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Futebol raiz

“Sou do tempo em que jogador de futebol usava chuteira preta, jogava bola e fazia gols por nós. Nunca soube nome de suas namoradas nem mesmo se eram casados. Hoje o futebol é apenas a vitrine para seus verdadeiros negócios. No futebol – mas também em outros esportes – o gol, o drible, a firula, a vitória e a taça no armário são apenas elementos que ajudam o “esportista personagem” a fechar contatos de barbeador, cerveja ou desodorante.”

Bernie McLaren, entrevista ao semanário “Sports in the Wire”, Edimburgo, pág. 135

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Espíritas carolas

Não creio que se possa dizer que existe um mosaico de preferências políticas dentro do espiritismo contemporâneo. Quando observamos as manifestações de seus líderes percebemos um ENORME contingente de carolas, cristólatras (como Divaldo e Chico), místicos, e conservadores de todos os matizes. Em minha experiência pessoal posso dizer que no meu grupo de jovens espíritas praticamente TODOS se voltaram à direita.

Um espírita de esquerda como eu é quase uma aberração. Divaldo foi ovacionado de gorma etusiástica numa conferência ao exaltar a figura patética e corrupta do ex juiz da Lava Jato, cuja reputação agora se despedaça publicamente. Poderia ter ficado quieto, ser discreto. Poderia até entender que sua posição o impede de vinculações apaixonadas com um lado ou outro. Entretanto, preferiu o bolsonarismo mais tacanho, fazendo uma manifestação apaixonada de um punitivista messiânico que, ao que tudo indica, se corrompeu pela vaidade e pela ambição desenfreada.

Os espíritas, enquanto grupo social, são conservadores e moralistas. É até curioso ver uma enorme parcela de líderes espíritas homossexuais reprimidos que se aliam à direita mais sexista – que os desaprova e condena – mas isso tem tudo a ver com a “identificação com o opressor”, como o próprio Freud nos ensinou.

Divaldo Franco e sua legião de espíritas conservadores exaltou o ex juiz, tratando-o nesta conferência em Goiás como “espírito de luz” e “missionário” da “República de Curitiba”. Hoje se descobre que tal sujeito é apenas um espirito das trevas corrompido pelo orgulho, pela ambição e por uma vaidade desmedida. O tempo é o senhor da Verdade.

Se há alguma diversidade no movimento espírita ela se encontra na marginalidade. Eu, por exemplo. Não está na FEB ou em federações regionais; dificilmente na direção das casas Espíritas. Se houver estará nos poucos negros e negras, nas mulheres espíritas, nos gays e trans que enxergam no espiritismo uma possivel explicação para suas dores, mas que não negam a importância central do modelo social na produção do sofrimento que os oprime.

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Como estás?

Hei de estar na alvorada; quando for chamado lá eu hei de estar.

Assim cantavam os “Arautos de Rei”, conjunto gospel que eu ouvia em casa quando pequeno. Eles eram a versão dos “King’s Heralds” americanos e suas músicas formam o playlist da minha infância. Talvez por isso eu me lembre tanto das letras. Outra, ainda mais significativa, era assim:

Se a morte vier hoje te buscar, como estás (como estás) com teu Deus?

Não parei de pensar nessa pergunta durante meio século. Para mim sempre houve esta urgência. Se a morte vier me buscar hoje à tarde, o que terei a dizer nos portais celestiais?

Vejo Pedro em seu trono, balançando as chaves na minha frente. “O que você fez dessa oportunidade incrível de habitar um corpo, sentir suas dores, amar, sofrer, buscar, fugir, temer, gozar, mentir, chorar? O que deixa como semente? Uma palavra, uma idéia, filhos, livros, jardins?”

Se a morte vier hoje me buscar vou pedir desculpas por tudo que deixei de fazer por medo ou vaidade. Os beijos não dados, as palavras engolidas, a piada genial cujo timing passou, o abraço que não rolou. Tanta coisa deixada para trás por não me dar conta do tempo curto dessa aventura de vida.

