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Romance

A gente romantiza demais os relacionamentos. Da minha geração sou um dos poucos que está no primeiro casamento – incluindo TODOS os meus irmãos. As pessoas me cumprimentam por isso, mas sempre devolvo o cumprimento com uma pergunta: “está me cumprimentando por qual razão?”

Geralmente as pessoas dizem “ora, porque deu certo. Todo mundo quer um relacionamento que dá certo, não?”, mas essa resposta não me satisfaz e eu respondo com outra pergunta: “Pode me definir o considera dar certo?”

Uma pessoa que teve um relacionamento de 1, 5, 10 ou 40 anos e depois terminou significa que “não deu certo”? Por que achamos que os relacionamentos precisam ser para sempre, ou que somente os que se mantém poderiam merecer o nome “sucesso”? Ter uma pessoa só que o amou durante a vida é melhor do que ter várias em sequência? É mais nobre? É um tipo superior de relação? Por quê?

Eu acho que somos contidos pelas circunstâncias nessas relações monogâmicas. Homens e mulheres poderosas “pulam de galho em galho”. Estarão errados? Esse modelo de “felizes para sempre” talvez não passe mesmo de uma fantasia sexual culturalmente compartilhada.

Eu percebo que fico muito triste quando meus amigos se separam, mas confesso que é muito mais por uma fantasia de projeção do que pela legítima preocupação com sua felicidade. É a minha felicidade – e segurança afetiva – que está em jogo nesta cena.

Aliás, já vi muitos casais separados felizes que deixaram família e amigos deprimidos com o desenlace. As paixões dos outros nos afetam, e não por outra razão existe uma indústria de fofocas e paparazzi a vigiar a vida sexual dos famosos. Entretanto, creio que essa vigilância apenas desnuda o quanto usamos os outros como moldes para nós mesmos, e o quanto somos dependentes desses valores sociais.

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Dinamite

Tenho visto inúmeros “vídeos denúncia” circulando pela infosfera com imagens de médicos ou enfermeiras que “agrediram pacientes ou acompanhantes”.

Não vou entrar no mérito de cada um dos casos que me mandaram; é difícil se posicionar quando não há o contexto de como, onde e porque tudo ocorreu. Todavia, peço que façam um simples exercício de empatia e se coloquem no lugar dos profissionais de medicina ou enfermagem diante desses casos limites que aumentaram muito durante a pandemia.

Em muitos vídeos era evidente o grau de stress dos atendentes. Raiva, cansaço, indignação, medo e esgotamento físico e psíquico. Muitos estavam atendendo há várias horas, arriscando suas vidas e se colocando diante de pacientes igualmente angustiados – que por sua vez também estavam aguardando há muitas horas por um atendimento.

Para piorar a tensão familiares sacam o celular e começam a registrar as consultas. Cada câmera funciona como uma pistola apontada contra a cabeça dos profissionais. Ou pior; como um fósforo pronto a incandescer o pavio encurtado de uma dinamite de emoções represadas.

Respondam: quem teria condições psicológicas de atender alguém diante de tamanha pressão? Como estabelecer um laço de cuidado e empatia diante dessa ameaça explícita? Como é possível produzir vínculo de confiança sob ameaça?

Acho que maus atendimentos devem ser denunciados, mas nenhum atendimento pode ser bom se quem atende está sob ameaça com um destruidor instantâneo de reputações apontado para o rosto.

Sejamos empáticos. Estamos em crise. Dedos apontados e ameaças não melhoram em nada a atenção médica ou de enfermagem. Desarmem os espíritos e levem em conta a crise terrível que todos estamos enfrentando.

Sejamos mais fraternos. Profissionais da saúde também tem família, medos e sonhos

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Diabo

Como enxergas o diabo? À frente ou ao teu lado?

Há muito se diz que o valor de um homem se mede pelos inimigos que produz durante sua trajetória. Não há como fazer omelete sem quebrar ovos; da mesma forma não há como mexer nas estruturas calcinadas da sociedade sem esbarrar nos velhos paradigmas.

Quando encontrares alguém que por muitos é atacado pense apenas em qual vespeiro ele pode ter mexido. A verdade não é democrática, e o fato de muitos o criticarem não significa que está errado; ele pode estar apenas questionando velhos conceitos e ameaçando podres poderes.

Nenhum zagueiro de respeito ganha troféu Belfort Duarte” e nenhum grande jornalista passa a vida sem ser processado por poderosos que se sentem atingidos por seu trabalho. “Jornalista não tem amigo, ele só gosta da verdade”, já dizia Joseph Pulitzer. Posso dizer o mesmo para outras profissões; um profissional que não esbarrar no diabo durante sua trajetória de vida é porque o tem ao seu lado.

Desconfie daquele que é amado por todos; somente os tolos o são. O verdadeiro gênio transformador sabe que durante a vida vai cultivar inimizades e não será aceito por muitos, às vezes pela maioria. Todavia, como diria Nietzsche, o verdadeiro brilhantismo não aparece em vida, e muitas vezes um século é necessário para que a névoa do tempo se dissipe e sua luz se torne visível.

