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Idolatria

 

“A idolatria faz mais vítimas que o ódio explícito. Ela é cega para os defeitos, enquanto ele para as virtudes. Entretanto, é melhor um defeito exagerado do que uma perversão dissimulada. Quanto às virtudes, elas aparecem, mais cedo ou mais tarde.”

Eleanor Sinclair, “Just above the Rainbow”, Ed. Aleph, pág 135.

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Sociedade e Espetáculos

Uma atriz famosa declara algumas particularidades de sua vida sexual íntima. Recebe críticas e elogios, seja por sua “imoralidade”, seja pela coragem de falar de suas fantasias íntimas.

Talvez a discussão esteja trocada. Não se trata de debater com quantas pessoas ela transou ao mesmo tempo. Esta é, concordo, uma discussão moralista e sem sentido. O desejo de cada um é patrimônio pessoal sobre o qual não podemos estabelecer critérios ou julgamentos. Usando sua própria lógica: “Quem não fantasiou? Quem podendo não faria?”

Por outro lado, o que eu considero digno de debater é a necessidade tipicamente pós moderna de expor publicamente assuntos absolutamente pessoais. O que veste por baixo da roupa, o que come, suas fantasias e com quem faz (ou fez) sexo. Parece que o mundo cibernético rompeu com todas as barreiras da privacidade.

Vejam que não se trata de IMPEDIR que seu mundo privado e íntimo seja publicizado. Nesse terreno é impossível adentrar sem igualmente invadir a liberdade do outro. Entretanto, caberia perguntar as razões pelas quais as sociedades contemporâneas desprezam tanto a intimidade e a privacidade.

A sociedade do espetáculo conseguirá, por fim, transformar cada sujeito em um performático de sua própria existência?

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Feras e outras histórias de amor

Há exatos 40 anos tomei um decisão radical para a qual estava me nutrindo de coragem por algumas semanas. Convidei meu “crush” (mesmo que naquela época não houvesse esse nome) para ir ao cinema. Quem sabe as condições de pressão e temperatura pudessem quebrar o gelo que emperrava a minha iniciativa.

Havia vários filmes para ver na cidade, mas o escolhido foi King Kong, uma mega produção da época dirigida por John Guillermin e estrelada por Jeff Bridges, Jéssica Lange e…. Kong. No escurinho do cinema e após vários drops de anis eu tomei a coragem necessária para pedir a menina em namoro. Mal sabia eu que toda a minha vida seria determinada pelas escolhas daquela noite.

Exatamente 4 anos e meio depois daquele encontro eu casei com a moça simpática de olhos verdes e sorriso reservado. Todavia, o que sempre me causou espanto foi o fato de que o script da nossa vida em comum seguiu o roteiro que pautou nosso primeiro momento.

King Kong é “A Bela e a Fera” com final trágico. Uma história de amor marcada pela incompatibilidade. Como Bela, na animação da Disney, Dwan começa como cativa do monstro e com o tempo desenvolve por ele ternura, apreço e, por fim, afeto genuíno. Mas, ao contrário de Bela, que tinha a chance de reverter a maldição da Fera com seu amor, Dwan esbarrava no limite intransponível das espécies distintas e incompatíveis. O fim do monstro simiesco só poderia ser a tragédia.

É assim que também vi a minha história. Eu sempre fui o monstro incapaz de conter a fúria e a indignação. Durante anos persegui meus ideais mesmo recebendo os ataques inevitáveis de quem não aceitava a visão crítica e dura que eu apresentava. Segurando minhas convicções como Kong se apoiava no mastro do Empire States, recebi os inevitáveis disparos que surgiam de todos os lados. Por muitas vezes, durante todos estes anos de luta, a única coisa que me ofereceu um tímido consolo era o brilho dos olhos verdes da menina tímida cuja história se iniciou naquela sessão de cinema. Como o monstro da história, eu acabei percebendo que até o final dos meus dias seria este o olhar a me oferecer a força para seguir.


Quatro décadas nos separam daquela sessão de cinema. Dois filhos, dois netos, centenas de partos, muitas dores, tristezas, decepções e alegrias foram divididas. Nunca imaginei que um ogro pudesse ter tanta sorte, algo muito além do seu merecimento.

Agradeço a Zeza Jones a companhia pelos últimos 40 anos, que formaram o que sou. Desculpe ter sido o King Kong descontrolado e furioso, e obrigado por ser a Dwan que sempre me apoiou, em especial quando o meu mundo parecia ruir.

PS: para mostrar como sou um sujeito de sorte a alternativa para King Kong naquela noite de inverno há 40 anos era “Carrie, a estranha”.

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Histórias

 

Terminei de contar ao meu neto Oliver uma mega história em capítulos que durou uma semana.