Ahhhh… os bebês nascendo. Essa é a memória que ficará para sempre.

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Cultos

Preso no hotel fico estarrecido com os programas religiosos na Internet. Existem dezenas de canais evangélicos na TV com cultos dos mais variados. Não sabia dessa abundância. Este que eu estava assistindo chama-se “Milagres na TV” e se baseia em curas. O que me chama a atenção é a estética do programa. A foto abaixo parece ter sido tirada em uma sinagoga; os homens usam quipá e as mulheres mantos brancos. As músicas falam de “destruir o inimigo; não restará nenhum de pé”.

As ligações telefônicas ao bispo contém pedidos de melhora financeira e “ânimo” para conseguir um emprego. As palavras do bispo são: “se você está de pé seu inimigo deve estar no chão. No mundo espiritual é que lutamos pela vida espiritual e financeira e pelos nossos sonhos de consumo”. Claro, isso os coloca como “gate keepers”, aqueles que podem (ou não) abrir as portas para essas “felicidades”.

Os pastores são incríveis, num perfeito sincretismo religioso bem brasileiro. Um deles falou “somos ensinados sobre a tricotomia corpo, alma e espírito”. Sim, “tricotomia”. Depois fala que a alma também é chamada “perispírito”, um termo que não aparece na Bíblia, mas foi retirada do discurso espiritualista.

Todo o discurso é baseado na guerra, nos exércitos de Deus na luta contra o diabo. Diz ele que quem não entende isso nunca estudou “angeologia”, ou o “estudo dos anjos”. Quase não se fala em Jesus, tudo é sobre Deus e o velho testamento. A “boa nova” é abolida para tirar a poeira do velho testamento. A metáfora mais usada é David e Golias. Ahhh, dízimistas (que pagam dízimo à igreja) tem favores especiais de Deus, mesmo que Ele nos ame de forma igual. Sei…

Até bandeira de Israel tem…

É o que se poderia chamar de “desmoralização da religião”: uma religião sem “moral”; pragmática (emprego, dinheiro, casamento, álcool, drogas) e assentada sobre valores outros que não os morais e espirituais, refutando a busca da elevação através da reforma íntima.

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Sensualidade

Fotografia da atriz Sheron Menezzes

É impressionante como essa foto pode ser perturbadora, mas enganam-se aqueles que pensam que os homens são os mais afetados. Basta que alguém diga que ela é “plena de sensualidade” para que os alertas imediatamente disparem…

Aqui vemos o grande tabu da amamentação vindo novamente à tona: nossa negativa em expandir o conceito de sexualidade para que desta forma possa ser contido dentro estreita caixa da moral cristã. Alguns rechaçaram de imediato; outros chamaram de “divino”, para contrapor àquilo que chamamos de “mundano”. Palavras como “amamentação”, “sensualidade” e “prazer” não podem caber em uma mesma frase.

PS: Acabei recebendo uma enxurrada de ataques no meu texto no Facebook, em especial vindo de jovens meninas feministas. Apaguei todas as ofensas pessoais e bloqueei sem nenhum constrangimento todo mundo que usou de escárnio, deboche, ofensas pessoais e agressões. Não precisam concordar, mas exijo respeito. Não sou candidato a nada e não preciso me ocupar em educar gente agressiva.

