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Sobre familiares no parto

Lembro de dezenas de relações maravilhosas relacionadas à presença da mãe (futura avó), durante o parto, mas também testemunhei meia dúzia de situações dramáticas causadas pela presença desta personagem, e algumas vezes do próprio marido. Só é possível avaliar a adequação dessa presença analisando caso a caso, e a decisão deve sempre ocorrer na perspectiva da gestante.

Imaginar que a presença da mãe – ou do marido – seja sempre uma boa ideia é não reconhecer as infinitas experiências possíveis criadas nestes relacionamentos. Medo, angústia, dívidas amorosas, fragilidade e falta de confiança nos profissionais podem ser os fatores determinantes desse convite, suplantando a proposta meritória (e por vezes romântica) de comunhão familiar.

Pior ainda, essas emoções negativas podem estar (e frequentemente estão) escondidas e inconscientes, e tudo que vemos na superfície é uma máscara de confiança, amorosidade e afeto. Infelizmente, esta aparência toda se dissolve diante das dificuldades ou desafios do trabalho de parto; onde existia harmonia e carinho pode aparecer ressentimento, impaciência e cobranças do passado. Daí para uma obstaculização definitiva do processo é um passo.

Assim, fica claro que não há como criar regras rígidas e aplicáveis a todos para a participação de futuras avós, maridos e filhos. Tudo o que podemos fazer é estabelecer princípios gerais (silêncio, não interferência, auxílio nas tarefas, etc) adaptados a cada situação particular.

Nenhuma mulher chora, ri ou goza igual às outras, e nenhuma vai parir de mesma forma como qualquer outra mulher já pariu. O parto é uma face da sexualidade feminina e sua expressão é tão própria do sujeito quanto suas digitais.

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Poderes

Não tem nada a ver com ciência, mas com poder. A narrativa dominante de penalização da natureza e exaltação da tecnologia não tem nenhuma ligação com a saúde ou as evidências científicas, mas com domínio e poder sobre as “matrizes”. O corpo das mulheres continua sendo o tabuleiro onde este jogo é encenado. Para manter o poder e o controle não se admite perder nenhum centímetro de pele conquistada.

“O parto é parte da vida sexual das mulheres”, e o seu controle pela ideologia médica envia uma potente mensagem subliminar de submissão que se transmite a quem dá à luz e direciona a vida de quem chega.

O controle da sexualidade das mulheres pela ideologia patriarcal dominante, é essencial para manter intocada a estrutura social. Destravar esse sistema opressivo é uma das formas mais eficientes de romper com a iniquidade e a injustiça na cultura e nas relações humanas. “Para mudar o mundo é essencial mudar a forma (opressiva) de nascer”.

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“Bebê nasce com infecção após cesárea eletiva:
—> era uma infecção prévia
Bebê nasce com infecção após parto normal: —> infecção causada pelo parto

Bebê nasce com desconforto importante após cesárea eletiva:
—> pulmãozinho molhado
Bebê nasce com desconforto importante após parto normal:
—> forçaram o parto normal

Bebê aspira mecônio após cesárea eletiva:
—-> o bebê tem um problema
Bebê aspira mecônio em parto normal:
—-> esperaram demais pra operar.

Não estou falando de leigos não… estou falando de médicos obstetras e pediatras.” (Ana Cris Duarte)

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Duas vidas

“Ahhh, mas são duas vidas, e cabe proteger ambas. Para evitar basta se cuidar”.

Não é simples assim no mundo concreto. Vai depender do seu conceito de aborto e da época da gravidez em que ele foi realizado. No mais, é por haver vida – mesmo em potencialidade – que sou contra o aborto; prefiro preservá-la sempre. Porém, todas as vidas, e encarando sua manifestação concreta.

Portanto, a REALIDADE é outra, diferente das visões idealistas. No mundo REAL as mulheres vão acabar procurando métodos ilegais – portanto, perigosos – para interromper as gestações e vão correr sérios riscos; muitas delas vão terminar morrendo no auge da sua juventude.

Ser a favor da descriminalização do aborto e permitir que seja incorporado pelo sistema de saúde significa encarar o mundo como ele é, sem visões idealistas e aprendendo com as experiências REAIS de sua aplicação. As mortes evitáveis de mulheres em abortos clandestinos não nos permitem mais perder tempo debatendo aspectos metafísicos da vida e seu valor; é preciso agir com a ideia de “menor dano”, tirando milhares de mulheres do destino terrível da morte por abortos insalubres.

