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Espiritismo e identitarismos

Há momentos históricos em que palavras aparentemente banais passam a carregar uma quantidade extraordinária de tensão. “Identidade”, “gênero”, “masculinidade”, “feminilidade”, “privilégio”, “opressão”, “woke”, “red pill” são algumas delas. Basta pronunciá-las para que imediatamente se organizem campos adversários, cada qual com seu vocabulário, suas certezas, suas vítimas, seus culpados e sua interpretação do mundo.

Para o espiritismo, entretanto, talvez a pergunta mais interessante não seja determinar qual desses campos está certo. Uma doutrina que se apresenta como espiritualista e progressiva deveria formular uma pergunta anterior: o que o aparecimento simultâneo desses movimentos revela sobre o homem contemporâneo?

A chamada cultura woke, os movimentos identitários, a reação anti-woke e o universo red pill são fenômenos muito diferentes. Não possuem a mesma origem, não defendem os mesmos valores e frequentemente são inimigos declarados. Seria intelectualmente pobre colocá-los todos no mesmo saco. Entretanto, observados de certa distância, apresentam uma curiosa semelhança: todos procuram responder a uma crise contemporânea de identidade, pertencimento, reconhecimento e significado. E é precisamente aí que o espiritismo talvez tenha algo particular a dizer.

A busca contemporânea por uma identidade

Uma das grandes transformações das sociedades modernas foi a progressiva perda da capacidade das instituições tradicionais de responder à pergunta mais elementar que uma pessoa pode fazer: quem sou eu? Durante séculos, religião, família, comunidade, profissão, nacionalidade e tradição ofereciam respostas relativamente estáveis. O indivíduo não precisava inventar completamente a própria identidade; em grande medida, recebia-a. A modernidade desfez parte dessas certezas. Isso trouxe enorme liberdade, mas também produziu desorientação. Quando estruturas antigas perdem autoridade, outras surgem para fornecer significado. A política passa então a ocupar espaços que anteriormente pertenciam à religião, à comunidade e à tradição. É nesse contexto que a chamada política de identidade ganhou enorme importância.

A literatura sociológica mostra que movimentos identitários procuram conectar experiência pessoal, pertencimento a grupos, relações de poder e ação política. Mary Bernstein observa que as próprias políticas de identidade envolvem debates sobre experiência, cultura, poder e sobre se determinadas identidades devem ser compreendidas como essenciais ou socialmente construídas. Assim, acontecimentos anteriormente percebidos como individuais podem ser reinterpretados por uma chave coletiva; o sofrimento deixa de ser apenas “o que aconteceu comigo” e passa a ser também consequência de uma estrutura. Para muitas pessoas, isso pode ser profundamente esclarecedor. Preconceitos que eram vividos silenciosamente tornam-se reconhecíveis; grupos historicamente invisibilizados ganham linguagem para descrever suas experiências; sofrimentos antes naturalizados podem ser questionados. Todavia, toda ferramenta interpretativa contém também um risco: aquele de transformar uma dimensão verdadeira da existência na explicação total da existência. Nestas circunstâncias, uma interpretação unívoca da realidade torna-se uma sedução muitas vezes de difícil dissipação. O ser humano pode então começar a desaparecer dentro de sua categoria.

A reação

Nenhum movimento cultural importante permanece sem produzir reação. Essa é uma característica da dialética em nossa cultura. O surgimento do Partido dos Trabalhadores e suas vitórias eleitorais no Brasil foi o berço da aparição de seu contraponto: as jornadas de junho em 2013, o MBL, o impeachment da presidenta eleita e a emergência da extrema direita no cenário nacional. Desta forma, o crescimento das políticas identitárias foi seguido pelo surgimento – inevitável, eu diria – de um amplo universo hoje chamado, de maneira bastante imprecisa, de anti-woke.

Não existe propriamente uma doutrina anti-woke. Sob essa expressão convivem liberais preocupados com liberdade de expressão, conservadores religiosos, críticos do pós-modernismo, pessoas incomodadas com políticas identitárias, grupos nacionalistas e também indivíduos simplesmente exasperados com determinados códigos culturais – como pronomes e banheiros. A reação, entretanto, pode reproduzir o mesmo mecanismo que pretende combater. Se uma política identitária reduz o indivíduo à identidade do grupo a que pertence, sua oposição pode começar a interpretar cada pessoa principalmente como representante da ideologia adversária. Neste contexto de oposição surge uma curiosa simetria. De um lado:

“Você fala assim porque pertence a determinada posição social.”

Do outro:

“Você fala assim porque foi capturado pela ideologia woke.”

Nos dois casos, existe o risco de deixarmos de ouvir a pessoa porque já sabemos previamente o que ela é. O rótulo passa a preceder o indivíduo e o sujeito carrega o peso da sua ideologia como um fiel depositário de seus conceitos, prisioneiro de seus conceitos e contradições.

A pílula vermelha

O fenômeno red pill acrescenta uma dimensão particularmente interessante a essa disputa. Sua metáfora fundadora vem do filme Matrix: tomar a pílula vermelha significa abandonar uma realidade ilusória e finalmente enxergar o mundo como ele realmente é. É difícil imaginar metáfora mais próxima de uma experiência de revelação. O homem que “toma a red pill” passa a reinterpretar suas experiências amorosas, fracassos, rejeições e relações entre homens e mulheres mediante um novo vocabulário: alpha, beta, hipergamia, simp, blue pill e inúmeras outras categorias. Aquilo que parecia uma sequência confusa de experiências individuais recebe uma explicação.

Não por acaso, um estudo acadêmico publicado em 2025 analisou explicitamente a “Red pill Community como comunidade espiritual”. As autoras, Weronika Karwoska e Natalia Brzezinska, identificaram elementos como narrativa de iniciação, sistema de valores, busca de autorrealização, respostas a questões existenciais, formação comunitária e recrutamento — funções historicamente desempenhadas por comunidades religiosas.   Mas cuidado; estas coincidências não nos permitem categorizar o movimento red pill como uma religião. Significa algo mais interessante: o impulso humano que produzia religião não desapareceu simplesmente porque as sociedades se secularizaram. A necessidade de significado permanece. Quando as religiões tradicionais deixam espaços vazios, esses espaços podem ser ocupados por ideologias, comunidades digitais, identidades políticas ou sistemas que prometem revelar aquilo que permanece oculto aos demais.

