Arquivo do mês: julho 2020

Amores liquefeitos

(a partir de uma conversa com Lícia Rocha)

Hoje em dia é cada vez mais comum encontrar casais que se encontram tendo uma tela a lhes separar. Podem estar até perto, mas também do outro lado do mundo. O que poderia ser visto como uma facilidade de comunicação para pessoas que, de outra forma, teriam que se encontrar por cartas (como há duas gerações passadas) pode ser problematizado para se entender qual o real espectro destas novas relações fluidas.

Esse é um tema excelente e muito oportuno. Até eu mesmo escrevi sobre este tema, logo que ele se mostrou um fenômeno social, quando do início das redes sociais. Eu tinha algumas pacientes que namoravam estrangeiros. Lembro de três delas que me chamaram a atenção: México, Inglaterra e Itália.

Todas moças jovens e bonitas, e eu me perguntava: será que não tem ninguém suficientemente interessante aqui na cidade? Por que elas foram se interessar por sujeitos que moravam a milhares de quilômetros de distância? O que poderia haver de interessante em ter um amor sem substância, sem amassos, sem beijos roubados, sem abraços e sem o dormir de conchinha?

Os caras não tinham nada de especial. Estudantes, engenheiros, funcionários da bolsa de valores. Algumas me mostravam as fotos: sujeitos comuns, alguns bonitos até, mas nada fora do natural do cotidiano. Havia, por certo, uma presunção pequeno burguesa de encher a boca e dizer “…o Luigi, meu namorado italiano”, mas diante do preço alto das ausências eu achava muito pouco como contrapartida.

Um dia uma delas me contou que havia falhado a tentativa de encontrar o namorado, depois de muitos meses de planejamento. Eu respondi a ela “que pena”, pois sabia o quanto aquele encontro havia sido planejado para a sincronia das férias, as viagens que fariam, etc. Todavia, não pude deixar de perceber um sorriso enigmático quando ela me retrucou “pois é, já é a terceira vez”…

Foi neste momento que me dei conta que o desencontro era exatamente o que ela desejava, mesmo que conscientemente lutasse por essa chance de tornar real o que era virtual. Ela queria exatamente isso: jamais se encontrar, pois essa seria a solução para manter acesa, “ad infinitum”, a paixão que tanto acalentavam.

Não é difícil entender porque na distância, no mundo virtual, todo o amor é idealizado. Os ângulos da câmera são sempre perfeitos, as frases são pensadas, os amores não têm defeitos, só vemos as partes boas, as roupas escolhidas, os sorrisos, etc. Também não há despertar com o pé esquerdo, crises de mau humor.

Entretanto, é no dia a dia que se constrói o amor, que é exatamente a ruptura desta paixão – que é “cega”, porque idealizada. No contato com os defeitos e nos conflitos do cotidiano é que aparecem as decepções, onde a figura perfeita se choca com a realidade. Para evitar a queda da imagem sem defeitos, melhor jamais acordar do sonho.

Conheci muitas pessoas viciadas em paixão. Tinham relações loucas, excitantes, malucas e fulgurantes, mas que eram destinadas a durar muito pouco, até que fizesse falta mais uma vez a adrenalina da paixão. Aí, outra paixão era buscada, e novamente gasta até não sobrar fagulha. Vi muitos homens viciados em conquistas, novidades, novas descobertas, mas condenados a ter relações curtas, onde qualquer profundidade era imediatamente rechaçada.

Não duvido que uma relação que começa por uma tela de celular possa se tornar duradoura, se firmar e transformar-se em um grande amor, produtivo e satisfatório. Todavia, as relações virtuais têm essa marca: o desejo construído sempre sobre uma imagem ideal, platônica, mas não pela distância ou pelo afastamento, mas sim pela perfeição desejada, onde os amantes são vultos etéreos no universo das ideias.

Alias… um fator que me chamou a atenção foi o resultado desastroso de TODOS os encontros de que tive contato.

Uma delas foi até o México conhecer o bonitão. Saiu fugida do país depois de um mês, amedrontada pela índole violenta do namorado. Por vingança o sujeito deu queixa na polícia contra ela, como forma de vingança, alegando um furto em sua casa. Quando chegou ao Brasil agradeceu por ter voltado viva.

A que foi na Itália descobriu que o seu grande amor estava casado, mas teve “vergonha de contar”. A menina que namorava um sujeito da Inglaterra (aquela cujo encontro deu errado 3 vezes) finalmente foi encontrá-lo, mas, passado um mês de namoro, romperam quando ela foi embora. Sem brigas, ódios e nem mesmo rancores, mas muito pouco para uma relação que durou anos pela via cibernética.

