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Caridade privatizada

Diz-se do jogador Sadio Mané do Bayern de Munique que ele é um grande filantropo que auxilia a população pobre de Bambaly, o vilarejo onde nasceu no Senegal. Muitas postagens o apresentam como um sujeito simples, que usa um celular com a tela quebrada e que prefere usar seu dinheiro para ajudar as pessoas pobres do seu país, em especial sua cidade – a base de sua filantropia. Mais do que isso, fazem comparações com os jogadores brasileiros – em especial Neymar – mostrando que o senegalês é um sujeito de caráter, enquanto o brasileiro não passa de um egoísta e aproveitador.

É minha convicção que não é função de jogador de futebol assumir o controle da educação e da saúde em seu país. O Senegal não precisa de Messias ou salvadores para resgatar a dignidade do seu povo; precisa de luta de classes e justiça social. Os ataques aos jogadores brasileiros e a exaltação dessas personalidades são cada vez mais comuns. Infelizmente caímos no engodo de fazer análises morais dos esportistas, ao invés de analisar sua performance em campo. Esse tipo de avaliação moralista dos craques serve apenas para nos afastar da importância da luta de classes.

Sadio Mané é aparentemente uma boa pessoa, mas é impossível saber a verdade que existe por trás da imagem construída pelas empresas de publicidade que trabalham a imagem dessas personalidades. Ele parece ser um sujeito preocupado com seu povo, interessado no seu bem estar e acima das questões mais consumistas que parecem prioritárias entre os muito ricos. Entretanto, cobrar dos outros jogadores de futebol a falta de auxílio aos problemas estruturais básicos do seu país de origem é um erro. Não é obrigação do Neymar – e de nenhum de nós – oferecer seu próprio dinheiro para resolver a fome e a falta de hospitais do Brasil. Cabe a nós mesmos usar de estratégias (como cobrar impostos altos de jogadores) para que o próprio povo possa decidir onde – e a quem – ajudar.

Curioso que nós achamos que a interferência do milionário Lemman na Educação, através do seu instituto e dos “Think Tanks” que opera, é perigosa e ameaça o ensino plural e crítico, mas não acreditamos que um jogador de futebol fazer o mesmo é errado. Afinal, nós acreditamos que o Sadio Mané é um “cidadão de bem”. Ora, precisa mais do que uma aparência para acreditarmos que estas iniciativas privadas podem ajudar o povo do Senegal. Fazer caridade, exaltando personalidades e o “culto ao salvador” é uma péssima iniciativa, pois despolitiza a sociedade e cria, como subproduto, sujeitos maiores do que o próprio Estado. E essa atitude não pode ser julgada “boa” apenas porque sonegação de impostos (que outros jogadores fazem) é uma atitude pior. Ora, trata-se de um falso dilema. É preciso combater a sonegação e limitar ao máximo (regulamentar e fiscalizar) a intervenção de grupos privados na saúde e na educação.

Não há porque desenvolver simpatia por nenhum milionário “bonzinho”. Não existe bondade em quem lucra com a miséria global para que uma franja cada vez mais diminuta tenha luxo e poder. Aliás, Messi – para além de um grande benemérito – é um grande sonegador também. Neymar e Cristiano Ronaldo idem. Soros faz caridade com identitarismo e muitos beijam sua mão. A Fundação Ford e a Fundação Gates espalham suas garras por todo o mundo. Aceitar essa benemerência é submeter-se à sua perspectiva de mundo. Ninguém é aprioristicamente contra o assistencialismo, como se ele fosse um mal a ser combatido. Enquanto houver fome, haverá pressa. Enquanto a divisão perversa das riquezas do planeta persistir haverá necessidade de oferecer ajuda humanitária. Entretanto, faz-se necessário não entender essa “caridade” como a solução última do conflito de classes e da pobreza. O que vejo ocorrer com a divulgação dessas ações de jogadores milionários é a normalização do assistencialismo privado, aceitando como preço a pagar tudo de perverso que vem com o personalismo.

