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BETs balanço

Lula fez uma Medida Provisória para terminar com as BETs. Pode ter sido uma medida eleitoreira mas, ao contrário do que eu esperava, a reação do povo não foi negativa. Muita gente elogiou a postura do presidente, argumentando que o jogo é uma doença social que afeta muitas famílias. O debate, entretanto, nem é esse; já temos um diagnóstico sobre a questão das apostas, mas o que ainda nos falta é um tratamento adequado.

Alguns reclamaram afirmando que o melhor seria Lula enviar um Projeto de lei para o congresso. Eu não concordo, se for pensar com a cabeça do Lula. Uma MP tem ação imediata, enquanto um PL estaria numa gaveta até agora e seria derrotado posteriormente pelo lobby das BETs. O Lula queria um choque, algo que cortasse a jogatina e obrigasse o povo a discutir se esta permissão valeria a pena. Como eu disse, pode ter sido por motivos eleitorais, mas fez efeito. Num PL este efeito seria nulo.

Alguns argumentam que “ninguém vai parar de jogar ou se curar do vício e refletir” , e que a maioria dos jogadores “foi para plataformas ilegais, que são abundantes”. Ode ser verdade mesmo, mas debater o jogo no Brasil é muito importante.

Eu acho que não se trata de curar indivíduos, mas de tratar a própria sociedade. Aliás, eu, por ser marxista, sou contrário ao proibicionismo. Acho que o fim das BETs só vai ocorrer com a educação e o fim do capitalismo. O que eu discordei foi sobre alguém achar que fazer um PL seria melhor do que uma MP, o que não faz NENHUM sentido. Ninguém estaria debatendo hoje as BETs se houvesse um PL para sua extinção escondido numa pilha de papéis no congresso. O MP obrigou todo mundo a pensar no tema, e era isso que Lula queria.

Meu interesse nesse debate não é defender a proibição; já estou convencido que proibir é um caminho enganoso. Se não funcionou com a bebida e as drogas, por que funcionária com a jogatina? Entretanto, acho lícito tentar entender as razões de Lula.

De qualquer forma, a quantidade de gente que está jogando nas plataformas ilegais hoje é uma ínfima parcela do que se jogava antes da proibição. Ou seja: fez efeito. E, se querem saber minha opinião, eu acho que ara as BETs se deve usar a mesma estratégia do cigarro: permita-se o jogo mas com altíssimos impostos, da ordem de 80 a 90%, sendo toda a arrecadação direcionada para a educação. Além disso, proibir clubes de futebol e empresas de mídia de explorarem o negócio. Se for empresa estrangeira, precisa ter sede no Brasil para responder civilmente. E por fim, mudar algumas regras que levam facilmente às fraudes: proibir apostar em número de escanteios, pênalti, lateral, jogador expulso. etc.

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Doutor, é grave?

Após ouvir seu nome ele entrou na sala segurando a mão da mãe. Difícil saber se sua postura retraída era causada por medo ou vergonha. A cabeça baixa, o medo de sentir dor, o andar relutante. Sua mãe deu dois passos na saleta acanhada, acomodou-se em uma das duas cadeiras e apontou a outra para seu filho. À frente deles o homem de avental branco levantou rapidamente os olhos da ficha em sua mesa, girou a caneta entre os dedos e disparou perguntas banais. A mãe respondeu sem precisar pensar muito. Sim, 12 anos, sim, sim, sim, não, sim, não come, muito pequeno, ele é magro demais. Poucos minutos de conversa até que o homem escreveu algo num papel, entregou à mãe e apontou a porta. Mãe e filho saíram sem mais nada dizerem. O menino olhou para trás e ainda conseguiu ver o homem sério parado na porta.

Meu pai tinha 12 anos e foi a primeira vez que viu um médico. Um encontro que nunca esqueceu.

