Arquivo da categoria: Pensamentos

Exatidão

Claro que existe exatidão em várias ciências humanas, e existe até humanismo nas exatas. Entretanto, o gráfico acima é para ser mesmo generalista. Certamente você terá muita dificuldade encontrar uma enfermeira, assistente social ou socióloga cuja PAIXÃO seja fazer cálculos e estatísticas, algo fácil de descobrir na engenharia ou na física. Da mesma forma, será difícil encontrar um engenheiro cuja atração maior seja a inexatidão dos sentimentos humanos na busca por espaços e vias.

Minha ideia, entretanto, traz uma provocação em outro sentido. A medicina é HUMANA por essência e por natureza, mas a tecnocracia e a cultura da inevitabilidade tecnológica a aproximam – ilusoriamente – das exatas. Tal migração não é capaz de produzir a melhoria da condição humana, sequer a mitigação do sofrimento e da dor, mas sem dúvida empobrece a própria medicina, seu ethos e sua profundidade. Tanto é intensa a invasão da medicina pela exatidão fria dos exames e testes que o médico mais famoso e respeitável dos dias de hoje não é aquele que oferece a compaixão como pressuposto básico e sequer um olhar caridoso para quem vê desaparecerem as esperanças, mas um que dá diagnósticos presumidos, tratamentos sem rosto e sem história e atende pelo nome de “Dr Google”.

Alias, o acho sempre muito estranho quando vejo gente se ofendendo quando dizem que as “ciências humanas são inexatas”. Ora, como diria Bohr “As certezas não são científicas; elas são o prêmio de consolação dado pelo criador às mentes frágeis“. Ou como diria Camões na voz de Caetano “Navegar é preciso, viver não é preciso“…

A Medicina Baseada em Evidências é uma justa intenção de aproximação da medicina com as ciências exatas. Em verdade, ela muito mais serve para barrar o intervencionismo comandado pelo capitalismo, o qual invadiu a medicina com a intenção de resgatar o sujeito – através da tecnologia – da falibilidade da natureza. Entretanto, essa proposta esbarra na própria condição humana deste, cuja história, percurso e subjetividade imprimem ao(s) seu(s) sintoma(s) uma qualidade inigualável e irreproduzível, que escapa à mensuração matemática e exata que é usada na Medicina Baseada em Evidências. Assim, se devemos saudar seu efeito protetor contra os abusos da tecnocracia, também é importante reconhecer seus claros limites, que se situam na própria condição única do sujeito.

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Futebóis

Para todos os que aplaudiram o Gabigol, imaginando uma postura política e nobre ao não dar atenção ao governador ajoelhado, lembrem que os jogadores de futebol, salvo raríssimas exceções (Sócrates, Roger Machado, Juninho Pernambucano, Wanderley Luxemburgo, Afonsinho, etc) são alienados, afastados das comunidades de onde vieram, vivendo em redomas, ganhando milhões, reacionários, direitistas, meritocráticos, ignorantes da realidade social e, não por acaso, apoiadores de soluções radicais e violentas. A recente comemoração do Palmeiras (clube criado por imigrantes e operários) ao lado do Bolsonaro (um fascista) não pode ser esquecida.

A lista de jogadores que se identificam explicitamente com o binômio biblia-bala é extensa e citar alguns e esquecer outros poderia parecer clubismo ou perseguição. Imaginar que desse estrato social sairá alguém com consciência de classe é uma ilusão na qual a esquerda não pode embarcar.

Gabigol é um herói para o futebol, mas não exijam dele o que não pode dar. Não lhe peçam que seja um exemplo de luta contra a desigualdade, a exclusão e o genocídio protagonizados pelo governador do Rio. Para a galera favelada, preta e pobre do Flamengo, essa mesma que o Witzel mira “na cabecinha”, ele não chegará a ser mais do que um pôster na parede.

Outra questão é o que significa a vitória do Flamengo. Já há muito anos denuncio a espanholização do futebol brasileiro que só não aconteceu antes pela incrível incompetência do Flamengo em gerenciar seus recursos e pelos desmandos políticos do Corinthians. Somente os Flamenguistas mais fanáticos enxergariam a situação falimentar de TODOS os outros clubes cariocas como algo positivo. Não posso aceitar o desaparecimento de grandes e tradicionais clubes do Rio em nome de abrir espaço para o surgimento de um time de galácticos milionários.

Nesse contexto o Flamengo é o Walmart do futebol.

E vamos combinar que o Flamengo tem a maior torcida porque tem mais investimento de mídia e tem mais mídia porque tem a maior torcida, num circulo que tende a esmagar os outros clubes e criar um desnível de recursos que se escora em muito dinheiro.

Concordo com a ideia de que nada disso desmerece o duplo sucesso que o Flamengo conquistou nestes dois dias. Todavia, o desnível econômico e a gentrificação do esporte bretão podem criar um futebol previsível e sem graça.

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Perfeição

O cinema é um pouco responsável por esta visão idealizada das formas femininas. Ângulos, maquiagens, luz, filtros e agora o Photoshop nos dão essa ideia falsa das mulheres da tela. Lindas, perfeitas, eternamente jovens e sedutoras; deusas do sexo e da beleza. Nahhh, falso… mas ainda bem. A fotografia, me dizia Max, “é a arte das mentiras”, pois nos apresenta um fragmento de segundo e nos esconde todos os outros.

