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Repercussões sobre o debate

Legalizar o aborto significa apenas que a gente combina com a mãe que ela não vai morrer. Entretanto, lembrem que é plenamente possível apoiar a humanização do nascimento e ser contra ou a favor da legalização do aborto. Estes são dois assuntos diferentes que possuem suas interfaces, mas podem ser analisados separadamente.

É claro que a humanização e a legalização são temas progressistas e que apontam na mesma direção: protagonismo da mulher e autonomia em suas decisões. Todavia, não existe nenhum problema lógico ou incompatibilidade em ser a favor de um e contra o outro. A minha posição, por exemplo, não é compartilhada por muita gente que debate humanização no Brasil e no mundo: sou a favor da legalização mas jamais atenderia um aborto, por uma questão de “isenção de consciência”. Entretanto, isso não me torna menos “humanizado” pois continuaria a honrar os princípios fundamentais da humanização do nascimento: protagonismo garantido à mulher, interdisciplinariedade e MBE.

Palavras bonitas, cheias de amor à vida, carregadas de paixão por fetos e nenhuma consideração pelas mulheres que morrem todos os dias em abortos clandestinos. Torquemadas e Savonarolas ainda queimam, em nome de conceitos abstratos, bruxas e hereges que ousam se preocupar com seu semelhante.

Ser contra a legalização é permitir que tudo se mantenha como agora, quando milhares de mulheres jovens perdem a vida em abortos clandestinos, a despeito de muitas delas terem orientação e educação. Ser contra a legalização é ser a favor do “Apartheid da morte”, onde ricas abortam e pobres morrem tentando.

A propósito da isenção de consciência, e a aparente contradição do “sou a favor mas jamais faria”, posso dizer que sou a favor de que as mulheres tenham esse direito mas eu não aceitaria fazer isso porque trabalhei a vida inteira com a vida, enquanto um aborto é a interrupção de um projeto de vida. É uma questão eminentemente pessoal. Mais ou menos como “Sou carnívoro mas não mataria uma vaca para comer“. Ou, “respeito as prostitutas e dou apoio às suas reivindicações, mas não uso seus serviços“. Existem muitos exemplos de fatos que lhe atingem pessoalmente, mas que você aceita em um nível social.

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Expropriação do parto

 

Assisti nao mais de 3 minutos da fala de um obstetra do centro do país com o tema “Você quer estar certa ou obter resultados?”. Logo me dei conta de que estava diante da mesma retórica de risco que escuto há 40 anos e que – ao se analisar em profundidade – serve como substrato ideológico para a submissão das mulheres ao controle médico no momento apical de sua feminilidade: o parto. Em suas palavras encontrei o mesmo discurso da “mulher bomba relógio” que justificaria a perda total de autonomia e que colocaria o médico como o único sujeito capaz de tomar atitudes em seu nome. O resumo de sua fala poderia ser “Você quer ser livre ou continuar vivo?”. Ou ainda “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Só vais te manter viva se for por mim“.

Para este médico reduzir-se a uma fiel e subserviente paciente, curvada diante de seu saber absoluto, é a única maneira de sobreviver à terrível jornada da gravidez e do parto. Sua voz parece surgir das catacumbas, colocando para o exterior um paradigma mumificado e bolorento. Entretanto, não há mais espaço no mundo contemporâneo para acorrentar as mulheres a um paradigma que as coloca como coadjuvantes no nascimento dos próprios filhos!!! Não há mais lugar para uma visão iatrocentrica, focada no profissional, sem que a mulher possa escolher como e onde vai parir. Não se justifica mais a falta de conexão com as evidências científicas que mostram o parto domiciliar como tão seguro quanto o hospitalar no que tange mortalidade materna e neonatal, e com inúmeras vantagens acessórias.

