe e me perdia pensando sobre os significados últimos dessa passagem. Quando vejo o momento inexplicável do apagamento neocortical, o mergulho na “partolândia” e o mistério eterno deste momento para o mundo masculino eu sempre lembro do sorriso de Elisabeth Davis no documentário “Orgasmic Birth” ao dizer “Se lhe dissessem que esta é a maior aventura possível da existência humana e que aqui está o mapa, você diria não?

Os minutos se sucederam na velocidade dos gemidos enquanto mantivemos o nosso silêncio solene diante do que estava para acontecer. As chamas das velas tremulavam a cada suspiro mais longo, a cada palavra que saía dos lábios da bela menina. Zeza, a postos, finalmente aponta discretamente seu indicador para me mostrar a emergência dos cabelos do bebê. O momento da chegada se aproximava.

Se há um momento nessa cultura em que as máscaras caem, é este. As carapaças pétreas que seguram nossa experiência cotidiana se desfazem diante da explosão de emoções e significados que emergem durante o nascimento. Sei que nada será como antes, amanhã…

 O momento tão esperado se aproximava e eu podia sentir na pele o silêncio de Bruno. Não havia um som, uma palavra, apenas os músculos retesados de seus braços e o olhar parado sobre o ventre de sua mulher. Abraçado a ela ele aguardava calado o momento decisivo.

Zeza virou seu olhar para mim e eu percebi o sinal. Na próxima contração ele viria. O silêncio se fez ainda mais ruidoso e só foi interrompido com o grito primal, seguido do som das mãos de Zeza retirando o bebê da água e colocando-o de frente para o sorriso de êxtase de sua mãe. Registrei o momento mágico com minhas mãos trêmulas, firmes o suficiente para não estragar a imagem. Em mais um momento e o bebê silenciosamente se aninhava no colo da mãe.

Foi então que o silêncio da cena foi novamente interrompido. Como a erupção de um vulcão, Bruno gritou com o máximo de seus pulmões. Gritou não como um grito de vitória, ou de consagração, mas como algo muito mais profundo e inquietante. E sobre seu grito sobreveio outro, e mais outro e depois outro.

Zeza olhou para mim com alguma preocupação. A conversa anterior sobre as drogas me deixou preocupado, confesso. E se ele estivesse entrando em uma espécie de surto? E se ele se descontrolasse? E se algo ocorresse que colocasse a todos – em especial ele mesmo – em risco?

Olhei para Zeza e a doula e nossos olhares mudos tinham o mesmo sentido: era melhor tirá-lo da cena até que se acalmasse. Foi então que eu lhe fiz um convite irrecusável:

– Bruno, quem sabe deixamos as mulheres com essa parte e vamos tomar um café na cozinha?

Apelei para o meu vício. Talvez assim, assumindo diante dele uma parceria no universo das adições, ele se sentisse compelido a me acompanhar.

– Claro, disse ele. Eu passo um café para nós.

Colocou-se de pé, e secou o corpo com a toalha pendurada. Foi até seu quarto e rapidamente trocou a bermuda que usava. Entrou comigo na cozinha, mas não conseguia controlar-se diante das emoções que havia presenciado.

– Ric, foi muito demais. Foi algo espetacular. Foi mágico.

Colocava as mãos à frente do rosto e caminhava inquieto de um lado para o outro da cozinha, e seus passos se deixavam acompanhar pelo chiado da chaleira. O aroma do café em pó invadiu o recinto enquanto ele continuava a falar.

– Tudo Ric, não apenas o momento da chegada de Nayara. Não somente o êxtase, mas tudo que o precedeu. Não se trata de valorizar o prazer de receber sua filha nos braços, mas poder valorizar a completude da experiência humana. O medo, a angústia, a espera, a tensão, a ansiedade pelo momento de sentir na pele a maciez de um bebê. Todas essas emoções fazem parte do pacote, e seu valor é imenso exatamente por isso. Como podem escolher conscientemente trocar esta rica experiência por nascimentos mediados pela tecnologia, onde as emoções são engarrafadas, pasteurizadas, controladas por máquinas e onde recebemos apenas a parte final, sem que o ciclo todo tenha se completado?

