Arquivo da categoria: Pensamentos

Depois da morte

 

Aprendi que haveria níveis diferentes para onde a alma iria depois da morte. Um mais baixo, com os “espíritos inferiores”, um segundo nível composto de espíritos em “expiação”, um mais elevado com os espíritos de maior esclarecimento e um acima, o angelical, onde estariam seres com uma experiência maior e responsáveis pela coordenação da própria vida na Terra.

Nada parecido com as organizações sociais mundanas que existiram por séculos, como escravos, proletários, burgueses e nobres. Mera coincidência, certo? O método de ascensão entre as classes? Ora, a meritocracia (com variações, por certo).

Lembrei disso porque me sinto caminhando em uma estrada que se segue ao abandono. De uma certa forma pulso em dois mundos: à frente a redenção e a superação, enquanto para atrás fica a vida de dificuldades e mágoas, embora tantas vicissitudes sejam entremeadas por amores e conquistas.

Entretanto, ao invés de focar minha atenção no porvir e no Caminho, não consigo cortar as amarras do mundo que ficou para trás. A vida ainda parece por demais intensa para ser esquecida. Por isso escrevo aqui…

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Bolhas

 

Então ela me pergunta, mantendo uma ruga questionadora na testa: “Mas por que isso? Qual o sentido das bolhas, da dor, das noites mal dormidas, das tendinites, do frio e da chuva? Em nome de quê?”

Parei por alguns instantes e lhe perguntei: “Você tem filhos?” e ela me respondeu “Sim, dois. Partos normais”, e sorriu com orgulho.

Olhei em seus olhos e repeti sua própria pergunta: “Em nome de quê?”

Sim…. O que te leva a caminhar por 800 km no frio e na chuva é diferente do que te leva a ter filhos, mas ambos compartilham algo em comum: são ações que agridem seu conforto pessoal e te obrigam a encarar uma dimensão pouco conhecida: a transcendência.

Só a possibilidade de transcender os sentidos comuns na vida nos permite aceitar tais desafios. É mais fácil terminar a vida sem jamais perder o sono por um filho que chora ou que ainda não chegou da festa, assim como passar seus períodos de férias em uma praia ou numa viagem cultural por um país desconhecido. Somente a sensação incômoda de que há algo dentro de si mesmo que pode ser descoberto é que te impele a tomar atitudes que parecem estranhas e desafiantes.

Para uma sociedade que perde a noção de sagrado e transcendente, que sequer consegue nominar o que está além de sua compreensão, tudo parece ter preço.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Xamãs

 

Quando planejei meu transcurso pelo Caminho escolhi a dedo meus parceiros de viagem. Além de Bebel e Juliana, minhas lindas parceiras físicas, convidei parceiros virtuais para me acompanharem nas longas marchas solitárias pelas paisagens estonteantes do País Vasco, La Rioja, Navarra, León y Castilla etc. Assim, trouxe comigo Illan Pappé, Max Blumenthal, Chris Hedges, Ruppert Sheldrake, David Harvey, Yanis Varoufakis e outros. Entre tantos personagens também trouxe uma palestra do psicanalista Christian Dunker, a qual me chamou a atenção pela sua definição de “Xamã”.

Nesta palestra Christian Dunker cita Viveiros de Castro, que por sua vez se refere aos estudos do antropólogo Claude Levy-Strauss, para falar dos Xamãs e com isso traçar uma interessante analogia com os psicanalistas. Eu peço licença ao Chistian para, pegando carona em sua análise, tentar entender a dinâmica dos obstetras humanistas através dessa mesma perspectiva.

Dizia ele que os Xamãs são muito mais do que uma profissão, uma arte ou um conjunto de técnicas. Eles se expressam como “função”, na mesma linha das funções maternas e paternas, que não necessariamente são exercidas pelos sujeitos mãe e pai. Xamãs são, basicamente, funções sociais. Também nos afirma que existem basicamente dois tipos de Xamãs: os “horizontais” e os “verticais”.

Os primeiros são os guerreiros; descobrem o “mal” no outro grupo e os atacam para assim reforçar a sua própria identidade. Entre os parteiros, são aqueles que acusam os hospitais, o sistema, os “cesaristas”, os “enganadores”, os “oportunistas”, os “fofinhos”, os “tipo humanizados”, os “Dr Frotinha” e os claramente “pilantras”. Agem mais à sombra, na escuridão, na belicosidade, com o dedo em riste, corroídos pela (justa) indignação. “Esse cesaristas estão acabando com a arte da parteria”

O segundo tipo é o Xamã vertical. Estes, ao invés de atacarem um inimigo externo, cultuam saberes que os definem em sua singularidade. São os parteiros que devoram protocolos e normas, que estudam a fundo a Medicina Baseada em Evidências, que estabelecem para si e seus iguais marcas de excelência (baixas taxas de episiotomia, taxas de cesarianas dignas, utilização de doulas, técnicas humanizadas, etc). São os guardiães de uma especificidade que só pode ser alcançada por aqueles que carregam seus valores e sua prática. “Não, fulano não pode ser humanizado fazendo tanta episiotomia”.

Estes são os Xamãs clássicos, mas Viveiros de Castro propõe um terceiro Xamã que agora se expressa; nem horizontal, nem vertical: o Xamã “transversal”.