A estrutura da conversão

É curioso observar que movimentos absolutamente antagônicos podem desenvolver estruturas semelhantes. A sequência frequentemente é esta:

sofrimento → descoberta de uma explicação → aquisição de um novo vocabulário → reinterpretação do passado → pertencimento a uma comunidade → desejo de transmitir aos outros aquilo que se descobriu.

É a estrutura clássica de inúmeras experiências religiosas. Depois da conversão, o passado inteiro pode parecer diferente. O espírita olha para determinado sofrimento e pensa: “agora compreendo isso à luz da reencarnação”. O adepto da red pill olha para relacionamentos anteriores e pensa: “agora compreendo aquilo através da dinâmica entre homens e mulheres que antes desconhecia”. Da mesma forma, alguém que adere a determinada corrente identitária pode rever acontecimentos antigos e pensar: “agora reconheço aquela experiência como manifestação de uma estrutura de discriminação”. As conclusões podem ser inteiramente diferentes, muitas vezes absolutamente antagônicas, como no caso de grupos feministas identitários e aqueles que aderem à agenda red pill. Porém, o mecanismo humano, entretanto, é familiar. Em todos esses casos, uma linguagem nova reorganiza a memória. E toda linguagem produz visibilidade: depois que aprendemos uma categoria, passamos a encontrá-la em lugares onde anteriormente não a víamos.

E o que o espiritismo faz diante disso?

Aqui está, provavelmente, a contribuição mais radical da doutrina espírita para esse debate. Segundo O Livro dos Espíritos, nossa identidade fundamental não é masculina nem feminina. À pergunta 200 — “Têm sexos os Espíritos?” — a resposta que os espíritos enviam à Kardec é negativa: os sexos dependeriam do organismo no qual o espírito se insere. Nas questões seguintes, Kardec afirma que um mesmo Espírito pode encarnar como homem ou como mulher e que as diferentes condições corporais permitem adquirir experiências diferentes. Essa proposição produz consequências filosóficas extraordinárias. O espiritismo não nega a realidade do corpo, mas também não permite que o corpo encerre completamente a definição do indivíduo. Eu sou meu corpo durante esta existência, mas não sou apenas meu corpo. Da mesma maneira, não sou apenas minha classe social, minha raça, minha nacionalidade, minha orientação sexual, meu sexo, minha profissão ou minha posição política. Tudo isso pertence à experiência encarnada e pode ser decisivamente importante.

Entretanto, o espiritismo deixa muito claro, como um dos pilares da sua filosofia, que nenhuma dessas categorias esgota aquilo que somos. Sob a perspectiva espírita, antes de todas estas máscaras (personas) existe o Espírito. Essa ideia impede, ao menos teoricamente, dois reducionismos opostos. De um lado, dificulta transformar identidades sociais em essências absolutas; de outro, dificulta transformar diferenças biológicas em destinos espirituais absolutos. De acordo com a perspectiva espírita, um Espírito pode atravessar ambas as experiências sexuais ao longo de diferentes existências. No filme das mesmas diretoras de Matrix – as irmãs Wachowski, elas mesmas transsexuais – chamado “Cloud Atlas”, elas brincam com um grupo de pessoas que se encontram em múltiplas encarnações nas quais trocam de gênero no correr das gerações que se sucedem. É difícil imaginar conceito menos compatível tanto com uma metafísica rígida da masculinidade quanto com a ideia de que a identidade humana possa ser completamente encerrada numa única categoria social. Neste aspecto, o espiritismo inaugura uma visão revolucionária de gêneros ao coloca-los como apenas uma roupagem temporária que usamos para desempenhar tarefas e adquirir conhecimento advindo das distintas visões de mundo que eles compreendem.

Nem woke, nem anti-woke

É aqui que o espiritismo corre um risco contemporâneo. O risco de procurar em Kardec uma autorização para simplesmente escolher um dos exércitos disponíveis. Espíritas progressistas podem desejar transformar a doutrina numa confirmação religiosa das pautas identitárias contemporâneas enquanto os Espíritas conservadores podem desejar transformá-la numa arma contra essas mesmas pautas. Ambos deveriam ter cautela. Procurar respostas em “livros sagrados”, escritos há centenas ou milhares de anos, carrega o risco eterno de anacronismo, ou guerras interpretativas fragmentárias, que são uma característica das vertentes cristãs. Kardec escreveu no século XIX, e seus textos contêm ao mesmo tempo princípios surpreendentemente universalistas e afirmações marcadas pelas concepções sociais de sua época.

A questão 822 de O Livro dos Espíritos, por exemplo, defende inequivocamente a igualdade de direitos entre homens e mulheres, afirma que qualquer privilégio concedido a um sexo é contrário à justiça e chega a dizer que a escravização da mulher acompanha a barbárie. Ao mesmo tempo, o comentário apresenta uma divisão tradicional oitocentista das funções masculinas e femininas. Não é necessário esconder essa tensão, assim como as questões relacionados ao “racismo” de Kardec, tão amplamente discutido. Ao contrário: reconhecê-la é profundamente kardequiano. Uma doutrina que afirma a existência do progresso não pode supor que todas as formulações sociais do século XIX sejam a última palavra sobre problemas humanos que continuaram evoluindo nos séculos seguintes.

O problema da red pill visto pelo espiritismo

Por sua vez, o movimento red pill parte frequentemente de sofrimentos masculinos reais. Solidão, rejeição afetiva, ruptura conjugal, dificuldades de relacionamento, perda de referências de masculinidade e sensação de inutilidade social não são invenções. Ignorá-los apenas porque alguns discursos que surgiram em torno deles são desagradáveis seria erro semelhante ao de negar sofrimentos relatados por movimentos identitários porque discordamos de determinadas interpretações políticas desses sofrimentos. Por outro lado, reconhecer um sofrimento não obriga a aceitar toda teoria construída para explicá-lo. “Domados: Como a Cultura Traiu o Homem Americano” (Stiffed: The Betrayal of the American Man) é um livro célebre da jornalista e feminista americana Susan Faludi, lançado em 1999. Neste livro a autora explica como, ao lado das mudanças econômicas, o fim de empregos industriais estáveis nas décadas de 1980 e 1990, os homens viram seus papéis tradicionais ruírem. O livro não foca em um embate culposo entre homens e mulheres e não se resume ao apontar de dedos. Pelo contrário, a grande questão da autora é por que os homens se recusam a se engajar em sua própria causa e por que não se revoltam ou tentam reverter esse esvaziamento da mesma forma que o movimento feminista fez. O movimento red pill vem exatamente nessa direção: para uma masculinidade posta à prova, e na tentativa de encontrar significado em um mundo onde os papéis sociais são voláteis e vicariantes, esta ideologia tenta oferecer um destino, um significado e um rumo para os homens.