Assistencialismo só se for público, democrático e estatal, caso contrário haverá desequilíbrio e despolitização. Sabe quem faz assistencialismo privado? As ONGs evangélicas da Amazônia, que levam Bíblias e junto com elas a destruição de culturas. Elas estão no olho do furação sobre a exploração da Amazônia exatamente porque pregam a privatização da assistência. Sabe quem mais faz assistencialismo privado? Todos os representantes da ordem mundial imperialista. Muitos hoje fazem a exaltação da caridade do Sadio Mané. Nestas questões eu acredito que é preciso ser radical: tais ações de solidariedade/caridade deveriam ser proibidas em Estados soberanos. Você, por exemplo, jamais poderá fazer isso em Cuba. Lá, o Estado autônomo e independente diria: “Quer ajudar? Entregue seu dinheiro e permita que o povo escolha que tipo de saúde e de educação ele deseja. Não será você a determinar como quer os tratamentos médicos ou quais matérias e em quais livros as crianças deverão estudar“.

Para finalizar, não se trata de debater a assistência, mas o conceito imperialista de que o auxílio aos deserdados pelo capitalismo pode ser feito pela caridade dos bilionários, ou seja, pelos próprios capitalistas. Desta forma, os mesmos que condenam países inteiros às guerras, miséria, opressão e exploração seriam responsáveis pelo combate à fome e à pobreza que, em última análise, causaram. Ora, chega desse engodo neoliberal que nos pede que aceitemos migalhas como parte de um projeto de justiça social. Sadio Mané pode ser um bom cidadão, mas o que ele faz jamais deveria ocorrer porque serve à exaltação de personalidades e não tangencia os dramas estruturais da sociedade. A lei deveria limitar a interferência dessas pessoas nos assuntos que o Estado deve atuar – como saúde e educação.

Para saber mais sobre o tema, clique aqui e veja outra abordagem sobre a caridade.

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Lágrimas na Chuva

Esta é uma experiência corriqueira, ainda que eu creia que este drama é compartilhado por milhões de viventes como eu. Acordo de um sonho espetacular no meio da madrugada e penso demoradamente no que ocorreu na trama da qual sou espectador e protagonista ao mesmo tempo. Analiso seus mínimos detalhes, recordo as falas, os personagens e, quiçá, a própria música incidental que delineia e acompanha os movimentos de câmera com seus acordes envolventes. Interpreto suas múltiplas facetas segundo vários autores, Freud, Klein, Skinner, Lacan chegando até Pedro de Lara. Nada resiste ao escrutínio profundo da análise.

Dou risadas das incongruências lógicas do sonho, um humor involuntário que surge da tentativa do Ego em tomar as rédeas em um território que não lhe pertence. Finalmente faço um resumo mental da trama e dos significados psicológicos de cada tomada de cena e, já comprometido com a ideia de colocar o enredo no papel pela manhã, volto a dormir.

Ao acordar só o que me vem à mente é… “Eu vi coisas que vocês, humanos, nem iriam acreditar. Naves de ataque pegando fogo na constelação de Órion. Vi Raios-C resplandecendo no escuro perto do Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de acordar”. E aí, tudo vira poeira, fragmentos dispersos de luz perdidos no infinito cósmico.

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Modelitos e mensagens

Quando eu era adolescente escutei durante uma aula de inglês uma lição com uma frase motivacional na forma de um ditado, que por meio século se manteve em minha cabeça: “There’s more to clothes than to keep warm” (existe mais nas roupas do que simplesmente se aquecer). Esta noção do corpo como veículo da sexualidade – e das roupas como sua moldura – custou a se configurar como certeza, mas bastou atingir a adolescência para que ela caísse como um meteoro sobre minha cabeça. Por entender o quanto nossas roupas são mensagens é que, vez por outra, eu me espanto ao escutar ou ler algumas frases especialmente engraçadas sobre as razões para usá-las:

“Eu não me importo com roupas. Uso qualquer coisa e não me interessa se os outros gostam ou não. Eu me visto apenas para me sentir bem”. diz a jovem de jeans rasgados e tênis da “Balenciaga” que custam o mesmo que um trabalhador da construção civil leva três meses para ganhar de salário.

