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Baste-se

Não se apegue demais às pessoas. Um dia elas te contam um plano de vida maravilhoso do qual você não faz parte. Por mais solitário que possa parecer, o desapego é o caminho mais seguro para trilhar esta estrada. Em suma, baste-se.

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Mentiras Sinceras

Após um texto em que eu falava dos sentimentos contraditórios que os pais sofrem com o abandono insidioso dos filhos em percebi que houve muitas pessoas negando ciúme sobre filhos. É curioso como estes sentimentos naturais e – digo eu – obrigatórios são suprimidos do discurso. Ora, o ciúme, o desejo, o desprezo, a inveja operam nos estratos mais inferiores da consciência, enterrados pelo nosso eu protetor. Só raramente ele é explícito e abertamente expressado. Todavia, sem dúvida estão lá, por mais que nos esforcemos por recalcá-los.

“De perto ninguém é normal”, diria Caetano, mas quanto mais nos aproximamos mais aparecem os equívocos, as idiossincrasias, as falhas e muitas sujeiras escondidas sob as vestes engomadas.

Quando alguém me diz que nunca ficou enciumado pelo abandono inexorável dos filhos em busca de novos amores eu acho graça da inocência de quem imagina poder esconder dos outros – e de si mesmo – os sintomas de sua condição humana.

O mesmo acontece com o ódio dissimulado daquelas pessoas que me dizem: “Juro, eu não tenho ódio algum do Fulano. Dele eu só tenho pena”. Poucas mentiras são mais reveladoras do que esta. Porém, parece que esconder este sentimento negativo (e transformá-lo numa virtude, a comiseração) é capaz de melhorar um pouco a imagem ilusória que construímos de nós mesmos.

Ainda acho que, apesar de ser uma tarefa insana e custosa, reconhecer e aceitar nossos sentimentos mais primitivos e mundanos só tem a nos ajudar. Se não for por nós mesmos, ao menos nos auxilia a não julgar os outros com tanta dureza quando seus erros tão somente espelham os nossos.

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Ciúme

Pode ser uma imagem de texto que diz "Quando vamos falar sobre o quão bizarro é um pai falar que tem ciúmes da filha namorar?"

Não creio que exista nada de bizarro neste sentimento. Todo pai (e mães da mesma forma!!!) vai passar por isso, desde que alguma vez tenha sentido amor por seus filhos. Qualquer pai vai se sentir “roubado” quando sua filha descobre uma paixão, deslocando seu amor edípico para uma relação madura.

Negar o sentimento de perda amorosa que os pais sentem com o início da vida afetiva dos filhos é o que poderia ser chamado “bizarro”. O humor que se produz sobre esta cena nada mais é do que o uso do gracejo como bandaid aplicado sobre uma ferida narcísica, fazendo graça com nossos dramas humanos.

Eu acho que a expressão parental de ciúme em relação aos filhos é apenas a natureza humana em ação. Nada bizarro, apenas normal para a nossa estrutura psíquica. Pais terão ciúme – e até possessividade – que precisarão ser vencidos pela ação irrevogável dos filhos. E não creio ser uma perspectiva “machista” da sociedade, até porque este sentimento ocorre da mesma forma com as mães, e certamente antes até da instituição do patriarcado. As relações afetivas dentro do patriarcado tem um determinado ordenamento – que eu não chamaria de bizarro, porque é uma criação social de muito sucesso – e este ciúme não me parece ser patriarcal, mas humano.

Como eu disse, o patriarcado é recente e não passa de 80 séculos, mas mãe e função paterna tem a idade da humanidade, talvez 2 milhões de anos. Todavia, não acredito que esses sentimentos são mediados pela cultura, apesar de serem por ela transformados. Édipo é da essência humana, da estrutura psíquica que nos constitui. Portanto, pré patriarcais, e duvido que haja uma sociedade que revogue o Édipo; enquanto for essa nossa conformação psíquica esses sentimentos serão naturais e inalienáveis da espécie humana. O ciúme do pai está relacionado ao amor da filha, e isso não é cultural; é da estrutura mais íntima do psiquismo humano.

Para mim o ciúme paterno é o contraponto do Édipo, e o triângulo edípico é algo intrínseco à nossa formação emocional, algo inegociável. “Retire-se o complexo de Édipo e a psicanálise se desfaz como castelo de cartas”. Assim, o centro da estrutura psíquica humana está nessa relação amorosa triangular primordial

Outrossim, a expressão desse sentimento – repito, natural – vai se moldar à cultura vigente, relacionada à história e à geografia. Sociedades fortemente patriarcais farão dessa relação um exercício de poder e de violência, exacerbando a possessividade. Mesmo assim, uma sociedade pós patriarcal não fará esse sentimento desaparecer, apenas não o tornará veículo de opressão.

Criticar a piada do “pai com espingarda” protegendo a filha, tão usada no anedotário patriarcal, pode ser válido pela possessividade abusiva ou o uso banal da violência, mas jamais para negar um sentimento absolutamente humano.

