Arquivo do mês: agosto 2015

A Reação Conservadora

Gelo queimando 02

Sobre um texto que está rolando aí exaltando cesarianas e desmerecendo ativismo por partos dignos:

“Mais sobre o mesmo. Intervencionismo médico. Os médicos como salvadores das mulheres, donas de corpos perigosos e defectivos. Um texto óbvio do intervencionismo médico escrito com 10 a 15 anos de atraso. Os argumentos da Dra já foram contestados por inúmeras publicações no mundo inteiro. A sua fala é repleta de um vazio ruidoso: a incapacidade de enxergar o fenômeno pela perspectiva da mulher, e a brutal obliteração de ver a transcendência imanente de um nascimento.”

Se há algo que aprendi no falecido Orkut é não discutir com pessoas que fazem críticas “ad hominem“. No texto da Dra., fartamente distribuído (mas não por mim…), o que sobra como evidência é a descrição do parto por um viés biologicista, “desumanizante”, tecnicista, coisificante e objetualizante. Em nenhum momento ela se refere às pacientes como pessoas dignas e capazes de fazerem escolhas informadas sobre riscos e benefícios de uma grande cirurgia. É um texto agride as evidências científicas (SIM) e que, infelizmente, não oferece uma interface para debate, e isso ocorre por uma questão bem simples: ela NÃO enxerga no parto algo que eu e muitos ativistas dos direitos reprodutivos e sexuais enxergamos: um processo importante de empoderamento feminino e uma preservação da integridade física da mulher.

Entretanto, o texto dela reflete uma realidade cada vez mais evidente: os movimentos sociais, o governo, o Ministério Público, a pressão internacional e as evidências científicas expuseram a posição dos médicos cesaristas como amplamente questionável, demonstrando o viés mercantilista da prática de atender por “linha de montagem”. A defesa – cada vez mais frágil – é confundir “parto humanizado” com parto desassistido ou parto domiciliar, já que as bases da humanização do nascimento são mais do que provadas no campo da pesquisa (como a negativa de usar episiotomias, Kristeller, enemas, tricotomias e cesarianas rotineiramente e sem justificativa clínica).

Assim, a Dra se esforça em mostrar que um parto fora do CONTROLE da medicina é inseguro, mesmo quando as grandes potencias mundiais mostram-se cada vez mais voltadas aos tratamentos realizados por especialistas em parto normal (as enfermeiras e obstetrizes) e reservando aos médicos apenas os tratamentos que incluem patologias. Os argumentos que ela usa são os MESMOS que eu escuto há 30 anos, por isso eu disse que seus escritos tem 10 a 15 anos de atraso. Nós já debatíamos isso no início deste milênio, e a ideia de incentivar cesarianas se mostrou inadequada para mães e bebês, mas inquestionavelmente boa financeiramente para médicos e instituições. Continuar investindo no paradigma cirúrgico é colocar a vida dos pacientes em risco, mas incentivar partos normais com profissionais adequados, capacitados e aparelhados, oferecendo o PROTAGONISMO às mulheres, a visão interdisciplinar e a vinculação com a Medicina Baseada em Provas, é o caminho das grandes democracias.

Acho que não vamos a lugar algum xingando doulas, que tem sua função baseada em evidencias, e são reconhecidas como auxiliares importantes no processo de parto, exatamente por oferecer o calor do afeto à frieza da atenção médico-hospitalar.

O que o texto da doutora ressalta é a centralidade dos médicos e da medicina no cuidado de um processo fisiológico como o parto,  com uma visão de “progresso” oriunda do século XIX, onde este se confundia com o acúmulo de tecnologia. Ora, qualquer pensador contemporâneo reconhece que a adoção de um paradigma serve a interesses explícitos e implícitos.  O problema é que os interesses invisíveis se tornam cada vez mais claros e transparentes através da análise simples de dados, como a violência obstétrica e a taxa abusiva de cesarianas. O “mito da transcendência tecnológica”, como qualquer mitologia,  não se estabelece num vácuo conceitual; pelo contrário, ela expressa valores e interesses de grupos – como os médicos – e instituições – como a indústria farmacêutica e de equipamentos, hospitais etc. – que se servem de um modelo que inferioriza a mulher através de uma visão diminutiva de suas capacidades de gestão e parir com segurança e autonomia.  Enquanto tivermos mulheres “fracas” e partos “bomba relógio” teremos médicos e intervenções valorizados acima de sua real necessidade.  O texto da doutora explora explicitamente este viés característico do discurso, que serve aos propósitos da sua corporação. “Somos maravilhosos, salvamos mulheres, somos imprescindíveis, exatamente porque sem nós as mulheres são incapazes de dar conta dos desafios da parturição“.