Acho engraçado porque este tipo de afirmação dá a entender que “as pessoas se bastam”, são ilhas de autossuficiência, como entes impenetráveis à opinião alheia. Nada me parece mais arrogante que isso. Uma vez meu filho, aos 12 anos, me confessou “tudo que eu faço é para me exibir, para oferecer algo aos outros”. Rara sabedoria.

Em verdade, essas coisas que nos empacotam como produtos na prateleira da vida importam sim, e muito. Não por outra razão as indústrias da moda e da maquiagem são dois dos mais poderosos empreendimentos do mundo. A moda mobiliza 2.4 trilhões de dólares por ano e, se fosse um país, seria o sétimo mais rico deste planeta, movimentando somas astronômicas para cobrir nossa nudez, ao mesmo tempo que, sedutoramente, nos convida a desvelá-la. A indústria de cosméticos já atingiu 571 bilhões de dólares anuais e está em franco crescimento, prometendo esconder defeitos, ressaltar virtudes e estancar a sangria do envelhecimento.

Além disso, existem os terríveis efeitos colaterais que estas iniciativas promovem. A indústria do vestuário é a segunda maior poluidoras do planeta, atrás apenas do petróleo, e a que mais enriquece pelo trabalho escravo. São cerca de 100 milhões de toneladas de fibras processadas em nível global. Nesse setor, o Brasil é responsável pela 5ª posição mundial, e somente aqui são produzidas cerca de 100 mil toneladas de lixo industrial cada ano, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). Tudo isso é gasto para deixar as pessoas mais atraentes e mais desejáveis, com mais pontos no mercado da atração sexual. Portanto, não é justo imaginar que toda essa fábula de dinheiro é gasta e as pessoas “não se importam” com o impacto que as roupas produzem no sexo oposto (ou no mesmo).

Outro problema está relacionado com as questões éticas de muitas empresas da moda e sua invasão sobre temas extremamente delicados como a sexualização da infância. A empresa Balenciaga está sendo atacada severamente pelo tipo de publicidade que usa para seus produtos usando modelos infantis. Eu acredito ser abominável qualquer exploração da sexualidade infantil produzida por roupas e cosméticos. Se a roupa é realmente isso – uma mensagem e um convite – a exploração da moda infantil que erotiza crianças é algo criminoso e perverso. A infância é curta demais para ser desperdiçada com adultização precoce.

Eu não seria tolo o suficiente para acreditar que o dinheiro gasto em aparência é mal gasto e não há nada de errado em gostar de roupas e do que elas representam, e isso é algo que se estabelece na primeira infância – como tudo que é significativo e persistente em nossas vidas. Eu só acredito que imaginar que as roupas que vestimos são desimportantes ou que sua intenção não é – em última análise – erótica, é um grave erro. Se a mola propulsora do mundo é mesmo o sexo e a manutenção dos nossos genes no pool planetário, qualquer ação que nos aproxime desse objetivo é válida. Entretanto, há que se entender que o desejo justo de aparecermos apetitosos aos olhos do mundo pode ter um preço alto demais para as outras vidas do planeta e, em última análise, a nossa própria.

Talvez seja o momento adequado para rever nossa compulsão em “renovar o armário” e passar a ter um consumo mais adequado para a capacidade de renovação do planeta. Visitar um brechó é um bom começo.

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Castidades

Sula Miranda, que já foi considerada durante muitos anos como a Rainha dos Caminhoneiros, declarou recentemente que não faz sexo há cerca de 14 anos. A cantora de 57 anos, irmã de Gretchen, é evangélica e adepta à ideia de se relacionar apenas se estiver comprometida em um casamento. “Eu quero compromisso e, hoje em dia, ninguém quer. As pessoas só querem ficar. Essa coisa de dorme na minha casa, depois durmo na sua… Estou fora! Para mim, tem que ser à moda antiga”, disse em uma entrevista recente

A história dela me faz lembrar a chacrete Rita Cadillac, que antes de aceitar a proposta de estrelar um filme adulto declarou que estava sem fazer sexo há muitos anos. Na época fiquei chocado ao perceber que a “deusa do sexo”, Rainha dos Detentos, era de uma castidade monástica.

