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Indignação Seletiva

Parte da esquerda festiva do Brasil agora debocha das solicitações que os bolsominions presos na Papuda e na Colmeia fazem sobre as péssimas condições dos presídios. Usam a mesma retórica da direita punitivista e repetem a frase infeliz do Imperador Alexandre quando este diz que “cadeia não é colônia de férias”, dando risadas dos pedidos que alguns prisioneiros fazem sobre sua dieta – determinada por condições médicas. Outros, entre gargalhadas, insinuam que os golpistas “apodreçam na cadeia”, atitudes que demonstram que boa parte da esquerda nada mais é que uma direita de sinal trocado, incapaz de oferecer uma perspectiva civilizatória, não revanchista e progressista.

Eu prefiro olhar de outra forma. Talvez essa seja uma rara oportunidade, um momento especial para o Brasil branco e de classe média sentir na pele a dureza e a crueldade do sistema prisional medieval que vigora no Brasil. Agora, aqueles que davam risada da prisão injusta e ilegal de Lula, tem a chance de entender o quanto é indigna a vida no cárcere e porque é urgente para a sociedade debater a perspectiva do encarceramento em massa que este país emprega. Muitos relutam em aceitar que não existe justificativa para a desumanidade, e nenhuma desculpa há para o tratamento cruel, violento e degradante oferecido aos detentos nas masmorras brasileiras.

Se a melhoria das condições das penitenciárias e cadeias precisou da entrada abrupta dessa gente branca e limpinha, que assim seja. Desejar que eles sejam mal tratados – da mesma forma como a população preta e pobre sempre foi – é nivelar por baixo ao imitar a crueldade que tanto acusamos, perdendo a oportunidade histórica de mudar as condições de todos os brasileiros presos, inobstante a cor, o gênero, a religião ou o crime cometido.

Não cabe ao Estado ser uma instância de vingança e veículo para nossos instintos mais baixos. Os direitos humanos representam a conquista das sociedades contra a violência do poder absolutista sobre os cidadãos. Jogar fora estes avanços é mergulhar num medievalismo suicida.

Chocar-se – com justiça!!! – pela miséria dos Yanomamis e ao mesmo tempo fechar os olhos para a indignidade dos presídios é hipocrisia ou indignação seletiva, acreditando que alguns sujeitos são mais dignos de direitos humanos básicos do que outros.

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Revolução ou Reformismo?

O século XX nos colocou diante de uma enorme reformulação na forma como entendemos as questões relacionadas à saúde e, em especial, como atendemos partos e nascimentos. Também, no outro extremo, passamos a questionar as maneiras de fechar o ciclo da existência; hoje em dia morremos em salas altamente sofisticadas, em ambientes assépticos e rodeados de maquinário e tecnologia de ponta, onde antigamente havia tão somente a presença da família, dos amigos e dos amores. Em ambas as pontas do circuito da vida percebemos que a tecnologia invadiu de forma inexorável, prometendo a esses eventos mais segurança, ao mesmo tempo em que os desnaturalizava – e com isso os tornava paradoxalmente mais arriscados. Os nossos momentos mais marcantes sofrem uma perda crescente do contato com os aspectos mais sutis da vida – a nossa conexão com a natureza, nossas emoções e as relações amorosas que cultivamos – e, por esta razão, existe uma constante crítica aos caminhos que as sociedades contemporâneas traçaram para lidar com eles.

O Movimento de Humanização do Nascimento há muitos anos lança um olhar crítico às tendências da obstetrícia hegemônica, questionado o caráter intervencionista de suas práticas, que acabam por alijar as mulheres das decisões sobre seus próprios corpos e transformando um evento fisiológico em uma série infindável de intervenções que adicionam, apesar de oferecer mais segurança em eventos limites e de ordem patológica, aumentam o risco ao processo fisiológico de nascer. Hoje em dia em nações industrializadas como os Estados Unidos, mas também no Brasil, a chance de uma mulher passar pela experiência de um parto fisiológico e sem interrupções exageradas (e até abusivas) é de apenas 5%. Ou seja; 95% das gestantes vão se submeter aos procedimentos obstétricos invasivos que surgiram há menos de 100 anos, seduzidas pela ideia de que, sem eles, as mulheres estariam correndo sérios riscos, tanto para si quanto para seus filhos. Todavia, ao contrário da avalanche alienante e invasiva do modelo obstétrico contemporâneo ocidental, milhares de artigos e estudos atestam a falsidade destas propostas, e apontam o parto normal e vaginal como a maneira mais segura de parir e nascer.

A verdade é que, mesmo reconhecendo a importância da tecnologia aplicada à saúde – das cesarianas às UTIs sofisticadas – é inegável que houve um exagero ao se colocar nas mãos de cirurgiões a condução prioritária de um processo fisiológico e natural como o parto. Fica claro que, sendo formados e treinados intensamente para as intervenções salvadoras e para medidas emergenciais e dramáticas, os médicos obtém sua respeitabilidade e valor social através da utilização dessas ferramentas. É ingenuidade imaginar que formaremos profissionais capacitados para tarefas importantes e complexas como estas e depois os impediremos de utilizá-las livremente. Por esta razão, não é justo para a população – e menos ainda para os médicos – que a tarefa da atenção fisiológica do parto esteja delegada preferencialmente a estes profissionais, que seriam muito mais bem aproveitados se colocados na linha de frente das ações salvadoras e heroicas, e não na atenção cotidiana ao nascimento fisiológico e de risco habitual.

Para a tarefa de acompanhar e assistir os partos eutócicos (de risco habitual) já temos profissionais cujo história na atenção aos processos femininos de gestar, parir e amamentar remontam à aurora da humanidade. São as parteiras profissionais – enfermeiras obstétricas, obstetrizes (estas com formação superior) e parteiras tradicionais em suas comunidades – aquelas que realizam esta tarefa com a máxima qualidade e com segurança superior. Elas são as mais capacitadas para distinguir os processos que estão disfuncionais e encaminhá-los para os profissionais médicos. São elas as profissionais mais qualificadas para a atenção do parto normal, pois congregam os ensinamentos técnicos para uma atenção segura com a especial característica afetiva, emocional, social e espiritual de cuidar das mulheres em seus períodos de transição. O novo paradigma da Parteria precisa se apoiar sobre o trabalho destas profissionais, porém sem jamais negar a importância do trabalho médico em atuar nas franjas do processo, naqueles especiais momentos em que a rota da fisiologia dá lugar aos caminhos tortuosos e perigosos da patologia.