Como eu disse acima, esse discurso “chapa branca” da medicina é antigo mas se choca com as evidências do mundo inteiro que se esforçam pela desmedicalização da vida e, em especial, do parto, em função dos resultados ruins do intervencionismo e da crescente insatisfação das mulheres com a atenção insensível e violenta que recebem.

Lendo o texto da doutora eu ficava pensando: “Meu Deus!!! Avisem os europeus, pois eles estão indo na direção oposta. Alguém precisa mostrar a eles como estão absolutamente errados,  e como nós estamos maravilhosamente certos“.

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A Holanda NÃO é aqui

Windmill

 

Um motorista ensandecido pilotando uma “Hilux” grita para uma ciclista na ciclovia paulistana: “Vagabunda!! Isso aqui não é a Holanda!!

Um cesarista ensandecido pilotando um reluzente bisturi grita para um profissional humanizado: “Idiota!! Isso aqui não é a Holanda!!

Discorram sobre esse paralelo…

PS: Quando eu era adolescente nos ano 70 ainda vivíamos na época da ditadura militar. A nós era vedado o ritual sagrado do voto. Governos se sucediam sem que o povo tivesse o direito de escolher seus mandatários; eram os anos de chumbo. Eu vivi nesse tempo e trago as marcas dessa dor em meu peito. Eu sei o quanto dói a falta de liberdade.

Nesse período sempre que um “esquerdista” resolvia falar da importância da democracia alguém levantava a voz e clamava em altos brados: “Cale a boca!! Aqui não é a Europa. Lá é possível votar, pois eles tem cultura. Nosso povo não sabe fazer isso“, num discurso que mesclava de forma curiosa Macunaíma com Newton Cruz. A desculpa era sempre centrada no fato de sermos uma gente preguiçosa, um povo malemolente, inculto, incapaz, incompetente e que – mais do que precisar – merecia que a ditadura governasse seu destino. Com as mulheres o mesmo: é preciso sempre alguém que as governe e controle, pois elas são essencialmente incapazes de tomar decisões por si mesmas.

“Isso” aqui não é a Holanda. Esse país não se presta para democracia. Esta nação não pode se auto gerir. Nossas mulheres são dóceis e submissas e precisam ser controladas para parir. Calem a boca.

A Holanda NÃO é aqui…

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Julgamentos

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Os julgamentos feitos sobre mulheres que pedem auxílio farmacológico para o alívio de suas dores em nada ajudam esta mulher – ou  a humanização do parto – mas fazem parte do processo de amadurecimento de um movimento social. Tais críticas surgem da necessidade de estabelecer valores sólidos através da radicalização.  Abandonar, ou simplesmente questionar, tais pontos é tratado como um sinal de fraqueza. Só o tempo permite suavizar estas posturas e oferecer um melhor entendimento. Abandonar radicalismos é demonstração de fortalecimento de uma ideia. Os dogmas nada mais são do que muletas ideológicas.

O parto é uma construção subjetiva e que se inicia na primeira infância.  É ali que são firmados seus alicerces, numa época onde ainda não há o trânsito das palavras. Portanto, os medos, as tensões e as percepções dolorosas no processo de parir estarão subjugados a estas estruturas psíquicas muito precoces.

Quando eu imaginei qual seria a definição mais completa e sucinta para o nascente movimento de humanização eu desenhei na minha frente um triângulo em que nos vértices de baixo se encontravam a “visão interdisciplinar” e a “medicina baseada em evidências“. Estes são os elementos formais e técnicos desta filosofia. Entretanto no vértice de cima eu coloquei o “Protagonismo garantido à mulher” como o elemento estruturante e fundamental, sem o qual nenhum dos outros se sustenta. Garantir o comando à mulher é o vértice ÉTICO do movimento de humanização, o qual jamais podemos abrir mão, sob pena de desfigurar completamente o valor libertário essencial desta proposta.

