Arquivo da categoria: Pensamentos

Férias

 

Li uma publicação justificando o fato de professores terem férias duas vezes por ano com argumentos do tipo “fizemos concurso público, temos correção de provas, 40 alunos em sala de aula, seminários, congressos, reuniões, muito estudo, dedicação, etc.” Para mim bastaria dizer que existem dois períodos de férias; professores têm porque os alunos têm. Mas as explicações para serem “diferentes” dos demais me incomodaram

O problema é que qualquer profissão exigiria duas ou três férias por ano (e auxílios variados) com esse tipo de justificativa. Professores não são melhores que médicos, juízes, comerciários, é muito menos piores. Professor deveria ganhar um salário ótimo, excelente, tão bom quanto estes outros profissionais (sim, porque médico deveria ganhar mais que professor???) e não mordomias ou penduricalhos baseados em sua excelência. Deveria ser igual para todos. O que me incomoda nesse tipo de publicação é que ela é IDÊNTICA à dos juízes justificando os salários abusivos, auxilio creche, auxílio terno, gravata e duas férias por ano. Afinal, são concursados e fazem (segundo eles próprios) um trabalho excelente e muito sacrificial.

Por que não poderia ser o mesmo para todos? Férias iguais, imposto de renda de acordo com o que ganha e a ambição de qualquer tipo de benefício que os outros não possuem.

Acho que professor deve ter 30 dias de férias, como todo mundo. Ou duas vezes por ano para acompanhar as férias escolares (e não porque são “especiais”). Ou até mesmo 60 dias por ano, quando valer para todos os outros trabalhadores.

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Masterchef

 

Hoje abri minha TL e vi no mínimo cinco comentários sobre a final do “Masterchef”. Eu nunca assisti nenhum capítulo desse programa, mas não porque tenha algo contra as comidas e seus preparos. Creio mesmo que culinária é alquimia, a forma de fazer comida é uma Arte (com A maiúsculo mesmo) e porque acho que o ato de comer em conjunto é uma conquista civilizatória essencial que estamos perdendo. Aliás, “A Festa de Babette” é exatamente a minha visão do que seja o alimento e seu sentido social. Entretanto, não assisto esses programas porque me sinto muito mal assistindo competições televisivas. Acho uma tremenda manipulação dos nossos sentimentos de identificação com os participantes. Todavia, uma coisa ficou muito clara para mim:

Esse não é um programa sobre comida.

Entre os comentários que li não há uma menção sequer às comidas preparadas, nem sobre os pratos, quitutes,e receitas. Não estou criticando, apenas mostrando que os produtores sacaram desde cedo que um programa sobre comida atrai muito pouca gente, e apenas seria visto por alguns aficionados diletantes, cozinheiras e chefs. O Masterchef é um programa sobre PERSONALIDADES e RELACIONAMENTOS. A comida é apenas o pano de fundo. TODOS os comentários que li sobre o programa falaram das personalidades, das intrigas e dos relacionamentos dos participantes. Até agora não sei qual foi o prato preparado na final; pode ter sido pernil ou farofa, salada ou sobremesa de profiteroles. Entretanto, sei que isso não faz a menor diferença. O programa poderia ser sobre penteados ou sobre maquiagem e o formato seria o mesmo, apenas mudando o cenário.

Repito: o programa não é sobre comida. Se o show focasse na comida haveria comentários sobre ela – a maneira como foi feita, o aspecto, os ingredientes, o tempo, a sujeira na cozinha, a temperatura do forno, os utensílios, os temperos, etc – mas NINGUÉM comenta isso. As pessoas estão interessadas nos personagens, nas reações, nos contatos, na derrota e na vitória, nas manifestações, nas fofocas internas, nos olhares e nos SENTIMENTOS dos participantes. Quando eu falei dos penteados e da maquiagem lembrei exatamente do “RuPaul Drag Race” que é uma competição de Drag Queens que segue EXATAMENTE o mesmo roteiro de explorar as reações humanas conflituosas entre os participantes. Tem pouco a ver com penteados e roupas, e muito a ver com os sujeitos que emprestam seus corpos e almas para os vestidos e perucas.