Um pouco mais de 40 anos após esta cena, meu filho me perguntou o que era um médico, talvez curioso para saber o que eu fazia. Essa é uma pergunta genial, que só as crianças são capazes de fazer. Na minha mente ainda surgiu a frase célebre Voltaire: “É verdade que, durante muito tempo, de cada cem médicos, noventa e oito foram charlatães”, mas deixei-a guardada em minha mente. Preferi que ele guardasse uma imagem boa daqueles profissionais que se esforçam para que o sofrimento inalienável da condição humana seja mais suportável. Por outro lado, a resposta mais simples para dar a ele seria seguir a linha da formalidade. “Um sujeito é médico quando faz uma faculdade de Medicina reconhecida e ganha um diploma, o qual fica dependurado na parede do consultório”. Essa resposta seria razoável, mas para um criança de 5 anos seria necessário ainda explicar outros termos como “diploma”, “faculdade”, etc. Além disso, o que significa “se formar” numa faculdade”?

Criada em 17 de agosto de 1220, a Faculdade de Medicina de Montpellier, na França, é considerada a primeira faculdade de medicina do mundo a receber reconhecimento. Naquela data, o cardeal Conrad de Urach, concedeu os primeiros estatutos à Universitas Medicorum Montispessulani, estabelecendo oficialmente uma instituição universitária dedicada ao ensino da medicina. Há uma disputa com a Universidade de Salerno, mas ao contrário dessa, a universidade de Montpellier criou uma estrutura que pode ser reconhecida como de uma verdadeira escola médica. Isso propicia uma questão incômoda. Oito séculos do surgimento da primeira escola de medicina é “ontem” quando se leva em consideração a idade da nossa espécie. Temos por volta de 200 mil anos como “sapiens”. Desde que criamos a civilização existem apenas 10 mil anos de percurso. Desta forma, a formalização do ensino médico só ocorreu em menos de 10% do tempo em que vivemos em cidades. Resta então a pergunta: e antes disso? Quem eram os médicos “sem papéis” que atenderam as milhares de gerações de gentes que sofreram antes de existir uma escola regular de ensino de sua arte? Não deveriam ser chamados “assim “médicos” apenas porque não ostentam um documento pendurado na sala de espera de um consultório de classe média em uma cidade moderna?

Antes de existir qualquer formalidade para o reconhecimento da profissão os estudantes procuravam médicos experientes e passavam a acompanhá-los durante anos. Nesta trajetória de aprendizado estes garotos observavam os pacientes, aprendiam a reconhecer sintomas, participavam dos tratamentos e estudavam os conhecimentos transmitidos pelo mestre. O próprio Juramento de Hipócrates revela essa organização. Neste texto, o pai da medicina estabelece obrigações do discípulo para com seu mestre e seus descendentes, mostrando como o ensino médico estava associado a relações pessoais e familiares. Ou seja, a escolha pela medicina era algo pessoal e muitas vezes uma tradição familiar, da mesma forma como se observa na parteria tradicional com o aprendizado direto, modelo de “aprenticeship” que se observa ainda hoje. Assim, responder que um médico é alguém que passou pela faculdade e se graduou retira da foto milhões de personagens da história que cuidaram dos seus semelhantes sem este tipo de documento.

Talvez, para ser justo e abrangente, um médico seria alguém cujo objetivo essencial é ajudar quem sofre. Mas não apenas pelo exercício da fraternidade, que não pode ser característica de apenas uma categoria profissional, posto que é uma qualidade humana. É necessário que este cuidado sofra contínuo e ininterrupto aprimoramento, através do estudo, da experiência e da ytoca de informações. Se utilizarmos este conceito, o cuidado médico é aquele onde o sujeito instrumentaliza, através do estudo formal ou informal, seu natural desejo de tratar a dor alheia. A medicina seria assim, a “Fraternidade instrumentalizada“, a cura mediada pelo conhecimento.

Foi assim que eu tentei explicar ao meu filho o que significa ser médico. Quando analisamos os elementos constitutivos mais essenciais dessa prática, sobra apenas aquilo que nos caracteriza como uma espécie gregária e social: a fraternidade. Esse elemento constitutivo de nossa alma é a semente da qual brotam todas as perspectivas terapêuticas, entre elas a medicina, que sempre esteve ao lado dos pacientes para oferecer um pouco de alívio diante da inexorável angústia de viver.

Parabéns aos doutores cuja simples presença é o maior remédio jamais criado.