Tomou um pouco de fôlego, respirou profundamente e fixou o olhar em algum ponto do infinito cósmico. Olhou mais uma vez para mim e disse:

– Ric, eu usei todas as drogas do mundo, tive todas as sensações que a vida pode oferecer. Participei das viagens lisérgicas mais doidas e mais bizarras. Andei pelo vale das sombras e consegui milagrosamente chegar até aqui. Por isso mesmo posso te afirmar que nenhuma sensação chega sequer perto desta que acabo de sentir. Nenhuma experiência supera esta e nenhum barato consegue ultrapassar esta emoção.

Nenhuma descrição de uma experiência sensorial poderia ser mais clara sobre a temática do gozo e do prazer, e só alguém que esteve por tantos anos envolvido no mundo da adição química poderia dar uma explicação tão rica quanto esta.

Verteu a água fumegante sobre o coador repleto e serviu uma xícara para mim. Ofereceu açúcar e eu menti que não queria. Ele sorriu da minha falsidade.

Enquanto ele se preparava para sentar na mesma poltrona em que estivera nas horas que antecederam, algo milagroso ocorreu.

O telefone tocou.

Bruno titubeou por instantes antes de atender. O bebê não tinha sequer 10 minutos de vida, e alguém ligava. O que seria?

– Alô, pois não?

Eu o acompanhava com o olhar, tentando adivinhar as palavras que só ele ouvia. Não era preciso mais do que metade das falas para saber do que se tratava.

– Sim, pai, está tudo bem. Nayara acabou de nascer. Não, estamos mesmo em casa, mas depois eu explico. Não se preocupe estamos muito bem. Não, não pesamos ainda, mas ela é linda e saudável. Assim que soubermos mais detalhes vamos informar. Ela está com a enfermeira e sua auxiliar aprendendo a mamar. Amanhã vocês podem vir aqui fazer uma visita. Claro pai, muito obrigado. Sim, eu sei…. claro que eu sempre soube.

Sua voz ficou mais pesada, mais grave. Ele estava visivelmente emocionado. Pensei em me levantar e deixa-lo a sós falando com o pai, mas não houve tempo para isso.

– Agora eu também sou pai, e talvez eu possa finalmente entendê-lo. Um beijo pai e obrigado.

Ao longe escutamos o primeiro choro. Tomei um gole de café amargo e me diverti com o vapor que pulava da xícara para embaçar meus óculos. Melhor assim; prefiro que não vejam um velho obstetra chorar.

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Ciência x Religião

Tenho vários amigos que me falam, sem esconder o entusiasmo, de uma ou outra descoberta científica que confirma a palavra de Deus, seja na Bíblia ou em alguma outra tradição qualquer. A frase que termina este ímpeto de esperança é fé pode ser resumida em “não há real conflito entre ciência e religião“.

Minha percepção é que há mais do que conflito; estas são duas visões de mundo incompatíveis. Por outro lado ainda considero que elas podem existir dentro do mesmo indivíduo em relativa paz, com a exceção da tênue zona de fronteira que delimita seus espaços.

Ciência e religião são duas formas de compreensão do mundo e as duas são perenes e eternas. A tese de que o crescimento do conhecimento científico traria o desaparecimento das religiões me parece ingênua e normalmente é dita por religiosos, como os “neoateístas”. Basta olhar o risco do fundamentalismo religioso na política mundial (em especial no Brasil) para ver que a vinculação do povo com as religiões e suas cartilhas está longe de desaparecer. Mas engana-se quem acredita que isso pode ser combatido com ateísmo e mesmo evolucionismo.

A ciência trabalha na fronteira do conhecimento e usa a razão e a experiência como ferramentas. Ela é progressista e dinâmica; não respeita limites e avança célere para novas descobertas. É uma medida da ética e da política de seu tempo, e se move pelos ventos do poder econômico e dos interesses. Não é isenta e nem neutra, e fala a língua dos homens do seu tempo.