Todavia, ainda acho chocante o nível dos argumentos oferecidos e o preconceito que elas carregam contra a própria sexualidade. O texto é essencialmente um chamado à consciência de todos sobre a sacralidade da amamentação e a evidente conexão entre os diversos aspectos da vida da mulher e sua sexualidade abrangente. O preconceito com “sexo” é inacreditável. Algumas gritavam: “O que? Um homem sexualizando a amamentação?” como se sexualizar tivesse o sentido de “sujar”, “macular” ou “profanar”. Outras diziam que “o seio foi feito só para alimentar“. A redução do corpo a um ente biológico é algo absolutamente chocante. Damares fazendo escola…

Há poucos dias eu conversava sobre o tema – e o texto – com uma psicanalista e comentava sobre a banalidade dos conceitos que eu trouxe à discussão, quectão somente falavam da ligação entre amamentação e prazer. Ela se mostrou surpresa com a reação das meninas, dizendo que desde a revolução freudiana do início do século XX ficou mais do que evidente a correlação entre amamentação e sexualidade e que isso já havia vertido dos textos clássicos para o conhecimento popular. Como podia esse tema causar discórdia e polêmica?

Pois eu não me surpreendi; infelizmente, não. Os xingamentos – como sempre – falam muito mais dos dramas e traumas do agressor do que os supostos erros que acusam. Apareceu muito ódio e muito ressentimento, mas acima de tudo uma visão moralista e pervertida do que seja a sexualidade feminina. Um pequeno exército de Damares atacando alguém que ousou dizer que a amamentação faz parte do infinito – e sagrado – arsenal erótico da vida de uma mulher.

Se foi difícil explicar – há mais de 15 anos – que o parto podia ser algo prazeroso, por que seria diferente com a amamentação?

Pela primeira vez senti o mesmo que Freud explicando a histeria e (pior ainda) a sexualidade das crianças diante da comunidade médica obtusa e preconceituosa de Viena há pouco mais de 100 anos.

Não mudamos muito…

Muitas vezes a “balbúrdia” de nossos pensamentos e percepções do mundo nos deixam chamuscados mas servem para aclarar ideias e sacudir a mesmice dos nossos (pré)conceitos. Depois dos ataques que recebi por falar da sexualidade imanente da amamentação (a maior parte vinda de pessoas muito jovens, estudantes brancas de classe médiia) me chamando de “velho”, “machista”, “escroto”, “pervertido”, várias pessoas vieram elogiar o texto inbox, o que me deixou aliviado por saber que algum eco podia ser escutado na imensidão cibernética. Isso por si só – elogios escondidos – mostra que os ataques não eram só ao texto e seus conceitos desafiadores, mas o conhecido rechaço à ideia de um homem falar sobre sexualidade e amamentação.

Porém, um dos recados privados eu acho que seria interessante para compartilhar. Creio que este tipo de evidência deixaria as “certezas pétreas” dessas pessoas bastante cambaleantes. Minha amiga virtual apenas pediu para não revelar seu nome.

Aqui vai seu relato:

“Querido Ric, não pude me furtar de vir aqui falar da minha experiência com relação ao aleitamento materno e a temáica do prazer, que você trouxe tão objetivamente e tão bem ilustrada, mas que só serviu para mostrar o recalque generalizado que as mulheres carregam sobre o tema (pelo menos até onde vi). Tive uma experiência de ambivalência por demais poderosa com o aleitamento materno porque, ao mesmo tempo que incomodava, eu tinha uma sensibilidade que irritava os mamilos. Incomodava tanto o toque, quanto o contato com o bebê, mas ao mesmo tempo, eu precisava relaxar.

Pois, quando tudo estava ok…..orgasmos imensos não pediam licença, apenas aconteciam. O susto no começo e depois a entrega; afinal, fazer o que? Tinha que dar de mamar. Cheguei a conversar com meu companheiro que entendeu – ou não – mas respeitou e… vida que segue. Quando tenho oportunidade digo que o aleitamento materno também faz parte da vida sexual e orgasmo é uma coisa esperada na vida sexual das mulheres…. ou não é?

Então, quem não tem… fazer o que, não é? Beijos por sua coragem, e se eu fui de alguma serventia pode divulgar meu depoimento apenas não cite meu nome por favor, mas pode contar o milagre. Afinal, estes milagres acontecem todos os dias, como diria a minha mestra. Abraços para a turma daí, Zeza, Zezé, etc…”

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