É aí que a perspectiva espírita pode estabelecer uma diferença fundamental. Os red pills frequentemente procura uma explicação externa para o sofrimento do homem: a natureza feminina, o feminismo, a hipergamia, a transformação das relações sexuais ou determinadas estruturas sociais. O espiritismo desloca inevitavelmente parte da pergunta. Na questão 919 de O Livro dos Espíritos, quando Kardec pergunta pelo método mais eficaz de aperfeiçoamento moral. Dos espíritos recebe a velha resposta socrática: “Conhece-te a ti mesmo.”

Isso muda radicalmente a direção do olhar. Não elimina estruturas sociais e não absolve injustiças externas, mas impede que toda explicação de nosso sofrimento termine invariavelmente apontando para o outro. Antes de perguntar “o que as mulheres fizeram aos homens?” ou “o que os homens fizeram às mulheres?”, a ética espírita acrescentaria outra pergunta: “O que estou fazendo de mim mesmo diante dessa experiência?”

A tentação moral das tribos

Talvez o ponto comum mais perigoso entre movimentos identitários, anti-woke e red pill não esteja em suas doutrinas, mas em uma característica humana muito mais antiga: a facilidade com a qual transformamos pertencimento em superioridade moral. Todos estes grupos inevitavelmente produzem uma tendência ao supremacismo, a ideia de que somos superiores àqueles que ainda não conseguiram enxergar “a Verdade”.

Toda comunidade tende a produzir uma divisão entre quem compreendeu e quem não compreendeu a “mensagem”. É quase inevitável olhar para o mundo e dividi-lo entre “nós e eles”. Os esclarecidos e os alienados; os desconstruídos e os preconceituosos; os redpilled e os bluepilled; os que dormem e os woke; os progressistas e os reacionários. E, naturalmente, existem os bons espíritas e seu contraponto: aqueles que “ainda não compreenderam a doutrina”. Nesse momento, diferentes ideologias começam novamente a parecer umas com as outras. Kardec oferece um critério desconfortável para todos esses campos. Na questão 785 de “O Livro dos Espíritos”, o professor Rivail pergunta qual é o maior obstáculo ao progresso moral. A resposta oferecida pelos espíritos foi: “O orgulho e o egoísmo.”

Não diz direita;
Não diz esquerda;
Não diz capitalismo;
Não diz socialismo;
Não diz feminismo;
Não diz patriarcado;
Não diz conservadorismo;
Diz orgulho e egoísmo.

E justamente por serem universais eles podem aparecer em qualquer ideologia — inclusive naquela que acredita estar combatendo todos os outros.

Uma terceira posição

Talvez, portanto, o significado do surgimento simultâneo da cultura identitária, da reação anti-woke e da red pill para os espíritas seja menos o de escolher um lado do que o de reconhecer um fenômeno antropológico. Estamos diante de uma sociedade que continua desesperadamente procurando identidade, significado, comunidade e orientação moral. Em outras épocas, essas necessidades eram majoritariamente respondidas pelas religiões. Com o decréscimo das religiões como guias do pensamento humano e o roteiro para apaziguar nossas angústias, estas perguntas podem ser respondidas por comunidades políticas e digitais, e isso explica por que as discussões se tornam tão intensas. Porém. quando alguém critica uma opinião que temos, podemos mudar de opinião, mas quando alguém ameaça aquilo que define quem somos, a reação é completamente diferente. Talvez parte da ferocidade das atuais guerras culturais venha exatamente daí: muitas ideias deixaram de ser apenas ideias e passaram a funcionar como identidades. E identidade ameaçada produz defesa.

O Espírito antes da identidade

Existe uma resposta espírita possível a tudo isso, mas ela exige certa coragem. Ela consiste em afirmar simultaneamente duas coisas.

  • As experiências sociais importam.
    Sexo, gênero, raça, pobreza, riqueza, discriminação, violência, masculinidade, feminilidade e todas as condições concretas da existência produzem experiências reais. Negá-las em nome de uma espiritualidade abstrata seria transformar o espiritismo numa desculpa para não enxergar o mundo. Mas também:
  • Nenhuma dessas experiências define completamente o ser humano.
    O pobre não é apenas pobre.
    A mulher não é apenas mulher.
    O homem não é apenas homem.
    A pessoa trans não é apenas trans.
    O negro não é apenas negro.
    O conservador não é apenas conservador.
    O militante identitário não é apenas militante identitário.
    O redpiller não é apenas redpiller.

Todos são, antes disso, sujeitos de uma experiência humana que, para o espiritismo, ultrapassa imensamente a presente existência, e se espalha na poeira das estrelas, numa multiplicidade infinita de experiências e aprendizado. Talvez essa seja uma das ideias mais poderosas que a doutrina possa oferecer às guerras culturais contemporâneas: o homem é sempre maior do que a categoria utilizada para descrevê-lo.

A caridade como limite da ideologia.

Há ainda um critério bastante simples para testar qualquer sistema de pensamento. A questão 886 de “O Livro dos Espíritos” define caridade como “benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas”. A palavra importante talvez seja “todos”.

Não apenas aqueles cuja identidade reconhecemos.
Não apenas as vítimas que consideramos legítimas.
Não apenas os homens feridos.
Não apenas as mulheres feridas.
Não apenas aqueles que compartilham nossa interpretação da sociedade.
Todos.

Isso não significa neutralidade moral diante da injustiça. Significa apenas que o combate à injustiça não autoriza a desumanização daquele que identificamos como adversário. Talvez seja precisamente aí que todas as tribos contemporâneas — religiosas ou seculares — enfrentem sua prova mais difícil.

O aparecimento do red pill e do anti-woke

Para o espiritismo, portanto, o surgimento da red pill e das ondas anti-woke não deveria ser interpretado simplesmente como triunfo da reação, assim como o crescimento das políticas identitárias não deveria ser interpretado simplesmente como sinal de progresso. Todos esses fenômenos são também sintomas. Eles revelam uma sociedade discutindo desesperadamente quem somos, como devemos viver juntos, o que homens e mulheres significam uns para os outros, quem merece reconhecimento e de onde retiramos nossas referências morais. São perguntas religiosas em uma sociedade que muitas vezes deixou de usar linguagem religiosa, e talvez seja precisamente por isso que despertam tanta paixão. O espiritismo poderia entrar nessa arena oferecendo mais uma bandeira, mas seria provavelmente a contribuição menos interessante que poderia dar. Sua contribuição mais original talvez seja justamente outra: lembrar que antes da raça há o homem; antes do homem e da mulher há o Espírito; antes da ideologia há uma consciência; antes da tribo há uma individualidade em processo de aprendizado.

