Os direitistas não conseguem entender qualquer tipo de organização social sem um dono, não é? Para estes, a fraternidade e a justiça social são utopias sem sentido. O mundo precisa ter imperialismo, Cuba necessita um dono que cumpras as ordens da Matrix. O mesmo com a China e a Coreia Popular. O mundo é determinado pelo imperialismo e o Brasil também deve se subordinar. A América Latina, com sua gente escura, merece ser o quintal americano; é o que determina nosso “destino manifesto” de inferioridade. Somos escravos por natureza, e eles – os brancos ricos e europeus – nossos mestres e donos. Mais além, qualquer país que se rebelar contra essa ordem será estrangulado, e os outros países devem aplaudir a crueldade dos nossos donos.
Olhem que curioso: Cuba, Vietnã e Coreia Popular são comunistas. Venezuela, Palestina e Irã são capitalistas. Entretanto, todos estes são atacados severamente pelo imperialismo americano porque compartilham um elemento em comum: não se ajoelharam diante do imperialismo, não se venderam, traçaram seu próprio destino, não se curvaram ao poder imperialista e romperam com a postura de vassalagem. É isso, e não o sistema econômico (como pode ser facilmente visto), o que torna um país uma “ditadura” e seus soldados “terroristas” (ou “traficantes”, dependendo do interesse).
O problema no Brasil é que por questões culturais, e por uma classe média entorpecida e reacionária, ainda não criamos no nosso povo a chama revolucionária para expulsar os interesses imperialistas do nosso país. Enquanto isso, continuamos atrasados, produtores de soja, desindustrializados, reféns do agro e constantemente ameaçados por militares tolos, corruptos e incompetentes.
Eu tenho inveja do povo do Irã, de Cuba, da Coreia Popular e da Palestina. Apesar das suas dificuldades e contradições, são cidadãos de países adultos, enquanto o Brasil continua em sua infinita adolescência, incapaz de sair de casa por medo de enfrentar a vida adulta.
Não concordo com a proibição dos jogos. Por questões de coerência, quem é contra a criminalização das drogas não poderá aceitar a proibição do jogo, mesmo reconhecendo que se trata de vício, e muito destrutivo. Jogo, para algumas almas mais frágeis, é um vício, tão perigoso para a saúde quanto algumas drogas poderosas. Sou contra qualquer jogo de azar, mas assim como proibir as drogas não funciona, e não funcionou com as bebidas há 100 anos (lei seca), o único resultado certo a partir da proibição dos jogos será o ressurgimento dos jogos ilegais e irregulares. Isso é pior do que jogo legalizado. A proibição da venda e comercialização de bebidas nos Estados Unidos deveria ter nos ensinado algo sobre este tipo de medida. A chamada Lei Seca (Prohibition) nos Estados Unidos vigorou nacionalmente de 1920 a 1933, a partir da 18ª Emenda e do Volstead Act, proibindo a fabricação, venda e transporte de bebidas alcoólicas. Embora tenha provocado inicialmente uma forte redução do consumo — estimativas econômicas indicam queda para cerca de 30% do nível anterior, seguida de recuperação para 60–70% ainda durante a proibição —, a medida criou um vasto mercado clandestino, com contrabando, bares ilegais (speakeasies) e expansão de organizações criminosas que lucravam com a produção e distribuição de álcool.
Como se pode ver, mesmo que a ação inicial seja uma diminuição nos jogos, a reação do público acaba trazendo as taxas de consumo para muito próximo dos níveis anteriores à lei. Mas, se não for pela simples proibição, qual poderia ser a solução? Bem, podemos encarar de várias maneiras, sendo a mais efetiva o fim do capitalismo. Mas, antes disso, podemos restringir ao máximo o acesso aos jogos. É possível, por exemplo, colocar o imposto muito alto (como no cigarro, que chega perto de 80%), estabelecer um controle máximo de gastos pessoais por CPF, impedir jogo para menores de 21 anos, impedir publicidade ostensiva, etc. E, acima de tudo, educar as pessoas para que entendam o real sentido do jogo.
