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Filosofia da Medicina

É claro que é “possível” fazer um ensaio MARAVILHOSO, randomizado com “n” satisfatório, avaliação isenta, e provar que X é maior que Y. Porém, quem escolhe avaliar X e Y, e porque não investigaram Z? Só a filosofia pode mostrar que um estudo comparando dois analgésicos para tratar a dor pós-episiotomia existe para normalizar estas cirurgias, estimulando a noção largamente disseminada na cultura de que as episiotomias são adequadas, seguras e que “consertam” um mecanismo falho e disfuncional de parto. Para além disso existe uma mensagem misógina de defectividade feminina, que é a estrutura que sustenta a manipulação e controle de seus corpos, seus desígnios e até seu prazer.

Tais estudos estão em sintonia com aqueles que comparam métodos farmacológicos de alívio da dor no parto, mas que servem especialmente para vender a ideia de que os partos são desumanamente dolorosos, sacrificiais, horríveis, destruidores e que, sem o auxílio da tecnologia – e dos profissionais que as controlam – eles seriam insuportáveis. E quem faz estes estudos? Os próprios profissionais que se beneficiam dessa mitologia de transcendência tecnológica, que esconde o fato de que a PRÓPRIA assistência medicalizada ao parto produz uma artificialização tão profunda de um evento fisiológico que a reação natural das mulheres é o medo, que gera tensão e que, por sua vez, produz dor. Esta, no diagrama famoso de Dick-Read, por sua vez vai gerar mais dor e manter o ciclo patológico da assistência ao parto. MEDO – TENSÃO – DOR

É por isso que, mais do que a crueza fria dos números e da ciência, é preciso criar um entendimento que coloque estes achados dentro de um invólucro cultural e econômico, e que os explique dentro da cultura e do seu tempo.

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O Jardineiro Fiel

No corredor comprido e gelado do Hospital escola subitamente escuto uma voz ao meu lado, de alguém que acompanhava meus passos.

Ricardinho, disse ele. Quanto tempo!!

Olhei para o lado e encontrei um rosto conhecido. Sim, Gustavo – ou Guta – um amigo de infância, colega de escola. Jogamos muita bola juntos. Ele tinha um irmão mais moço, cujo nome não lembrava. Percebi que ele carregava uma enorme pasta, quase uma mala, e estava vestido de terno e gravata. O sorriso fácil estampado no rosto não deixava dúvidas: ele era um propagandista da indústria farmacêutica, profissionais que circulam dos hospitais fazendo publicidade dos seus remédios e oferecendo brindes, presentes, amostras grátis e outras facilidades para os médicos.

Foi muito cedo que eu conheci a Ciranda de benefícios, agrados e presentes que cercam os médicos nesta junção entre medicina e capitalismo. Ainda na faculdade assistíamos as apresentações dos propagandistas nos intervalos das aulas no hospital. Já naquela época recebíamos deles todo o tipo de agrado. Quando estava no último ano da Escola Médica, prestes a me formar, fomos em um grupo de doutorandos e residentes de ginecologia para um congresso sobre DST no Uruguai, onde um trabalho nosso seria apresentado. A viagem de ônibus – assim como os jantares, os lanches e até a bebida – foram pagos pelos laboratórios farmacêuticos. Era a semeadura, para que depois pudessem fazer a colheita.

– Conheces o Dr. F. aqui do hospital? perguntou meu amigo.

– Por certo que sim, Gustavo. Ele é o chefe do serviço. A equipe dele se reúne todas as segundas feiras. Precisas falar com ele?

– Ahh, se você pudesse me arranjar um encontro, mesmo informal aqui na cafeteria, isso seria o máximo. Eu represento o Laboratório N* e estamos lançando uma nova droga. Chama-se…

Ele me descreveu com pormenores o remédio que estava querendo apresentar ao meu chefe. Tratava-se de um medicamento anti-inflamatório não esteroidal, algo que nos próximos anos se tornaria um tremendo sucesso. Ele parecia excitado em me falar dessa droga, de tudo o que ela prometia, e como era importante que ela fosse padronizada na prescrição do hospital escola.

– Guta, disse eu, não passo de um mísero residente. Não tenho influência alguma sobre um médico famoso e importante como ele. Não creio que possa lhe oferecer ajuda.

Ele continuou com seu sorriso largo e explicou:

– Preciso chegar lá em cima, Ricardinho, nos chefes. É assim que funciona esse meu trabalho. Ele é um formador de opinião; se ele resolver padronizar “meu” remédio aqui e, mais ainda, se ele incorporar esta nova droga ao seu receituário pessoal não será sequer necessário falar com vocês. Ele é o “Papa”, e aquilo que o Papa escreve, os padres e as freiras copiam. Sacou? Por isso preciso “pegar” ele, o peixe grande.