E que nenhuma identidade adquirida durante algumas décadas de existência pode esgotar uma criatura cuja história, segundo a própria doutrina, atravessa inúmeras vidas. Talvez seja essa a perspectiva que o tumulto contemporâneo convida os espíritas a recuperar. Não perguntar primeiro “de que lado estamos?”, mas… “O que todas essas disputas revelam sobre o estágio moral e espiritual em que nos encontramos?”. E, depois disso, uma pergunta ainda mais difícil: “Em que medida nossa própria necessidade de certezas está nos impedindo de enxergar o outro?”

Nesta perspectiva, sem desmerecer a importância das lutas sociais e da busca por espaço e relevância, o espiritismo oferece a possibilidade de o espírito funcionar como uma espécie de “metaidentidade”, que relativiza – sem apagar – todas as identidades da encarnação. Nesse ponto, a guerra cultural deixa de ser apenas um fenômeno externo. Transforma-se em exame de consciência. E aí voltamos, por um caminho inesperado, ao princípio talvez mais antigo e mais difícil de todos: conhece-te a ti mesmo.

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Luto

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr

Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão

E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar

Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar…

Rosa dos Ventos (Chico Buarque)

Se você está deprimido com os resultados das eleições e percebeu que o Brasil deu uma guinada em direção à escuridão, não é hora para desespero. Tenha fé na alvorada, que desde o início dos tempos, repele a escuridão da noite com a luz da manhã. Não chore, ou talvez, só um pouquinho, porque da lágrima brota a esperança. Não esqueça que “a vida é luta renhida. Viver é lutar, que aos fracos abate, mas que os fortes e bravos, só sabe exaltar”. Venha para a luta, para as ruas, calçadas, escolas e hospitais. É no meio do povo que a política assume sua verdadeira face transformadora.

Não desista. Não esmoreça. Assuma sua dor e seu luto. Entenda que uma sociedade justa jamais o será por dádiva, mas pela construção lenta e elaborada de todos, com os naturais avanços e retrocessos que sedimentam as conquistas. Agora é o momento mais adequado para reavaliar o que fizemos e, em especial, o que deixamos de fazer. Para isso, é bom lembrar que:

1. O povo não é burro. Há sabedoria nessas escolhas, mesmo quando nos parecem tolas;
2. Censura jamais será caminho de liberdade. Livre expressão dói, faz barulho, mas é melhor do que o silêncio imposto;
3. Identitarismo é uma força que divide e enfraquece. Fragmentar a luta jamais irá fortalecer nossas propostas;
4. A luta de classes deve ser a prioridade, mesmo quando alguma outra injustiça pontual nos trouxer lágrimas nos olhos e fizer o estômago revirar;
5. Não se faz socialismo apoiando alguns segmentos da classe operária e culpando outros. Esta é a tarefa dos reacionários;
6. O imperialismo hoje festeja, mas cabe a nós darmos o troco. Precisamos estar prontos quando o momento chegar, e…

Quando chegar o momento,
esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido,
esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza de desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada nesse meu penar.

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Discurso de Ódio e Direitos Absolutos

Perceberam como o uso da expressão “nenhum direito é absoluto” sempre aparece quando se torna necessário encobrir uma ilegalidade ou um abuso cometido contra direitos fundamentais – em especial o direito de livre expressão? Tipo, rejeitam a fala de um sujeito ou sua manifestação controversa e, na ausência de argumentos satisfatórios, apresentam o silenciamento, argumentando que este preceito constitucional nao pode ser “levado aos extremos”, e que não é um “direito absoluto”.

Outra forma de atacar a liberdade é acusar as críticas ferozes de serem “discursos de ódio”. E desde quando o ódio passou a ser proibido? Como estes “arautos da paz” acreditam que os países e os povos se libertaram da opressão e da escravidão? Por acaso creem que as tiranias – todas elas – foram abolidas com discursos, abaixo-assinados ou tapinhas nas costas? Como negar a potência transformadora do ódio para remover estruturas recalcitrantes e opressivas? Por qual razão achamos razoável criminalizar a inevitável aspereza das palavras, as adjetivações duras e os ataques severos, se isso faz parte da linguagem humana?

Pois eu afirmo que as acusações de “discurso de ódio” e a defesa da inexistência de “direitos absolutos” são estratégias conservadoras, usadas para que verdades nao venham à tona – ou demorem a aparecer na superfície do discurso. A falácia do “discurso de ódio” é amplamente usada para bloquear as críticas ao Estado Terrorista de Israel, criando a ideia de que a mera análise crítica e acusatória ao colonialismo na Palestina é um ato racista e moralmente condenado. O mesmo ocorre com os outros identitarismos, onde criticar mulheres, negros, trans ou gays virou crime de ódio, mesmo que as críticas sejam direcionadas exclusivamente à sua atuação profissional ou política. E se o sujeito reclama do cerceamento do seu direito de expressão recebe como resposta: “nenhum direito é absoluto” e pronto.

Um projeto político que não encare de frente a proteção do sagrado direito de livre manifestação não pode ser considerado de esquerda, e muito menos socialista. Quem prioriza seus vínculos identitários, colocando-os acima da plena liberdade, sem estes subterfúgios oportunistas, não terá moral para reclamar quando sua voz for definitivamente silenciada.

Como dizia Rui Costa Pimenta, sou do tempo que a mentira era combatida com a verdade, não com a censura.

* As imagens que ilustram esta postagem são do tempo em que eu, ainda menino, acreditava no fim definitivo da censura. Acervo da UFRGS.

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Cavalo de Troia

A confusão entre a necessária defesa das mulheres, dos negros, dos gays, etc. com os princípios do identitarismo está na raiz do apequenamento das esquerdas no mundo todo. Esse engano levou à destruição parcial das lutas das esquerdas e o fortalecimento de grupos como incels e redpils. Veja o que viraram alguns partidos de esquerda, que foram originalmente revolucionários, mas que se tornaram agrupamentos identitários, cuja função é dividir e fragmentar o campo das esquerdas, produzindo partidos frágeis e sem norte.