“As estimativas extraídas de estudos indicam que onde ocorrem intervenções realizadas por parteiras profissionais, como planejamento familiar, controle do diabete, parto assistido e apoio à amamentação, 4.3 MILHÕES de vidas poderão ser salvas por ano até 2035″

Não há mais dúvida de que o mundo ocidental não pode aceitar as promessas de um “reformismo obstétrico” imaginando treinar – ou condicionar – profissionais para uma conduta mais suave, mais embasada em evidências, menos intervencionista quando é da essência da própria prática médica a intervenção sobre o corpo doente para lhe restaurar a saúde. Todavia, o parto não se adapta a esta lógica pois não há saúde a ser restaurada, apenas para ser mantida. E para esta tarefa é muito mais importante o suporte, o cuidado, a proximidade e a empatia entre a profissional do cuidado e aquela mulher que está parindo. Esta é a tarefa para qual a parteria está qualificada e sempre demonstrou resultados superiores.

O pensador austríaco Wilhelm Reich (1897-1957) já dizia que “A civilização começará no dia em que o bem-estar do recém-nascido prevalecer sobre qualquer outra consideração.” Ou seja, não podemos mais admitir que a atenção ao parto e ao recém nascido com segurança, qualidade e com os profissionais mais adequados seja condicionada por questões econômicas, políticas, religiosas ou de qualquer outra ordem diferente do nem estar das mães e dos bebês. A transformação deste paradigma se dará também com o questionamento cada vez mais intenso do capitalismo aplicado à saúde e a vinculação dos tratamentos às grande corporações farmacêuticas. A maior utilização de “Tratamentos e práticas complementares” como acupuntura e homeopatia entre outros, é um passo nesse sentido, e todo profissional de saúde deveria adquirir conhecimentos destas alternativas para oferecer uma ampla gama de possibilidades terapêuticas às gestantes.

Precisamos desmedicalizar a vida, em especial suas pontas: nascimento e morte. É urgente uma “revolução do parto“, onde as ordens hierárquicas sejam transformadas para que os valores da segurança e satisfação de mães e bebês estejam acima de qualquer outra consideração, e onde os profissionais ocupados com o nascimento sintam-se plenamente realizados ao participar desta grande aventura da vida.

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English version

The 20th century has put us in front of a huge overhaul in the way we assist births. Also, at the other extreme, nowadays we die in highly sophisticated rooms, in aseptic environments and surrounded by state-of-the-art machinery and technology, where in the past there was the presence of family, friends and loved ones. At both ends of the circuit of life, we perceive that technology has inexorably invaded, promising more security to these events while, at the same time, denaturalizing them. These moments now suffer a growing loss of contact with the subtle aspects of life – our own connection with nature, our emotions and the loving relationships we cultivate – and, for this reason, there is a constant criticism on the paths that human beings have traced to deal with them.

The Movement for the Humanization of Birth all over the world has been debating the trends of hegemonic obstetrics for many years by questioning the interventionist tendency of its practices, removing women from decisions about their own bodies and transforming a physiological event into a series of interventions that add risk to the process. Nowadays in industrialized nations like the United States, but also in my country Brazil, the chance of a woman going through the experience of a physiological birth without exaggerated and even abusive interruptions is only 5%. Around 95% of pregnant women will undergo invasive obstetric procedures that emerged less than 100 years ago, with the illusion that, without them, all women would be at serious risk.

The truth is that, even recognizing the importance of technology applied to health – from cesarean sections to sophisticated ICUs – it is undeniable that there was an exaggeration in its overuse and in placing the management of a physiological and natural process – such as childbirth – in the hands of surgeons. It is clear that, being educated and trained intensively for lifesaving interventions and dramatic measures, physicians obtain their respectability and social value through the use of these tools. It is naive to imagine that we will train qualified professionals for important and complex tasks and then prevent them from using them freely. For this reason, after more than 30 years working with childbirth care, I realized that it is not fair to the population – and even less to doctors – that the task of physiological childbirth care is delegated primarily to these professionals, who would be very best used if placed at the forefront of lifesaving actions rather than in the daily attention to normal birth.

For this task, we already have professionals whose history in the attention to the female processes of gestating, giving birth and breastfeeding goes back to the dawn of humanity. It is the midwives – nurse midwives, midwives and traditional midwives in their communities – who perform this task with maximum quality and superior safety. They are the most qualified professionals for normal childbirth care, as they bring together the technical teachings for safe care with the special affective, emotional, social and spiritual characteristic of caring for women in their transition periods. The new paradigm of midwifery care needs to rely on the work of these professionals, but without ever denying the importance of medical work in acting on the fringes of the process, in those special moments when the route of physiology gives way to the tortuous and dangerous paths of pathology.

There is no longer any doubt that the western world cannot accept the promises of an “obstetric reform” imagining that training – or conditioning – obstetricians for a smoother, more evidence-based, less interventionist assistance could produce good outcomes. Indeed, intervention over the sick body to restore its health is the essence of medical practice itself, but childbirth does not adapt to this logic because there is no health to restore, only to maintain. And for this task, support, care, proximity and empathy between the caregiver and the woman who is giving birth are much more important.

The transformation of this paradigm will also take place with the increasingly intense questioning of capitalism applied to health and the linking of treatments to large pharmaceutical corporations. The greater use of “Complementary treatments” such as acupuncture, homeopathy, among others, is a step towards this goal, and health professionals should be aware of these alternatives to offer a wide range of therapeutic possibilities to pregnant women. 