Essa é a peça mais importante. Nos jogos de azar o que se comercializa é a ilusão de ganhar dinheiro sem trabalhar, a ideia de enriquecer por um ato de sorte. Mais do que o problema na economia doméstica, a falência, as dívidas e a dissolução de famílias, a disseminação do jogo estimula as pessoas a acreditarem no ganho fácil, pela graça divina, sem ter o trabalho e o esforço pessoal como fundamentos. Quem apoia o trabalho, o salário ganho com o suor do rosto, não pode apoiar essas armadilhas liberais. Sim, eu sei do efeito deletério que as apostas têm sobre o futebol e outros esportes. Sei o quanto a jogatina desenfreada pode colocar a disputa honesta em perigo. Ainda assim, mesmo sabendo que mais escândalos podem ocorrer, sou obrigado a reconhecer que proibir é uma péssima – e inefetiva – solução.
“Proibicionismo é a política de proibir legalmente a produção, venda, posse ou consumo de determinadas substâncias ou práticas, geralmente com o objetivo de reduzir seu uso e seus efeitos sociais“. O termo é usado sobretudo em relação às drogas, mas também pode se referir à proibição do álcool, jogos de azar, prostituição etc. Porém, a história das legislações restritivas nos permite afirmar que a simples proibição dos jogos virtuais não vai vais funcionar – mais uma vez. O proibicionismo, sobre qualquer tema – prostituição, drogas, cigarro, jogo, partidos políticos – é um fracasso em todas as épocas da humanidade. Bebida foi proibida, o Partido Nazista foi cancelado e os abortos severamente restringidos. E todos eles estão aí, ilegais ou legais. Não se combate proibindo, mas educando.
Hoje (18/09/2026) foi publicada na Internet uma manifestação dos clubes brasileiros em defesa das BETs. Clubes da Série A e federações de futebol se mobilizaram contra a possibilidade de o Governo Federal proibir os jogos de cassino on-line, argumentando que uma mudança brusca na regulamentação das apostas teria forte impacto financeiro no futebol brasileiro. As BETs autorizadas investem mais de R$ 1 bilhão por ano em patrocínios, beneficiando desde grandes clubes até equipes menores, futebol feminino, categorias de base e projetos sociais. No manifesto, as entidades reconhecem os riscos sociais associados às apostas e defendem maior fiscalização, prevenção e proteção aos consumidores, mas sustentam que a regulamentação é preferível à proibição, pois permite tributação e controle das empresas e combate às plataformas clandestinas, para as quais, segundo elas, os apostadores poderiam migrar caso o mercado legal fosse restringido.
O manifesto dos clubes brasileiros tem razão em alguns pontos, em especial ao dizer que poderia haver uma quebradeira nos clubes. Há contratos firmados com as BETS e muitos contratos de jogadores caros, comprados no exterior, estão ligados às receitas que seriam esperadas com tais contratos. É claro que estes aspectos não podem ser desconsiderados. A bancarrota de clubes tradicionais do Brasil, que fazem parte da malha de sustentação da cultura brasileira, e aquilo que nos define na mente de milhões de estrangeiros, não pode ser algo visto como positivo. Não se trata, portanto, de utilizar um remédio que, de tão forte, viesse a matar o paciente. os clubes brasileiros, em sua maioria, estão com situação financeira calamitosa, e o dinheiro das BETs ajuda e diminuir o impacto dos desastres financeiros causados por seus dirigentes.
Entretanto, enfrentar os assaltos a banco e prender os criminosos que os promovem também deixa muitas famílias em necessidade. Não há como justificar as BETs apenas porque ela ajuda o futebol a pagar suas contas. Existem inúmeros estudos mostrando o desastre que as apostas causam nas famílias do Brasil. O Banco Central estimou que, apenas entre janeiro e agosto de 2024, cerca de 24 milhões de brasileiros fizeram apostas on-line, movimentando aproximadamente R$ 20,8 bilhões por mês. O problema é especialmente grave entre famílias de baixa renda: análise do TCU encontrou cerca de 802 mil famílias beneficiárias do Bolsa Família que, em janeiro de 2025, comprometeram mais de 2% de sua renda com apostas, faixa considerada de alto risco para despesas essenciais e endividamento. Além da perda financeira, o Ministério da Saúde relaciona o jogo problemático a endividamento, conflitos e rompimento de vínculos familiares, problemas de saúde mental, perda de emprego e maior risco de suicídio, estimando, com base na literatura científica, que cada pessoa que desenvolve transtorno do jogo pode afetar outras seis ao seu redor. A preocupação tornou-se suficientemente grande para que o governo passasse a impedir beneficiários do Bolsa Família e do BPC de manter contas nas plataformas licenciadas; até agosto de 2026, cerca de 3 milhões de beneficiários haviam sido bloqueados.