Muitos confundem a luta pelos negros, mulheres, gays, etc. com luta identitária. Isso é um erro. Para um comunista a defesa destas identidades só vai ocorrer com a mudança do sistema econômico, com o fim da sociedade de classes e da propriedade privada dos meios de produção. Porém, os identitários se contentam com a “representatividade” e com vantagens e melhorias para suas tribos, seus grupos, suas identidades, e não para o conjunto da classe trabalhadora.

Essa manobra divisionista foi criada nos laboratórios da direita mundial por pessoas como George Soros e Bill Gates e por marqueteiros maquiavélicos como Steve Bannon. Não por outra razão estas grandes instituições internacionais financiam ONGs identitárias, pois sabem que elas funcionam como muros de contenção para as reivindicações do proletariado organizado. Desejam enfraquecer o movimento operário, fragmentando-o em grupos minúsculos que, ao invés de odiar as classes opressoras – os capitalistas – odeiam-se mutuamente. Assim o problema das mulheres são os homens, o dos negros são os brancos, dos gays são os héteros e dos trans são os cis. Assim, todos estes grupos perdem o foco, afastam-se da luta pela união das forças produtivas e deixam de perceber que todos estes personagens da cena social são igualmente explorados pela burguesia.  Como diria Júlio Cesar, “Divida e conquiste”, pois enfraquecidos são facilmente controláveis.

O identitarismo é o cavalo de Troia da direita enviado para as esquerdas.

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Punições

Na Turquia o governo está preocupado com a taxa abusiva de cesarianas, um drama que temos igualmente no Brasil. Até ops números de lá são semelhantes aos nossos. Entretanto, a atitude de punir médicos com excesso de cirurgias é uma solução fácil e, provavelmente errada. O punitivismo nunca será um caminho suficiente e, na maioria das vezes, sequer adequado para mudar padrões culturais. Essa postura parte da ideia de que a “culpa” pela taxa indecente de cesarianas reside apenas nos médicos, mas isso não é verdade. Em verdade, os médicos (policiais, juízes, professores) são um reflexo da sociedade onde estão inseridos. Podemos até colocar os médicos e a sua formação técnica como os principais responsáveis por este absurdo, mas se hoje, por um ato de mágica, todos os médicos indicassem cesarianas apenas com indicação médica, haveria muitos médicos presos e um princípio de convulsão social entre as usuárias.

A cultura exalta as cesarianas. Elas são limpas, seguras, indolores e modernas. As mulheres bebem nessa fonte e desejam o que a tecnologia pode lhes oferecer. Submeter-se às cesarianas parece a elas o ticket para ingressar no mundo moderno, enquanto o parto normal aparenta ser um evento resquicial de um passado de carências, dores e abandono. O mesmo fenômeno ocorreu com a amamentação, onde a mamadeira era vista como libertação e um bebê colado ao seio representava o passado, ou a algema que prendia as mulheres ao seu destino de reprodutoras.

Punir médicos pode trazer algum resultado parcial, assim como prender traficantes pode oferecer algum benefício ilusório no combate às drogas, mas estes serão sempre pífios e fugazes. No médio prazo as prisões ficam lotadas e o problema mantem-se intacto.Da mesma forma, as pessoas na sociedade capitalista demandam estupefacientes para suportar a angústia de viver numa sociedade distópica. Ao mesmo tempo, as mulheres também desejam cesarianas para, ilusoriamente, fugir das dores e da angústia da espera. A punição como solução não vai funcionar. Sim, a ação do governo turco demonstra umaa louvável preocupação com a epidemia de cesarianas e os resultados funestos que elas acarretam para a sociedade, mas isso é insuficiente. Além disso, como toda ação baseada no proibicionismo, seus resultados serão fracos ou até paradoxais. Da mesma forma como ocorreu com a lei seca nos anos 20 do século passado, uma “lei seca de cesarianas” teria o mesmo destino: o fracasso.

A solução? Não há solução simples para problemas complexos. Qualquer medida só poderá ocorrer agindo sobre a educação. Esta precisa ocorrer desde muito cedo, valorando o corpo das mulheres e exaltando suas habilidades inatas de gestar, parir e amamentar. Assim, a opção pela cesariana se tornaria a mais tola das escolhas. Também é essencial uma mudança estrutural na assistência ao parto, por meio da seleção dos profissionais mais adequados para a atenção ao parto – as parteiras – deixando os cirurgiões apenas para os quadros de risco. Todavia, para isso é preciso trocar o sistema de poder sobre os corpos, e isso demanda uma verdadeira revolução. Não há alternativa.

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Direita e identitarismo

Muitas pessoas à direita do espectro político, por falta de educação adequada e estudo mais aprofundado, confundem o identitarismo com “comunismo”, porque ignoram que, pelo contrário, o comunismo é uma poderosa arma anti-identitária. Basta estudar a Revolução Soviética para entender que o acesso das mulheres a todos os postos da sociedade se deu pela revolução socialista, e não por meio de leis discriminatórias e muito menos pela segmentação da nossa sociedade em “tribos” onde a lei vai ser aplicada de forma seletiva. Tudo isso ocorre porque a direita e os conservadores confundem a luta em favor de parcelas desfavorecidas da sociedade capitalista com a defesa de identidades, o que é um grande erro. O identitarismo é um projeto conservador, que invadiu o campo da esquerda usando essa confusão. O identitarismo enfraquece a luta de classes e coloca no seu lugar a luta identitária, que fragmenta a classe operária e impede a união de classes, fortalecendo o imperialismo e as mazelas sociais produzidas pela brutal concentração de renda inerente ao modelo capitalista.

Tal confusão é uma pena. Como sempre, a direita mais raivosa escuta o galo cantar, mas não sabe de onde. Reconhece como importante a luta contra o identitarismo, por ser contrária à sua perspectiva individualista. Entretanto, não consegue perceber o quão reacionário o identitarismo é, e confunde isso com o comunismo, a libertação do proletariado e a luta de classes. Pergunta: quem promove o identitarismo no mundo todo? A resposta pode ser acessada com dois ou três cliques do mouse: Open Society Foundations do mega investidor George Soros. Financia iniciativas de direitos humanos, democracia, igualdade racial, direitos LGBTQ+, direitos de migrantes e justiça criminal em dezenas de países. Ford Foundation – Investe em projetos de justiça social, igualdade racial, direitos das mulheres, inclusão econômica e fortalecimento da sociedade civil. MacArthur Foundation – Apoia projetos voltados para direitos humanos, justiça social e combate à desigualdade. Arcus Foundation – Uma das principais financiadoras globais de projetos voltados aos direitos LGBTQ+. Gill Foundation – Atua principalmente no financiamento de iniciativas em defesa dos direitos LGBTQ+. Robert Wood Johnson Foundation – Financia pesquisas e programas sobre equidade em saúde e redução de desigualdades. Ou seja: as grandes instituições capitalistas financiam projetos identitários de mulheres, negros, trans, etc.