We need to demedicalize life, especially its most crucial points: the beginning and the end, birth and death. There is an urgent need for a “childbirth revolution”, where hierarchical orders are transformed so that the values ​​of safety and satisfaction of mothers and babies are above all other considerations, and caregivers can be fully satisfied by participating in that great adventure of life.

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Partos, culpas e responsabilidades

Muito já se debateu sobre as estratégias para mudar a narrativa do parto normal fazendo com que os eventos fisiológicos do parto passassem a ser tratados como o “normal do nascimento”, enquanto as intervenções se limitassem às exceções, utilizadas tão somente na vigência de condições de risco aumentado. Este sempre foi o sonho de todo ativista da humanização, entretanto os avanços ainda são tímidos diante dos poderes concentrados na corporação médica e a visão intervencionista que se instalou como modelo hegemônico de atenção ao nascimento.

Todavia, hoje em dia é exatamente o oposto desta lógica o que ocorre nas sociedades industrializadas ocidentais. No Brasil menos de 5% das mulheres conseguem ultrapassar as dificuldades específicas do parto sem serem submetidas a múltiplas intervenções médicas – a maioria delas intempestiva, inútil, invasiva e/ou perigosa. Esta constatação é a imagem clara da forma como a sociedade enxerga o parto – perigoso, traiçoeiro e imprevisível – mas também a própria mulher – defectiva, falha, incompleta e indigna de confiança. O controle sobre o parto se insere nas disputas sobre a reprodução/sexualidade e reproduz a ideologia corrente.

A estratégia utilizada para transformar a prática da atenção ao parto para um modelo mais seguro, desmedicalizado e natural foi durante décadas centrada no discurso ufanista da “meritocracia feminina” que nos fez acreditar que “se a mulher realmente desejar….” ela terá seu tão sonhado parto normal em suas múltiplas formas – vaginal, cócoras, na água, domiciliar, na casa de parto, etc…

Na resta dúvida que o desejo é um elemento fundamental na conquista do parto fisiológico. Sem que a paciente esteja imbuída do claro interesse, materializado em ações positivas, nenhum contexto a fará aumentar suas reais chances. Podemos chamar esta postura como a “pedra fundamental” sobre a qual as outras se assentam. Mais ainda, para que este desejo floresça há que se oferecer, desde o nascimento, uma perspectiva positiva do parto, trabalhando esta imagem e incorporando-a ao repertório de conceitos – das meninas em especial.

Entretanto, a simples postura propositiva das mulheres será insuficiente para o resultado final, e sobre isso não há dúvidas. “O parto é um evento social que ocorre no corpo das mulheres”, e isto significa que o parto que ocorre nos indivíduos é um retrato do contexto social onde se encontra inserido. Sociedades constritivas, ditatoriais e violentas terão partos igualmente abusivos, enquanto as sociedades justas, equilibradas e dignas vão expressar no momento do nascimento os valores do seu campo simbólico social.

Desta forma, aumentar a pressão sobre a iniciativa das mulheres, como se (somente) delas dependesse o resultado do parto, é colocar sobre elas uma responsabilidade injusta e até desumana. Recaem sobre elas inúmeros boicotes – recônditos ou explícitos – que as desviam da rota para um nascimento fisiológico e seguro, sendo o principal deles a ideologia dos cuidadores. Toda a mulher imbuída do puro desejo por um parto normal sabe o quanto a postura negativa de um profissional pode ser determinante para o fracasso do seu intento.

Cabe aos profissionais envolvidos com o parto (e que entendem a dinâmica complexa e delicada deste evento), retirar a pressão excessiva sobre as mulheres sem desmerecer sua importância, ao mesmo tempo em que reconhecem a imensa importância dos contextos e das circunstâncias na construção de um fracasso – ou sucesso. Abandonar a retórica meritocrática é um passo nesse sentido.

Outro passo essencial é entender que qualquer evento humano – em especial o parto, que conjuga em um só momento morte, vida e sexualidade – jamais acontecerá num vácuo social, e estará inexoravelmente embebido na amálgama de valores que nos circundam

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Sol e Lua

Por certo que precisamos de propostas para a melhoria da atenção ao parto e a todos os fenômenos relacionados aos ciclos femininos, mas é necessário fugir do idealismo que, tal qual uma sereia sedutora, nos leva a crer em soluções parciais para problemas estruturais. É importante reconhecer que as ideias por si só são estéreis, incapazes de produzir as mudanças que pretendemos. Um exemplo clássico é de que as episiotomias são inúteis e prejudiciais, um fato comprovado há mais de três décadas, e mesmo assim ela continua sendo usada indiscriminadamente em nosso meio, exatamente porque a mudança nestas atitudes sedimentadas pela cultura médica não se dá pelas ideias, mas pela confrontação e pela luta. Precisamos, portanto, de uma perspectiva materialista para o nascimento.

O mesmo ocorre com a ideia – bem estabelecida por estudos multicêntricos ocorridos há várias décadas – de que é essencial para a saúde coletiva interromper o abuso de cesarianas, assim como as centenas de outras intervenções indevidas que ocorrem no ambiente hospitalar do parto, reconhecidamente inúteis e perigosas para o binômio mãe-bebê. Portanto, a agenda – além de positiva – precisa ser propositiva, centrada nas lutas que garantam o protagonismo e que estabeleçam uma relação centrada na liberdade ampla e irrestrita de escolhas, respeitando amplamente os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres e suas famílias. Mais importante ainda é entender que essa luta será conduzida pelas mulheres, legítimas condutoras do processo, contando com a valiosa ajuda dos profissionais de vanguarda da obstetrícia e da parteira.

Fora dessa perspectiva resta apenas o que se pode chamar de “reformismo obstétrico”, uma plataforma de propostas que se baseia na perspectiva da solução para os dilemas obstétricos através da simples proliferação de obstetras humanistas – profissionais mutantes e bizarros, fixados em sua perspectiva de respeito às evidências – que não passam de meia dúzia de ilhotas minúsculas em um oceano gigantesco de “mesmices” que apenas replicam o modelo anacrônico, personalista, intervencionista, misógino e centrado nos valores do capitalismo que caracteriza a assistência ao parto nos grandes centros do ocidente. Imaginar que a reforma estrutural da obstetrícia se dará sobre as mesmas diretrizes intervencionistas de hoje – mantendo os mesmos atores no comando – é uma ilusão que não podemos nos permitir.