Ou seja, a fama e a fortuna não são garantias de uma vida sexual ativa e feliz. Pelo menos não para muitas mulheres. Para quem acredita que o dinheiro é capaz de dar acesso a estas regalias parece que a realidade desmente nossa fantasia.

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Imundície

Pizarro e a Conquista do Peru, 1846 por John Everett Millais (1829-1896, UK)

Li agora uma postagem que criticava os europeus por se acharem os donos do mundo mesmo quando, durante a época das navegações, suas cidades eram imundas e fétidas. Com outras palavras o texto dizia: “Como poderiam exigir nossa subserviência quando andavam misturados com seu próprio excremento e quase foram destruídos pela própria sujeira? Toda essa falta de asseio e promiscuidade foram responsáveis pela ocorrência da peste negra, entre outras tantas mazelas. Como ousam se considerar superiores??” finaliza o post, que mistura indignação com humor.

Atrás dessa informação existe a crença de que o cristianismo – uma “máquina totalitária”- seria o responsável pelos massacres e extermínios das populações nativas. Estas seriam “superiores”, mais asseadas, e (acreditem) mais pacíficas. Nada poderia estar mais longe da verdade. A resposta à indagação de “como poderiam ser superiores?” é simples: o poder não tem nada a ver com higiene, bons costumes, asseio pessoal, etc. e também nada tem a ver com superioridade moral; isso é apenas um preconceito modernamente disseminado. Vou mais além, e talvez deixe alguns desavisados um pouco chocados, talvez surpresos: os europeus dominaram o mundo, entre outros fatores, por causa da sua imundície.

Exatamente. Ser imundo foi uma imensa vantagem sobre os ameríndios, por exemplo. Quando aqui chegaram, os fedorentos espanhóis – em especial – trouxeram suas armas (e a pólvora), seu aço (nos escudos e espadas, em contraposição ao frágil bronze dos nativos americanos) e…. germes, milhões de bactérias peludas e gosmentas, adquiridas principalmente através da domesticação de múltiplos animais; o convívio íntimo com vacas, porcos, galinhas, cães, gatos e cavalos. Isso significa muito mais espécies do que os mexicas e incas haviam sido capazes de domesticar para compartilhar germes e doenças. Essa promiscuidade ofereceu aos europeus uma superioridade imunológicas importante, produzida pelo contato intenso e incessante com uma grande variedade de microrganismos.

A invasão europeia das Américas causou proporcionalmente poucas baixas indígenas em combates diretos, quando comparados com os confrontos diretos com os invasores, mesmo com a diferença brutal de capacidade bélica – basta ler sobre a grande batalha de 1532, onde Pizarro capturou o chefe inca Ataualpa no Peru, onde menos de 100 espanhóis destruíram 80 mil nativos em poucas horas – mas principalmente pelas doenças contagiosas (gripe, varíola, pneumonia, conjuntivite, etc,) que os invasores do velho mundo carregavam em sua bagagem, as quais produziram as mortes posteriores. Sem o saberem, trouxeram em suas roupas, suor, perdigotos e sangue suas armas mais perigosas e mortíferas

Portanto, a imundice dos europeus foi um dos seus maiores trunfos para se estabelecerem como cultura preponderante e dominante. Longe de ser uma “desvantagem” ou símbolo de inferioridade, sua porquice provavelmente permitiu que se tornassem senhores do mundo.

Achar que os cristão eram muito diferentes – ou tinham diferenças intelectuais e morais – com os povos invadidos é apenas culpa branca estéril, um pensamento cafona e racista. Os povos são todos feitos de pessoas, grupos que se organizam em diferentes graus de sofisticação tecnológica e social, mas possuem a mesma contituição moral. Os ameríndios não fizeram a viagem inversa para a conquista da Europa apenas porque eram incompetentes para isso, e não porque fossem pacíficos ou porque não aceitavam as guerras e conflitos. Ora, a história da América Central, dos mexicas, dos toltecas é de uma violência inacreditável. Fizeram crueldades com as populações conquistadas que são inimagináveis até para a violência animal dos conquistadores espanhóis. A ideia de que eles eram “pacíficos” é uma idealização absurda. Ainda hoje existem disseminadores da ideia de “bom primitivo”, o “indígena pacífico”, mas isso é irreal, e existem provas documentais de que isso jamais poderia ter acontecido.

