Arquivo do mês: novembro 2017

Mensageiros Solitários

Fui lavar as mãos no lavabo de casa e percebi a pequena estatueta de vidro por sobre o balcão fazendo companhia à saboneteira e aos livros empilhados. O brilho imponente do objeto me jogou imediatamente para um espaço da memória distante e para uma cidade do interior do Brasil onde ela foi feita. A estatueta foi um presente que ganhei após fazer uma palestra em um hospital, algo que se repetiu mais de uma centena de vezes nos últimos 10 anos.

No último dia de estada na cidade a simpática esposa de um colega me ofereceu o objeto como presente pela minha exposição do dia anterior para um grupo de médicos, enfermeiras, e doulas da cidade. O tema foi “Amamentação e o continuum da Humanização“.

Este colega havia passado recentemente por uma espécie de “epifania humanizadora”, a exemplo de tantas outras que eu testemunhei em minha vida. A partir de experiências traumáticas pessoais ele conseguiu desfazer a capa de insensibilidade que construiu por sobre a atenção ao parto e percebeu o quanto dos seus insucessos eram devidos à inadequação e ao anacronismo de sua prática profissional. Acreditem, esta é a autocrítica mais penosa e dolorida. Também ele havia descoberto esta e tantas outras verdades ao se aproximar da prática das enfermeiras obstetras, as quais lhe ensinaram o valor superior do cuidado e da delicadeza. Marsden, Michel e eu mesmo passamos pela mesma experiência.

Suas ideias eram grandiloquentes e entusiásticas. Com vívida alegria me levou por um “tour” no novo centro obstétrico do pequeno hospital onde, por iniciativa sua, uma banheira de parto estava sendo instalada, assim como vários aparelhos simples e funcionais para o auxílio ao parto humanizado. Ele era puro entusiasmo. Na condição de diretor havia conquistado poder para fazer as mudanças. Falava dos partos ocorridos após sua “conversão” e as lágrimas lhe escapavam dos olhos. Disse que aquela pequena cidade em breve seria um polo de boas práticas para toda a região, a começar pela abolição das episiotomias de rotina, o parto na água, o trabalho das parteiras profissionais, as doulas, os acompanhantes, etc. Seu entusiasmo e sua energia eram contagiantes.

Despedi-me de sua família com a sensação do dever cumprido e com a esperança de que aquela cidade simpática do interior do Brasil pudesse realmente se tornar um exemplo para todo o estado – quiçá o país – irrigando com humanização a aridez tecnocrática daquelas maternidades.

Passam alguns poucos anos e encontrei a doula que estabeleceu o contato inicial entre o colega entusiasmado e eu. Perguntei-lhe como estava meu amigo e como iam os planos de renovação da maternidade e do centro obstétrico.

Sua resposta não poderia ser mais esclarecedora. Disse em apenas algumas palavras, mas que foram um grande ensinamento e uma importante aula de humildade.

– Não sobrou pedra sobre pedra, Ric. Mudou a direção do hospital e ele foi retirado da chefia da maternidade. O novo diretor mandou destruir tudo o que havia sido feito. Desfez a banheira de parto, impediu o trabalho livre das doulas e acabou com a relação de cooperação com as enfermeiras obstetras. Ao ser indagado o novo diretor disse que havia sido pressionado pelos médicos, os quais há tempos estavam insatisfeitos com as mudanças. Sinto muito.

“Mudanças de cima para baixo”, pensei. Meu colega, em seu surto humanizante, estava à frente do seu tempo. Estava inclusive adiante das próprias gestantes a quem desejava ajudar. Bastou ele ser afastado e tudo se perdeu. “Atire no mensageiro”, deviam ter dito seus colegas obstetras ao diretor. Sem ele a liderar as mudanças não haveria massa crítica e muito menos lideranças femininas para dar continuidade às suas mudanças. O tiro foi certeiro; com o mensageiro derrubado a mensagem se apagou junto com a última chama de entusiasmo que carregava.

Ficou doente, teve um AVC e se aposentou,  completou ela com resignação. Agora teremos que começar do zero.

Suspirei fundo e respondi que não seria do “zero”, pois agora já sabiam que nenhuma revolução pode florescer confinada em uma única cabeça. Agora já é possível entender que a luta precisa surgir do coração de cada mulher oprimida por um sistema violento e arbitrário. Se lutadores como o meu colega são importantes e bem-vindos muito mais essencial é cultivar um movimento que não dependa de uma única alma liberta e esclarecida. É preciso formar uma consciência tal que a troca de um líder não afete a progressão das mudanças.