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Humanos

Aideia de que adolescentes de 16 anos poderiam compartilhar celas de prisão com adultos só poderia surgir da cabeça de pessoas que não conhecem a realidade do sistema prisional. Entretanto, quando tento explicar a insensatez desta proposta eu percebo que minhas palavras atingem, do lado de lá, um rochedo argumentativo muito difícil de transpor.

Minha posição, e minha experiência pessoal, se baseiam na constatação de que colocar pessoas dessa idade numa prisão comum é algo “desumano”. Entretanto, as pessoas que admitem que jovens de 16 anos devam ser presos sem qualquer regalia, caso tenham cometido crimes hediondos, são as mesmas que usam como argumento que “se podem votar também podem ir para uma cadeia comum”. Esse é um argumento clássico da direita, e junto com ele vêm os indefectíveis “direitos humanos para humanos direitos” e “bandido bom é bandido morto”. Essa tríade de clichês nos remete ao núcleo da posição conservadora da direita sobre a questão prisional.

Em primeiro lugar, o argumento de que a idade de votar deveria coincidir com a possibilidade de ir para uma prisão regular só pode acontecer na mente de pessoas que acreditam que a maturidade para votar é a mesma requerida para suportar os desafios e os riscos do encarceramento, junto com as ameaças, as opressões, as vinganças, os ataques, os abusos de toda ordem e a tensão constante para sobreviver num ambiente violento. Some-se a isso os custos para o sujeito e a sociedade daí decorrentes. Acreditem, escolher um candidato e colocar seu nome na urna eletrônica é muito diferente de esconder seu pedaço de pão para que não o roubem dentro da sua cela. Em segundo lugar, é preciso crer que a condição humana não é inata e garantida a qualquer um da nossa espécie, mas algo que só vai ocorrer na dependência de comportamentos específicos. Assim, você precisa ser “direito” para ter direitos humanos básicos. Da mesma forma como no capitalismo, a cidadania é comprada e, nas suas vertentes mais radicais, você morre se não puder pagar a conta da sua insulina ou do soro antiofídico. Para os extremistas, seus direitos como gente, como pessoa, estão condicionados ao seu comportamento; não são uma garantia básica de sua existência. Em terceiro, mas não menos importante, é a crença de que todos aqueles que se rebelarem contra uma sociedade que consideram injusta, através do ingresso no mundo do crime, ou que cometeram erros em função de sua vida e suas escolhas, não merecem viver. Bom mesmo seria estarem mortos. As pessoas que defendem estas penas para os “bandidos” são aquelas que acreditam na criminalidade como uma chaga moral do sujeito, e não a consequência lógica de uma sociedade de exclusão e injustiça. Assim, matando os “ruins” sobrariam apenas os bons, e teríamos uma sociedade cheia de luz e equilíbrio. E de assassinos legalizados.

O grande problema nesse debate é que afirmar que a junção de adolescentes com adultos nas prisões é uma atitude “desumana” não afeta os argumentos de quem defende tal prática. A razão é que prisões desumanas e brutais são exatamente o projeto que estas pessoas acreditam ser o melhor. “Quanto pior a cadeia, melhor. Isso vai fazê-los pensar melhor antes de entrar no crime”. A desumanização dos prisioneiros é semelhante àquela feita com palestinos: estão sofrendo porque merecem, portanto não há porque tratá-los com dignidade ou respeito. Para quem defende a brutalidade como resposta, os presos não merecem consideração; melhor seria mesmo que morressem.

Colocar um adolescente no ambiente das penitenciárias não vai melhorar em nada a sociedade em que vivemos. Vai aumentar o ressentimento desses meninos, transformando sua vida em uma eterna busca por vingança. Pesquisas no mundo inteiro demonstram – há décadas! – que a perspectiva punitivista nunca produziu resultados sociais positivos em médio e longo prazos. O crime não vai acabar por meio da punição e das cadeias, mas com o fim da sociedade de classes e a exploração. Imaginar que setores da esquerda possam aceitar essa proposta nos sinaliza que é necessário rever o que se tornou a esquerda no nosso país.