Curiosamente, a direita acredita erradamente que os comunistas apoiam o identitarismo porque colocamos “um celofane verde na frente dos olhos”. Entretanto, não percebem que a leitura errada que fazem de Marx é exatamente pela ideologia, que nada mais é do que essa lente esverdeada que usam para traduzir a realidade, partindo de uma posição conservadora, anti-popular e capitalista. Aliás, Millôr Fernandes estava certo quando dizia, “o mundo esta cheio de canalhas, mas só na mesa do lado”. Só os outros usam viseiras, só os outros são manipulados por ideologias; já nós temos a visão cristalina do mundo. Será mesmo?

Para a direita a solução para problemas como a violência doméstica é muito simples: o endurecimento das penas. Assim, a direita demonstra que, na verdade, não possui nenhum apreço pela ciência. Acusam os comunistas de recusarem a solução de aumentar penas somente para “agudizar as contradições”. Que tolice!!! A razão para não engrossar o coro punitivista é porque o aumento de penas proposto (em especial por identitários) e a judicialização dos preconceitos cientificamente não funcionam!! Veja o erro dos “3 strikes” do governo Clinton, o aumento exponencial da massa carcerária braseira (inclusive nos governos do PT) e a inutilidade da banalização dos aprisionamentos. Nenhum balizador dos índices de criminalidade diminui com a proposta de colocar na multidões na cadeia. Basta mostrar os resultados pífios da Lei Maria da Penha na violência doméstica ou o resultado que se conseguiu com o aumento de penas para frear o aumento de feminicídios. O resultado foi paradoxal: a violência doméstica aumentou, tanto de homens quanto de mulheres. Por isso que a viseira moralista, impede que se enxergue a realidade, pois o endeusamento do modelo capitalista se comporta, efetivamente, como uma religião individualista.

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A culpa das mulheres

Uma reportagem do jornal Zero Hora do Rio Grande do Sul relata o aumento da taxa de cesarianas ocorrida nos últimos anos em uma cidade do interior do estado, e apresenta a tese – que os próprios médicos oferecem – de que o aumento na idade das pacientes e a incidência aumentada de fatores negativos associados estaria na gênese do incremento das opções cirúrgicas para o parto. No Hospital de Clínicas (HC) da cidade – que podemos imaginar se tratar de um hospital público – a proporção de cesarianas saiu de 56% em 2021 para 64% em 2025, enquanto os partos normais recuaram de 42% para 35%. Ou seja: hoje, neste hospital do interior do RS, somente 1/3 das pacientes de um hospital público conseguem parir de forma fisiológica e com um baixo risco. Este é um retrato muito semelhante ao que ocorre em todo o país. E a culpa é das mulheres, certo?

Sim, mas é preciso entender que as explicações dadas para o número escandaloso – e crescente – de cesarianas são insuficientes para justificar as taxas inaceitáveis. A melhor explicação para este fenômeno não está no perfil das pacientes, mas no perfil dos cuidadores do parto, os profissionais que detém o poder e a responsabilidade sobre os atendimentos. Não é difícil entender que “existe uma tendência nos cirurgiões de realizarem cirurgias”. Sim, parece uma piada, mas enquanto o parto for comandado por profissionais que trabalham na lógica da intervenção o resultado nunca será diferente. A ideia de que as cesarianas aumentam porque os casos são de maior risco é uma meia verdade contada ad nauseum há décadas, que tenta colocar nas condições das pacientes a indicação abusiva de cirurgias. Essa explicação não se sustenta nos fatos. Talvez pudesse aumentar um ou dois pontos percentuais, mas o que vemos é uma franca epidemia de cesarianas que aumenta os riscos para mães e bebês e torna os partos muito mais caros – que no sistema público é uma conta que todos nós pagamos. Além disso, muito do que é apresentado como justificativa deveria ser visto de forrma oposta. Uma hipertensa, por exemplo, tem uma razão a mais – a pressão alta – para evitar uma cirurgia, pois o aumento da pressão multiplica os ricos de uma grande cirurgia. Entretanto, esta condição é vista como “indicação”.

Há muitos anos, ao participar de um congresso nacional de obstetras, fui interpelado por um professor de uma universidade paulista que me afirmava que a culpa pelo excesso de cesarianas era a miscigenação ocorrida no Brasil, que misturava os genes de negras de “ancas avantajadas” com europeias de cintura mais “fina”. Ou seja: aparte da postura racista e sem evidências do colega, percebi que ali se manifestava um padrão que se repetiria em muitos contextos e em locais distintos: para justificar os desmandos na realização de cirurgias sem justificativa clínica se usava o artifício de culpar as vítimas pelos abusos, para que não ficassem à mostra os interesses e incentivos corporativos, judiciais e econômicos dessa opção. A verdade é que as intervenções no parto ocorrem porque médicos têm uma crescente incompetência e um marcado desinteresse no tipo de assistência que um parto demanda, que não se encaixa na lógica médica e na perspectiva que têm do evento. O parto normal está ligado à “lógica do cuidado”, e pertence à parteria, e não à medicina. Por isso abandonei as propostas reformistas há duas décadas; não haverá modificação no perfil da assistência ao parto enquanto os mesmos cuidadores concentrarem o poder, como ocorre com a obstetrícia. Só teremos avanço se a medicina for retirada do atendimento primário às gestantes de risco habitual, e se concentre nos casos de alto risco, deixando o parto para a atenção das parteiras profissionais, como ocorre no norte da Europa e Japão. As questões jurídicas e econômicas completam o pacote da “cesariana inevitável”, onde os médicos que atendem parto normal sofrem perseguições da corporação e da justiça e têm muito menos incentivos econômicos para a sua atividade. Não é difícil entender porque minha postura revolucionária – e o abandono das posições idealistas – produziu o ódio com o qual minha corporação sempre me tratou.