Há um outro fator importante. Quanto mais dinheiro é envolvido nas apostas maior será a sedução para alterar o resultado dos jogos para favorecer apostadores. O aspecto particularmente preocupante da era das BETs on-line é o spot-fixing: não é mais necessário combinar quem vai ganhar ou perder a partida. Um jogador pode manipular algo aparentemente secundário — tomar um cartão, cometer uma falta, provocar um escanteio ou alterar uma estatística individual — e isso já pode movimentar apostas. Foi justamente esse modelo que apareceu com força na Operação Penalidade Máxima brasileira. Inúmeros jogadores e clubes estiveram envolvidos em escândalos dessa natureza, e as absolvições de alguns deles certamente passa por uma ação paternalista da justiça com clubes de enorme torcida. Entre eles temos Bruno Henrique (Flamengo), Ivan Toney (Inglaterra), Sandro Tonalli (Itália), Alef Manga (Coritiba) e muitos outros, inclusive de equipes menores que sequer tomamos conhecimento. E isso não ocorre apenas no futebol; no Beisebol ocorreram escândalos semelhantes. No Chicago White Sox, em 1919, oito jogadores foram acusados de participar de um esquema para entregar partidas da World Series para o Cincinnati Reds. Todos foram banidos. Também no basquete, onde Jontay Porter em 2024 foi banido da NBA por passar informações confidenciais a apostadores sobre o próprio desempenho.
Eu também sou contra o proibicionismo. Acho que devemos dar a liberdade às pessoas para que estas façam escolhas informadas sobre seu destino – inclusive seu dinheiro. Entretanto, vejo na questão das BETs um fenômeno parecido com aquele que eu testemunhei há mais de 30 anos quando cortaram a publicidade do cigarro da Formula 1 e posteriormente das televisões. Isso acarretou um lento e sustentado declínio do tabagismo, que se sustentava não por uma adesão livre do sujeito ao cigarro, mas por um massacre de propaganda e vinculação desse hábito com o “sucesso”. Bastou cortar a fonte de publicidade e o consumo de cigarros iniciou seu declínio, o que causou uma melhoria importante na taxa de mortes por câncer de pulmão. A logica é que se percebe na reação dos clubes pelo temor que o novo governo possa obstaculizar as BETs é exatamente essa. Lembro do Armindo Antônio Ranzolin, radialista e dirigente da ABERT nos anos 90, lendo uma carta aberta da sua associação onde se posicionavam de forma veemente contra a proibição de propagandas de cigarro na TV. Veja, não tiveram sequer escrúpulos para defender propaganda de cigarro, que matava milhões no mundo todo, um veneno reconhecido há décadas. A grana do cigarro deixou de fluir, e o mesmo poderá acontecer com as BETs.
O futebol está sendo sustentado por gente doente, apostadores que vendem a alma pelos seus vícios. Não existe “diversão” em apostar; esta é uma mentira vendida para disfarçar os mecanismos psicológicos que prendem um sujeito ao jogo. Devemos permitir que isso aconteça? Podemos considerar que a opção por jogar é uma opção livre? Podemos desconsiderar a pressão da propaganda massiva sobre a população? É lícito não reconhecer o efeito hipnótico dos ganhos fáceis em uma população massacrada pela barbárie do capitalismo decadente? Ou devemos escolher uma opção sanitária, baseada na diminuição dos danos, constrangendo os empresários de apostas que se aproveitam do desespero da população para lucrar? Cabe salientar o momento em que esta campanha veio à tona: um mês antes das eleições. Os dirigentes de futebol do Brasil são em sua imensa maioria pertencentes às classes mais altas, e muitos deles são do partido de direita do ex presidente Bolsonaro. Não existiria aí a intenção de colocar as torcidas do Brasil contra a esquerda, que por muitas vezes cogitou ações contra o “Império Milionário das BETs”?
O fim das BETs provavelmente traria uma convulsão no mundo do esporte, mas com o tempo o futebol se adaptaria. Talvez tenham que pagar menos de 2 milhões mensais para técnicos importados da Europa. É possível que alguns jogadores tenham seus salários cortados pela metade ou bem menos. Mas com o tempo isso seria bom para o futebol.
Eu também odeio essa classe média, e não me excluo dela. Eu a critico ferozmente até porque a conheço muito bem e faço parte dela. Ela é rasteira, pedante, medíocre, odiosa, preconceituosa e arrogante. É uma classe composta majoritariamente por pequenos burgueses, que se estabelece acreditando estar afastada dos proletários, a quem desprezam, e próxima dos burgueses, os donos, os proprietários, por quem são desprezados.