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Quando você crescer

Encontrei um vídeo de uma moça, ativista da humanização do nascimento, chamada Ekaterina Mariposa (vejam que lindo nome). Ela morava no Geórgia, um pequeno país no leste da Europa, mas é de ascendência russa. Há 8 anos passados ela havia me entrevistado para conhecer um pouco do movimento de humanização do nascimento no Brasil. Quando vi seu vídeo novo, mandei um alô e lhe disse que gostava muito de ouvir o som do idioma georgiano e, mais ainda, do seu alfabeto tão peculiar. Ela ficou feliz de me reencontrar e combinamos uma nova entrevista.

Todavia, por causa desse encontro, o Facebook me colocou no algoritmo da Georgia, e começaram a pipocar músicas polifônicas de grupos georgianos. Uma delas me tocou profundamente pela sonoridade e delicadeza das vozes femininas. A música me impressionou de tal forma que passei a escutá-la repetidamente todo o dia, tentando acompanhar e cantarolar junto com as intérpretes e imaginando o que a letra poderia conter. Fui obrigado a apelar para o chat GPT para descobrir o nome da música cantada pelo grupo “Ialoni” da Geórgia. O nome da música é შენ რომ დიდი იქნები (Shen rom didi iknebi), e a tradução: “Quando você crescer”.

Esta noite minha neta Ava, de 5 anos, veio dormir comigo, mas ficava o tempo inteiro querendo conversar. Pedia que eu continuasse a “nossa” história sobre um grupo de crianças que está em uma excursão de ônibus e entra em um túnel estranho, que as leva para o passado. Lá encontram Pterodáctilos, Tiranossauros Rex, Tricerátops e muitos outros seres do passado. Depois de uma série de aventuras eles voltam para o ônibus, seguem pelo túnel misterioso, mas erram a bifurcação que as levaria à saída, sendo conduzidas ao mundo do futuro, onde são acompanhadas por um guia chamado Peter Wertenheim, que as ensina a usar seus braceletes anti-gravitacionais e jogar basquete voador. Apesar dos meus esforços, nada a fazia conseguir conciliar o sono, então resolvi colocar para tocar no celular a música que estava o tempo todo na minha cabeça, e logo depois ela dormiu. Só hoje descobri do que a música trata, e talvez a razão por ela estar tão fixada em minha mente.

O poema tem uma dedicatória: “À pequena Irma”. É uma declaração de amor de um avô à neta, imaginando o momento em que ela crescerá e ele já não estará vivo. O poema começa com o avô imaginando a neta adulta, quando ele já tiver morrido. Pede que ela se lembre dele, deixando que as lembranças cheguem como flocos de neve. Ele imagina que um dia a jovem voltará para casa e não o encontrará. Mesmo sem poder fazer mais nada por ela, promete permanecer dentro de sua alma. Quando a menina se tornar mulher e ele já estiver transformado em pedra, sua morte não significará o fim de seu amor. De algum lugar além da vida, ele continuará iluminando o caminho dela.

Na passagem final, o avô faz um pedido a Deus: deseja transformar-se em um cervo, adornar seus chifres com o amor da neta e caminhar pelas montanhas em homenagem a ela. A imagem do cervo é particularmente significativa porque o nome Irma está associado, no georgiano, à palavra que designa esse animal. Assim, o poeta transforma o nome da própria neta em uma metáfora de permanência, ternura e amor. É uma canção sobre a morte, mas, sobretudo, sobre a tentativa de tornar o amor maior do que ela. Faz todo o sentido.

Mando essa música para quem é ou será avô e consegue imaginar a dor de um dia ter que deixar a quem tanto ama.

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O Vulto

O barulho ensurdecedor da festa da virada do ano invadia a cafeteria e disputava o espaço com o aroma de café e as pessoas que se amontoavam no balcão e nas mesas. Vez por outra foguetes explodiam e a os gritos que os seguiam penetravam no ambiente, atrapalhando a música que vinha da TV ligada pendurada na parede. Diogo tomava uma Coca Cola, mas sonhava com seu próximo aniversário, quando completaria 18 anos e poderia tomar cerveja como Lucas, seu primo. Célia estava com o olhar fixo na rua, imóvel há alguns instantes. Finalmente olhou para seu filho e, colocando a mão em seu braço, lhe disse:

— Diogo

— Sim?