Aliás, que maravilha quando um pai é corajoso o suficiente para expor seus sentimentos de forma clara e aberta, reconhecendo-os e expressando-os, mesmo quando contraditórios

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A verdade está lá fora…

“A verdade está lá fora”…
(Close encounters of the 3rd Kind)

Será mesmo?

Certa vez uma amiga me encontrou logo após sua primeira sessão de uma nova terapia que havia iniciado, baseada em estímulos sonoros repetidos (??) e o reconhecimento explícito de traumas recorrentes no percurso da vida, entendidos como os reais causadores do sofrimento.

Esfuziante de alegria ela me explicou que houve 32 episódios traumáticos nos últimos 15 anos, o que explicava seus transtornos atuais, sua depressão, sua infelicidade e seus desajustes amorosos. Sua felicidade pela descoberta era como o alívio de quem se despedia de um pesado fardo após uma longa caminhada. “São os traumas, os traumas”, dizia ela.

Era um sentimento tão legítimo e contagiante quanto…. falso. Para mim ficou claro o desejo exonerativo pelo qual se apegara, algo que daria sentido à sua dor, mas que retirava dela a responsabilidade pela construção de suas feridas e sofrimentos. Mais ainda: aquela porta abria a compreensão de uma origem exógena para todos os males. “Dor é uma coisa que impuseram a mim, não algo que muitas vezes procuro avidamente“, disse ela.

O mesmo acontece com qualquer terapia que desonera o sujeito, centralizando seus males na família, na mãe, no pai, na pobreza e no outro. Não há dúvida alguma da importância e participação destes significantes na estrutura de vida e nos dramas de qualquer um, mas o erro surge quando negamos participação (geralmente inconsciente) do sujeito na construção do próprio sofrimento, alienando de si essa responsabilidade, tornando-o vítima passiva da história e das circunstâncias. Não existe protagonismo na passividade.

Para minha amiga havia um acordo tácito com qualquer um dos seus múltiplos terapeutas: “Diga o que quiser, mas nao retire de mim os sintomas que bravamente construí durante uma existência inteira. E haja o que houver, não me deixe falar de mim. Tome aqui esta versão que lhe trago, a qual preparei cuidadosamente em casa para lhe entregar”.

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Prostituição

Primeiro ministro espanhol Pedro Sanchez afirma que vai acabar com a prostituição no país.

Eu faria um singelo pedido a Pedro Sanchez: que ele aproveite a onda e decrete o fim da maldade, da feiura, da raiva e da ganância. Se é fácil assim, então vamos proibir tudo quanto é negativo. Se basta uma canetada, bora atacar todas as tristezas e torná-las ilegais.

Eu creio que, em uma sociedade justa e equilibrada, as mulheres que procuram a prostituição como meio de fugir das privações cairia drasticamente, ou mesmo acabaria. O mesmo não se pode dizer das mulheres que buscam na prostituição a realização de suas fantasias, ou a possibilidade de ganharem muito mais do que em outra profissão.

Pergunto: por que deveríamos privar estas mulheres do uso libertário dos próprios corpos? Por qual razão comercializar a parte de baixo é errado, mas explorar os braços dos trabalhadores como força motriz do capitalismo é justo?

Alguns diriam que é uma profissão de muitos riscos, mas assim também o são policiais, mergulhadores, eletricistas e tantas outras – onde faz pouco tempo as próprias mulheres também entraram, provando serem igualmente capazes. Por que precisamos continuar tutelando o que as mulheres decidem fazer com seu corpo e sua sexualidade? Tudo isso, no fundo, é o pânico do patriarcado ao ver a “desordem” da sexualidade sem arreios…

Dizer que “nenhuma mulher voluntariamente se prostitui” é apenas moralismo ou oportunismo. Há sim aquelas que preferem ganhar 30 ou 40 mil fazendo sexo do que trabalhando em uma fábrica. Por que negar esta evidência com a ilusão de estarmos protegendo as outras mulheres?

Proibicionismo é tolice. Não funcionou na lei seca ou com as drogas recreativas. Por que haveria de funcionar com o comércio do sexo? E todo mundo já sabe que ações assim apenas fazem crescer o “mercado negro” (ou paralelo), fortalecendo os sistemas de proteção (gigolôs), exploração do trabalho, etc.

O que deve feito – atenção para a suprema novidade – é exterminar a pobreza, a exploração, a miséria, o colonialismo e o capitalismo para que nenhuma mulher – ou homem!!! – seja obrigado a se prostituir contra sua vontade, e que o exercício da sexualidade seja livre, sem coerções de ordem econômica, cultural, moral, étnica e política.

Enquanto esse mundo de equidade não chega, que para todas as pessoas que apelam à prostituição sejam garantidos o suporte, a informação, a segurança e a assistência médica. Até o dia em que a exploração do homem pelo homem chegue ao fim e nenhuma pessoa seja obrigada a fazer com seu corpo o que não deseja.

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