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Harmonização facial

Depois de ver a propaganda de uma profissional que modificava o rosto de Frida Kahlo, retirando seu “defeitos”, eu fiquei me questionando qual o sentido de “harmonizar” a cara de alguém? O que significa deixar uma face mais “harmonizada”? Ter nariz grande é um “defeito”? Boca pequena é “feio”?

Não serão estes tão somente eufemismos usados para deixar as caras das pessoas mais uniformes? Tipo…. todo mundo parecido, com as mesmas características, queixo, bochechas, orelhas, etc…

Vale a pena? Não seria melhor ensinar as crianças a valorizar suas características mais pessoais e mostrar que isso produz um diferencial?

O dia em que houver engenharia genética suficiente para escolher as características de quem vai nascer e – pior – como vão se desenvolver suas feições durante a vida, que cara as pessoas escolherão? Se você escolher o George Clooney ou Natalie Portman poderá ter certeza que haverá milhões de sujeitos iguais a você perambulando pelo mundo. George e Natalie seriam “figurinhas fáceis” e muito provavelmente perderiam o valor no mercado. Que vantagem haveria em ter uma beleza “comum”, podendo ter uma feiura singular?

Talvez, nesse mundo pós apocalíptico, minha cara teria, finalmente, o crédito merecido. Feia, mas única.

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Chupacabras

Menas mãe porque fez cesariana“, “só é mulher quem tem filho“, ou ainda “mãe de verdade só quem teve parto normal” são os chupacabras da atenção humanizada ao parto.

Ninguém ouviu, ninguém falou, não há testemunhas mas todo mundo conhece “a vizinha da amiga de uma prima que ouviu de uma doula.. ou uma médica. Não, acho que foi uma enfermeira no posto, quem sabe, mas pode ter sido daquela mulher que teve parto normal. Não tenho certeza, vizinha, mas isso é um horror, né não?

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Fim de festa

É verdade isso… Um dia você sai com seus amigos para jogar bola, soltar pipa, brincar de correr pelas ruas do bairro, tomar um sorvete no bar do seu João. Dão risadas, conversam, fazem “cabo de guerra”, se abraçam, trocam figurinhas e jogam bolinha de gude. Quando a noite se aproxima voltam todos para casa, sem se dar conta que aquela foi a última vez que todos compartilharam sonhos, alegrias e esperanças.

Talvez seja melhor que a gente não saiba, senão esse derradeiro encontro seria difícil de aceitar. É bom que estes laços se desfaçam sem que a gente perceba, para que o fim da infância não seja marcado por uma lembrança tão triste.

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Linguagem

A iniciativa do Liceu Franco-Brasileiro não obriga ninguém a usar “linguagem inclusiva”, mas permite que ela seja usada livremente por professores e alunos. Pelo menos foi assim que eu entendi na reportagem. A alternativa para isso seria a proibição, mas isso é absolutamente inaceitável. A língua é um “ser vivo”; ela é mutante e se transforma, como as espécies animais e vegetais no planeta, que se modificam para produzir adaptação a um meio ambiente que se altera constantemente. Por isso que “você” surge de “à vossa mercê” e tantas outras palavras e expressões aparecem da lapidação cotidiana de seu uso.

Imaginar uma língua imutável é pretendê-la morta, estéril, sem o uso que as pessoas fazem dela nas ruas, em casa, no contato com outros idiomas e no surgimento de novas palavras para novos objetos e circunstâncias.

O uso da “linguagem inclusiva” deve se submeter ao teste do uso. Se as pessoas aceitarem sua utilização e ela se tornar corrente e corriqueira, será naturalmente incorporada ao dia a dia – e posteriormente pela academia. Não existe “língua errada”, não existe falar incorreto; os idiomas são entidades em constante transformação. Só o tempo e os costumes podem incorporar formas de falar ou tornar outras obsoletas.

O resto é ranço de quem pretende a existência de linguagens “corretas” e “fixas”. Esse conservadorismo é inútil, pois é impossível interromper a transformação da forma como falamos.

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Gratificações

Há alguns anos fui convidado a participar de um evento em uma universidade local onde profissionais de múltiplas áreas tratavam de suas perspectivas específicas na área da saúde. A mim coube falar de “Humanização do Nascimento”, por certo.

Como estávamos no ambiente acadêmico minhas palavras foram recebidas com reserva por alguns professores presentes, em especial aqueles ligados à neonatologia. Para a imensa maioria desses médicos a humanização do nascimento é um tabu. Sua formação é centrada na atenção dos quadros mais complexos e limítrofes e quase nenhuma atenção (ou importância) é dada para a observação e a atitude não intervencionista da imensa maioria dos casos. Aliás, este o grande paradoxo do atendimento ao parto normal pela medicina: treinar exaustivamente para o enfrentamento de situações raras e pouco para o normal e o fisiológico, que são a regra no nascimento humano.

Porém, logo após a minha palestra entrou na sala uma nutricionista especializada em crianças com paralisia cerebral grave, e eu resolvi permanecer para ouvir suas palavras. Ela começou sua palestra deixando claro ser importante desmistificar a relação do parto normal com esta condição, o que já me deixou muito feliz. Depois disso começou a descrever as estratégias nutricionais usadas em crianças severamente comprometidas, em estados quase vegetativos.

Foi no seu relato apaixonado sobre a atuação sobre estas crianças que eu comecei a me questionar sobre nosso sistema de recompensas.

Tenho uma amiga que adora presentear seus netos. Compra para eles todas as bugigangas eletrônicas da moda. Certa vez eu lhe perguntei o porquê de tantos presentes e ela respondeu, de forma sincera e aberta: “Você precisava ver a carinha dela quando abriu o presente!!” Foi aí que eu formulei a minha tese de que os presentes são iscas que damos às crianças para recebermos o verdadeiro pagamento, aquele que vem com sua gratidão e seu amor. Somos os agraciados, não eles; garantimos o “presente do afeto” deles para nós mesmos.

O mesmo na medicina. Para mim é fácil ver o quanto trabalhar com o nascimento humano pode ser gratificante. O choro, a emoção, as lágrimas, a alegria contagiante dos casais e das famílias, a vida que (re)nasce em cada parto, o futuro da humanidade garantido, etc., são todos presentes que recebemos. Para cada parto, uma tonelada de agradecimentos, abraços, felicitações. Quem é, afinal, “presenteado” com o bebê?

Entretanto, quando eu vi a dedicação àquelas crianças, algumas delas quase irresponsivas – os muito severos – e o carinho devotado a elas eu percebi o quanto é necessário entender que a verdadeira gratificação vêm do sentido mais amplo da tarefa, e não das miudezas e dos agradecimentos que, por mais que sejam presentes maravilhosos para enfrentar as agruras da tarefa, não podem ser a única moeda simbólica para o nosso trabalho.

Senti vergonha da minha euforia diante das conquistas por nascimentos dignos e respeitosos. Senti pena de mim pela alegria incontida nos cumprimentos recebidos. Pude ver naquela bela menina o quanto o amor pela tarefa é muito mais importante do que qualquer outra recompensa em jogo

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