— Lembra quando você era pequeno e sempre me perguntava quem era seu pai? Dizia que seu colegas na escola tinham pai que jogava bola com eles, enquanto você só tinha mãe. Dizia que um dia gostaria de vê-lo. E você queria saber como ele era, se era alto ou baixo, se o cabelo era parecido com o seu. Lembra disso?

— Sim, eu lembro. Eu era pequeno, depois perdi essa curiosidade. Já tem algum tempo que não penso mais nisso. Você disse que ele não morava mais nesse país e eu esqueci. Passou.

— É, faz alguns anos já. A gente fica velha e parece que tudo foi ontem. Eu tentava lhe explicar, mas você era pequeno, não entendia.

— Eu entendo mãe, não liga não. Criança é assim mesmo curiosa. Sem problema.

Duas crianças passaram espremidas por entre as mesas e empurraram com seus corpos as cadeiras. Célia sorriu pelas risadas marotas dos moleques, mas ainda pôde dizer “Cuidado!” quando eles quase derrubaram a garrafa à sua frente. Algumas gargalhadas cheias de álcool correram o pequeno salão vindo de um grupo de coroas que cantavam sem se preocupar com a afinação. Enquanto isso, os músicos do show da virada se intercalavam na cantoria da TV. Célia voltou a ficar com o olhar fixo no bar do outro lado da rua, que colocava cadeiras nas calçadas e servia bebidas e petiscos aos clientes.

— Preciso te contar uma coisa.

— O quê?

Ela indicou discretamente o bar à frente.

— Está vendo aquele homem de camisa vermelha?

Diogo procurou com os olhos.

— É seu pai.

O rapaz voltou-se para a mãe. Por algum tempo, não disse nada.

— Quer ir lá conhecê-lo?

O garoto baixou o olhar, bebeu o resto do refrigerante, e ficou olhando para o copo vazio por mais alguns instantes. Depois olhou para a mãe mais uma vez..

— Não. Não quero.

Eu olhava para Diogo e senti em seu olhar o peso daquela confissão. A história que Diogo me contou havia brotado entre uma conversa e outra, mas o sorriso nervoso que ele deu ao terminar o relato não deixou dúvidas sobre o significado daquele momento ocorrido há mais de 20 anos.

Depois de me relatar o não-encontro com seu pai ele ficou em silêncio por alguns instantes, e depois voltou a pintar umas peças de madeira com as tintas recebidas com o material do artesanato. Por instantes pensei ver seus olhos marejados, mas é provável que tenha sido o frasco de solvente aberto ao seu lado. Afinal, Diogo era bandido, e os bandidos não choram.

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Medo

Eu tenho muitos medos, e sei muito bem o que é o temor de perder a credibilidade.

Durante 30 anos fui médico de mulheres, e dei aulas e cursos em muitos lugares do Brasil e do mundo. Minhas amigas, colegas e a plateia para qual eu falava eram quase excluivamente formadas por mulheres. Por esta perspectiva aprendi, aos trancos e barrancos, a entender o mundo pelo discurso das mulheres. Escutava suas dores, seus sentimentos, a forma de ver e sentir o mundo e suas propostas para mudá-lo. Eu vivi durante a maior parte da minha vida adulta em um mundo feminino, com tudo que existe de criativo, doloroso e complexo neste universo. Minha visão era muito derivada da ótica especial que as mulheres me ensinaram. A consequência natural foi a adoção de uma perspectiva identitária, que me acompanhou durante décadas.

Porém, num determinado momento da minha vida, e a partir de um conjunto de decepções que me levaram a produzir uma reflexão muito profunda sobre minha visão de mundo e o meu trabalho, eu abandonei as minhas crenças e a perspectiva identitária, as quais carreguei durante toda a minha vida. Entretanto, ao mesmo tempo em que eu dava um giro nas minhas concepções, as pessoas que confiavam no meu trabalho continuavam conectadas a uma narrativa francamente ligadas aos valores do identitarismo, olhando o mundo de forma excludente, essencialista e moralista. O simples fato de questionar a realidade fazia com que estas pessoas se afastassem de mim; algumas simplesmente paravam de falar comigo. Fui expulso de uma comunidade com um “abaixo assinado” porque questionei ações que mais pareciam “corporativismo de gênero”, e não uma busca por equidade, justiça, cooperação e respeito mútuos. Ser um homem num contexto feminino e questionar a cola que as mantém unidas é um roteiro seguro para a exclusão.