Costumo definir a classe média como um sargento que se acha superior aos seus comandados mas que, pela sua grossura, falta de refino e cultura, é desprezado pelos oficiais. Na perspectiva do sargento, ele se acha especial por não se misturar com a soldadesca, mas na visão do oficialato ele não passa de um militar bruto e mais velho, que os ajuda a controlar a massa de soldados.
A classe média tem uma carência crônica de consciência de classe. Suas escolhas no palco das lutas sociais sempre são oportunistas e ilusórias. Ao invés de se unir ao operariado na luta pela divisão equânime da riqueza produzida, a pequena burguesia prefere se unir aos opressores na ilusão de que eles a reconheçam como iguais. É o caso do médico, do advogado, do pequeno comerciante, do empresário, etc. Não por acaso, essa classe é profundamente reacionária, a base do bolsonarismo e da extrema direita.
Essa classe média que não olha para a sua própria natureza deve ser trocada com uma classe combativa, que deseja a mudança e que lute ao lado do operariado e do campesinato por uma revolução estrutural no Brasil.
No episodio Ney x Xuxa, devo dizer que sempre soube que Ney Matogrosso é de direita. Um clássico individualista. O típico direitista que se diz “nem-nem”. Suas posições políticas sempre foram, ao meu ver, deploráveis. Tirou fotinho com o Garoto Kim Kataguiri na época do Impeachment e depois disse que “não conhecia”. Nunca teve uma postura questionadora ou engajada, e nunca o vimos na defesa de uma causa específica. Ele sempre foi do time Roberto Carlos, que curtia uma ditadura militar.
Eu não gosto dele como cantor, mas se trata apenas do meu gosto pessoal, portanto, irrelevante. E mais importante ainda é que não misturo sua arte com sua vida pessoal, incluindo aí sua adesão à direita. Muitos dos meus ídolos na música, e até na literatura, foram notáveis patifes. Leiam as biografias de Borges e Neruda, gênios com vidas reprováveis, ou mesmo de um reacionário genial como Nelson Rodrigues. O inferno dos canalhas tem uma ala só para os gênios da arte.
Portanto, “pouco se me dá” (adoro essa expressão que velho usa) que Ney Matogrosso seja um idoso reaça; ele é um ícone da música brasileira, um grande artista e um sujeito que revolucionou a música brasileira com sua interpretação. O resto é choro…
A ideia de falar sobre qualquer tema sem freios e com plena liberdade ainda causa controvérsias. Para muitos, em especial para a esquerda identitária, alguns debates são opressivos, pois ofendem grupos oprimidos e podem gerar dano. É o que se chama “palavras que matam”, ou “discurso de ódio”. Isso está por trás de projetos como o da Misoginia ou o famigerado projeto para criminalizar críticas a Israel, pois levariam ao antissemitismo e ao holocausto.
Para quem defende essas pautas existem temas que não podem ser expressos publicamente. Por essa lógica, não poderemos falar de coisas que podem afetar negativamente as pessoas. Tipo, comunismo. Não pode falar, afinal o comunismo “matou milhões”. Não podemos criticar Israel, pois…. ora, Holocausto. Não podemos falar da ditadura militar pois ela salvou o Brasil do… comunismo, ora. E a lista vai ao infinito, mas chama a atenção que o rol de proibições é feito sempre por quem tem poder de calar a voz dos outros.
Talvez alguns não entendam minha reação alérgica à censura, isso porque são muito jovens. Já eu sou do tempo em que as mentiras eram combatidas com a verdade e não com a censura. Aliás, levei borrachada da Brigada Militar por dizer “censura nunca mais”. Ora vejam só que ingênuo eu era. A censura, como debate público, ressurgiria com muita força exatamente na esquerda e entre os movimentos identitários ali inseridos, nos dando a entender que censurar, afinal de contas, poderia ser uma… coisa boa. “Vamos proteger minorias criando uma blindagem do discurso para eles”, mas só para eles. Homens héteros, brancos e cis são os nossos ‘inimigos” e para eles continua valendo a nossa natural virulência. Essa precisa permanecer assegurada.