Em todos os países onde o aborto seguro foi instituído pelo sistema público houve diminuição da mortalidade materna e são essas vidas de mães e mulheres que nos cabe proteger, acima de qualquer outra consideração. Isso não invalida a ideia de manter e incentivar a educação de meninos e meninas sobre a anticoncepção e gestação conscientes, mas sim interromper o massacre sobre mulheres pobres que se submetem a métodos cruéis de interrupção da gravidez.

Aceitar a REALIDADE acima de nossas crenças e ideais é um passo importante para produzir uma sociedade de paz, onde as gestações sejam uma benção e não um peso ou uma sentença de morte.

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Ilustre desconhecido

Desapareça, para sobreviver…

Ontem uma moça me chamou no Messenger porque estava interessada em promover um curso de homeopatia para profissionais do parto. Disse ser doula, ativista, apaixonada por partos e que mora em uma cidade no interior do Brasil. No meio da conversa, e das tratativas sobre o futuro curso, perguntou quem eu era e qual a minha formação, pois não me conhecia, apenas viu uma mensagem que me ligava a cursos de homeopatia na gestação e no parto.

A existência de uma doula neste país que nunca ouviu falar de mim é algo que me deixa extremamente… feliz!! Pensem que há alguns poucos anos isso era impossível; éramos tão poucos e centralizados que era impossível não conhecer os poucos profissionais da atenção ao parto que acolhiam, capacitavam e trabalhavam com doulas. Seu desconhecimento da minha existência prova, de forma inequívoca, que eu não sou tão importante como imaginava, e que a disseminação da mensagem das doulas pode prosseguir sem a minha contribuição ou mesmo existência.

O movimento se espalhou de uma forma e com tal velocidade que os dinossauros aos poucos vão caindo no esquecimento e isso, ao contrário do que parece, deve ser celebrado. Qualquer movimento que se assenta sobre personalidades – ao invés de se apoiar em propostas e ideias – está fadado ao fracasso e ao desaparecimento.

O movimento de doulas no Brasil se tornou extremamente descentralizado, abrindo novas fronteiras de debate e trabalho todos os dias. É notável a capacidade de multiplicação dessa ideia e uma das formas de medir este impacto está na resistência – por vezes agressiva e desleal – dos sistemas de poder instituídos contra a organização e ação das doulas nos hospitais. Também é uma medida de poder dessa proposta a resiliência corajosa das doulas de continuarem existindo apesar de todas as violências cometidas contra elas e seu trabalho.

De minha parte, esta sempre foi a minha maneira de enxergar um projeto de sucesso: trabalhar pela própria desaparição, crescente e insidiosa, para dar lugar a ideias novas, personagens mais capazes e por propostas mais radicais.

Apesar do enorme amor que temos por nosso próprio ego, reconhecer a importância de sair de cena é um dos principais elementos para dar sentido ao trabalho de uma vida inteira.

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Respostas padrão

Há mais de 30 anos o padrão é o mesmo. Quando alguém crítica o abuso de cesarianas e destaca a importância do parto normal a resposta nas redes sociais é fatal: alguém se ergue para dizer que “a cesariana salvou minha vida e do meu bebê, que estava se enforcando no cordão” ou ainda que “eu demorei 5 dias em trabalho de parto, pois os médicos não viram que eu não tinha passagem”, e etc. Finalizam dizendo que “no passado morriam milhares de crianças e mães porque não havia cesarianas e que parto normal – segundo seu médico – é algo antiquado e arriscado”.

Moça, acredite, não é sobre você. É a respeito de todas as mulheres. O seu caso isolado não é importante o suficiente para produzir uma regra que se ocupa de todas as mulheres grávidas. Ele é apenas o seu caso. É importante na sua história, mas não pode ser o padrão para todos os nascimentos.

Bom saber que havia cesarianas à disposição para o seu atendimento, mas isso não significa que o fato de você estar satisfeita com sua cesariana não significa que uma cirurgia como essa não seja frustrante para muitas outras mulheres. Também não há provas de que, mesmo que sua cesariana tenha sido realmente necessária, milhares de outras não tenham sido indicadas por razões sem embasamento científico algum.

Nós respeitamos sua ideia e sua escolha sobre a via de parto. Pedimos apenas que tenha a mesma consideração e empatia com a dor e a frustração de quem sofreu uma cesariana desnecessária.

Acredite, dói bastante.

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