Lembrei de outra: namoro que durava meses com um portenho de Buenos Aires. Isso foi antes das câmeras, e eles trocavam fotografias. O sujeito era um dentista, separado, dois filhos, 35 anos. Encontro marcado no aeroporto de Buenos Aires e a dura realidade: em verdade se tratava de um cara solteiro, motorista de táxi, 43 anos e que morava com a mãe. Mentiroso ele, não? Sim, mas é bom levar em consideração que ela mandou fotos 30 kg mais magra, peso que ela ganhou depois da gravidez do seu filho.

Isto é: um mundo de fantasias, mas pelo menos nessas minhas histórias ninguém apanhou ou morreu.

Lembrei mais uma: cinquentona, separada, conheceu seu namorado em uma viagem de férias. O sortudo era um português charmoso, advogado, separado e comerciante bem-sucedido. Paixão instantânea. Depois, namoro virtual por uns dois anos. Ela resolve visitá-lo na cidade do Porto. Planos de casar, morar fora do país, etc…. mas a relação durou menos de 24h. Romperam logo depois que ela chegou ao país, criando para ela uma imensa frustração.

Não vamos nos iludir; este é o “novo normal” das relações, a realidade das relações modernas e fluidas, intensas e fugazes. Talvez seja preciso se adaptar. Amores cujos encontros são emocionantes e fulgurantes, mas as despedidas são curtas e brutais. Sumir simplesmente, sem dar qualquer satisfação, é o padrão. Basta apertar um botão e a pessoa desaparece, sem precisar conversar, pedir desculpas, olhar no olho e chorar, sem se explicar e muito menos sofrer um pouco com a indignação e a mágoa do outro.

Onde isso vai nos levar? Não sei, mas temo pelos amores dos meus netos.

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Doenças da moda

Não existe sujeito sem cultura e nem cultura sem sujeito. Assim, as doenças são também expressões culturais. As histéricas de Freud tinham significado na constrição sexual europeia do final do século XIX, mas perderam muito de sua pervasividade em uma cultura mais liberal. Ainda vale o adágio que nos diz “sociedades constritivas, manifestações histéricas; sociedades histéricas, sujeitos depressivos”. Hoje a depressão é quem mais afeta uma sociedade abusivamente individualista e hedonista.

Doenças funcionam também como moda. Na época da faculdade, após a criação dos ecocardiógrafos, houve uma explosão de diagnósticos de “prolapso de válvula mitral” – até minha mãe conseguiu um – a educar uma infinidade de sintomas. Hoje saiu de moda como fenômeno. Na época da minha formatura, meados dos anos 80, a moda na ginecologia era a Chlamydia. Hoje ela é apenas mais uma das DST. AIDs teve seu esplendor, mas hoje não frequenta mais as manchetes.

A tuberculose mata mais do que todas estas doenças, e há séculos, mas é uma doença da miséria, seja pelo contágio ou pelo controle insuficiente. Ela não ganha manchetes, só lápides.

As manifestações de pânico, déficit de atenção, desordens do espectro autista e depressão ganham manchetes, estudos, pesquisas e diagnósticos. Existem por certo como sofrimento real, mas é inegável que a atenção social sobre estes eventos produz excessos que apenas o tempo acabará depurando.

Lembrei agora de um professor de medicina que teve uma morte meteórica após a descoberta de um melanoma. Imediatamente depois de seu falecimento, que nos chocou a todos, nós víamos alunos, residentes e enfermeiras com curativos de biópsia no rosto e nos braços circulando pelo hospital. Quantos receberam diagnósticos limítrofes e fizeram cirurgias desnecessárias apenas pelo ambiente de medo criado por um fato real?

E o que dizer das indicações de cesariana por sofrimento fetal, ou as cirurgias marcadas por bebês “muito grandes ou “muito pequenos”, diagnósticos que surgiram como fenômeno apenas depois da invasão do claustro amniótico pela tecnologia? Seriam estas enfermidades verdadeiras?

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Falsos heróis

Quando eu era menino eram muito comuns as séries americanas que contavam as aventuras dos americanos nas Guerras. As mais famosas foram “Combat!”, “Hogan’s Heroes” (Guerra, Sombra e Água Fresca) e M*A*S*H, esta última um sucesso espetacular sobre um grupo de médicos na Guerra da Coreia, com Alan Alda – guerra essa em que os americanos mataram mais de 1/3 de toda a população da Coreia do Norte.

Essas séries da minha juventude são as responsáveis por criarem no imaginário da minha geração duas grandes mentiras (entre outras) que o tempo e as evidências ainda não conseguiram desmanchar por completo.

1- que os americanos venceram a II Guerra Mundial. Errado, ela foi vencida pelo exército vermelho, que ocupou todo o leste europeu, chegou primeiro a Berlim e encontrou o Führer já morto por suicídio em seu Bunker. Os americanos entraram em 1942, para ajudar os aliados na batalha da Normandia. Perderam 500 mil homens, enquanto o Rússia teve mais de 20 milhões de mortos.