Opressão mata mesmo, mas a opressão verdadeira, não os “gatilhos”, as “palavras mortais” ou o “discurso de ódio” – um conceito vago e impreciso exatamente para poder caber nele o que nos interessa. Opressão é matar palestinos, é fome, bloqueio, invasão, violência, miséria, e não chamar um cara de “viado”. O fato de algo ser ofensivo e preconceituoso não significa que ele é ilegal. As palavras precisam ser livres, incluindo aí as ofensas, pois sem isso obstruímos o debate, moralizando o discurso e impedindo que ele chegue nas feridas mais profundas da sociedade.
Por último, a ideia da “censura do bem” é um erro brutal sobre o funcionamento psiquico humano. Parte da ideia de que, se uma coisa não é dita ou não é escrita, ela pode enfraquecer e até desaparecer. Será que Freud precisa reencarnar para nos ensinar de novo sobre o “retorno do recalcado”? Será que as pessoas não viram que os partidos comunistas sempre foram proibidos e estão cada vez mais fortes? Não notaram o recrudescimento das células nazistas apesar de organizações e símbolos serem proibidos há décadas? Não perceberam o quanto proibir homossexualidade é absurdo? E, por fim, não perceberam o quanto silenciar a expressão de inconformidade apenas atrasa o surgimento das ideias, fazendo-as retornar ainda mais poderosas?
Liberdade de expressão é quando alguém diz o que você não quer ouvir. Sem tratar esse valor como sagrado, todos os outros direitos fundamentais são atingidos. E quem não consegue combater nazismo, sionismo, machismo e qualquer outra ideologia apresentando argumentos tenho uma má notícia: você não acredita na sua verdade, por isso quer tanto destruir a fala de quem se opõem a ela.
Proust fala sobre isso em um de seus livros, “A Fugitiva” (Albertine Disparue). Nele, o narrador, Marcel, vive a perda de Albertine, que o abandona inesperadamente. A partir daí, ele tenta obsessivamente recuperá-la e compreender sua partida, recorrendo inclusive a intermediários e procurando descobrir detalhes sobre a vida dela. A situação muda radicalmente quando recebe a notícia da morte de Albertine. É aqui que quero chamar a atenção para a opção de Marcel. Ao invés de censurar seus sentimentos, jogou-se a eles para entender seu significado. Ele sabia que escondê-los seria um erro, pois sua fúria acabaria voltando. Ou seja, ao invés de apagar as lembranças e tentar esquecer a mulher que o abandonou fez exatamente o oposto: foi atrás dela para entender sua fuga, e só assim, confrontando a realidade dura, ser capaz de superar seu luto. Essa é uma aula memorável de Marcel Proust ao mundo (e à psicanálise): de nada adianta apagar ou calar aquilo que nos desagrada; a única solução é a superação, e esta só ocorre por meio da confrontação.
Ficou claro que a argumentação usada para a proibição da manifestação do Sr. Herédia – ex-marido da Sra. Maria da Penha – é semelhante àquela usada pelos defensores do impeachment da Presidenta Dilma: “Ora, ela foi julgada, o congresso decidiu e ela foi deposta. Tudo muito legal. Tudo dentro da lei, e aqui está o STF para ratificar”
Vou explicar – mais uma vez – meu ponto de vista, que coincide com o de algumas pessoas que se manifestaram e vai de encontro à visão de outros. Quero mostrar que este trâmite aparentemente “legal” é exatamente o que contestamos. Dizer que o Sr Herédia ao dar entrevistas, citar o caso e comentar os personagens envolvidos vai revitimizar é uma explicação, ao meu ver, inaceitável. Para não ferir os sentimentos de quem acusa, a solução seria a mordaça, o silêncio compulsório? Pois para mim, censurar desta forma é absurdo e atenta contra os direitos humanos mais básicos – mesmo que tenha percorrido os caminhos legais de um processo.
Vou expor minha perspectiva: no mundo todo centenas de condenações foram revistas porque os condenados, indignados pelo que consideravam uma injustiça, nunca aceitaram se calar. Somente por este espítito inquebrantável de pessoas inocentes que não aceitaram o erro judiciário é que foi possível reparar imensos equívocos. Permitam citar um caso emblemático:
“Exonerated Five” é o nome dado a cinco adolescentes — Kevin Richardson, Antron McCray, Raymond Santana, Korey Wise e Yusef Salaam — condenados injustamente em Nova York, em 1989, pelo estupro de uma corredora no Central Park. As condenações se apoiaram fortemente em confissões falsas obtidas em interrogatórios, apesar de o DNA não corresponder a nenhum deles. As condenações foram anuladas em 2002, depois que o verdadeiro autor confessou e seu DNA confirmou a autoria. Estes meninos nunca aceitaram a condenação e jamais aceitaram se calar. Suas famílias mantiveram acesa a chama da indignação.
