Arquivo do mês: maio 2013

Crenças, Gostos e Castas

marcha-para-jesus

Conservadores saem as ruas no Brasil, a exemplo do que fizeram na França há poucas semanas.

No Brasil, quase à mesma hora, ocorreram a Marcha das Vadias e a Marcha para Jesus… Mais do que uma demonstração de ativismo feminista ou uma demonstração de fé no “Senhor Jesus”, vejo em tais demonstrações um claro divisor de classes sociais. Há poucas semanas um fenômeno semelhante: Joelma e Daniela Mercury dividiram as opiniões entre os pobres e a classe média. A cantora baiana por assumir publicamente um relacionamento homoafetivo e a musa do Calypso por defender posturas conservadoras em relação à homossexualidade.

Se você é de classe média pega mal se posicionar contra homossexuais e os direitos que estes reivindicam, da mesma forma que pega mal escutar Latino ou Luan Santana. Muitas opiniões que vemos a respeito destes temas são, em verdade, aprisionamentos ideológicos determinados pelas castas sociais, e não avaliações maduras sobre os temas em questão. Mesmo que você curta cantar músicas do Latino enquanto toma banho, se você quer se manter na classe média não fica bem declarar publicamente que gosta delas.

Desta forma os gostos estéticos (musicais, artísticos, literários, etc.) e sua expressão explícita no convívio público, são senhas, códigos e “palavras passe” para a classe social onde você se encontra. Lembro de escutar uma conversa de duas meninas adolescentes em que uma dizia a outra: “Que tipo de banda você ouve”? A outra respondeu incontinenti: “Ramones”. Quando ouviu o nome da banda a primeira lhe abriu um enorme sorriso. Era o código: a tribo específica à qual você se liga. Era possível, a partir desse reconhecimento, uma vinculação. Eu penso em fazer isso na sala do café dos médicos no hospital onde atendo: iniciar uma conversa animada com uma colega a respeito de música, e citar elogiosamente várias duplas sertanejas, apenas para observar a cara de espanto dos colegas médicos, como que a dizer “O que esse indivíduo está fazendo aqui, entre nós?”

Quanto aos objetivos da “Marcha das Vadias” ninguém discorda. Pelo menos os objetivos explícitos e conscientes, o que não tem necessariamente que ver com os objetivos verdadeiros e inconscientes. Mas veja bem, na “Marcha para Jesus” também havia o interesse de exigir direitos, fazer uma demonstração de fé de forma contundente e firme e estava cheio de homens conscientes e parceiros, todos em prol da família e da religião. Eram nitidamente pessoas do “bem”, cheias de boas intenções. Mas, se as intenções e a essência das pessoas era a mesma (nas Vadias e em Jesus havia gente bacana, e muita gente histérica também, claro), o que salta aos olhos é a diferença de classe social. Por isso é que afirmo que muito mais do que um interesse ideológico existia uma imantação por classe social. Pega mal para a classe média se ligar à Jesus, e fica estranho para as pessoas de classe baixa entrar no meio da parada das Vadias. A classe média é notoriamente progressista, mas as classes C e D (emergentes no Brasil contemporâneo) são eminentemente conservadoras. É por isso que o Feliciano recebeu mais apoio que paulada, e é por esta razão que o discurso político brasileiro da atualidade apresenta uma nítida guinada conservadora (Jesus, família, sexualidade, etc.) e para a direita (capital, mercado, competitividade, lucro, etc.).

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Midia inconsequente

amor a vida

“Se vc tem “Amor à Vida” não faça uma cesariana sem justificativas, pois ela aumenta a sua chance de assistir a próxima novela no céu…”

Que desastre…

Preparem-se para mais uma “Campeã de Porcaria” da Rede Globo.
A cena da novela de hoje vai retratar um “parto que deu errado”, causando a morte da mãe e do bebê. A “tecnologia salvadora” foi usada “tarde demais”…

A Globo investe mais uma vez na estratégia de enaltecer a assistência tecnológica, cara e de pífios resultados em detrimento de uma visão mais abrangente e respeitosa com as mulheres. As mortes de mulheres continuam a ser retratadas como a “insistência de apostar em um corpo defeituoso de mulher”, ao invés de entregá-las à ação salvadora das tecnologias

