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Sororidades

“Quando nossas fraternidades e sororidades colidem frontalmente com nossos princípios éticos elas deixam de ser mecanismos de fortalecimento para se tornarem identitarismos reacionários.”

Martin Chambers, Chatanooga News, may 1995

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Parteiros Infalíveis

Uma revista de grande circulação publicou matéria sobre uma famosa parteira nordestina e seu trabalho de várias décadas na atenção ao parto. A revista prestava uma homenagem oportuna e justa, mas não foi para mim nenhuma surpresa o fato de terem informado um número exagerado de partos atendidos por ela (6 mil) além de terem acrescentado uma fala que merece uma análise mais aprofundada: “Nunca perdi um bebê“, disse ela.

Fiz um comentário discreto aqui em casa a respeito da matéria, mesmo porque sabemos que é politicamente incorreto questionar um mito muito antigo da obstetrícia: o número de partos atendidos por parteiras e médicos. Nesse terreno podemos afirmar sem medo que todos mentem sobre os famosos “múltiplos de mil” (menos eu, que anotei todos os quase dois mil que atendi na minha carreira de 30 anos).

Ora, cabe uma consideração sobre os seis mil partos que a parteira informa ter atendido durante sua carreira, sem que tenha ocorrido nenhum óbito neonatal. É importante salientar que os melhores serviços europeus de obstetrícia têm mortalidade neonatal ao redor de 4/1000 nascidos. Uma parteira que tenha atendido por volta de 6 mil partos (número obviamente inflacionado) teria o direito de perder 24 bebês. Sim …. 24!! Este é um número maravilhoso para qualquer serviço de excelência neonatal do mundo!! Portanto, essa ausência de óbitos parece deveras estranha, mas sabemos o quanto é tabu questionar tais números.

O grande problema dessas fantasias disseminadas no universo dos obstetras e parteiras é desnaturalizar a morte neonatal, como se a sobrevivência dos bebês dependesse unicamente da nossa capacidade, abnegação e compaixão. Essa perspectiva irreal torna toda morte neonatal uma tragédia, fazendo a culpa recair sobre o cuidador, que será visto como negligente e incompetente.

Babies die and shit happens“, já nos avisava Marsden Wagner, chefe do serviço Materno-Infantil da OMS para o leste europeu. Criar essa ilusão de excelência é péssimo para o trabalho de parteiras e médicos. A ilusão da infalibilidade é deletéria e produz efeitos nocivos. Criar uma aura de “erro zero” para os profissionais que atendem o parto pode produzir uma expectativa irreal sobre este trabalho, e a conta será inevitavelmente cobrada depois. Sem dó.

Essa postura onipotente poderá ter um preço muito alto. Uma vez vi o filho de uma paciente que havia falecido dizer para um colega médico a respeito do óbito de sua mãe: “Como assim morreu? Hoje em dia a medicina está tão avançada; como não houve cura para ela?“.

Quem brinca de Deus será odiado pelos desastres naturais“, como também dizia o mestre Marsden.

Aqui na província um velho professor (que não fazia plantões há mais de 30 anos) disse durante uma entrevista na TV local que atendeu “mais de 30 mil partos“, e disse essa baboseira com a cara mais impávida e serena. Não passa de um mentiroso e embusteiro. Quem trabalhou nessa área sabe que número de partos é tamanho de falo, com o perdão pela comparação grosseira. Todo garoto descreve proporções exageradas de si mesmo – sempre acima da realidade – mesmo porque poucos estão interessados em ver os “documentos comprobatórios”.

Todavia, é interessante notar que essa “ilusão de excelência” surgiu quando da confrontação do trabalho milenar das parteiras com o modelo médico hegemônico que se estabelecia, onde a morte se tornou palavra maldita e considerada uma falha. As parteiras, para quem a morte tinha outro significado, acabaram por adotar o paradigma da “morte-fracasso” que os médicos instituíram, o que é uma pena; lidar com a morte com mais naturalidade seria melhor para todos. Evidentemente que “encarar a morte como parte da existência” não significa abdicar da luta para manter a vida através da arte e da competência, usando de todos os meios para mantê-la, mas significa reconhecer que ela é nossa única certeza e nosso fim inequívoco.