O que resta de verdade após escutar essas mensagens de anacronismo e preconceito é que vozes carcomidas pelo tempo e visões antiquadas sobre a mulher e o feminino não devem se manter como hegemônicas; é preciso que a voz dos profissionais humanizados se faça ouvir cada vez mais na Academia e que sejam estes novos modelos os principais canais a informar as pacientes. Chega de ouvir médicos falando sem embasamento científico e sem qualquer conhecimento de causa.

Quando a proposta se resume a “Você quer estar certa ou ter resultados” na verdade estamos diante de outra demanda: o desejo de que se abra mão de toda a autonomia e que se sucumba à ordem hierárquica perversa de expropriação do parto.

Que a onda verde atinja esses médicos para que a liberdade deixe de ser slogan e vire prática cotidiana.

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Vento

 

Passam-se os anos e os ventos não mudam. O mesmo disco quebrado repete em monocórdio o réquiem de uma alma que se foi, condenada pelo desejo, mesmo quando o desejo não é seu. “Assassina, assassina”, vocifera a turba em êxtase ao ver o cortejo, e enquanto isso, como numa procissão macabra, a mulher desfila sua marcha fúnebre, calada, pálida, impedida de oferecer seu testemunho. “Fez-se a vontade de Deus”, diz a moça branca, enquanto do outro lado da rua, de dentro de um carro a voz rouca de um homem grita “Vadia!!”.

“Pobre anjo”, diz a senhora idosa, mas engana-se quem pensou na pobre falecida. Era para o embrião que se escondera no seu ventre o lamento da velha. Para ele as homenagens; para sua mãe o inferno.

Kathy McGuire-Daniels, “The Hell of Ourselves”, Ed. Printemps, pag 135

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Abortos e Armas

 

Como sempre os debates estão emocionalmente determinados e atacam os aspectos morais, e não factuais. Todavia, minha experiência diz que militantes pró-vida não são “matadoras de mulheres” e as ativistas pró-escolha não são “assassinas de bebês”, porém enxergam esta questão por diferentes perspectivas – e AMBAS são válidas.

Eu já estive nos dois lados do debate e me recordo vividamente dos discursos inflamados que fiz na defesa dos dois paradigmas. Em ambos eu achava estar correto e defendendo o bem, a justiça e a vida. Não acho que algo egoísta ou perverso me movia nessas discussões e não acho que eu estava “errado” nas minhas defesas.

Mudei de lado porque a realidade me venceu, mas olho para o meu antigo “lado” de forma compreensiva, mesmo que eu o tenha abandonado há quase 30 anos. Alguns argumentos que leio nas mídias sociais dizem que deveríamos investir em educação como se o problema fosse o “desconhecimento” ou a “ignorância” por parte das pessoas que engravidam sem planejamento ou vontade. Entretanto, posso afirmar que isso não é verdade. Eu mesmo tive dois filhos não planejados enquanto era um estudante de medicina namorando uma estudante de enfermagem. Ignorância? Conte outra…

Mais uma vez eu lembro do debate sobre as armas nos Estados Unidos. Os defensores da “segunda emenda”, que lutam pela liberalidade das armas para o uso quase irrestrito pelos cidadãos, dizem que a educação seria a solução, mas por mais que se fale na TV, nas escolas, nas igrejas ou na internet os massacres se sucedem. Essa é a realidade: a educação não eliminou os tiroteios em escolas.

O mesmo ocorre na gravidez indesejada. Mesmo que, a exemplo das armas, se suponha que algum sucesso tenha sido alcançado, por mais que se eduquem os jovens as gravidezes indesejadas continuarão a ocorrer, levando muitas meninas a ações extremas como os abortos inseguros, e as mortes daí derivadas continuarão a ser um drama afetando, em especial, as camadas mais pobres da população.

A razão para essa discrepância é simples de entender: as motivações para puxar um gatilho ou transar estão muito aquém da racionalidade; elas se escondem nos estratos inferiores de nossa consciência, nos porões sujos e escuros onde moram nossas emoções mais primitivas – como o ódio, o ressentimento e o desejo – onde a razão, como facho de luz que ilumina o entendimento, não consegue entrar para clarear as decisões.