Pois é! Mais uma vez os roteiristas de novela (não os chamarei de escritores, pois normalmente não o são, com a nobre excessão de Dias Gomes) fazem um trabalho negativo para a saúde brasileira, ajudando a aumentar o fosso que nos separa das nações desenvolvidas no que diz respeito à prevenção de danos à saúde. O que mais uma vez aparece é uma mídia mitológica e interessada em cativar anunciantes (como as grandes instituições hospitalares) ao invés de esclarecer, orientar e dissipar ideias errôneas. É por esta razão – entre outras – que o Brasil amarga a vergonhosa marca de campeão mundial de cesarianas.

Para cada mulher que poderia sofrer o que a novela insinua, DEZENAS acabam morrendo por causa de cesarianas, com suas consequências cirúrgicas, infecciosas, hemorrágicas e anestésicas. Isto não é opinião: é evidência científica, corroborada por instituições idôneas e comprometidas com a saúde das mulheres.

A TV Globo consagra a mentira que a gente escuta todos os dias: de que o parto normal é o culpado sempre pela morte, como sinônimo de negligência, e quando ocorre o óbito de uma criança ou de sua mãe em decorrencia de uma cirurgia a sociedade ingenuamente se resigna, e vemos as pessoas balançando as cabeças e dizendo que “foi feito de tudo para salvá-los”. Ledo engano, brutal equívoco.

É quase impossível melhorar a atenção ao parto no Brasil enquanto grandes corporações de TV disseminam desinformação e criam, no imaginário feminino, conceitos preconceituosos e equivocados sobre uma pretensa fragilidade feminina e sobre uma falsa defectividade na forma de parir.

O que me deixa triste e desanimado é que, se era realmente importante criar um “viúvo”, marcar um personagem com as cicatrizes da morte trágica de sua família, porque não o fizeram como consequência de uma cesariana???? Porque não se alinharam às recomendações da Medicina Baseada em Evidências? Quais os determinantes obscuros para – mais uma vez – se juntarem àqueles que desejam que as taxas vergonhosas de cesariana permaneçam no mesmo lugar? Qual a verdadeira intenção da Rede Globo? Será apenas burrice dos roteiristas? Falta de informação ou imaginação? Será que esse cliché maldito ainda não se esgotou nos dramalhões tupiniquins? “Senhor Alberto Roberto, teremos que escolher entre sua esposa ou seu filho. O senhor terá que decidir…” Ora, que cafonice, que falta de respeito com o telespectador, que ausência de senso crítico e atualização!!

Eu creio que o fracasso da última novela, que foi considerada como a pior novela daquela autora, forçou os diretores e a cúpula da Vênus PLatinada a apostar nos dramas maniqueístas e nas tramas moralistas mais antiquadas. Só isso, ou uma teoria por demais persecutória, pode explicar tamanha bobagem da Rede Globo.

As pessoas que lutam pela liberdade de escolha e recusas informadas no parto não descansarão até que tais mentiras sejam esclarecidas, até que parem de retratar os partos como ruins e negativos, e que deixem de oferecer a falsa ideia de que a intervenção tecnológica no nascimento é melhor do que os recursos que a natureza nos ofereceu.

E que Deus nos perdoe por mais este crime contra o parto natural, que poderá produzir um estrago nas intenções do governo brasileiro de diminuir a mortalidade materna e as cifras alarmantes de cesarianas…

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Medo

Mad doctor with a syringe in his hand

Somos um núcleo de medos, envoltos por uma faixa de crenças, sobre as quais repousa um verniz de intelecto.

Nos últimos anos como divulgador de um conjunto de ideias agrupadas com o nome de humanização do nascimento eu tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas da área médica que mostravam interesse em se aproximar de um modelo que apregoava mais respeito e dignidade no parto. Muitas tinham um perfil que eu chamaria de “clássico”: boas intenções, bom trabalho, gentileza, boa experiência, um certo enfado com o excesso de intervenções e uma legítima vontade de fazer mudanças em suas condutas. Entretanto, quando oferecíamos um olhar mais profundo sobre as reais motivações, o verdadeiro cerne do processo de nascer, as implicações políticas, econômicas, sociais, psicológicas, antropológicas e médicas do nascimento, muitas delas estabeleciam de imediato um discurso defensivo, e iniciavam uma retórica de contra-ataque. Bastava falar que “fazemos demais”, “intervimos demais”, “cortamos em demasia”, ou que “nossa proposta passa pela defesa de um parto fisiológico de acordo com os desejos das pacientes”, para sermos taxados de “ditadores”, “arrogantes”, “xiitas”, “fanáticos” e até “salvacionistas”. Tantas foram as vezes que tal fato ocorreu que eu acho até estranho quando não percebo o processo de retração.

Para mim este discurso desvelava uma característica tão humana quanto inexorável: o medo. Sim, medo de que, expostos a uma realidade mais ampla seremos obrigados a rever conceitos antigos, os quais, de certa forma, muito nos haviam beneficiado. Medo de mudar, de reconsiderar posturas, de despir-se de conceitos que durante muitos anos foram caros para nós.

Eu acho compreensível isso, até porque também faço isso (tenho consciência dessas limitações). Portanto, quando as pessoas se colocam para trás e dizem: “Quer saber? Vocês são radicais demais, falam muito em parto normal. O que importa é o bem estar de mães e bebês. Não importa como veio ao mundo. cesarianas também podem ser humanizadas. É um horror obrigar uma mulher a ter um parto normal e etc” tudo o que vejo na minha frente, quando se dissipa a névoa de preconceitos contra ideais bem simples (repetindo: protagonismo restituído, visão integrativa do parto e medicina baseada em evidências) é o medo de mudar. Medo de reconhecer que fomos muito além do que devíamos. Pânico de ver o castelo de conceitos recebidos na escola ruir por falta de sustentação.

Tenho certeza que as pessoas bem intencionadas – TODAS – passam por esse processo de rejeição. Eu sempre conto a história, que ocorreu há muitos anos, quando Zeza me contou que sua amiga de escola havia decidido ter seu parto de cócoras. Eu estava no quinto ano de medicina e recém havia me decidido a fazer a residência em obstetrícia. Não tinha nenhuma ideia do que seria uma postura mais “suave”e respeitosa em relação ao nascimento. Ao ouvir a afirmação de Zeza, que continha a determinação da paciente em ter seu parto numa posição diferente,  eu disparei incontinenti: “O que? Ela sobe em coqueiro? Ela é índia? Ela não tem períneo para isso. Se fizer tal estultice vai se rasgar toda!

Sim, eu disse isso, com toda a convicção. Com toda a empáfia, toda petulância e com todo…. o medo. Mas medo de quê? Medo de não ser aceito pelos meus pares, de não ser reconhecido, de que zombassem de mim. Medo de ser diferente e de poder estar errado. Medo das consequências de ver o mundo por um outro prisma. É assim que somos: um bando de medrosos. Eu tinha MEDO, muito medo.

Quis o destino que alguns meses depois desse rompante de arrogância e estupidez me caísse nas mãos um exemplar do livro do Dr. Moysés Paciornik chamado “Aprenda a Nascer com os Índios“, e eu acabei sendo, por causa dessa paixão avassaladora pelas ideias que ali encontrei, o introdutor dos partos de cócoras nessa parte do Brasil (muito antes de eu tomar conhecimento de qualquer conceito a respeito de humanização).

Portanto, ficar em pânico e retrair-se diante da novidade é natural. Entretanto, para ser realmente um agente de mudança é necessária uma espécie de força extra, algo intenso o suficiente para suplantar a inércia das posturas recalcitrantes. E isso só é possível para aqueles que não têm alternativas além de seguir em frente.

Eu costumo receber muitos estudantes de medicina, enfermagem e obstetrícia para conversar comigo sobre a humanização do nascimento. Para eles eu sempre apresento uma visão propositalmente sombria. Olho para seus olhos sequiosos de respostas e esperança e digo: “Se você tem alguma alternativa, não me dê ouvidos. Saia daqui, tome a pílula azul e acorde amanhã no seu quarto com o livro do Resende todo babado embaixo de sua cara. Mas se quiser tomar a pílula vermelha lembre que ela não tem volta, não há como retornar de um passeio que te leva a uma consciência maior de si mesmo e da sua profissão. Mas só a tome se não houver mais nenhuma escolha, pois no mundo dos que nadam contra a corrente cada braçada é dolorosa e angustiante“.

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Loucura e preconceito no mundo dos trogloditas

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Será que ainda precisamos do “Homo ignobilis”?

 

Recebi de uma querida amiga paulistana (cujo nome não direi para não causar constrangimentos a ela) um link para ver partes de um livro recém-lançado sobre as mulheres e suas “doidices”. Eu imaginei, no primeiro momento, que se tratava de uma visão masculina sobre o misterioso mundo feminino, e as maravilhosas “loucuras” que as mulheres fazem na sua passagem pela Terra. Entretanto me deparei com uma torrente de preconceito, desinformação e grosseria que me chocou, a ponto de resolver escrever a respeito. O capítulo 10 deste livro (cujo nome não direi para não dar publicidade a um material tão ruim) chama-se “Parto em Casa”, que foi escrito em função da experiência que o autor (Sr W.) teve ao vislumbrar a Marcha de Mulheres que ocorreu em 32 cidades brasileiras em defesa do direito de escolha, do Parto em Casa e do nosso colega Jorge, injustamente acusado pelo órgão de classe do Rio de Janeiro. Não li o livro todo, porque este capítulo já é suficiente para demonstrar a grosseria do julgamento que o autor faz das mulheres e do feminino. Tomo a liberdade de transcrever apenas um parágrafo para que tenham uma ideia do que se trata:

“(…) Os outros benefícios [do parto domiciliar] não merecem nem ser citados por tamanha incoerência e esdrúxulas afirmações. Se perceber, verá que não batem bem da bola, são normalmente aquelas que não se apegam ao batente, como sabemos. Quando a mulher trabalha, ajuda no sustento da família e tem responsabilidades para continuar a vida como ela é, não tem tempo para essas “frescuras” [a Marcha e o ativismo]. Tem o filho na maternidade mesmo e após alguns dias volta à luta. Isso, sim, é mulher de verdade (…).”

Pelo trecho acima pode-se avaliar a qualidade do resto do livro. Por esta razão eu resolvi escrever a primeira resenha desta publicação, e que constará no Google Livros. Aqui está ela:

“Sobre o Livro XXXX do senhor W. tenho a dizer que o capítulo sobre o “Parto em Casa” é lamentável, triste, preconceituoso e chauvinista. Poderia escrever sobre o resto do livro, mas se ele contém algo semelhante a este capítulo ele certamente não vale a leitura. Eu acreditei (pelo título) que o livro era bem humorado e que tratasse das coisas lindas e até incompreensíveis (ao olhar masculino) da epopeia feminina na terra, mas é provavelmente (pela amostra que tive) um aglomerado de grosserias contra as mulheres, e uma torrente de preconceitos sem cabimento.

No texto sobre o parto domiciliar ele chega a dizer que isso é “coisa de mulher desocupada” (vide acima), usando as MESMAS PALAVRAS que os homens proferiam para debochar e desmerecer os interesses intelectuais femininos, como estudar, adiar um casamento, fazer uma faculdade ou decidir-se a não ter filhos nos anos 60. Um texto triste, lamentável, infeliz e inaceitável para uma sociedade que se propõe plural e justa. Desafortunadamente este senhor não passa de um fóssil vivo, um exemplar do “homo ignobilis” do início do século, que resiste em tratar as mulheres com um misto de compaixão arrogante (pobres delas, loucas, são apenas mulheres…) e desconhecimento total do ser feminino. Se eu fosse mulher e lesse isso, realmente ficaria LOUCA, e faria parte dos 90% que ele acusa. Por outro lado eu informaria a ele que só quando 100% das mulheres se indignarem com tanta ignorância e preconceito é que esse mundo oferecerá mais dignidade para elas no momento de fazer escolhas informadas sobre como parir.