Em função do grande número de casos em que as condenações ocorrem por pressão popular, linchamentos virtuais ou porque se encaixam na narrativa e no campo simbólico de um determinado tempo e latitude, criou-se o Innocence Project, que é uma organização jurídica sem fins lucrativos criada em 1992 por Barry Scheck e Peter Neufeld. Ela investiga condenações possivelmente injustas e atua judicialmente para conseguir a exoneração de pessoas condenadas por crimes que não cometeram, historicamente com grande uso de testes de DNA e, hoje, também contestando outras formas de provas falhas – como aquelas baseadas unicamente no testemunho da vítima.
Existe ainda a Innocence Network, uma rede que reúne organizações desse tipo nos EUA e em outros países, oferecendo assistência jurídica e investigação gratuitas a pessoas que alegam inocência. Inclusive, existe o Innocence Project Brasil, inspirado nesse movimento.
Ou seja, existe um preceito reconhecido no mundo inteiro de que se indignar diante do que considera uma injustiça é um direito inalienável. Não se trata sequer de negar-se a respeitar o devido processo legal que, como vemos todos os dias, pode cometer falhas. Se até com o presidente podem errar, imagine com um mero e vulgar cidadão. Assim, indignar-se, falar publicamente, “espernear”, apontar a injustiça e não aceitar a culpa, são sentimentos humanos e não podem ser punidos ou cerceados.
Não fosse por isso, pela voz dos garotos de Nova York e por milhares de outras pessoas julgadas erradamente, estes personagens estariam até hoje pagando por crimes que jamais cometeram.
A corredora do central park estava errada. Só ela?
Se você quiser saber onde existe uma fraude, vou te apresentar uma boa dica: procure os assuntos que você está proibido de debater. Tipo, holocausto judeu e palestino. Também agora o caso Maria da Penha. Quando pessoas são presas por dizer sua perspectiva ou porque desejam descobrir a verdade, isso deveria ligar um alerta. Quando sofrem agressões e boicotes simplesmente por tocar nesse assunto é porque alguma coisa está sendo escondida.
Ao que tudo indica, muitos ainda aprovam a censura, desde que seja para o que consideram ser “o bem”. O problema dessa seletividade é determinar quem determina o que é bem ou mal, verdade ou mentira. Hoje calam o marido da Maria da Penha. Amanhã será o comunista, como já fizeram milhares de vezes. Depois será o cidadão comum reclamando de qualquer coisa. Liberdade de imprensa é falar o que muitos não querem ouvir; sem isso teremos apenas censura. E quem acha que a liberdade só pode ser “relativa” apenas entenda que essa é a brecha lógica que um dia vai impedir que a verdade seja dita.
Quando alguém lhe perguntar porque o proibicionismo não funciona podem citar o caso do marido da Maria da Penha. Aposto que 90% das pessoas não sabiam que o caso é cercado de inúmeras controvérsias, inclusive gravitando em torno do núcleo central do processo: a ausência de provas que confirmaram o dolo. As pessoas tomam a Maria da Penha como heroína e seu marido como um monstro, e as primeiras informações do caso realmente permitiam esta perspectiva. Entretanto, depois da proibição, muitas pessoas agora desejam se informar melhor sobre o caso e inclusive gostariam de assistir o tal documentário produzido pela fascistalha do BP.
A verdade é que estas proibições não funcionaram com o cristianismo, com os movimentos burgueses, com os separatistas, com os independentistas, com os nazi e muito menos com os comunistas. Pior: demonstram que quando se proíbe algo é porque existem interesses escusos na manutenção de uma única versão, e a investigação poderia trazer verdades inconvenientes à tona.
Sabe quem mais desejaria que o Herédia falasse? Maria da Penha. Seja porque ela nada teme ou porque impedi-lo de falar vai fazer todo mundo questionar porque o sujeito precisa ser calado.
Talvez o valor esteja mesmo no efêmero, no passageiro, no banal. É possível – e mais uma vez apenas suspeito – que é bonito porque vai passar, vai acabar, não permanecerá para sempre, e restará apenas como um fragmento de felicidade no mural da memória. Talvez – outra suposição – não seja mais do que um influxo de dopamina, ou quem sabe uma descarga excedente de impulsos elétricos num corpo que dormita silente na Matrix. Mas a plenitude é real, por mais que pareça mentira, devaneio ou sonho.