Esta nova função vai se manifestar pela superação das demais. Para além dos ataques aos inimigos em busca de uma identidade ou o reforço das peculiaridades de sua arte – com o mesmo fim – o “parteiro transversal” se dedicará a uma interlocução com os demais saberes para construir uma síntese a partir das teses digladiantes. Para ele não será mais necessário atacar inimigos pois lhe parece muito mais importante entendê-los para posteriormente cooptá-los ao novo paradigma. Ao invés de limites rígidos em práticas específicas vai propor uma mente mais aberta e abrangente, muito mais centrada na ATITUDE humanista do profissional do que na expressão crua de alguns procedimentos e técnicas.

A emergência do parteiro transversal é um sinalizador do enriquecimento do modelo e não de uma fragilização dos princípios norteadores, quais sejam: o protagonismo garantido, a visão interdisciplinar e a postura de respeito às evidências científicas. Seu aparecimento no cenário da humanização denúncia a maturidade conquistada pelos seus antecessores e a disseminação do ideário do parto humanizado a outras distâncias.

Sejamos, pois, transversais.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Falsos brilhantes

 

Eu não sou brilhante, por certo, e jamais chegarei perto disso. Entretanto, nunca encontrei um professor ou um colega de faculdade que merecesse esse nome. Em minha vida fui cercado de medíocres, alguns bem-intencionados e dedicados.

Mas vejam; não falei em excelentes ou bons; falei em brilhantes. Meu conceito de brilhante é muito diferente do que trabalhar no exterior ou entrar nas melhores universidades. Nem mesmo ser culto ou inventivo. Meu conceito de “brilhante” está bem fora desse espectro. Muitos que nós descrevemos como “gênios”, “especiais” ou “fora de série” são basicamente sujeitos que fizeram o que se espera de um profissional normal usando os inúmeros privilégios que recebeu da vida.

Aliás, o brilhante, via de regra, passa despercebido. Ninguém o reconhece como tal; quando se faz notar é para ser perseguido, porque via de regra está fazendo ou dizendo algo que seus iguais não querem fazer ou ouvir. Ignaz Phillip Semmelweiss, Nietzsche, Freud, Darwin e Marx jamais foram agraciados com prêmios e condecorações pelo trabalho inovador que realizaram, o qual produziu profundo impulso na ciência; pelo contrário, foram todos – sem exceção – vítimas do preconceito.

Ignaz Phillip foi expulso de Viena pelo crime de estar certo sobre as mortes puerperais; Marx passou fome enquanto mudava o mundo ao seu redor, Darwin foi excomungado e passou anos trancado em seu quarto (como Galileu e Espinoza); Freud foi renegado e humilhado pelos idiotas da corporação de Viena enquanto Nietzsche era expulso de Heidelberg pelas suas ideias inovadoras.

Todos foram verdadeiramente brilhantes, e a prova disso é o fato de ainda os citarmos, mesmo depois de mais de um século ter se passado desde que aqui chegaram. Todavia, nenhum dos seus contemporâneos a quem muitos chamaram de “geniais” – mesmo sendo medíocres – deixaram seus nomes na história. Ninguém conhece o bispo “genial” que perseguia Darwin, o reitor que expulsou Nietzsche, o médico que cuspiu em Freud, o capitalista que escarnecia de Marx ou o diretor (Dr Klein) que mandou Semmelweiss de volta para Budapest para lá sucumbir à loucura.

E a razão para isso é simples: o verdadeiro gênio passa incólume pelo nosso olhar. Só as falsas luzes brilham para aqueles que, como nós, só enxergam o que lhes seduz. O ser verdadeiramente brilhante só tem seu brilho reconhecido muito depois de nos deixar.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Deus

 

O erro se mantém em várias discussões na internet sobre a existência ou não de Deus: a ideia de que o ateísmo é uma postura superior, intelectual e racional quando na verdade ser teísta ou ateu não tem NADA a ver com a racionalidade do sujeito porque NENHUMA das posições é conquistada através da razão. Ambas tentam oferecer hipóteses sobre o DESCONHECIDO. Um teísta não precisa acreditar na Bíblia ou nas alegorias de quaisquer outras crenças; precisa apenas crer em uma teleologia cósmica e em um sentido universal. Já um ateu necessita tão somente não enxergar nenhum sentido e crer no acaso. Mas nada disso fala da inteligência do sujeito e estas sequer são “escolhas” verdadeiras. São sentimentos profundamente arraigados no sujeito sobre o qual ele não tem nenhum controle racional.

Outro erro: confundir teísmo com religião, duas coisas absolutamente diversas. Eu, por exemplo, sou teísta e não tenho nenhuma religião há mais de 30 anos.

Essa é, em verdade, uma discussão que pertence ao século XIX e só foi ressuscitada por religiosos fundamentalistas como Richard Dawkins e outros. Seu proselitismo ateísta é uma chatice e uma manifestação de fundamentalismo ao nível do Estado islâmico. A ideia infantil de que a religião é o “mal do mundo” não se sustenta logicamente e demonstra profundo desconhecimento dos sentidos últimos das religiões, além de suscitar debates tolos que produzem confusão e extremismos.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos