Sobre o abuso cada vez mais descarado de ultrassonografias na gravidez:
Não existe NENHUMA base científica para justificar essa barbárie ultrassônica. Isso é uma mistura de capitalismo abusivo com ignorância ancorada na insegurança. Esta insegurança, por sua vez, é produzida pela cultura e amplificada pelo discurso médico, porque os médicos se fortalecem e empoderam quanto mais alienada e assustada estiver uma gestante.
Todos ganham: médicos, clínicas, especialistas, enfermeiras, hospitais, indústria farmacêutica e de equipamentos (a que mais lucra) e a medicina como biopoder. Só perdem mães, bebês e a sociedade. Justo, não lhes parece?
É um absurdo. Cada vez que um médico chefe ou um gestor estabelece esse protocolo insensato e sem embasamento o seu Toshiba e o seu Siemens abrem uma garrafa de Champagne Moet Chandon e caem na gargalhada.
Quando uma mulher chora ao ver seu bebê no aparelho de ultrassom ela quase sempre chora de alívio, e não de emoção. O trabalho de destruir sua autoconfiança como mulher e gestante a leva a depender das máquinas para construir uma segurança que a medicina e a cultura retiram dela.
Peço licença para fazer uma analogia: Se houvesse um leite que fosse absolutamente igual ao leite materno sem NENHUMA diferença entre as composições, acreditas que não faria diferença alguma entre essa variedade e a natural?
Existe muito mais do que um exame em qualquer exame. Um exame, assim como o ato de amamentar carregam significados que extrapolam sua operacionalidade. Eles agem no simbólico, ultrapassando os limites de sua ação física e funcional. Dar uma mamadeira e fazer ecografias simbolizam a defectividade essencial da mulher, que precisará dos recursos outros (a tecnologia) para dar conta de suas questões fisiológicas de gestar e maternar. Esses símbolos REFORÇAM a imagem diminutiva da mulher na cultura por colocá-la como essencialmente incompetente para dar contas, por si mesma, dos seus desafios de mulher.
Não se trata de permitir ou não a realização de um exame. Nesse aspecto é igual ao abuso de cesarianas. É óbvio que existem malefícios nesses abusos e que precisam ser criticados à exaustão, mas ainda prefiro mulheres livres para tomar decisões erradas e tolas (na minha perspectiva e na da ciência). O texto não tangencia a questão de cercear escolhas, mas infere que essa “escolha” NUNCA é totalmente livre e sofre condicionamento da cultura e do médico enquanto significante. E este médico tem muito a lucrar com isso, por esta razão estas opções tem aspectos éticos relevantes.
Uma ultrassonografia expropria simbolicamente a gestação de uma mulher ao colocar esta relação intermediada por uma máquina. Tudo o que ocorre depois disso é marcado por essa intervenção invasiva, em maior ou menor grau.
O discurso médico é a tradução da visão de mundo da medicina ocidental contemporânea com a qual convivemos. Mesmo sendo diverso e plural não é difícil traçar uma linha que nos conduz à fala da Medicina na cultura. O mesmo e pode dizer do discurso jurídico ou político.
Dizer que não existe um discurso médico dominante – que é iatrocêntrico, etiocêntrico e tecnocrático – porque existem médicos que “respeitam pacientes e evidências” é o mesmo que negar a supremacia da visão alopática porque conhece alguns homeopatas; é o mesmo que negar o machismo porque alguns amigos lavam a louça…
Na obstetrícia a existência de hospitais com 90% de cesarianas sepulta essa discussão. Houvesse respeito pelos pacientes como DISCURSO HEGEMÔNICO e isso jamais seria admitido ou tolerado.
Eu entendo o cuidado para não afastar os bons médicos com essa perspectiva e esse conceito mas na minha opinião os bons profissionais são capazes de fazer mea culpa e exercitam a autocrítica. Nenhum bom médico que conheço nega a crise ética da medicina, que nada mais é do que um dos milhares de braços da crise do capitalismo mundial.