E, por favor… eu li o capítulo (as partes que o Google permitia) e ficou CLARO que não se tratava de uma “brincadeira”, ou de uma espécie de “humor machista”. Não vou aceitar ser chamado de mal-humorado: ele expressou uma opinião séria, desconsiderando e debochando de gestantes que lutam por liberdade de escolhas. Não, não se trata de uma comédia ou de uma caricatura.

É preciso que cidadãos como o Sr W. permaneçam no mundo apenas pendurados em paredes de museu, para mostrar como eram os homens na pré-história da cidadania, quando as mulheres eram obrigadas a ter seus filhos da forma como os homens determinavam, e não da maneira como a ciência comprova como seguras, e as mulheres desejam.

Entretanto, é minha opinião de que o ponto de vista do Sr. W está cada dia se tornando mais cafona, démodé, ultrapassado e velho. Essa já foi a opinião consensual na cultura ocidental, mas hoje é apenas a hegemônica. Já existe, principalmente por força da Internet e das redes sociais, uma consciência muito maior dos direitos das mulheres, assim como informações idôneas sobre a segurança no parto domiciliar (e não o amontoado de opiniões e visões enviesadas deste senhor). Com o passar do tempo esta postura retrógrada e ofensiva com as mulheres será vista apenas uma visão antiquada e sem embasamento, e a história verá este texto como um resquício do preconceito que ainda recaía sobre as mulheres na cultura ocidental nos umbrais do século XXI.”

 

Ric Jones

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Decisões e Protagonismo

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Onde foi, durante o caminho, que cometemos este erro?

 

“Colocar a culpa nos outros (médicos, natureza, defeitos genéticos, bacias pequenas, etc…) pode ser muito bom e efetivo para aliviar a frustração de parto que (por alguma razão), não ocorreu. Aliás, é o que TODO mundo faz, principalmente quando analisamos a propensão para culpar os médicos pelos maus resultados; o que antes era um “esporte nacional” americano agora tornou-se uma bolha de judicialização prestes a explodir por lá. Entretanto, eu prefiro pensar que o fracasso, na imensa maioria das vezes, está relacionado ao que NÓS MESMOS fazemos, pelas nossas escolhas pessoais, assim como o sucesso de nossos projetos também se estabelece por uma série de eleições que realizamos. Jared Diamond, no seu livro “Colapsos” já falava explicitamente em como as sociedades “ESCOLHEM” fracassar ou ter sucesso, e cita os Anasazi, os habitantes de Páscoa e os nórdicos da Groenlândia do século XI como exemplos de más escolhas que levaram ao colapso e, por fim, ao extermínio. Entretanto, estas escolhas desastrosas – nas sociedades mas igualmente na vida privada – não operam conscientemente, mas os resultados vão acabar acontecendo por conta das eleições mal direcionadas ou incorretamente avaliadas. Assim também fazemos com as pequenas e aparentemente simples decisões quanto ao parto; elas vão ao final compor um quadro onde nitidamente se enxerga a “mão” do pintor, com suas fraquezas, dificuldades e medos, assim como sua capacidade, determinação e coragem.

Culpar algo fora de nós é normalmente manobra escapista, que apesar de nos aliviar momentaneamente das tristezas por um objetivo não alcançado, acaba criando um fosso de alienação, que por fim nos impede de ter nas mãos as rédeas de nossa vida.

Eu entendo quem pense ser mais “adequado” encontrar respostas na genética, nas bacias pequenas ou nos microorganismos. Há quem prefira diminuir suas dores e frustrações determinando que a culpa pelo que lhe acontece é dos médicos, da natureza madrasta, do hospital ruim, das bactérias, dos vírus, da mãe cerceadora, do pai severo ou ausente, ou por causa de uma maldição qualquer (divina ou satânica). Eu prefiro correr todos os riscos e assumir a minha posição de protagonista, sem cair na tentação de me alienar das responsabilidades. Não fosse assumir esta posição e nenhuma vitória seria pleana, pois que ela estaria sempre a ser conduzida por outro.

Max sempre me disse que crescer significa assumir as responsabilidades do vida, tomar para si o protagonismo de suas decisões, e não delegar para outros o que nos cabe. No nascimento, assumir como suas as prerrogativas de decidir o caminho a seguir é o primeiro passo na direção de um nascimento digno e cidadão.”

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