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Conservadorismo espírita

Pensa numa contradição….
Um cara escreve um texto denunciando a “geração cristal”, frágil e fraca, que não suporta contradições.
Você discorda,
Ele te bloqueia….

Mesmo sites espíritas que se dizem progressistas acabam escorregando para o conservadorismo, a essencialização dos gêneros a muitas vezes descambam para uma misoginia escancarada.

Acabei de ler um texto sobre a velha tese da “geração de cristal” que diz que os jovens de hoje não suportam críticas ou frustrações. Eu mesmo creio que existe verdade nesta perspectiva, e temos legiões de jovens “flocos de neve” cujos sentimentos ficam abalados por qualquer contradição. Entretanto o texto apelava para um saudosismo tosco quando afirma textualmente:

“A geração que nos ensinou a viver sem medo está morrendo
….as pessoas que ensinavam aos homens o valor de uma mulher
…. e às mulheres o respeito pelos homens.”

Quer dizer então que “antes sim os homens sabiam valorizar uma mulher”?

Sério? Há 100 anos quando elas não votavam? Há 43 anos quando não podiam se divorciar? Quando se matava em nome da honra? Quando não tinham liberdade sexual? Quando eram apêndices dos homens? Quando não podiam trabalhar? As mulheres não respeitavam os homens; tinham medo deles. E os homens – como regra – viam nas mulheres valores maternais, e quase nada mais.

Ora, quanta verve reacionária. Apesar do nosso atraso civilizatório não será no passado que vamos encontrar solução para os problemas de gênero. Achar que o “cavalheirismo” é a resposta é um brutal desrespeito com as lutas das mulheres. Acreditar que no passado havia respeito é ignorância. Achar possível um passo atrás é absurdo.

É triste ver posturas reacionárias dentro de um movimento que se propõe progressista, aberto e livre pensador.

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Interesses ocultos

Não se trata de ser anti ciência, anti medicamentos, anti vacinas, anti cesarianas ou contra qualquer coisa, mas ter a coragem de fazer perguntas que precisam ser respondidas. É acima de tudo uma postura que encara as oligarquias planetárias e questiona seus métodos e seus objetivos. Afinal, quais os interesses de Bill Gates nesse cenário?

Uma lembrança: em 21 de abril de 1998 o jovem deputado Luis Eduardo Magalhães morreu de um infarto fulminante. A importância de sua morte era aumentada por três fatores: ser filho do poderoso ACM, ser líder entre seus pares e por ter apenas 43 anos de idade. A notícia chocou a todos. Na semana seguinte encontrei no corredor do prédio do meu consultório um colega cardiologista. No melhor estilo “small talk” disse a ele “E essa do filho do ACM, hein? Que horror!! Tinha só 43 anos!!”

Ele curvou os lábios para baixo e disse: “Nem fale, mas por outro lado o meu consultório nunca esteve tão cheio. Estou marcando consultas com semanas de antecedência. Podia acontecer uma coisa dessas cada seis meses.”

Claro, estava brincando, mas deu a entender, um pouco constrangido, que estes desastres acabavam lhe trazendo benefícios. A criação de doenças novas e a exaltação de tragédias produzem medo. E o medo, como bem o sabemos, faz desaparecer a razão e a clareza dos fatos e acaba nos jogando em um redemoinho de más escolhas. O pânico é sempre um péssimo conselheiro.

Assim, muita gente poderosa se beneficia com este tipo de tragédia global, e não precisamos ir muito longe para verificar isso. Os maiores beneficiários são empresários que estão revolucionando os setores de tecnologia, saúde e equipamentos médicos, como o bilionário sul-africano Elon Musk, ou a chinesa Zhong Huijuan.

Já é possível dizer que 2020 foi, na verdade, um dos melhores anos para os bilionários em muito tempo. As fortunas somadas dessa turma chegaram a US$ 10,2 trilhões recentemente, de acordo com um relatório divulgado pelo banco suíço UBS. Trata-se de um valor recorde, sendo que o anterior, de US$ 8,9 trilhões, data de 2017. Não apenas essas pessoas, as mais ricas do mundo, recuperaram seu patrimônio, como, em alguns casos, fizeram-no crescer. E isso aconteceu no mundo inteiro, e o Brasil participou da festa.De maneira geral, grandes nomes ligados ao universo da tecnologia e do varejo, como Jeff Bezos (Amazon), Bernard Arnault (LVMH), além dos chineses Ma Huateng (maior acionista da gigante de internet e da comunicação Tencent), cujo patrimônio aumentou quase US$ 20 bilhões em questão de meses, e Qin Yinglin (maior produtor de porcos do mundo) foram os grandes destaques desse show dos bilhões”. (leia aqui matéria completa)

PS: Veja abaixo uma entrevista sobre Bill Gates que foi dada por um dos jornalistas investigativos mais famosos da atualidade: Max Blumenthal, que entre outras coisas escreveu “The 51 Days War” sobre o massacre Palestino em Gaza em 2014.

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