Sorri para o meu velho amigo e o abracei. Desejei boa sorte e sucesso em sua empreitada. Hoje sei que foi plena de sucesso, já que o seu remédio se tornou um negócio multi milionário e um campeão de vendas. Mas, não foi a publicidade da droga o que ficou guardado em minha mente, nem a gravata extravagante ou o sorriso sedutor de meu amigo. O que eu nunca mais esqueci foi que aquela foi a primeira vez que me vi como “gado”, a ponta de lança de um negócio gigantesco, milionário e – muitas vezes – corrupto.

Depois de alguns anos desenvolvi um completo rechaço à mercantilização medicamentosa da saúde. Percebi o quão danosa esta relação entre dinheiro e saúde poderia ser e passei a ter uma visão crítica e – por vezes – ácida sobre estas questões. Com o tempo os propagandistas de medicamentos foram aos poucos deixando de me procurar, apesar de sempre tê-los tratado com educação e gentileza. Eu não era mais alguém em quem valia a pena investir tempo ou dinheiro.

Todavia, sempre fui fascinado por esse aspecto sombrio da medicina. Os propagandistas eram todos muito jovens (e os coroas, joviais), graduados na universidade, excelentes salários, bonitos, simpáticos, educados. Depois de alguns anos chegaram as mulheres. Uau, algumas eram de tirar o fôlego: sensuais, reservadas, simpáticas, lindas, conhecedoras do assunto. Todos eles nos envolviam magicamente apresentando os remédios com estudos de questionável qualidade, estatísticas igualmente frágeis, mas acompanhados de uma apresentação impecável.

Com os propagandistas aprendi muito. Não sobre drogas e seus usos, mas sobre o submundo da medicina. Depois de muitos anos eles acabavam criando confiança em mim e contavam o que ouviam nos consultórios.

– Um colega seu, aqui da Rua da Praia, ontem mesmo me disse: “Eu sempre prescrevi seu concorrente, mas posso mudar minhas receitas. O que você tem a me oferecer? Uma passagem de avião para o próximo congresso? A inscrição? Diga, o que eu ganho por esta troca?

– Sério? O pessoal trata vocês assim? Pedem agrados, presentinhos, passagens, inscrições….. propina? Em troca de uma mudança de receituário?

– Sim, claro. Nem sabe como é para montar os congressos. A jogada é assim: quando compram um “stand” de promoção de seus produtos isso lhes dá direito a uma palestra para promover um determinado medicamento. Podem convidar os seus próprios pesquisadores, sejam daqui ou do exterior. Acredite, sempre rola muita grana nesses eventos.

– Claro, mas esses agrados são só para os grandes, os “chefes de serviço”, os formadores de opinião. A chinelagem, o gado…. recebe uma caneta com o nome do remédio.

Dizia isso e mostrava para eles a canetinha que acabara de ganhar. Eles davam uma risada constrangida, tentavam explicar, mas era óbvio que eu era a ponta menos importante da equação das vendas. Peixe pequeno quando comparado àqueles que devotavam boa parte da sua energia para ocupar estes postos de poder. Agora eu entendia de onde vinha tanta energia para as disputas ferozes e violentas que meus colegas empreendiam para subir de importância dentro da corporação.

Com o tempo estes personagens foram escasseando da minha sala. Não vinham mais nem para tomar o sagrado cafezinho. Na volta do almoço eu os via aglomerados esperando os meus colegas de andar voltarem para as consultas da tarde. Eu ficava tentando imaginar como eles me enxergavam. Talvez como o tolo, o iludido, o ingênuo, o burro. Afinal, que mal poderia haver em receber estas amostras grátis, as suas belas palavras, suas agendas e seus porta-canetas?

Minha explicação para eles sempre foi: “Ninguém faz propaganda de pastel. Se estas empresas precisam contratar alguém como vocês para me fazer prescrever esta droga é porque, sem toda essa sedução, ela não se sustentaria”.

Já nesta época já me vinha à cabeça uma frase que me acompanhou até meu último dia de consultório: “Se a saúde baseada em evidências fosse realmente levada a sério a medicina praticada a partir de então seria um espetáculo completamente irreconhecível por nós”. Nenhuma propaganda seria necessária e os poucos medicamentos administrados seriam facilmente encontrados e muito baratos. As consultas seriam ricas de detalhes, plenas de envolvimento afetivo, orientação, exercícios, educação sobre caminhadas, comida de verdade, sexo, alegria, família, futebol, gargalhadas, etc.

Porém, nunca me deixei iludir. Eu bem sabia que a nossa medicina, capitalista e decadente, ainda reinaria por muitos anos, lucrando com nossas doenças e com nossa infelicidade.

