Futebol

Sim, sempre fui um apaixonado pelo futebol. Ontem fiquei sabendo de um colega que está abandonando os estádios, deixando de assistir partidas do seu time e devolvendo a carteira de sócio. Quando perguntado da razão para tal ele disse: “Não quero que meus filhos sejam influenciados pela violência, o “dinheirismo”, as maracutaias e a paixão irracional pelo futebol“.
Uma bela atitude de um pai preocupado com o futuro de seus filhos. No meu caso, eu passei esse gen para a minha filha, que sofre como eu. Já meu filho, cartesiano, racional e agnóstico, a peste da paixão futebolística passou e não desenvolveu a doença. Seus anticorpos racionais foram efetivos para neutralizar o ataque do vírus pernicioso da paixão clubística.

Mas… há lugar, nos dias de hoje, para o futebol enquanto espetáculo de massa? Se entendemos o esporte de forma geral como um apaziguador testosterônico, um civilizador de batalhas e um amortecedor para a nossa natural propensão destrutiva, ele pode ser validado?

Eu creio que sim… aliás, o futebol é o escoadouro de nossas frustrações, o lugar onde existe mais verdade e mais sinceridade na cultura ocidental. Ali, como no carnaval, abrimos uma porta para a expressão pura de nossos ódios, rancores, frustrações e traumas. Somos muito mais verdadeiros na arquibancada do que numa cerimônia de formatura ou entre os lençóis. No local sagrado dos embates do esporte bretão as pessoas se tornam naturalmente mais transparentes, porque se lhes oferece uma capa de proteção social. “Tudo bem, eu briguei no estádio. Bati num velhinho, mas tu vi a roubalheira do juiz para cima de nós?”

Quantas vezes eu e o meu irmão Roger vimos demonstrações claras e inequívocas de racismo na torcida que seriam inadmissíveis em outros contextos. Quantas vezes assistimos raivas, brigas, socos, voadoras e xingamentos que surgiam da explosão de emoções que confluíam para aquele momento. Nada mais livre e puro do que nossas mais profundas emoções encontrarem um canal de manifestação socialmente aceita.

Mas, também é verdade que ali a paixão é mais cristalina, translúcida, quase infantil. Somos mais verdadeiros quando somos expostos às paixões primitivas. Ali aparece um pouco mais da verdade do sujeito. Todavia, brota dessa constatação uma dúvida: queremos de verdade que as pessoas sejam “sinceras”, “autênticas”, “verdadeiras” e “transparentes”? Eu creio que não… O processo civilizatório nos ensinou a mentir, respeitando o sentimento alheio. A civilidade, assim construída, nos oferece a hipocrisia como ferramenta fundamental de convívio. O brilhante filme “A Invenção da Mentira” – com Rick Gervais – deixou para mim essa realidade muito evidente…

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Os comentários estão desativados.