A verdadeira revolução do parto virá das mulheres, ou não virá.

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Arquivado em Ativismo, Parto

Luto

“É importante – talvez essencial seja a melhor palavra – preparar-se psicologicamente para TODOS os desfechos não desejados de uma gestação, como um parto com intervenções, uma cesariana e até a morte de um bebê. Meu pai sempre dizia: “Lute pelo melhor, prepare-se para o pior”. O luto que se segue aos fatos inesperados é mais difícil, longo e dolorido do que aquele conversado, reconhecido e preparado, cujas etapas de assimilação e resolução foram previamente esclarecidas e debatidas.

Não há mal algum em se preparar psicologicamente para qualquer infortúnio no processo de gestação, assim como é obrigação dos profissionais de parto abrir um espaço no pré-natal para debater estes temas.

Deveria haver em todo acompanhamento pré-natal um tempo para que as mortes pudessem ser tradizas à fala, para que ninguém deixasse de reconhecer que o nascer implica uma série de lutos.”

Adélia Messider Perman, “A Flor Negra – Ensaios sobre Luto e Despedida”, Ed. Lacroix, pág 135

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Porque apoio a Palestina Livre

Estudo a questão Palestina há 10 anos e não sou tolo de cair na armadilha do “antisemitismo”, como denunciou Norman Finkelstein. Ninguém mais pode cair nesse tipo de cilada. Israel é um país que foi roubado dos seus habitantes, um país terrorista que ataca mulheres e crianças palestinas. No último ataque a Gaza (2014) foram 2200 mortos sendo 500 crianças. Gaza não tem tanques, exército ou armas. Foi um massacre covarde contra a população civil!!!

Sou anti sionista SIM porque sou contra o racismo. Os palestinos na política de Israel são uma farsa, apenas usados para dar uma face democrática e enganar pessoas que desejam acreditar na falácia de um “Estado Democrático e judeu”, que nada mais é do que uma etnocracia,  assim como era a África do Sul. Os palestinos de Israel são “cidadãos de segunda classe” (como negros na África do Sul) e são proibidos pelas mais de 50 leis racistas a serem maioria no Knesset. Os 6 milhões de  palestinos não tem direito a voto!!!! Ser contra o modelo de limpeza étnica e extermínio palestino não é ser contra os judeus, da mesma forma que ser contra os nazistas não é ser contra os alemães. É preciso ACORDAR!!!!!

Vou citar apenas os meus heróis JUDEUS para que entendam mais sobre a questão Palestina e o neocolonialismo europeu no oriente médio que se baseia em limpeza e genocídio da população que lá vive há séculos. Apenas lembrem que NUNCA houve animosidade contra judeus no Oriente Médio antes da Palestina ser roubada em 1948. Os autores são: 

Illan Pappe

Max Blumenthal

Miko Pellet

Norman Finkelstein

Shlomo Sand

Gideon Levy e

Noam Chomsky

Se quiserem os não judeus leiam – e vejam no YouTube – George Galloway e o ex presidente americano Jimmy Carter. Sejam contra o racismo e combatam o genocídio promovido por Israel. Existem milhares de informações em vídeos e livros sobre o assunto!!!!

Ha muitos anos eu era como boa parte dos ocidentais que acreditavam em Israel, principalmente pela propaganda odiosa anti árabe do cinema americano. O documentário Reel Bad Arabs (tem no Youtube) abriu meus olhos para isso. Acreditava que Israel havia feito o deserto florescer, que era uma “ilha de civilização no meio da barbárie” e outras tantas falsidades criadas para justificar o Nakba – a catástrofe que se iniciou em 1948. Eram todas mentiras: Israel é a própria barbárie no oriente médio, a principal apoiadora do ISIS. Leiam sobre isso!!!!