A história fui eu que inventei. É sobre um grupo de quatro  rapazes (todos tem os nomes de amigos do Oliver) que saem pela floresta atrás de uma lenda: a arca do tesouro que está no fundo de um lago dourado. No trajeto encontra-se com um grupo de quatro ursos falantes, que em verdade eram quatro rapazes que foram amaldiçoados pelas “Sombras” e tornaram-se ursos, e depois encontram-se com uma menina chamada Sophia que tem poderes mágicos e foi criada por uma matilha de lobos falantes – igualmente amaldiçoados pelas “Sombras“.

Os três grupos se juntam – os rapazes, os ursos e os lobos com Sophia – para juntos encontrar a arca, pois nela estão escondidas as poções mágicas que poderiam quebrar as maldições, o mapa para Sophia encontrar sua casa além de moedas de ouro que deixarão os rapazes muito ricos.

Quase no final da aventura Sophia é sequestrada pelas “Sombras” e a arca é encontrada no fundo do lago…. mas não sem antes receberem a ajuda de um gigante que os embarcou em um aviao de papel e os auxiliou para que encontrassem o caminho.

Sophia é a grande protagonista. Ela domina as magias e comanda todo o grupo na busca pela arca. Exatamente por ser a mais importante e a protagonista – a única que sabia como chegar até o lago dourado – ela foi sequestrada pelas “Sombras” e precisou ser resgatada pelos amigos nas masmorras do Castelo das Sombras. Houve um episódio em que a inventividade dos rapazes utilizou um balão cheio de xixi para facilitar o resgate. Essa foi a parte que o Oliver mais gostou.

Na minha história Sophia é a personagem central e enigmática. Tudo ocorria em torno dela. Pensei que seria bom o Oliver escutar histórias em que as meninas são importantes e centrais já que as histórias de heroísmo masculino virão com naturalidade daqui por diante em sua vida e no processo de castração e identificação com o pai.

Minha ligação com a contação de histórias surgiu porque os pais do Oliver se enganjaram em um esforço para diminuir ao máximo a exposição das crianças às telas – televisão, tablets e celulares – junto com outros país da escola Waldorf a que pertencem. Isso gerou (ao menos aparentemente) uma melhora no comportamento e agressividade das crianças. Por outro lado, as crianças precisam da fantasia oferecida pelas histórias para acalmar a ebulição do mundo psíquico a que são submetidas. Por isso Oliver literalmente implorava que contássemos histórias para ele.

Eu acabei sendo o encarregado mais constante de contá-las e resolvi contar as que eu mesmo inventava, para exercitar a minha imaginação e a dele ao mesmo tempo. Não havia um script fixo; a história era criada a medida em que era contada e com o auxílio das ideias que o próprio Oliver oferecia. Os nomes dos personagens foram todos criações suas (nomes de amigos da escola e de uma amiguinha da comuna). Resolvi também contar a história em capítulos para que ele treinasse a lembrança do que havia acontecido até então. Cada contação de história começava com o exercício de recapitular os episódios anteriores.

O nível de excitação dele para cada nova fase da aventura era impressionante. Seus olhos brilhavam a cada nova etapa e para cada solução que os personagens encontravam para os desafios. Era possível ver em seus olhos a construção das imagens e cenários que eram trazidos à história. Além disso ele incorporava conceitos e palavras novas (como “redemoinho”, “caule”, “muralha”, “rapto”, “poção”, etc).

A experiência foi tão agradável que resolvi escrever essas histórias para que sirvam de guia para outros contadores que acreditem na ideia de ajudar o crescimento das crianças estimulando sua imaginação.

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Poema da Retomada

Se o corpo da mulher é território,
onde disputas acirradas
atropelam gerações,
como não aceitar por legítima
a luta por ser retomado?

Se a riqueza dessa terra,
por ter história e ser matriz,
seduziu o forasteiro
que dela quis se apossar,
como não aceitar que o ventre
– e tudo que tem em volta –
queira mais do que depressa
pra sua dona retornar?

Os lindeiros desse chão,
achados de posse eterna,
se esqueceram que a pequena,
por mais delicada que fosse,
tinha na mão um desejo
e no coração um poema.

O poema curioso,
cheio de rimas ricas,
dizia meio por assim,
porque a memória anda fraca,
que a conquista não se faz,
no martírio e na faca.

Que a mulher ou é livre,
ou melhor então que nem nasça,
pois quem dá de si o leite,
de sua carne outra uma,
não pode viver cercada,
da liberdade impedida.

O poema era esse,
que a lembrança se achega,
por mais que a mente procure
a palavra escondida.
Mas na mão está o desejo,
que se abre e nos afirma,
que a mulher tão paciente,
agora forte vai à luta.

Mais que a dor que sempre teve
ela agora só procura,
o caminho que é só seu,
que desenha na lonjura
do seu firme caminhar.

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