Por isso mudei, mas ainda entendo o fervor de quem defende o lado que um dia eu acreditei ser o mais correto.

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Aborto

Tenho uma certa autoridade para falar sobre interrupção da gravidez. Acho o aborto algo horrível. Nunca faria um aborto, como sujeito, pai, avô ou médico. Fui pai aos 21 anos, ganhava meio salário mínimo, mas o aborto nunca esteve no meu horizonte Todavia, como eu disse, minha opinião e experiência pessoais não tem nenhuma relevância. Existe um drama contemporâneo que precisa ser tratado com coragem.

Passei os primeiros 30 anos da minha vida sendo contrário ao aborto, numa posição ideológica de “proteção ao feto”, proteção à vida e sem aceitar qualquer violência contra indefesos. Entendo exatamente todos os argumentos contrários ao aborto; já os usei e por muitos anos. Entretanto, foi preciso testemunhar o horror e o absurdo da morte de uma jovem de não mais de 25 anos em um plantão durante a residência para saber que o combate ao aborto não resolvia problema algum para os fetos e apenas acrescentava outros para as mulheres em desespero. Não era aceitável ver uma vida ser exterminada por uma gestação indesejada.

Meu choque foi com a crueza da morte, a pele marmórea, os lábios roxos, a mão gelada e o olhar vítreo fixo no teto. A cena não consegue escapar da minha mente, mesmo depois de 3 décadas. Aquela menina foi vítima de nossa insensibilidade, nosso muro social, nossa condenação das pobres ao inferno das curiosas, das agulhas, do Citotec clandestino e do submundo das clínicas de aborto.

Liberar o aborto legal é uma questão de democracia no acesso à saúde. “Ricas fazem aborto, pobres morrem tentando”. Não pode haver real justiça quando as de baixo arriscam suas vidas e as de cima tem todas as vantagens que o dinheiro garante.

Por mais que seja terrível a ideia de exterminar um ser em potencial que cresce no ventre de uma mulher nossa sociedade precisa aceitar que a luta contra o aborto MATA milhares de mulheres jovens era não diminui o número de embriões eliminados. Falhamos.

Precisamos pensar nessas mulheres e suas vidas. Continuar condenando essas meninas à morte precoce é um horror que não cabe mais neste mundo.

Como sou um velhinho de barba branca, quase um Dumbledore, posso dizer que o nível do debate sobre o aborto continua o mesmo dos últimos 40 anos. Lá pelas tantas aparece um “Só Deus pode dar e tirar uma vida“, e aí não resta nada a acrescentar que possa fazer qualquer diferença.

Esse debate parece com aqueles relacionados com a posse de armas nos Estados Unidos. O FATO de que mulheres morrem nos abortos clandestinos e de que crianças morrem nas escolas nos massacres parece ser desimportante diante de valores abstratos como a “liberdade”, “segunda emenda” ou “direito a nascer”. A realidade crua acaba sucumbindo diante das ideologias.

Para posições tão díspares não há convencimento possível, por isso a ação só pode ser política. Só a mobilização das próprias mulheres poderá oferecer o confronto necessário para a mudança. Não se conquistam estas mudanças na estrutura social com conversas e debates.

Sejamos sensatos.

A nossa opinião pessoal sobre o tema é irrelevante. Os dados sobre mortalidade na clandestinidade falam mais alto e por isso a liberação do aborto é uma necessidade, ou se quiserem, um “mal necessário”. E não adianta reclamar, pois já contamos vítimas demais causadas pelo nosso moralismo. O Brasil vai liberar a realização de abortos seguros, com limites reconhecidos por outros países, igual às outras nações do mundo, isso é uma questão de tempo. Aborto legalizado é um passo civilizatório inegável, pois salva vidas e oferece autonomia à mulher sobre seu próprio corpo.

Que a “onda verde” nos atinja!!!

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