Aliás, o pacifismo em todo o planeta sempre acaba quando seus filhos começam a passar fome. Os Europes, por questões da geografia, da agricultura, da pecuária e da orientação do clima (horizontalmente determinado, ao invés de verticalmente estabelecido) saiu na frente e chegou primeiro às Américas, derrotando povos de tecnologica mais atrasada e biologicamente despreparados. Essa conquista não foi por uma questão moral, religiosa ou qualquer outra dessas características. Se pensarmos dessa forma preconceituosa e racista, seremos obrigados a aceitar diferenças essenciais entre povos e culturas – como inteligência e moralidade – e isso nos fará retroceder 200 anos na história da equidade racial nesse planeta.

O grande problema é o idealismo. A visão de que as ideias cristãs são totalitárias – em contraposição ao teleologia dos nativos – é pura perspectiva idealista. Se Constantino não tivesse convertido o Imperio Romano ao cristianismo Cristóvão Colombo chegaria aqui carregando uma imagem de Júpiter ou de Marte. Para os interesses comerciais dos europeus a figura a representá-los seria irrelevante; as questões materiais serão sempre preponderantes e se sobrepõem às ideias. O cristianismo – ou o islã – são apenas religiões que captam e transcrevem (e não disseminam por si só) as aspirações humanas de proteção e sobrevivência para lhes oferecer um suporte ideológico, mas não são jamais os motores da transformação social. As religiões são ideologias onde colocamos nossos valores, e não de onde os retiramos. Ou seja: se não fosse o cristianismo seria qualquer outra ideologia a carregar os anseios de expansão da cultura europeia para além do atlântico.

Recomendo como leitura complementar a obra “Armas, Germes e Aço” de Jared Diamond, onde ele descreve com riqueza de detalhes e de forma pormenorizada as razões pelas quais existem diferenças marcantes no desenvolvimento do processo civilizatório nas diferentes partes do mundo.

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Roupa suja

A não ser que seja apenas uma jogada puramente comercial – e não seria nenhuma novidade – desdenhar do seu ex amor, atacá-lo publicamente, desprezar sua nova paixão e expor em praça pública sua ferida de amor próprio, como fez a famosa Xá-Quira na música em que fala de Piqué e sua nova namorada, lembra o famoso bordão do futebol da Globo:

– Galvão!!!
– Fala Tino…
– Sentiu…

A melhor tradução para uma mulher que deu a “volta por cima”, recuperando sua autoestima após a perda de uma paixão foi escrita de forma magistral por Chico Buarque:

“Quando você me deixou meu bem
Me disse pra ser feliz, e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume…
… obedeci.”


E eu não duvido que por trás de toda essa novela não exista um gigantesco golpe publicitário em que ambos acabem ganhando. No mundo do capitalismo e do espetáculo nada é impossível. E, antes que me acusem de pautar as reações das mulheres, isso vale tanto para os homens quanto para elas. Shakira pode fazer o que bem desejar, mas isso não garante a ela a prerrogativa de acertar. Neste caso em especial, expor-se e aos seus filhos não me parece uma saída nobre.

Essa humilhação dela vale o lucro que aparentemente fez com a música de desforra que lançou no mercado? Dinheiro? É só isso que alimenta sua alma? Tipo, Silvio Santos “Topa Tudo por Dinheiro”. Vale a pena essa exposição? Vale a pena desnudar sua ferida narcísica para milhões? Se o dinheiro é a medida, é provável que sim; caso contrário, lamentável. Ainda acredito que chorar é infinitamente mais nobre, pois significa exercer o luto de uma perda. Como diz o Chico “morrer de ciúme, quase enlouquecer“, mas depois virar a página e ressurgir.

Será mesmo que o Piqué está preocupado com a música dela? Sério? E os filhos deles, como ficam nessa batalha?