Entretanto, sou um otimista. Houve avanços nos últimos 27 anos que acompanho o desenvolvimento de políticas para o parto e participo de instituições como a ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento. Mas estes avanços são lentos. Muito conseguimos com a popularização das doulas, algo que introduzimos no Brasil no ano 2000, com os primeiros cursos de capacitação que foram realizados no Brasil e em Portugal. Outro fator importante foi a “Lei do Acompanhante“, de 2005, que mudou o direito de um membro da família de acompanhar a mulher durante o trabalho de parto e o parto. Desde que os familiares, em especial maridos, puderam testemunhar o que ocorria no centro obstétrico, houve uma clara transformação na estética do parto. Diminuíram os gritos e as ameaças de forma considerável. Porém, isso não mudou a taxa de cesarianas, que continua crescendo. Conseguimos ao menos deixar os médicos envergonhados pelo atendimento insuficiente que oferecem, expondo sua falta de interesse e dedicação à fisiologia do nascimento. Muito há ainda para fazer, e o futuro do parto dependerá de nossa capacidade de indignação.

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Em busca de um movimento popular

Esta é minha primeira coluna para o DCO desde o meu retorno. Continuo com o projeto de levar o debate dos direitos reprodutivos e sexuais para fora da bolha da humanização. É longo, mas oferece contexto para entender o que houve e o que está por vir.

Caros amigos:

“Esta é a primeira coluna que escrevo depois da minha libertação. Durante 1 ano fui interno do sistema prisional do meu estado e, para quem não sabe, meu crime foi levar adiante o compromisso de garantir às mulheres o protagonismo dos seus partos e respeitar a forma como elas decidem trazer seus filhos ao mundo. Por estes delitos jamais serei perdoado por aqueles que detém o poder sobre os corpos, mas a justiça, em boa hora, percebeu a brutal injustiça realizada, que impediu – entre outras irregularidades – que peritos pudessem se manifestar sobre o tema. Minha libertação se deve à gritante disparidade de armas no debate mas também à mobilização de ativistas que contestaram minha condenação injusta. Em meio a esse debate ocorreu a manifestação da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA – Washington) citando a mim – nominalmente – como uma vítima da perseguição realizada contra defensores de direitos humanos. Este fato notável favoreceu minha posição frente ao STJ e assim, na última terça feira, o Supremo Tribunal de Justiça anulou o júri. Saí do complexo prisional no dia 17 de abril. É importante ressaltar o papel da ReHuNa, da ABENFO e do Partido da Causa Operária (PCO), que encamparam de forma exemplar a luta pela liberdade e autonomia das mulheres. A estas instituições, nosso reconhecimento.

É do interesse de quem controla o nascimento tratar esse como um caso isolado de “má prática”. Entretanto, é evidente que esse evento está inserido em uma ação sistemática e programada de violência e perseguição contra profissionais que desafiam o paradigma tecnocrático da obstetrícia contemporânea, o qual objetualiza mulheres alienando-as das decisões sobre seus corpos e partos. Não se trata de um ataque a um sujeito irreverente e inquieto, mas contra a ideia de garantir às mulheres o direito de tomar decisões informadas sobre uma função fisiológica e natural como o parto. Mais além, se acreditamos que o parto faz parte da vida sexual normal das mulheres, aqueles que o controlam, alienando as mulheres de qualquer decisão, estão interferindo na própria manifestação da sua sexualidade. Esta é uma forma ancestral de estabelecer controle opressivo sobre as mulheres, designando a elas um papel secundário na ordem social. Por esta ótica, elas são tratadas como defectivas em essência, incapazes de determinar os próprios desejos, sempre demandando uma instância superior para tomar, por elas, as decisões relevantes de sua vida.

Este é o modelo de tutela, usado para crianças, anciãos interditados e para pessoas com deficiência mental, que são, por definição, incapazes de decidir por si mesmos. É desta forma diminutiva que a medicina enxerga as mulheres gestantes. Aqueles que negarem esta perspectiva de inferioridade essencial das mulheres, e que se opõem ao paradigma alienante na condução dos nascimentos, serão vistos como traidores do modelo obstétrico contemporâneo. Para eles se impõe primeiro o escárnio, depois o ostracismo e os boicotes e finalmente os ataques diretos, usando, quando necessário, o sistema jurídico para calar as vozes dissonantes.

Neste contexto, a verdade e as evidências científicas são, via de regra, elementos de pouca relevância na defesa dos profissionais que defendem o parto como elemento essencial na estruturação do sujeito. No meu caso, tratou-se de um bebê cujo parto ocorreu sem nenhum transtorno e que veio a óbito no hospital 24h depois de nascer, vítima de uma doença congênita, impossível de prever ou prevenir. Foi atendido em casa e enviado ao hospital em excelentes condições, tendo ficado mais de 4 horas em observação, sem medicação alguma, até ser finalmente medicado. O número de erros cometidos no hospital é impressionante, mas decidiu-se atacar o médico que aceitou atender a paciente no local que a mãe havia escolhido. Mais absurdo ainda é tratar este caso como “doloso”, algo que jamais ocorre nas centenas de óbitos que ocorrem após cesarianas, mesmo naquelas sem qualquer justificativa médica. Resta a pergunta: por que esta diferença no tratamento? Por que aqueles que defendem o parto normal são punidos, enquanto aqueles que abusam dos recursos cirúrgicos – aumentando os riscos – jamais são molestados?

Ora, porque as cesarianas e toda a parafernália médica que as acompanha – hospitais, médicos, enfermeiras, técnicos de enfermagem, drogas, equipamentos, serviços de limpeza, advogados, administradores, etc – giram a “roda da fortuna” do capitalismo aplicado à saúde. Neste modelo todos lucram e todos abocanham uma parte do butim. Todos, menos mães e bebês, a parte mais frágil e desempoderada e que sofre diretamente com as consequências do abuso de intervenções. Mães e bebês são desconsiderados, e por isso correm maiores riscos, em curto e longo prazos, pela aventura tecnológica das cesarianas abusivas. Todavia, as mães e seus bebês ainda são impotentes para lutar contra uma máquina poderosa que os aliena de qualquer decisão. Enquanto isso, os partos normais e fisiológicos correm na direção contrária: são mais baratos, mais humanos, mais tranquilos e mais seguros. Porém, não servem à ideologia e ao monetarismo de quem os comanda. Por isso o ataque àqueles que os defendem. Atiram no mensageiro para atacar a mensagem.