A ruptura com o reformismo obstétrico – que pretende mudar a fachada para não transformar a estrutura – será a grande tarefa da nova geração de ativistas e cuidadores.

Por fim, uma curiosa constatação: no que se refere ao parto as mulheres são o sol, enquanto seus cuidadores são a lua. Aquelas produzem a energia e a luz feérica do nascimento enquanto estes refletem com humildade e respeitosamente o brilho que capturam do momento. Qualquer inversão destes papéis significa uma perversão significativa na essência desse evento, um eclipse que desfaz o brilho de um às custas da intromissão do outro.

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ENAPARTU

ENAPARTU – Sorocaba, julho 2012

Há 10 anos se realizava o ENAPARTU – Encontro Nacional de Parteria Urbana – uma ideia criada para regulamentar, fortalecer e normatizar a parteria nas grandes cidades e através de parteiras profissionais habilitadas. Foi um movimento que pretendia criar dentro da ReHuNa (Rede pela Humanização do Nascimento) um departamento exclusivo para a questão do parto urbano, numa perspectiva revolucionária, rompendo as amarras autoritárias relacionadas ao parto e estimulando o debate aberto e franco sobre nascimento humano, feminilidade, patriarcado, autonomia e suas relações com a parteria.

O movimento tinha ideias e propostas avançadas (demais?) para sua época. Ainda estamos patinando no enfrentamento necessário à corporação e nas propostas de multilateralidade. Vivemos ainda no universo unipolar da obstetrícia, sem perspectivas de curto prazo para abrir outras opções em nível sistêmico.

Apesar de eu ter me afastado em definitivo de qualquer participação institucional sobre o parto ainda acredito na necessidade das redes e das associações e reconheço a importância desse centralismo como propagador de ideias e na produção de representatividade política. Espero que esse congresso possa servir de semente para o florescimento de uma corrente revolucionária para a parteria.

Talvez eu não tenha mais a oportunidade de ver em vida um congresso relacionado ao nascimento igual a esse – em outras bases e com outros personagens – mas as ideias de protagonismo garantido às mulheres, interdisciplinaridade e atenção baseada em evidências sobreviverão à minha partida e não serão jamais abandonadas, pois que estão contidas na essência da liberdade, meta última do ser humano.

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Desilusões

Quem, afinal, não está “desencantado” com o horror da vida real?

Creio que o problema que muitos de nós temos com os Movimentos de Humanização ocorre pela ilusão que se cria sobre esse movimento. Profissionais são atacados de forma absolutamente cruel, e fica evidente o quanto as teses que sustentam esse movimento incomodam os representantes da corporação médica.

Marsden Wagner, pediatra e epidemiologista americano que dividia seu trabalho entre os Estados Unidos e a Dinamarca, por muito tempo colecionou histórias de médicos perseguidos pelo sistema e pela corporação (tal como ele foi) para organizar um livro que se chamaria “The Vigilante Doctor”. Infelizmente sua morte em 2014 o impediu de lançar este livro onde pretendia mostrar que existe um padrão nestas perseguições, o qual precisa ser entendido para que os médicos dissidentes possam se proteger.

Basicamente, estes ataques não ocorrem porque um profissional cometeu erros, por ter insucessos clínicos ou mesmo na ocorrência de uma negligência grave; muito menos porque suas ações não possuem embasamento em evidências. Fosse assim e os médicos brasileiros com taxas absurdas e indecentes de cesarianas seriam atacados pelos seus Conselhos Profissionais, mas o que ocorre na realidade é que são até protegidos. Quando analisamos os casos que acontecem no mundo inteiro fica claro que o afastamento das evidências científicas não é determinante para a sanha punitiva da corporação e, na visão de Marsden Wagner, o que conta mesmo para a perseguição é o quanto as ideias e a prática destes profissionais desafiam os valores e os poderes da corporação, em especial a ameaça à dominação de determinados setores da atenção médica.

No parto não poderia ser diferente, pois a ação da obstetrícia ocorre em um ponto de choque evidente, um terreno extremamente acidentado. Uma história de milênios de cuidados oferecidos por parteiras e que subitamente foi trocado pela suprema intervenção no século XX, o que demandou a submissão completa das mulheres à ação dos profissionais médicos. Por esta razão, o parto de cócoras, parto vaginal, partos em Casa de Parto, partos domiciliares, a luta pelo protagonismo da mulher, a crítica à episiotomia e à litotomia, etc, são atacados com enorme ferocidade pelo potencial de atingir as bases de dominação da medicina sobre o evento do parto. Nestes casos, as evidências científicas são pouco ou quase nada úteis, pois a inequívoca subjetividade nas avaliações torna fácil esconder erros em cesarianas ao mesmo tempo em que é simples criá-los do nada em partos vaginais ou fora do contexto hospitalar.

Outro conselho importante de Marsden Wagner: para ele é sempre fundamental tomar cuidado com os “médicos “liberais”, aqueles que aceitam os postulados da Medicina Baseada em Evidências e que reconhecem os abusos intervencionistas da obstetrícia contemporânea, pois que estes são os mais perigosos personagens. Aqui se encontra outro ponto em que a prática médica e a política tem muito em comum. Os políticos liberais, com sua postura revisionista e conciliatória, são muitas vezes os que mais atrapalham as verdadeiras mudanças estruturais. Existe mais perigo nas atitudes defendidas por alguns professores – que se escondem atrás de uma posição de respeito às evidências médicas – do que um cesarista convicto. Nesse aspecto, os primeiros são mais perigosos (porque escamoteados) do que os últimos (porque evidentes).

Essa falta de sintonia entre a ciência e a prática ocorre porque esses sujeitos – por viverem em ambiente acadêmico – não conseguem mais esconder as evidências científicas sobre a adequada atenção ao parto e nascimento, mas estão fortemente presos aos velhos paradigmas por laços corporativos, construídos por décadas de camaradagem, companheirismo, dívidas afetivas e compromissos acadêmicos. Não se trata de uma questão racional/científica, mas psíquica/afetiva.