Com o tempo percebi que uma das estratégias para sobreviver é simplesmente evitar temas muito delicados. Por exemplo, parei de falar nas redes sociais sobre a questão das mulheres, das trans, do ativismo gay e a respeito do racialismo. Achei que deveria centrar minha energia em coisas que não causariam tanta turbulência, brigas, incompreensãoes e cancelamentos. Naquela época, uma frase que cansei de escutar foi: “Puxa, você me decepcionou”. Por isso, eu entendo quem prefere ficar em silêncio e não se sente seguro de enfrentar uma massa raivosa lhe atacando pessoalmente pelas suas ideias e posturas. O episódio de mulheres sendo atacadas por mulheres por pensarem de forma diferente da maioria nas Universidades ou nos Partidos políticos sãoexemplos de como assumir uma postura contra-hegemônica pode ser agressivo e até perigoso. Tive experiência como esta no enfrentamento constante que tive na luta pela humanização do nascimento e sei muito bem como nos sentimos quando bombardeados desta forma.

E sim, tem gente que é casca grossa e enfrenta qualquer disputa sem pestanejar. Entretanto, muitas vezes é porque não há tanto em jogo, e estas pessoas não correm o risco de perder o emprego, até mesmo a profissão, o posto de chefia, a credibilidade e a confiança dos outros. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é… e cada um sabe até onde consegue segurar a barra. Para aqueles que um dia fraquejaram, a minha solidariedade. Fragilizar-se diante de suas posturas é natural, e por isso é importante pensarmos e agirrmos no coletivo. Quando um sente medo o outro o abraça com coragem.

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Classe média

Eu também odeio nossa classe média, e não me excluo dela. Crítico ferozmente essa classe até porque faço parte dela. Ela é rasteira, pedante, medíocre, odiosa, preconceituosa e arrogante. É uma classe composta majoritariamente por pequenos burgueses, que se estabeleceu acreditando estar afastada dos proletários, a quem desprezam, e próxima dos burgueses, os donos, os proprietários, por quem são desprezados.

Costumo olhar para a classe média como um sargento que se acha superior aos seus comandados mas que, pela sua grossura, falta de refino e cultura, é desprezado pelos oficiais. Na perspectiva do sargento, ele se acha especial por não se misturar com a soldadesca, mas na visão do oficialato ele não passa de um militar bruto e mais velho que os ajuda a controlar a massa de soldados.

A classe média tem uma carência crônica de consciência de classe. Sua escolha nas lutas sociais sempre é oportunista e ilusória. Ao invés de se unirem ao operariado na luta pela divisão equânime da riqueza produzida, preferem se unir aos opressores na ilusão de que eles os reconheçam como iguais. É o caso do médico, do advogado, do pequeno comerciante, do empresário, etc. Não por acaso, essa classe é profundamente reacionária, a base do bolsonarismo e da extrema direita.

Essa classe média deve ser trocada com uma classe combativa, que deseja a mudança e que lute ao lado do operariado e do campesinato por uma revolução estrutural no Brasil.

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Cancelamento

A cultura do cancelamento foi a arma da esquerda identitária nos últimos 10 anos. Ela precisa ser enterrada.

Eu espero que a derrota da esquerda mostre o fracasso da cultura do cancelamento, do discurso punitivista de esquerda, do proibicionismo e da censura sobre músicas, piadas, pronomes e expressões. Este tipo de mentalidade “esquerdista” fracassou, destruiu a conexão dos partidos de esquerda com o povo, com os trabalhadores e com as pessoas comuns. Essa visão de mundo levou à derrota que agora sofremos. É preciso encarar nossas falhas com coragem.

As urnas não mostraram a adesão do cidadão a um político desqualificado e miliciano, mas a rejeição a esta postura arrogante e pretenciosa da esquerda identitária, cuja função se limita a chamar a polícia diante da discordância de ideias, propor censura e aumento de penas e tratar das questões políticas de forma punitivista.