A religião (melhor seria a religiosidade), por seu turno, ultrapassa a fronteira do que é conhecível e tenta explicar o universo através de visões teleológicas e inteligentes, enxergando no universo uma força de coesão para além do que é possível comprovar com nossas ferramentas rudimentares. A religiosidade trabalha com a gigantesca porção de desconhecido que nos circunda. Sua plasticidade a faz se adaptar a cada nova investida da conhecimento científico e da razão, produzindo uma nova face a cada avanço do conhecimento sobre seu território.

Assim, ciência e religião trabalham com objetos distintos mesmo quando parecem se confundir, como no criacionismo. A força da ciência nesse ponto e o desaparecimento paulatino de resistência às teorias darwinianas deixará a visão do Gênese como mais uma alegoria passível de belas histórias, mas apartada de realidade dos fatos. Quando a razão chega as crenças procuram outro lugar para ocupar e tentar organizar o desconhecido.

Por fim a religião, ao se afastar dos elementos nos quais a ciência já jogou sua luz ficará livre para questionar a imensidão de perguntas sem respostas possíveis até então, como a nossa origem e os sentidos do universo.

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Chacinas

Todas esses meninos mortos tinham pai e mãe. Um dia, mesmo que tenha sido apenas o primeiro dia em que aqui chegaram, eles foram amados, foram queridos e sobre eles também alguém sonhou. Foram molequinhos pretinhos que jogavam bola na calçada com largos sorrisos brancos e contagiantes. Quando a gente fazia cócegas eles se dobravam de rir. Muitos foram amamentados por suas mães e foram cuidados por seus irmãos e irmãs. Todos eles choraram de medo e algumas vezes de alegria. Ficaram assustados no primeiro dia de aula e quando descobriram sua sexualidade. Olhavam para a vida, essa chama curta a arder em seus peitos, com pânico e excitação.

Todos eles um dia sonharam com o futuro, um carro, uma viagem ou uma promessa de futuro menos duro para suas mães. Todos eles sorriram diante de um gracejo e se emocionaram diante de uma música. Nenhum deles deixou de sentir dor ou frio, calor e alegria. Eles eram em tudo iguais a nós, mas insistimos em olhar para a cor de sua pele, a magreza de seus corpos em contraste com a arma negra na cintura e acreditamos que são feitos de outra matéria, de outra carne, de outra essência.

O que nos intriga e angustia é a semelhança conosco, e não as diferenças.

Desumanizar o corpo morto de meninos na luta miserável de uma sociedade desigual não os torna menos humanos do que nós, mas nos torna mais monstruosos do que imaginamos ser.

Não há nada a comemorar, não há nada a exaltar. Isso é apenas um fracasso, a miséria humana em ação. A desgraça civilizatória e o êxtase do Apartheid social.

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Satisfações

O grande problema é que Moro (mas também o MP) não responde a ninguém, não presta contas ou satisfações. O poder de tais atores sociais é perene e inquestionável. E não adianta falar do STF porque ele deu mostras de acovardamento e pequenez, tanto hoje quanto em 1964, quando poderia ter agido e se calou. Qualquer órgão defensor da constituição em um país civilizado teria dado um basta sonoro ao juiz de Curitiba quando da divulgação das conversas privadas da presidente ou quando da condução coercitiva ilegal de Lula, que tinha como objetivo humilhar e colocar o ex presidente de joelhos. Deu xabú, como sabemos, mas poderia ter ocorrido uma tragédia em Congonhas.

Ele pode fazer o que quiser, até traição à pátria. Os fascistas normalmente raciocinam assim (e não apenas nesse caso): “Ah, não importa o modo como foi feito, o importante é que….”, e aí você acrescenta a sua ideologia, normalmente de caráter autoritário e fascista. O teste – para todos nós – é quando você defende o Estado Democrático de Direito MESMO QUANDO o ordenamento jurídico pode lhe prejudicar.

Não esqueçam que esses funcionários públicos, quando impunes, usurpam naturalmente do seu poder e as consequências são óbvias, como a criação de monstrengos como as “10 medidas“. Oferecer a qualquer um poderes acima da lei nos faz retornar ao absolutismo medieval, mas parece que esse modelo ainda seduz muitas mentes primitivas.

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