2- que o exército americano é feito de boas pessoas, companheiras, camaradas, justas, morais e éticas. Mentira: é o exército mais cruel do mundo, a força bélica do Império a serviço da “Estrela da Morte”, que desde a segunda guerra mundial já invadiu dezenas de países, sendo responsável por milhões de mortos por onde passa em sua luta por domínio e pela exploração de recursos naturais alheios.

Se alguém tem dúvida sobre a ação maléfica do exército americano em todo o mundo, confira aqui.

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Avós

Eu não tive meu avô materno por perto, que faleceu quando eu não tinha mais que 3 anos de idade. Meus avós paternos moravam no interior, e só vieram para a capital quando eu era um menino crescido. Minha vó Irma, a “vó mágica”, foi nossa grande imagem de avó. Foi na sua casa, no bairro Moinhos de Vento, que ficamos quando meu pai viajou para o exterior para um período de estudos.

Vó Irma foi minha referência. Ela me protegia da fúria dos meus pais por causa das traquinagens. Ela guardava na cozinha as infusões em álcool, as ervas, rotuladas com sua letra desenhada. Ela fazia o primeiro atendimento nos acidentes domésticos, e falava palavras mágicas em alemão, em especial os palavrões.

Heile, heile
Katzendrek

Morgen fruh
Ist alles weg!!

Cura, cura
Cocô de gato
Que amanhã
Está tudo bem!!

Ela tinha as violetas de genciana para passar na garganta, as mandingas das alemoas para curar feridas. Ela sabia como desatar os nós cegos nas cordas e sabia todos os segredos da cozinha. Milhões deles, como colocar uma pitada – e jamais duas!! – de um pó branco na comida, para deixá-la deliciosa. Ela me pedia para calçar os “boots” ou amarrar os “guides”, ou para botar as alpargatas para ir ao pátio brincar com meus irmãos. Me obrigava a colocar “brincoringa” nos dias de frio e me proibia de colecionar maços velhos de cigarro. Era ela quem nos escondia no quarto para minha tia matar uma galinha para o almoço.

Minha avó me ensinou a admirar as orquídeas, as plantas, as ervas, os chás e me mostrou a importância de cuidar. Ela e minha mãe pareciam uma unidade Panzer de cuidados maternos, que agiam em ”blitzkrieg” para dar conta das nossas brigas de irmãos. Tudo que sou hoje tem, de uma forma ou de outra, uma referência nestes anos em que minha avó era o centro que irradiava conhecimento e afeto.

Hoje tenho o supremo privilégio de ter sobrevivido o suficiente para ter meus netos ao redor e penso que nada mais faço do que restituir uma parcela do que recebi de cuidado e carinho dos meus avós. Felicidades a todos os que foram abençoados por um avô ou avó em suas vidas.

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Filosofia da Medicina

É claro que é “possível” fazer um ensaio MARAVILHOSO, randomizado com “n” satisfatório, avaliação isenta, e provar que X é maior que Y. Porém, quem escolhe avaliar X e Y, e porque não investigaram Z? Só a filosofia pode mostrar que um estudo comparando dois analgésicos para tratar a dor pós-episiotomia existe para normalizar estas cirurgias, estimulando a noção largamente disseminada na cultura de que as episiotomias são adequadas, seguras e que “consertam” um mecanismo falho e disfuncional de parto. Para além disso existe uma mensagem misógina de defectividade feminina, que é a estrutura que sustenta a manipulação e controle de seus corpos, seus desígnios e até seu prazer.

Tais estudos estão em sintonia com aqueles que comparam métodos farmacológicos de alívio da dor no parto, mas que servem especialmente para vender a ideia de que os partos são desumanamente dolorosos, sacrificiais, horríveis, destruidores e que, sem o auxílio da tecnologia – e dos profissionais que as controlam – eles seriam insuportáveis. E quem faz estes estudos? Os próprios profissionais que se beneficiam dessa mitologia de transcendência tecnológica, que esconde o fato de que a PRÓPRIA assistência medicalizada ao parto produz uma artificialização tão profunda de um evento fisiológico que a reação natural das mulheres é o medo, que gera tensão e que, por sua vez, produz dor. Esta, no diagrama famoso de Dick-Read, por sua vez vai gerar mais dor e manter o ciclo patológico da assistência ao parto. MEDO – TENSÃO – DOR

É por isso que, mais do que a crueza fria dos números e da ciência, é preciso criar um entendimento que coloque estes achados dentro de um invólucro cultural e econômico, e que os explique dentro da cultura e do seu tempo.

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