Cindy Crawford uma vez disse que adoraria ser “de verdade” como era representada nas propagandas. Ela não se reconhecia nas imagens de si mesma publicadas nas revistas femininas. Eu sabia; no fundo sempre foi tudo mentira, literalmente falso. É óbvio que Scarlett não é como aparenta; é claro também que chegando perto a gente enxerga a idade dos artistas. Quando se espantam com a longevidade da beleza cirúrgica de Cher eu sempre digo “deixe eu olhar pra ela às 7 da manhã, no trajeto entre a cama e o banheiro, que eu digo sua exata idade“.

A mentira não está no real, mas no caminho tortuoso que transita entre o objeto e nosso olhar, e de lá para a nossa mente. Todavia, não vejo sentido em reclamar dos pés de galinha, da barriguinha e dos “furinhos na bunda”. Aliás, o que torna Scarlett bonita, atraente ou “gostosa” é exatamente esta porção de imperfeição que podemos encontrar. Em verdade, talvez seja justo dizer que ela apenas se torna perfeita pelas suas imperfeições. Mais ainda: uma mulher sem imperfeições – onde seja possível pendurar nosso desejo – é um objeto estéril, insosso e inodoro. Serve apenas como uma fotografia em uma parede de borracharia.

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Mc Quem?

O caso do menino que fez piada com uma criança na Disney mostra como, no mundo cibernético, uma vida pode ser destruída em 30 segundos. Isso me faz lembrar a frase que minha mãe colou na parede do seu quarto: “Cuida como vives; talvez sejas o único evangelho que teu irmão lê“. Quem deseja adentrar no mundo do sucesso e da fama – seja lá por qual caminno for – precisa entender que sua imagem, o que fala e como se comporta é um modelo a ser seguido por muitos – as vezes por milhões.

Se há uma constante no mundo da fama ela foi descrita por Augusto dos Anjos: “A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Aqueles que exaltam serão os primeiros a lhe afundar quando a dívida afetiva da adoração custar a ser paga. “Eu lhe dei meu amor e minha veneração; como vai me pagar?

A atitude do rapaz foi deplorável e insensível; desrespeitosa e grosseira. Porém, a onda de vingança destrutiva contra ele me causa igual incômodo. O mesmo punitivismo que cria monstros como Moro e Dalanhol habita dentro do(a) “cidadã(o) de bem” que goza vendo a destruição de um sujeito cujo erro todos fomos testemunhas.

Perdoar NÃO significa condescender com o erro, mas entendê-lo e aplicar a pena justa, nem mais e nem menos. Destruir pessoas nunca será uma pena adequada. Usar a justa indignação como veículo de perversidade e da vingança jamais será caminho para uma sociedade solidária.

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Imprensa Livre

Por que pagar para ler notícias?

Hoje em dia vemos o surgimento das “Mídias independentes” que se contrapõe à mídia corporativa. O advento da Internet oportunizou a multiplicação ad infinitum de fontes de informação – algumas de alta qualidade e outras pura enganação. A diferença é que nas mídias tradicionais os anunciantes atuam – direta ou indiretamente – na escolha de pautas, nas ênfases e no próprio trato da notícia. Afinal, ninguém (nenhuma corporação) vai pagar os altos custos dos noticiários para correr o risco de ter o nome de sua empresa enxovalhado.

Há alguns anos abrimos uma clínica em uma cidade média do Interior do RS. Depois disso fomos convidados pelo diretor do jornal – um típico “coronel” da informação – para anunciarmos em seu veículo, o único diário impresso da cidade. Ele de cara me informou: “Minha política aqui é a seguinte: se alguém vem ao jornal para reclamar dos médicos eu ligo direto para vocês antes de publicar”. Nenhum constrangimento em confessar que seu jornal era para proteger os poderosos.

E não são apenas empresas. Aqui no RS o conselho de Medicina compra muitas horas na rádio da maior empresa de comunicação local para, com isso, interferir nas pautas médicas. Ora… que produto o CRM tem para vender? Apenas a imagem da medicina, que é passada nos noticiários, inclusive escondendo notícias desagradáveis sempre que possível (como a Globo faz com a Vaza Jato). Essa é uma das práticas mais antigas, que mostra o poder da informação no mundo contemporâneo. Podemos confiar em uma imprensa que pode ser facilmente comprada pelo poder do dinheiro?

Por outro lado a mídia independente, para não sofrer pressões do capital, precisa que o ouvinte/leitor/telespectador seja o único financiador, para que suas pautas não sejam controladas pelo poder econômico, fazendo da audiência o único cliente a ser contemplado. Sem rabo preso e sem constrangimentos de nenhuma natureza por parte do poder econômico.

Esta é uma forma de estimular um jornalismo livre, cuja única fidelidade seja a utopia da imparcialidade. A alternativa a isso existe em outros países: uma empresa pública de comunicação, que não seja atrelada aos governos (uma empresa do Estado) e que possa inclusive lhe fazer oposição.

Por exemplo: para criar um congresso médico e impedir que as palestras do evento sejam comandadas por espaços comprados pela indústria farmacêutica (como nos congressos nacionais e internacionais de medicina) o cliente final (parteira, dotô, doula, psi, etc) precisa pagar para que o congresso seja LIVRE das influências do poder econômico – dos equipamentos, dos hospitais e da Big Pharma – as gigantes vendedoras de drogas.

Por isso é que é urgente criarmos IMPRENSA LIVRE, sem amarras com o sistema econômico.

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