Todavia, só consegui mudar minha opinião lendo os autores judeus que me mostraram a verdadeira narrativa Palestina e o roubo da sua terra. Foi com Norman Finkelstein e “A Indústria do Apartheid” que eu acordei para estas acusações toscas de antisemitismo para todos que defendem a Palestina. Foi com Miko Peled, o filho do General israelense, que eu entendi a segregação racial por dentro e compreendi a guerra de 67. Foi com Ilan Pappe que eu entendi a limpeza étnica da Palestina que foi arquitetada desde o século XIX. Foi com Shlomo Sand que entendi a invenção do “povo judeu”, que nada mais é que uma criação ficcional para justificar o extermínio árabe. Foi com Noam Chomsky, antigo defensor do sionismo, que entendi que não há nada de judeu em apoiar um sistema as assino e que sempre é tempo para mudar e recolher o lado certo da história. Foi assistindo “5 câmeras quebradas” que pude ver de perto a resistência pacífica dos palestinos e seu sofrimento sob a opressão.  E acima de tudo, foi através do aprofundamento nas leituras que pude tirar da frente dos meus olhos o véu da propaganda sionista e islamofóbica que me impedia de ver a realidade. Espero que este seja o caminho de todos que desejam a paz, até porque é absolutamente incoerente defender o legítimo direito dos índios brasileiros e negá-lo aos palestinos.

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Inacreditável!!!

 

 

A BATALHA DOS AFLITOS

Ha exatos 12 anos (26 de novembro 2005) ocorria um dos eventos mais espetaculares da história do futebol mundial. Sem precedentes. Não é exagero: isso nunca mais vai se repetir em lugar nenhum do mundo envolvendo grandes equipes.

O Gremio jogava contra o Náutico enquanto o Sta Cruz jogava contra a Portuguesa nas duas partidas do quadrangular final da série B de 2005. Das 9 combinações de resultados possíveis para estas duas partidas 8 favoreciam o Grêmio. Só não podia acontecer o Gremio perder e o Sta Cruz ganhar. E aos 36 minutos do segundo tempo era exatamente isso que estava para acontecer

O Grêmio tinha um time horrível derivado da hecatombe da falência da ISL. Apesar disso ali estavam Anderson e o garoto Lucas, o resto eram jogadores medíocres. O técnico era local, sem nome e sem história. Durante o campeonato fez muitas burradas, inclusive deixar o melhor jogador do time no banco. Foi criticado de forma contundente pela imprensa e até hoje eu o considero o técnico de futebol mais sortudo de todos os tempos.

O jogo na primeira etapa foi uma guerra. Pouquíssimo futebol. Juiz inseguro e ruim tecnicamente. Muitos anos depois foi envolvido em escandalos da polícia militar. Deu um pênalti absurdo contra o Gremio no primeiro tempo que não foi convertido. Teve sorte.

Enquanto isso a Portuguesa saía na frente, o que aliviava o Gremio. Entretanto, não durou muito para o Sta Cruz empatar e virar o jogo. O alívio durou pouco.

No segundo tempo o jogo continuou uma porcaria em termos de futebol, mas o Grêmio resistia. O jogo do Sta Cruz não parecia mudar em nada; estava definido. O destino do Grêmio seria mesmo nos Aflitos.

Em um contra-ataque do Náutico Gallato fez pênalti em Kuki mas o juiz não marcou, o que me deu a certeza de que não havia por parte dele interesse em ajustar resultados. Se quisesse favorecer o Náutico esse seria o momento. Os lances que ele marcava eram sob brutal pressão dos jogadores e da torcida. Estava perdido e apavorado.

Quando faltavam 9 minutos para acabar a partida o juiz Beltrame marcou um pênalti contra o Grêmio de forma absolutamente equivocada. Nessa hora já tínhamos perdido um jogador, Escalona ao 26 min, por expulsão, mas estávamos resistindo. Nessa nova marcação de penalidade máxima equivocada o jogador Nunes do Grémio se virou de costas após o chute do adversário e o juiz marcou de forma imediata. Não foi falta, e as milhares de repetições na TV confirmaram. Indignação total de toda a nação tricolor.

Surgiu o confronto e os jogadores do Grêmio foram sendo expulsos de campo. Antes da cobrança mais três acabaram indo para rua. Ao todo 4 jogadores saíram: Escalona (antes do entrevero), Nunes, Patrício e Marcel. O juiz ficou cercado, a polícia entrou em campo, dirigentes dos dois clube também. Brigas, empurrões e o Grêmio já estava diante do pior cenario que um clube pode enfrentar: partida final do campeonato, com 6 jogadores apenas na linha, o adversário completo, um pênalti contra si, na casa do oponente, com o estádio lotado e faltando apenas 9 minutos para acabar a partida. As imagens marcantes que antecedem a cobrança são da torcida do Náutico de mãos dadas rezando, em silêncio reverencial.