Mas isso não é uma crítica a quem assiste, apesar de que as pessoas que ADORAM culinária poderiam ficar frustradas sobre o quão pouco se fala nos pratos e a ênfase desproporcional nos cozinheiros. Eu apenas me refiro ao fato de que “a mim não enganam” dizendo que o assunto é culinária. Não é e nunca foi o “prato principal”; comida não passa de um “side dish” para usar um termo adequado para o debate. E digo isso porque os produtores e criadores não são bobos: ninguém viria comentar de forma emocional – e por vezes apaixonada – uma rabanada, um filé ao molho madeira ou uma sobremesa de nozes, mas TODOS se interessam pelas reações humanas dos competidores. As vezes ao ponto de brigar.

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Lógica sexista

 

No mundo contemporâneo é necessário ter muito cuidado quando usamos uma determinada lógica para apoiar nossas convicções e sustentar nossos argumentos. Quando usada em uma situação específica – oportunista, eu diria – ela pode ser de utilidade considerável e pode nos valer alguns pontos em qualquer debate. O problema é que se esta lógica contiver elementos de preconceito ela será usada contra nós no futuro, de forma inexorável. Um exemplo ocorreu ontem quando uma pessoa da internet publicou um trabalho que insinuava que países governados por mulheres (ou com mais mulheres na política) são menos corruptos. A insinuação seria de que “aumentar o número de mulheres na política poderia combater a corrupção”, deixando implícita uma tese marcadamente sexista: mulheres são menos corruptas que homens.

Vi mulheres comemorando esse “achado”, sem se darem conta de que o uso de uma lógica sexista tem seus reveses imediatos. Acreditar que um gênero tem mais qualidades morais e intelectuais que o outro é o mais puro e cristalino sexismo. Se aceitamos para um lado teremos que admiti-lo para outro. As lógicas sexistas acabam, depois, cobrando um preço muito alto e que não é nada legal de pagar.

Há poucos meses foi revelado o maior escândalo de corrupção em um país extremamente rico, como a Coreia do Sul. Isso causou a queda de todo o governo e a prisão do chefe de estado. Neste caso, uma mulher, a presidente Park. Ser mulher não livra ninguém das tentações do poder, e a corrupção está na alma humana, não nos testículos.

O que leva uma sociedade ser menos corrupta não é a presença de mulheres. Também não será a presença de negros, travestis, transexuais ou qualquer religião. Em verdade, a presença desses atores sociais são o RESULTADO de uma maior consciência social. A relação entre mulheres na política e honestidade com a coisa pública não é vertical – de causa e efeito – mas horizontal.

Podemos entender essa relação como a nossa genealogia. Nós NÃO somos descendentes dos macacos, como alguns ingenuamente pensam, mas de um ancestral comum entre a nossa linha evolutiva e a dos grandes macacos. A esse elemento damos o nome de “Proconsul” e surgiu há 12-14 milhões de anos. Nosso parentesco com os chimpanzés não é de pai filho para pai, mas de primos distantes por eras.

Com a diversidade na política o mesmo. A diversidade de gênero e a condução honesta dos assuntos públicos não são causa e efeito, mas são filhos dos mesmos pais: a equidade/ justiça social e a educação. Portanto, AMBOS (pouca corrupção e diversidade) são “primos”, surgidos do mesmo “ancestral comum”: uma sociedade com mais justiça, equilíbrio e educação.

Quando usamos argumentos que tentam colocar um gênero como moralmente ou intelectualmente superior ao outro corremos o risco de autorizar e referendar TODOS os argumentos sexistas e essencialistas que por séculos os homens usaram para diminuir as mulheres. Não há como se calar diante desse argumento, pois eles contém o gérmen da separação e do preconceito, mesmo quando aparentemente nos beneficiam.

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Pudor

 

Uma vez eu disse uma frase no meu Facebook que ajudou a piorar minha fama. Na verdade era a pura expressão de uma percepção que eu tinha de mim mesmo, e não dos outros. Mesmo assim, levei paulada. A frase era até bem simples: “De todas as virtudes de uma mulher a que mais me atrai é o pudor”.

Evidentemente eu falava de uma perspectiva subjetiva e bem pessoal, mas algumas preferiram tomar isso como uma afirmação prescritiva e, como de hábito, choveram afirmações redundantes como “a mulher se veste como quiser”, ou as previsíveis “mulher se veste para si e não para os outros”. É óbvio que se veste como quiser; hoje em dia quem ousaria questionar esse direito? Também é certo  que se veste para si mesma, mas sempre em função do olhar do outro.