Julgar quem solicita um recurso de alívio para o furacão físico e psíquico de um nascimento, seja pela analgesia ou mesmo por uma cesariana, é um ato que contraria toda a filosofia da humanização do nascimento, a qual preconiza que o parto é um evento único e subjetivo no qual somente quem sofre sua dor e seu gozo pode entendê-lo por completo.

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Ultrassom

 

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Outra sensação agradável em contraposição ao meu notável e inexorável envelhecimento físico: minha mente ainda mantém boa parte dos atrevimento da juventude. Há mais de 25 anos eu denuncio os abusos de ecografias pela obstetrícia ocidental, questionando a validade do exagero e as desvantagens econômicas, médicas e relacionais deste uso.

No podcast do Dr. Stu desta semana ele se reporta a um artigo publicado no Wall Street Journal que expõe o uso excessivo de ecografias sem a contrapartida de melhorias nos resultados pós-natais, tanto para mães quanto para bebês. Aos poucos o cerco se fecha sobre esse “modismo”…

Todas as nossas pacientes grávidas já tiveram a oportunidade de escutar a minha explicação sobre os “três tipos de ultrassom”, quais sejam: médico, sedativo e recreativo. Apesar de soar como uma “restrição” essa explicação faz parte da informação que precisa acompanhar qualquer negativa ou consentimento de exame. É importante que as pacientes e seus(suas) companheiros(as) saibam exatamente do que se trata e quais os limites de uma investigação como esta. Por isso, quando as perguntas recaem sobre a “translucência”, “a morfológica”, a “ecocárdio” – além daquelas típicas “pra ver se está tudo bem” – elas já sabem que receberão uma longa explicação conjugada com a minha visão sobre os riscos inerentes de tais exames.

Felizmente hoje escutei a opinião do meu colega “homebirther” americano, que mais pareceu uma telepatia transoceânica, explicando que se limita a pedir apenas UMA ecografia entre 18 e 22 semanas de gestação e com as mesmas razões que oferecemos às pacientes: certeza do sítio placentário, análise de malformações graves e confirmação da idade gestacional. Mas a justificativa que ele fornece para este pedido único de ultrassom é a mesma que damos: “Só peço porque algumas pacientes planejam partos domiciliares”, que é a mesma ressalva que fazemos para as pacientes que pretendem parir com seus cuidadores (enfermeiras obstetras) em ambientes extra-hospitalares.

Os rituais contemporâneos da medicina, por serem sustentados por elementos pré-racionais e ligados ao desejo, são complexos e, por vezes, impossíveis de eliminar em curto prazo. Episiotomias, enemas, tricotomias e ultrassons são apenas alguns exemplos. Todavia, quando observamos a inexistência em nosso meio de “virgens queimadas” por uma colheita ruim percebemos que os rituais, por mais fortes que sejam, um dia enfraquecem até que, por fim, desaparecerem. A racionalidade é uma luz que nos guia em meio à treva, e que mesmo custando tempo e vidas, um dia vence as resistências e ilumina o pensamento.

Práticas abusivas e exageradas podem levar séculos para serem eliminadas, mas um dia serão apenas páginas amareladas da nossa longa história de equívocos na assistência.

 

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Fluidez

Fluidez

 

A minha tese se mantém cada vez mais firme: seja qual for a apresentação ou a modalidade de parto os elementos determinantes para o controle do processo são aqueles que ocorrem “entre as orelhas” da gestante. Se ela estiver realmente empoderada e confiante – que é MUITO diferente de não ter medo – podemos ter resultados positivos e gratificantes. As últimas conversas no pré natal são decisivas para que ela possa estabelecer sua confiança e vinculação com a proposta. Ela também não pode encontrar receio ou dúvida entre os seus cuidadores, pois isso facilmente a conduz para uma espiral de negatividade e, por consequência, medo paralisante.

Quando se consegue este clima percebemos a fluidez do parto como deveria sempre ser. Uma mente carregada de pânico e angústia vai fazer o corpo se fechar e o parto obstruir. Todavia, quando a paciente inunda sua mente de positividade e confiança, temos um caminho iluminado em direção ao sucesso.

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