Por mais que tentemos evitar sua presença obscura, ela faz parte do nosso cotidiano e dos nossos pesadelos mais sombrios. Porém, só os tolos disfarçam o medo que dela sentem ou afastam dos olhos sua miragem. Um bom obstetra ou parteira sabe o gosto que a morte tem e já sentiu seu hálito gelado a lhe trespassar a pele e congelar os ossos.

 

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Cócoras

Há exatos 35 anos iniciei a atender partos em posição vertical no hospital onde fiz residência. A reação dos colegas variava entre o escárnio debochado e a aversão explícita. As explicações que davam na época são usadas até hoje: “civilizadas são diferentes”, “só índias podem/aguentam”, “o períneo enfraqueceu pela vida moderna”, “mulher de cidade não fica acocorada e não sobe em coqueiro”, etc. Nenhuma dessas afirmações se baseia em evidências, mas ainda assim o parto continua sendo tratado da mesma maneira.

Trinta e cinco anos se passaram e o parto padrão em nossas maternidades – públicas e privadas – continua sendo nas posições que favorecem médicos e instituições, mas são profundamente inadequadas para mães e bebês.

O poder é (ainda) mais importante do que as evidências.

“A história é geralmente dura com os covardes, mesmo quando poderosos, e via de regra generosa com os corajosos e ousados, mesmo quando vítimas daqueles a quem denunciaram”

Sergei Kalikowski, “Piratas do Gulag”, Ed Printemps, pag 135

Veja aqui o resumo mais recente sobre posições verticais no parto:

Squating position in birth

Texto de Gail Hart:

BIRTH TOPIC: WOW!

So… here’s a nice study of birth position.
100 women were randomly assigned to birth in lithotomy position – supine (on their backs) and 100 were delivered in the squatting position.

Look at the results:

1. Second and third degree perineal tears occurred in 9% of the lithotomy group, but non in the squatting group.

2. Forceps for delivery was twice as high in the lithotomy (24%) as the squatting group (11%)

3. There were two cases of shoulder dystocia in the lithotomy group, but non in the squatting group.

4. There were no cases of retained placenta in the squatting group, but 4% of the women supine had retained placenta and 1% had postpartum hemorrhage of more than 500cc due to uterine atony.

“”There was no significant difference in the apgar scores, foetal heart rate patterns or requirement of neonatal resuscitation.””

So, wow, that’s a heck of a lot of maternal benefit simply by changing to a more physiological delivery position.

It is time to assign the Lithotomy Position to the Dustbin of History! Indeed, it is long past time!

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Activism

“The same kind of argument (that the activism for normal and physiologic birth is dangerous) is used against every social movement, like ecology, anti-racism, muslims, refugees etc. Why not attack the birth movement as well? The strategy is to use focal problems and to generalize, creating the idea that protecting gays, pregnant women, refugees, children and workers, in fact, hides a “terrible problem”, since activists are “fanatics” and “irresponsible human beings”.

Indeed, that’s what we should always expect when we witness the slow death the old paradigms.”

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Poder e Evidências

 

O Poder vale mais do que as evidências.

Esta visão do processo fisiológico do parto vai perdurar enquanto o parto for classificado pelos homens, e a partir de suas perspectivas. Mas quando vejo este tipo de protocolo eu lembro que eu me insurgia contra esta imposição há 30 anos, e eu já fazia isso baseado nas evidências da época, e não em visões românticas ou pessoais.

O que mais me impressiona é que passadas três décadas de profundas revoluções, em especial no terreno da disseminação de informação, ainda temos uma visão OFICIAL de parto, dissemi ada em.serviços uiversitários, que há 30 anos já era velha.

O que acontece com os donos do parto, que se negam a ver as mudanças na própria ciência e mantém uma visão depreciativa da mulher e suas capacidades? Trinta anos se passarame o mesmo modelo se mantém.

Em verdade o que se expressa nesse papel são os últimos suspiros do patriarcado, uma forma de controlar a mulher cerceando sua liberdade e controlando um dos aspectos mais fundamentais da sua sexualidade.

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