Humilhar-se publicamente, imaginando atingir seu amor é triste e degradante. Acreditar que esse desprezo vai atingir seu ex-marido é como tomar veneno e esperar que o outro morra. “O ódio é um ácido que corrói o próprio frasco que o contém”. A melhor resposta a alguém que lhe abandona é ser feliz e provar a si mesmo(a) que a vida continua depois do fim de um amor. Meu pai sempre me dizia: “Quer ficar livre de alguém? Passe a gostar dele; enquanto o estiver odiando será eternamente seu escravo”

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Vovô

Um debate curioso: mulheres de mais de 60 anos que se ofendem quando chamadas de (ou descritas como) “vovós”. Posso entender que isso pode ser ofensivo quando a mulher não tem filhos (portanto, em geral, sem netos), mas para mim é estranho que alguém se ofenda por ser chamado pelo nome que descreve o mais vitorioso de todos os sujeitos no critério “reprodução”, e na categoria “manutenção dos genes no pool planetário”.

Portanto, talvez antes de questionar a inadequação de chamar as pessoas mais velhas dessa forma seria interessante analisar porque nos dias de hoje isso é considerado ofensivo. Eu pergunto: por quê? Qual o demérito em ser vovô? Antes disso eu igualmente nunca tive problema algum em ser chamado de “tio”, e me orgulho dos meus 30 sobrinhos. Por que ser “vovô” parece ser visto por alguns como um defeito?

Assim, mantenho a pergunta: qual o problema em ser vovó ou vovô? Por que seria demeritório ser chamado dessa forma? No meu caso, a partir do dia que nasceu meu primeiro neto eu assumi a persona “Vovô Ric”, sem nenhum pudor (e eu tinha apenas 52 anos!), até porque o meu grande sonho na vida sempre foi ser avô. Igualmente quando eu me tornei pai não achava ofensivo ser chamado de “papai”.

Essa manifestação de desprezo aos vovôs não seria o real ageísmo?

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Pedestal

Slavoj Zizek diz que o pior tipo de racismo se expressa através da exaltação da visão estereotipada e idealizada das qualidades do outro, como se este fosse incapaz das atrocidades que nos caracterizam. É quando dizemos maravilhas das culturas negras, indígenas e asiáticas, descrevendo sociedades puras, sem contradições e “originais” em contraposição à depravação e decadência das sociedades ocidentais.

O mesmo digo em relação aos gêneros. Pouca coisa me irrita mais do que a idealização biscoiteira sobre as mulheres, perspectiva que procura confundir sua condição no patriarcado como uma vantagem de ordem moral, que muito lembra a tentativa de colocá-las num pedestal para assim serem mais facilmente manipuladas. Por certo que há diferenças, mas não a ponto de suprimir a capacidade que todo ser humano carrega de fazer merda. O que me parece necessário extirpar é a idealização e a “culpa branca”.

A melhor forma de estabelecer equidade é aceitar que os gêneros, etnias, orientações sexuais e identidades distintas compartilham a mesma capacidade – essencialmente humana – de produzir todo e qualquer tipo de perversão.

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Russel

Não se pode imaginar que ações racionais surjam de premissas puramente emocionais. Esta é uma regra dourada em qualquer arena de debates. A fé, jamais a razão, produz respostas grosseiras, deseducadas, ofensivas e violentas, tanto no mundo real quanto no universo virtual. Por isso que temas como a moral – e não a matemática – são propensas a tantas brigas e enfrentamentos. Quanto mais diáfanas forem as bases de um determinado assunto maior será a possibilidade de que ele se perca em conflitos estéreis.

Infelizmente Russel acreditava que as diferenças religiosas levam à guerra, o que é um erro típico daqueles que se deixam seduzir pelas aparências. As guerras são enfrentamentos brutais de origem econômica e geopolítica, para a busca de recursos materiais, mas que muitas vezes usam a religião como mera máscara identitária, seduzindo os combatentes do nosso lado a identificarem o outro como a ameaça, os infiéis e os impuros.

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Bêbado e equilibrista

A questão do surto opiniático da sociedade contemporânea é equilibrar-se sobre a fina lâmina que separa a compulsão pelas opiniões e a mais improdutiva alienação. Colocar-se de forma equidistante entre estes dois polos é tarefa complexa e, invariavelmente, pendemos para um dos lados.

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