Nos julgamentos de profissionais que desafiam o sistema centrado nos médicos, nas doenças e no capitalismo aparece todo o juízo pervertido que trata estes médicos como “adversários” sendo julgados pelo que são (uma ameaça ao sistema) e não por algo que tenham feito. Prevalece a justiça dos inimigos, onde acusação e juízes atuam em parceria para atacar um inimigo em comum. Enxergam os médicos da humanização como adversários a serem esmagados, porque subvertem a lógica de submissão que sempre tiveram em relação aos pacientes e às outras profissões da saúde.

Talvez o pior entrave para os nossos objetivos seja a fantasia – por muitos compartilhada – de que a humanização do parto seria estabelecida no terreno das ideias, através da confrontação de paradigmas, estudos e pesquisas, prevalecendo aquelas propostas que dessem garantias de resultados mais consistentes para a tarefa de oferecer às mulheres mais segurança e satisfação no parto dos seus filhos.

Já compartilhei dessa ilusão e sei bem o sabor amargo de perder os sonhos; minha queda foi igualmente dolorida. Por outro lado, sei também a sensação de liberdade que nos toma ao perceber que os sonhos não precisam ser abandonados apenas porque o caminho para segui-los estava equivocado.

A humanização do nascimento se dará no terreno das lutas materiais, e não sob a letra insípida das ideias. A humanização vai ocorrer nas maternidades, nos postos de saúde, nos corredores de hospital, e não nos livros ou na Academia. As ideias serão sempre a carruagem a ser puxada pelo corcel das lutas reais sobre a autonomia dos corpos. As propostas de humanização do nascimento já foram pensadas como uma pedagogia, uma forma de educar mentes que não percebiam a história completa de um parto. Todavia, hoje sabemos que a simples confrontação com estas realidades produz resultados pífios ou ausentes. Com o tempo percebemos que a batalha pelo nascimento digno se dá na confrontação direta, na briga, na pressão, retirando de cena os velhos atores para garantir às mulheres a posse do seu destino.

Para sofrer a dor de uma grande desilusão foi necessário, como primeira e quase inevitável etapa, iludir-se com o poder das ideias. Só depois da queda desta fantasia será possível compreender a materialidade da luta, a conquista pelo enfrentamento, escorado-se no fato de que nenhum poder é oferecido de graça, menos ainda o poder sobre a sexualidade das mulheres.

Que seja bem vinda a desilusão. Que sirva de trampolim para as novas etapas.

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Roe vs Wade

Foto: Lorie Shaull / Wikimedia. Norma McCorvey é a da esquerda ao lado de sua advogada Gloria Allred

A Suprema Corte americana derrubou nesta última sexta-feira (24 de junho) a sua própria decisão de 1973 sobre o tema do aborto – tomada no ápice das manifestações americanas por direitos humanos e contrárias à guerra do Vietnã – que ficou conhecida como “Roe versus Wade”.

O nome “Roe vs Wade” surgiu em um caso famoso nos Estados Unidos protagonizado por uma mulher solteira chamada Norma McCorvey que, insurgindo-se contra uma lei do Texas que considerava o aborto ilegal, processou os Estados Unidos exigindo que os princípios de autonomia e inviolabilidade do seu corpo fossem garantidos para que pudesse realizar uma interrupção legal da sua gestação. Para garantir sua privacidade em um julgamento que envolvia a questão delicada do aborto, ela foi chamada de “Jane Roe”. No final, este julgamento histórico da Suprema Corte derrubou a constitucionalidade da lei do Estado do Texas que considerava o aborto um ato criminoso. O promotor público do caso se chamava Henry Wade, e por esta razão o caso se tornou mundialmente conhecido como “Roe vs Wade”.

* É bom lembrar que o caso foi julgado 3 anos depois da queixa, quando ela já havia ganhado seu filho e dado para adoção. Mais um exemplo de justiças que falham por tardar *

Estranhamente, Norma McCorvey aderiu ao movimento anti-aborto americano em 1995, tendo sido “convertida” por um pastor de sua cidade. Seu arrependimento foi expresso no livro “Won by Love” (Vencida pelo Amor), mas depois descobriu-se que ela foi paga pelos conservadores americanos dos movimentos “pró-vida”, tendo sido sustentada por eles até o fim de sua vida. “O ex-líder da Operação Resgate Rob Shenck, que mais tarde renunciou ao movimento antiaborto, disse aos jornalistas que eles temiam que ela pudesse desertar, então foi paga para permanecer do lado deles. Quando apareceu o depoimento de McCorvey sobre ser paga, Flip Benham, o pastor que a batizou na piscina, afirmou sem qualquer sinal de arrependimento: “Sim, mas ela escolheu ser usada. Isso se chama trabalho, é isso que você é pago para fazer”.

Foto: Washington Post

Esta decisão da suprema corte garantiu em todo o território americano o direito ao aborto, baseado nas ideias liberais de autonomia e cidadania. Com a decisão do dia 24 não haverá uma proibição ou criminalização imediata dos abortos, mas a decisão será garantida aos estados da federação, que por sua vez terão o poder de definir se garantem ou proíbem aos seus cidadãos esse tipo de procedimento. O temor dos grupos “pro-choice” (a favor da escolha soberana da mulher) é de que metade dos Estados americanos terão normas proibindo ou dificultando ao máximo a realização de abortos, em especial os estados do meio-oeste – o “Bible Belt” (cinturão da Bíblia) – mais conservadores, religiosos e ligados ao partido Republicano.

Diferente da Suprema Corte brasileira (o STF) a Suprema Corte dos EUA é composta por apenas 9 membros. No atual julgamento, seis deles votaram a favor da derrubada da decisão “Roe vs Wade”, enquanto outros 3 permaneceram ao lado do direito das mulheres de disporem livremente sobre seus corpos, inclusive para interromper gestações indesejadas. Os 3 ministros da suprema corte indicados por Donald Trump (Gorsuch, Kavanaugh e Barrett) votaram, como era de se esperar, a favor da derrubada da jurisprudência que garantia o direito ao aborto em nível nacional.