Durante o meu período de reclusão uma ideia ficou sedimentada de forma muito segura em minha mente: se as mulheres não lutarem por seus direitos e por seu espaço ninguém vai lhes oferecer qualidade superior na atenção ao parto. Autonomia e liberdade são conquistas, jamais dádivas. Esperar que o parto humanizado seja bem-vindo em hospitais, que doulas e enfermeiras obstetras sejam recepcionadas com carinho e respeito e que as taxas de cesariana caiam por magia é pura ilusão. Tal conduta é o equivalente moderno à espera pelo príncipe encantado para nos resgatar da afasia. Nada disso vai ocorrer, e o mundo vai continuar a girar perversamente enquanto dormimos o sono dos ingênuos. Qualquer que seja a conquista, ela só vai ocorrer como resultado de uma luta incessante.

Por isso não resta dúvida de que não há como esperar qualquer mudança sem luta e mobilização. Para que uma revolução no parto venha a ocorrer é fundamental arregaçar as mangas. O projeto de humanização do nascimento será um movimento popular… ou não será.”

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A batalha dos corpos

A batalha pelos partos dignos está inserida na luta pelo domínios dos corpos. Não por acaso as parteiras, que durante milênios se ocuparam da atenção ao parto e nascimento, foram desalojadas pelos médicos no início do século XX, usando como principal arma o domínio da tecnologia. Desde o surgimento do fórceps pelos irmãos Chamberlen nos estertores do século XVII até a incorporação das mais sofisticadas tecnologias de diagnóstico e intervenção, a jornada médica na atenção ao parto se configurou como um aumento crescente e sem limites do ferramental tecnológico para a intervenção no parto. Entretanto, ao mesmo tempo em que o parto se tornava mais seguro para a pequena fração de mulheres que sofria de algum desvio da normalidade, a imensa maioria das mulheres era impedida de transitar pelo território do nascimento de forma livre e tranquila. A invasão médica se tornou um transtorno para o bom curso do processo de parto, exatamente porque as sociedades industrializadas, através de uma visão mecanicista do fenômeno, deixaram de levar em consideração os aspectos fisiológicos, sociais, psicológicos, contextuais e espirituais do nascimento humano. O parto, outrora um momento familiar e envolto em familiaridade e suporte emocional, tornou-se um evento frio e angustiante, deslocado do ambiente psiquicamente seguro do entorno familiar.

A entrada da medicina produziu um espantoso sucesso na correção dos problemas advindos, em especial, das dificuldades com a passagem do bebê por um canal estreito pelo processo evolutivo da espécie. Entretanto, o preço começa a ser sentido na atualidade, onde a expropriação do processo pelos cuidadores deixa as mulheres abolutamente alienadas de qualquer decisão. Os movimentos de humanização do nascimento surgido em várias partes do mundo procuram costurar as partes separadas do processo. Acreditam que estamos – pela primeira vez na história da humanidade – diante da possibilidade de oferecer o “melhor de dois mundos”. Podemos ofecerer o que foi criado pela obstetrícia tecnológica dos últimos dois séculos – que garante segurança para os casos patológicos – ao mesmo tempo que podemos prover o protagonismo às mulheres e o suporte emocional a elas, que foi a marca da atenção ao parto em 99.99% do tempo em que vivemos nesse planeta.

Esta decisão, entretanto, esbarra em muitas dificuldades. De um lado temos a ordem patriarcal e sua sanha de dominação e domínio, que não aceita que as mulheres possam ter controle ou que possam escolher caminhos. Muitos médicos se situam nessa posição, resistindo à ideia de oferecer escolhas informadas às mulheres. Do outro lado estão todos aqueles que percebem que a evolução para uma sociedade mais justa e equilibrada passa pela garantia do protagonismo a todos nós, sejamos homens ou mulheres. Desta forma, a humanização do nascimentose situa na rtincheira daqueles que pretendem combater as forças autoritárias da sociedade oferecendo propostas democráticas de ampla e irrestrita liberdade de escolha.

“Parto não é algo que acontece às mulheres; é algo que elas fazem”. Assim, o nascimento humano é uma construção onde os aspectos físicos e emocionais precisam estar em perfeito equilíbrio para garantir o máximo de segurança ao binômio mãe-bebê, para promover crescimento pessoal e um futuro digno aos que nascem. Mulheres caladas, vítimas de violências múltiplas e cotidianas, não podem oferecer o melhor de si para seus partos, e nem para os seus filhos.

Humanizar nascimento é garantir o protagonismo à mulher. Sem isso teremos tão somente a sofisticação de uma tutela anacrônica e ultrapassada.

Veja mais aqui, na coluna do Diário da Causa Operária

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Como dizer não

Uma verdade difícil de aceitar, mas essencial para oferecer reais alternativas para as mulheres. A simples fantasia de ter um parto como a Gisele não qualifica uma gestante ao parto domiciliar. É necessário muito mais do que essa conexão emocional, em especial a consciência da responsabilidade por suas escolhas.

Escolher um parto num modelo contra-hegemônico e depois abandonar a equipe que a assistiu à própria sorte não é justo nem ético. As equipes de assistência domiciliar precisam desenvolver a habilidade para distinguir quem está verdadeiramente conectado ao paradigma da humanização e quem apenas se deixou seduzir pelo modismo. Dizer “não” é uma tarefa tão difícil quanto fundamental. Muitas das complicações encontradas em partos domiciliares, tanto para os pacientes quanto para as equipes de assistência, poderiam ter sido evitadas se o escrutínio sobre a real capacidade de enfrentar esse desafio fosse mais preciso. Na maioria das vezs nos deixamos seduzir pelos pedidos por um parto extra-hospitalar e pelo interesse expresso em fugir dos ambientes constrangedores e alienantes dos centros obstétricos. Entertanto, o desejo de se afastar das iatrogenias tão comuns no hospital não é motivo suficiente para escolher um parto em domicílio.

A razão para isso é que a pressão que vira do entorno será muito intensa, e apenas as perssoas que têm um preparo emocional adequado conseguirão suportar os revéses. o problema reside em descobrir a verdade que se esconde no espaço que separa as palavras, o que não é dito e não é revelado. E exatamente aí está uma das habilidades mais preciosas dos cuidadores: a leitura dos sentimentos de quem os procura.

“Se o seu instinto, quando qualquer coisa dá errado, é procurar alguém para culpar ou processar, o parto comunitário provavelmente não é para você. Assistentes independentes não têm as máquinas jurídicas dos hospitais para protegê-las de servirem como bodes expiatórios. Obstetras são para patologias. Hospitais são para pessoas que querem terceirizar a responsabilidade. Essa é simplesmente a realidade. Parteiras fracassariam se aceitassem todas as pessoas de baixo risco.” — Ashley Nicole

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