Apesar das contrariedades, mantive o que disse até porque não se tratava de uma “opinião”, mas de um sentimento, absolutamente pessoal, que fala de mim e não das mulheres. Também não acredito que haja uma maneira “correta” ou justa de se vestir, e esta liberdade vai desde o nu total à roupa de uma marquesa francesa do século XVII. Não faço mais julgamentos sobre a forma como os outros se cobrem.

Entretanto, o pudor é o mistério que sussurra. Ele provoca e instiga ao invés de oferecer sem luta. Produz uma mobilização interna que vai além do olho, e se acomoda nos porões obscuros de nossa imaginação. Por isso casei com a mais recatada das mulheres, a mais reservada e cuja alma, ainda hoje, guarda segredos a serem perseguidos. E acreditem, o pudor foi o gatilho.

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Ética profissional

Surgiu um interessante debate a respeito da interferência dos profissionais na escolha da abordagem terapêutica de pacientes. Fiquei com esta dúvida: Recomendar que alguém mude de psicoterapeuta ou de abordagem psicológica seria antiético sempre? Por quê? Recomendar que uma gestante mude de profissional e de abordagem obstétrica é antiético quando sabemos da vinculação desse profissional a um modelo quando a paciente explicitamente deseja outro? Por que damos tantos conselhos a gestantes sobre seus profissionais e não podemos fazê-lo com os neuróticos e deprimidos à nossa volta?

A vinculação do paciente a uma corrente psicológica (comportamental, humanista, Gestalt, psicodrama,  psicanálise ou psicologia analítica, põe exemplo) se relaciona aos seus valores e visão de mundo. Entretanto, muitas vezes a paciente diz “Adoro meu …… (analista,  psicólogo, terapeuta, etc) mas apesar dessa ligação não vejo progresso nos meus transtornos dentro da minha expectativa (que podem ser diferentes da minha ou do seu terapeuta, analista, etc).”

O que fazer nesses casos?  Silenciar? Quantas vezes escutei de pacientes de analistas “Não aguento mais aquela múmia. Não fala nada e não me dá um conselho sequer!!!” e diante disso eu dizia “Talvez psicanálise não seja para você, ou talvez precise de um analista menos ortodoxo“. Seria isso antiético ou a necessária reavaliação do choque entre expectativas e realidade?

Sim, eu entendo que não devemos induzir pacientes a romper vínculos de acordo com NOSSAS crenças e preferências pessoais. Não podemos transmitir “na marra” nossa visão de mundo a um cliente. Entretanto, essa condição precípua de respeito à energia transferencial não pode nos levar ao imobilismo diante da disparidade EXPRESSA entre os desejos do paciente e o que ele efetivamente recebe do seu tratamento.

Minha tese se baseia na contraposição à afirmação peremptória de que sugerir que um paciente mude de abordagem ou de profissional é uma conduta ANTIÉTICA e que feriria os princípios de nossa atuação profissional.

O vínculo é importante, mas não é sagrado. Os casos de escravidão mental com gurus e pseudo-terapeutas nos provam isso. Portanto, diante do PEDIDO ou da ABERTURA do paciente em questionar seu tratamento,  como fazem as milhares de gestantes que nos procuram, não devemos nos furtar a ter posição e auxiliar na busca por um profissional que se adapte melhor ao paciente.

Por outro lado, estamos de acordo que só podemos tocar na tessitura delicada da transferência quando o próprio paciente nos oferece esta posição ou em condições especiais (e bem mais raras) de abusos e violências ocorridas no âmago da relação profissional.

Espero ter sido claro em minha discordância e em minha concordância.

Se ele quiser sair sairá a seu tempo“. Sim, verdade… mas como? A forma mais tradicional é perguntar e questionar. No espaço cibernético das mídias sociais fizemos isso por quase 20 anos, e não me pareceu antiético. Entretanto, meu ponto de convergência é que não podemos ter uma postura messiânica e salvacionista. Nas palavras célebres deste espaço “a consciência é uma porta que só abre por dentro“. Assim, se é fundamental esperarmos os tempos e as falas, também é lícito estar preparado para uma demanda que surge de quem sofre, ao confrontar-se com a dificuldade de suprir suas demandas.

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