Do outro lado, no time Timbu, sobreveio uma crise. Ninguém queria bater a penalidade. Os jogadores mais experientes “pipocaram” e serão para sempre cobrados por isso. Era muita responsabilidade: a bola do jogo, aquela que daria acesso à “série A”. Acabaram determinando que um jovem lateral, um menino recém saído da base, batesse o pênalti. Ademar seu nome

Era visível seu pânico ao se posicionar para a cobrança. Um garoto diante do acesso de seu clube. Depois de muitos minutos de brigas, empurrões, discussões, ameaças e tensão o juiz apita. A respiração da torcida do Gremio é interrompida e o silêncio se faz em todo o estado. Ademar caminhou trôpego para a bola, enquadrou o corpo para bater de esquerda. Disparou o chute e…

Galatto!!!! Inacreditável!!!! Ele tirou com o pé e mandou para escanteio. A maior torcida do Rio Grande gritava de euforia, mas eu permaneci quieto e apreensivo. Tínhamos 7 jogadores em campo contra 11 do adversário. Era possível que o gol do Náutico ocorresse até nesse escanteio em sequência. Não havia muito para se tranquilizar. Os 9 minutos restantes seriam um século, mesmo que o empate ainda nos garantisse o segundo lugar e o acesso para a série A.

Foi então que o mais improvável aconteceu. Depois do escanteio a bola espirralou para a esquerda e caiu nos pés de Anderson. Ele se livrou do adversário com um drible e na sequência foi atropelado pelo zagueiro Batata, sendo arremessado violentamente para fora de campo. O juiz nao teve outra alternativa a não ser expulsar o defensor do Timbu, mas ainda restavam 9 contra 6 na linha. O time do Náutico estava tão perturbado que não sabia o que fazer em campo. Após a cobrança da falta Anderson saiu correndo solitário em direção ao gol adversário, livrou-se do zagueiro com um jogo de corpo, entrou área adentro e desviou do goleiro, colocando a bola no fundo das redes.

Impossível, milagre!!!!! Exatos 71 segundos após a defesa de Galatto o Grêmio marcou um gol espetacular. Seis bravos guerreiros contra os erros de um juiz apavorado, uma torcida que lotou o estádio e um time com 9 adversários na linha. A essa hora o jogo do Sta Cruz já havia terminado e o time “cobra coral” dava a volta olímpica, iludidos de que haviam conquistado o campeonato da série B. Ledo engano!!! O Imortal não se entrega até o apito final.

Depois do gol do Grêmio baixou uma incrível apatia no time pernambucano. Nos 9 minutos que se seguiram não houve sequer uma situação de gol, mesmo com tamanha diferença numérica. Os jogadores do Grêmio se multiplicavam em campo, obstruindo as investidas, e assim o fizeram até quando Beltrame terminou o jogo e o Rio Grande do Sul veio abaixo.

Ali se confirmava a lenda da imortalidade cantada meio século atrás por Lupicínio Rodrigues no hino tricolor.

Saí da casa do meu pai onde assisti o jogo e fomos para a avenida Goethe, próximo de onde era a Baixada, estádio do Grêmio até os anos 50. Uma multidão enlouquecida lá reunida dizia em uníssono “Eu não acredito”, “Não é possível”, “Milagre”. Nenhum título poderia ser mais comemorado, não pela taça em si, mas pelas circunstâncias de bravura, luta, heroísmo e enfrentamento das adversidades.

Essa data ficará na lembrança de todos os gremistas como a maior prova de que é preciso lutar e acreditar até o último instante, porque se a vitória se afigura impossível e distante….. “até a pé nós iremos”!!

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Racismo e autocrítica

“Pense bem antes de chamar alguém de “racista” ou “machista” apenas por discordar de algum aspecto dessas lutas sociais. Muitas pessoas desenvolvem verdadeira aversão a estes importantes movimentos porque desde o primeiro contato foram tratados como inimigos. Movimentos que não fazem autocrítica e não depuram seus exageros acabam virando cultos personalistas, cheios de arrogância e fanatismo. Antes de acusar alguém avalie se não são os seus conceitos que precisam de renovação.”

Baakir Abayomi, “The relevance of the counterpart”, Ed. Nihil, pág 135

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