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Idealizações

Toda a paixão por uma causa leva fatalmente à idealização. Mulheres, negros, índios, partos, gays, trans, socialismo, religião e todas as outras causas nobres sucumbem – mais cedo ou mais tarde – a este tipo de arapuca.

Não há como evitar. Se o motor é a paixão, e sendo ela irracional, como evitar que estas ideias fujam das rédeas frágeis da razão? Com o tempo o ativista percebe que seus pés se afastaram tanto do chão firme que não existe mais contato possível com a realidade. Tudo em volta é etéreo e moldável, como o desejo, e a realidade é vista através de um funil que tanto focaliza um fato quanto apaga o mundo ao redor

A maturidade de uma luta parte do arrefecimento desse afã juvenil, que tanto impulsiona quanto oblitera a visão. Amadurecer é aceitar o recuo das paixões para que se estabeleça um contato mais racional com nossas causas e propostas.

Como no amor.

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Divisionismo

Esse é o divisionismo que me irrita. Grupos contra hegemônicos normalmente tem divisões internas, algumas relevantes e outras não. O feminismo se fragmenta, o movimento negro também e os LGBT também, o que não é necessariamente ruim, mas deve ser colocado em perspectiva quando existe uma luta comum a todos dentro do grupo, como o racismo, o patriarcado, a homo e transfobia, etc.

Essa é a tática, tão antiga quanto atual, e que ainda funciona: dividir para conquistar. Colocar mulheres contra si, negros odiando negros, latinos desprezando latinos, gays atacando outros gays.

No fim aparece alguém com coragem suficiente para desagradar uma parte do seu grupo em nome de fazer algo, dar um passo à frente e mudar a paisagem, elevando o debate para um novo patamar.

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Iconografia

A expressão do rosto de ambos é o que deveria ser mostrado nas novelas, nos filmes e apresentado para as crianças na escola. A felicidade contagiante da imagem conta mais sobre a realidade profunda do parto do que compêndios de obstetricia, por conjugar de forma holográfica uma serie de verdades escondidas. A iconografia do parto, desde que a Medicina se apoderou do evento patologizando-o no seu intento expropriativo, nos deixou como legado as imagens da dor, do abandono, do sofrimento, do medo e do horror. Por muitas décadas a face do parto foi a emergência, a tragédia, o drama e a defectividade essencial do processo. A culpa seria, a partir de então, das das mulheres e seu mecanismo falho, seus úteros débeis e suas vaginas dentadas.

Por outro lado, desde a emergência da especialidade médica no parto, o canto de sereia da alienação feminina do evento se fez ouvir. Primeiro ao admitir que cirurgiões operando na lógica da intervenção tomassem conta de um evento fisiológico, onde a regra deveria ser da não-intervenção, do respeito aos ciclos e da paciência com os tempos. Depois retiraram das mulheres a ambiência calorosa e reasseguradora que por milênios as cercou, levando-as para hospitais frios e assépticos, onde a lógica que contamina suas paredes é a da doença e das ações etiocêntricas.

Ato contínuo, a família foi apartada da gestante, os bebês de suas mães, o leite foi separado do peito e os cirurgiões se tornaram os intermediários entre os núcleos familiares e a cultura patriarcal, usando o momento de pura energia transformativa como uma porta de entrada para doutrinar mães e bebês para seu lugar submisso na cultura.

A obstetricia, assim estabelecida, vem a se tornar um braço poderoso do patriarcado na cultura do Ocidente.

A partir desses dois pontos – os cirurgiões no comando e o parto hospitalar – o caminho para a total alienação do parto estava pavimentado. O controle panóptico do pré-natal, as drogas, os exames, as ultrassonografias (em sua maioria) inúteis e invasivas, a ilusão biologicista do controle total e a mecanização extrema de todo o processo foram os seguimentos naturais.

A foto perturbadora de um casal sorrindo e feliz no momento do nascimento, experimentando essa passagem com êxtase e alegria, causa espanto porque o modelo obstétrico, ao tornar esse momento um “ato médico” não consegue apreender a gama infinita de manifestações sociais, fisiológicas, emocionais, psicológicas e espirituais que esse evento comporta. Ao se ater apenas nas questões mecânicas e biológicas, com foco especial na patologia e cobertos pelo manto do medo, é natural que as cesarianas – com sua imagem ilusória de segurança, limpeza, ciência e silêncio – se tornassem a fotografia padrão dos nascimentos no Brasil.

Criamos um mapa tão distante da realidade que a essência profunda do parto desapareceu e, quando sua real imagem aparece na tela da cultura, ela causa espanto e assombro.

Para mudar a cultura do parto também é necessário mudar sua iconografia. Cabe a nós, testemunhas do milagre, retratá-lo em sua mais completa grandiloquência.

Foto de Anna Galafrio

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