Aqui se pode estabelecer uma linha clara entre a decisão da suprema corte americana e os abusos do STF no que diz respeito à livre expressão, conforme determinado pela Constituição Federal. O fato é que os judiciários americano e brasileiros se tornaram órgãos legisladores. Por incompetência do legislativo de ambos os países, ou pelo furor que o poder desperta nesses personagens, o debate sai do parlamento e adentra as salas dos tribunais constitucionais. No caso do Brasil, pela fragilidade das instituições e pelo oportunismo político, permite-se que ministros – como o famigerado Alexandre de Moraes – use de seu poder para interpretar da sua maneira pessoal a Constituição Federal, inclusive indo de forma despudorada contra o que está explicito em seu texto. Assim, uma instância decisória não eleita tem mais poderes do que o executivo e o legislativo. A ditadura jurídica que se instala no Brasil é muito mais dramática e trágica do que o desastre do bolsonarismo, tendo em vista o fato de que podemos trocar o presidente em menos de 100 dias, mas o ministro – inobstante as agressões que fizer à Constituição – só poderá ser retirado em 2043 (dentro de 21 anos) quando for pego pela aposentadoria compulsória.

Suas atitudes impondo censura à imprensa do PCO e contra as críticas realizadas à sua atuação como ministro sequer merecem ser chamados de “censura”, pois que esta se aplica à ação prévia à publicação de uma notícia ou opinião que desagrade aos poderosos. Não, é pior do que isso: ele impede que a imprensa funcione dentro do preceito constitucional de livre e irrestrita expressão, o que configura uma ação ditatorial digna das ditaduras mais fechadas do mundo.

Um país que se pensa democrático jamais poderia tolerar que sua constituição fosse usada de forma arbitrária por juízes que, no caso de Alexandre de Moraes, só entrou para o STF após um golpe de estado claro e inquestionável, com a retirada da presidente Dilma e o surgimento da figura nefasta de Michel Temer, patrocinado pelos grupos mais reacionários e golpistas deste país.

Desta forma faz-se urgente uma reforma na Suprema Corte do Brasil, que limite os abusos de ministros e que diminua a poder desmedido que estes personagens tem nos destinos do país. Caso contrário, as eleições serão tão somente encenações patéticas para ludibriar o povo, que continuará governado por um judiciário venal, acovardado, anti democrático e ditatorial.

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O Ocaso do Parto

* Fragmento da minha conversa com Edson Souza, após o encontro da Lillie Excellence em Delhi…*

Quando eu era estudante de medicina a realização de uma cesariana sem indicação era considerada “tarefa de preguiçoso” ou de quem não conhecia as “técnicas”. Durante a residência um professor (que hoje dá chilique quando houve o termo “violência obstétrica”) disse durante um encontro com os alunos que “um médico que faz uma cesariana nunca sai da sala com a cabeça baixa, mas o mesmo não se pode dizer de quem atende um parto normal”. Eu percebi nessa frase a ideia de que a “posição da cabeça” estava se tornando mais importante do que a arte e o cuidado na atenção ao parto. Os médicos estavam se tornando, de forma crescente, cada vez mais amedrontados com o nascimento, e as ações que eles conduziam eram moduladas por este sentimento, que assumia uma posição de destaque diante das decisões a tomar.

Hoje em dia são os parteiros remanescentes que precisam se explicar por suas escolhas, pois a opção pelo parto normal se tornou uma escolha esdrúxula. digo isso porque, sim, eu acredito na possibilidade de que o parto vaginal venha a ser exterminado e proscrito da experiência humana. Penso que poderá ocorrer que a cesariana, cada vez mais segura, passe a ser o mecanismo de escolha para todos os nascimentos. Não pensar nessa possibilidade é ignorar que não seria a primeira de nossas escolhas desastrosas na historia da medicina – até porque garantir à Medicina o controle sobre o parto normal foi, ao meu ver, a mais escandalosa de todas elas.

A questão é que o modelo de atenção ao parto no ocidente – isto é, nos países satélites da medicina tecnocrática do Império – é o mais insensato possível. Regido pelo signo do medo, através do paradigma tecnocrático e do imperativo tecnológico, ele é mantido na esperança de que os partos normais sejam paulatinamente desencorajados, abolindo a alternativa normal ou fisiológica, que ficaria restrita somente àqueles nascimentos acidentais, situações onde não haveria tempo suficiente para submeter as pacientes à intervenções e técnicas da medicina.

Hoje as pessoas que atendem o parto no Brasil são em sua maioria médicos, sujeitos treinados na lógica da intervenção, na utilização de ferramentas – drogas ou cirurgias – para atuar em processos desviantes e patológicos. Como poderíamos imaginar que, profissionais que recebem esse tipo de treinamento e incentivo econômico, pudessem se interessar pela atenção fisiológica e natural do parto? Por que deveriam os médicos se interessar por algo inscrito na memória celular das mulheres como parte de seu arsenal de respostas sexuais, se sua propensão é sempre usar sua arte para intervir, mudar rotas e transformar?

A ideia de oferecer a assistência ao parto normal e de risco habitual para cirurgiões é provavelmente a mais desastrosa escolha da história do cuidado à saúde. Todas as pesquisas apontam que as parteiras profissionais têm os melhores resultados quando a atenção às pacientes de baixo risco (risco habitual) é avaliada. Entregamos aos médicos uma tarefa que eles não gostam, não entendem, não são treinados suficientemente e cujas abordagens – psicológica, emocional, cultural, social, e espiritual – são historicamente negligenciadas pelas escolas médicas, que se preocupam na resolução de problemas e no tratamento de patologias, urgências e emergências.

Ao invés de oferecer à Medicina a patologia, ofertamos o poder de controlar todo o campo de atenção ao parto, obrigado estes profissionais a tratar a normalidade do nascimento, algo que lhes causa enfado ou rejeição. Não deveria surpreender a facilidade com que a atenção contemporânea ao parto transforma a maioria dos nascimento em eventos cirúrgicos, com acréscimo de intervenções, drogas, procedimentos em cascata e riscos aumentados.

A recente reafirmação do parto como “evento médico” e a liberdade cada vez maior por parte das mulheres para livremente escolher a via de parto – mas não o local de parto – sinaliza que a autonomia oferecida a elas só aumentará a aumentar quando estes desejos estiverem alinhados com os interesses dos médicos. O resultado inevitável é o aumento de cesarianas, cada vez menos partos vaginais atendidos, menor experiência dos jovens médicos (o que já se vê com partos gemelares e pélvicos), mais medo, mais insegurança e maior pressão para escolher o nascimento cirúrgico. Na medida em que os partos normais desaparecem, também a capacitação para a atenção ao parto se torna uma habilidade cada vez mais rara, relegada a poucos sonhadores e profissionais dedicados.

Talvez ocorra um tempo em que o parto não será mais do que a pálida lembrança de um tempo selvagem, que tomamos conhecimento através das gravuras estranhas em páginas da história da Medicina. Esse foi um tempo onde as crianças nasciam através das dores de suas mães, o parto ocorria pelo esforço delas e pela suplantação de suas dificuldades, medos e barreiras. Nessa época o entorno psíquico e emocional produzia o solo adequado para o florescimento da maternagem e dos processos de vinculação mãebebê. Talvez sejamos as últimas gerações nas quais o parto normal ainda é uma opção legítima. Se hoje a corporação médica persegue de forma odiosa as opções de onde nascer, talvez em breve médicos e parteiras sejam perseguidos por escolherem a via normal, então tornada criminosa e ilegal.

Que civilização desconectada com sua essência se tornará essa que estamos lentamente criando?

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Parto, ideologias e modelos

Escrevi um texto sobre a humanização do nascimento (seguido de uma resposta complementar) em que eu criticava o abuso de cesarianas no nosso meio, além de reconhecer a importância dos paradigmas e as ideologias que comandam o pensamento no que diz respeito ao parto e à própria medicina. Muitas pessoas criticaram abertamente o texto, sendo que em uma destas críticas um médico dizia que havia uma “criminalização das cesarianas” por parte de “identitários do parto humanizado”.

Bem, não há porque se surpreender com este tipo de crítica, até porque a cesariana – recurso tecnológico em substituição aos processos fisiológicos do nascimento – por estar sob o controle dos médicos e do sistema hospitalar pareceria – à visão desarmada – ser a forma mais segura e menos danosa de parir. O entusiasmo inicial com esta cirurgia – capaz de salvar vidas quando a fisiologia do nascimento dá lugar aos caminhos espinhosos da patologia – acabaria produzindo sua disseminação mundial muito rápida. No início dos anos 80 a taxa de cesarianas no Brasil era de 24% e no início da 3a década deste século já temos mais do que o dobro: 56% do bebês do Brasil nascem através de uma cesariana, sendo que na classe média – no setor privado e nas “medicinas de grupo” (Unimeds, Amil, Sulamérica, etc.) – a taxa de cesarianas se aproxima de 90% de todos os nascimentos. A forma mais “normal” de nascer no Brasil é através de uma cirurgia abdominal de grande porte, carregada de custos e riscos associados. Por esta razão pensadores do mundo inteiro, e também do Brasil, começaram a questionar sobre qual o real sentido da suprema artificialização do processo de nascimento e quais as consequências dessa perspectiva para a própria humanidade.

Entre as críticas à minha matéria algumas foram formuladas por pessoas pelas quais tenho profunda admiração por sua postura política e como pensadores com abrangência em várias áreas do conhecimento. Em verdade, a principal crítica foi pela dificuldade em aceitar um termo utilizado na matéria, quando falei que para entender o novo paradigma de atenção ao parto era necessário “descolonizar mentes“. Essa expressão foi alvo de críticas, pois dava a entender que se tratava de uma postura idealista.

Ora, eu não cobraria de ninguém que viesse a entender as engrenagens da assistência médica ao parto, algo que refleti durante 40 anos, mas me parece um equívoco acreditar que para combater o idealismo é necessário afirmar que “as ideias de nada valem”. O idealismo parte do pressuposto de que o mundo não pode ser compreendido e que os sentidos humanos deturpam a análise das coisas exteriores. Ora, as ideias movem o mundo e o mundo como podemos enxergar é constituído por elas. Quando se diz que a “mudança das ideias não modifica nada” é um erro. As ideias impulsionam as ações. Enquanto solitárias elas serão estéreis e infrutíferas, mas sem as ideias as ações são caóticas e incapazes de produzir transformação. Além disso, a proposta de que o problema da violência no parto seria solucionado com a simples suplantação do capitalismo não passa de uma ilusão. Um exemplo fácil é a constatação da brutalidade da assistência aos partos na União Soviética, baseada na atenção médica, intervencionista, tecnocrática e mecanicista do parto.

Os dilemas e as concepções sobre o corpo e seus limites não poderiam se esgotar somente pela queda do capitalismo, e os relatos dos partos e dos protocolos utilizados na Rússia soviética não deixam dúvida sobre sua violência estrutural que extrapola os aspectos relacionados ao capitalismo. Seria necessário acreditar que o sistema econômico tivesse o poder de moldar relações de opressão que são anteriores ao próprio capitalismo. O parto já era brutal muito antes do capitalismo se estabelecer, tornado assim por forças culturais de outra natureza. O controle do corpo e da sexualidade das mulheres, surgido com o modelo patriarcal, não pode ser negado se quisermos entender a dinâmica da violência obstétrica. Uma pesquisa rápida sobre as modalidades de assistência ao parto no mundo inteiro – e seus graus variados de violência, inobstante o sistema econômico vigente – pode nos mostrar que precisamos de novas perspectivas, além da suplantação do horror capitalista, para resolver estas questões.

Portanto a “descolonização das mentes” é essencial para que a AÇÃO possa ocorrer, até porque a assistência ao parto no Brasil é uma cópia mal acabada – e mais pobre – do modelo capitalista americano de assistência ao parto que historicamente produz maus resultados. O “extermínio” das parteiras se iniciou nos Estados Unidos no início do século XX, e se estendeu para os países do terceiro mundo – mas não para o consolidado e milenar paradigma europeu de assistência centrada na figura da parteira profissional. Por esta razão é que nossa ação, enquanto ativistas, deve ser lutar junto com as mulheres (em especial) para que abandonemos um sistema ruim, como o americano, para adotar o sistema europeu – igualmente capitalista!!! – centrado na figura da parteira profissional, que apresenta os melhores resultados que a experiência humana já conquistou.

Percebam: tratam-se de dois modelos inseridos em sociedades capitalistas e com resultados absolutamente díspares. Dois paradigmas de atenção conflitantes, divergentes e que competem pela hegemonia da assistência mesmo que compartilhando – em essência – o mesmo modelo econômico.

Assim, a ideia de “descolonizar as mentes” se ampara na proposta de escolher entre os modelos existentes (o modelo tecnocrático, de matriz americana, e o modelo humanista, de matriz europeia), e não é “idealista”, pois reconhece a realidade material dos fatos – a assistência violenta oferecida às mulheres – ao mesmo tempo em que afirma que uma compreensão mais abrangente dos fenômenos é essencial para que as ações possam ser direcionadas e produzir seus efeitos. Não devemos esquecer que o próprio Marx asseverava que “Uma ideia torna-se uma força material quando ganha as massas organizadas”.

Não há dúvida que o fim do capitalismo diminuiria muitas idiossincrasias da atenção médica, mas esta mudança não seria capaz – por si só – de mudar muitos dos conceitos equivocados sobre o que seja a assistência à saúde, qual o sentido da cura e qual o propósito último de um tratamento de saúde. Essas transformações só podem brotar do conflito de ideias, do choque de concepções e novas percepções de realidade. Somente depois que estes paradigmas entrarem em choque, e que a falência dos modelos anteriores produzir uma crise, é que partiremos para a ação e a mobilização políticas, para que assim seja viável a transformação.

Não há dúvida, então, de que entre estes conceitos que precisam ser transformados estão aqueles referentes à assistência médica contemporânea ao parto, uma ideia baseada num sistema de poderes que vai muito além da visão capitalista. A assistência tecnocrática contemporânea parte do conceito de que o acréscimo de tecnologia e intervenções sobre o processo de nascimento poderia mudar para melhor os resultados – uma proposta que se mostrou um fracasso, pois que a objetualização das mulheres pela mecanização do parto produz efeitos deletérios ao negar-se a reconhecer as necessidades psíquicas, físicas, sociais, e espirituais das mulheres durante o nascimento de seus filhos. Como diria a antropóloga Wenda Trevathan, em “Evolutionary Medicine”:

“(…) as raízes do suporte emocional e social às mulheres durante o trabalho de parto são tão antigas quanto a própria humanidade, e a crescente insatisfação com o modo como conduzimos o nascimento humano em muitos países industrializados está baseada na falha do sistema médico em reconhecer e trabalhar com as necessidades afetivas relacionadas com este evento”

Berçário em hospital chinês

Ou seja: o sistema médico é contaminado por uma ideologia que enxerga os pacientes de forma objetualizada e, por isso, as parturientes são frequentemente alienadas das decisões sobre seus próprios corpos. Se essa visão objetual sobre o outro pode produzir alguns benefícios para o exercício da profissão (em especial a proteção psíquica dos cuidadores) ela esteriliza e dessensibiliza as relações entre médicos e pacientes. O parto, por não ser uma intervenção médica, tem essa clara particularidade, pois ao contrário da exérese de um tumor – algo que o médico faz – o parto é algo que a paciente faz, e a expropriação do processo com a consequente alienação das mulheres só poderia ter, em longo prazo, consequências deletérias.

Durante décadas eu apoiei a visão reformista e revisionista da obstetrícia. Acreditei que a informação dos médicos e sua educação para as vantagens do modelo humanístico de atenção ao parto poderia fazer que ocorresse uma “modificação por dentro” do sistema. Fui levado a crer que o problema das práticas defasadas era a ausência de uma adequada orientação aos profissionais. Todavia, foi apenas depois de experiências frustrantes que eu me dei conta que esta é uma estratégia fracassada. Não existe nenhuma maneira de fazer médicos trabalharem contra suas próprias vontades e inclinações, contrapondo-se à própria lógica intervencionista e tecnocrática da medicina. A única solução é encarar a assistência ao parto como um campo de batalha em que poderes competem para o controle dos corpos e da reprodução, muitas vezes alienando as próprias mulheres dos processos decisórios. É para a luta que devemos estar preparados, e não para a inútil tentativa de convencer médicos a contrariar seus próprios interesses.

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O Mínimo

No grupo que participo sobre “Minimalismo” o pessoal insiste em fazer perguntas ao estilo “ter carro novo é contra o minimalismo?”, “posso ter ar condicionado?”, “comprar IPhone é contra os ideais minimalistas?” Fazem estas perguntas como se minimalismo fosse uma religião, para a qual questionam seus “dogmas”, como quem pergunta ao padre se “flertar na Igreja é pecado“. No fundo estão atrás de ideologias e líderes para seguir, já que decidir por si mesmo implica muita responsabilidade.

Minimalismo é essencialmente uma atitude e uma proposta de vida. Não tem regras, mas princípios. Parte da ideia da otimização dos recursos do planeta, para não gastamos mais do que necessitamos, deixando os outros em falta. É um estímulo à solidariedade entre os povos. Porém, é mais do que isso: em um planeta de recursos limitados o minimalismo é uma proposta de sobrevivência global.

Também significa retirar dos objetos uma parte do desejo que os contamina, tentando fazer da obtenção das coisas uma ação mais racional, mais útil e menos perdulária, questionando nosso egoísmo e nossa propensão acumulativa.

Sem regras rígidas, sem catecismo, sem culpas, sem cobranças, apenas olhando as necessidades acima dos desejos.

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