Que esta dor que agora sentimos se transforme em luta, mas acima de tudo uma reflexão sobre o erro de esquecer a importância de ter o povo nas ruas. É hora de cancelar os cancelamentos e reviver as pautas da liberdade irrestrita de expressão.

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Vassalos

Os direitistas não conseguem entender qualquer tipo de organização social sem um dono, não é? Para estes, a fraternidade e a justiça social são utopias sem sentido. O mundo precisa ter imperialismo, Cuba necessita um dono que cumpras as ordens da Matrix. O mesmo com a China e a Coreia Popular. O mundo é determinado pelo imperialismo e o Brasil também deve se subordinar. A América Latina, com sua gente escura, merece ser o quintal americano; é o que determina nosso “destino manifesto” de inferioridade. Somos escravos por natureza, e eles – os brancos ricos e europeus – nossos mestres e donos. Mais além, qualquer país que se rebelar contra essa ordem será estrangulado, e os outros países devem aplaudir a crueldade dos nossos donos.

Olhem que curioso: Cuba, Vietnã e Coreia Popular são comunistas. Venezuela, Palestina e Irã são capitalistas. Entretanto, todos estes são atacados severamente pelo imperialismo americano porque compartilham um elemento em comum: não se ajoelharam diante do imperialismo, não se venderam, traçaram seu próprio destino, não se curvaram ao poder imperialista e romperam com a postura de vassalagem. É isso, e não o sistema econômico (como pode ser facilmente visto), o que torna um país uma “ditadura” e seus soldados “terroristas” (ou “traficantes”, dependendo do interesse).

O problema no Brasil é que por questões culturais, e por uma classe média entorpecida e reacionária, ainda não criamos no nosso povo a chama revolucionária para expulsar os interesses imperialistas do nosso país. Enquanto isso, continuamos atrasados, produtores de soja, desindustrializados, reféns do agro e constantemente ameaçados por militares tolos, corruptos e incompetentes.

Eu tenho inveja do povo do Irã, de Cuba, da Coreia Popular e da Palestina. Apesar das suas dificuldades e contradições, são cidadãos de países adultos, enquanto o Brasil continua em sua infinita adolescência, incapaz de sair de casa por medo de enfrentar a vida adulta.

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É proibido…

Não concordo com a proibição dos jogos. Por questões de coerência, quem é contra a criminalização das drogas não poderá aceitar a proibição do jogo, mesmo reconhecendo que se trata de vício, e muito destrutivo. Jogo, para algumas almas mais frágeis, é um vício, tão perigoso para a saúde quanto algumas drogas poderosas. Sou contra qualquer jogo de azar, mas assim como proibir as drogas não funciona, e não funcionou com as bebidas há 100 anos (lei seca), o único resultado certo a partir da proibição dos jogos será o ressurgimento dos jogos ilegais e irregulares. Isso é pior do que jogo legalizado. A proibição da venda e comercialização de bebidas nos Estados Unidos deveria ter nos ensinado algo sobre este tipo de medida. A chamada Lei Seca (Prohibition) nos Estados Unidos vigorou nacionalmente de 1920 a 1933, a partir da 18ª Emenda e do Volstead Act, proibindo a fabricação, venda e transporte de bebidas alcoólicas. Embora tenha provocado inicialmente uma forte redução do consumo — estimativas econômicas indicam queda para cerca de 30% do nível anterior, seguida de recuperação para 60–70% ainda durante a proibição —, a medida criou um vasto mercado clandestino, com contrabando, bares ilegais (speakeasies) e expansão de organizações criminosas que lucravam com a produção e distribuição de álcool.

Como se pode ver, mesmo que a ação inicial seja uma diminuição nos jogos, a reação do público acaba trazendo as taxas de consumo para muito próximo dos níveis anteriores à lei. Mas, se não for pela simples proibição, qual poderia ser a solução? Bem, podemos encarar de várias maneiras, sendo a mais efetiva o fim do capitalismo. Mas, antes disso, podemos restringir ao máximo o acesso aos jogos. É possível, por exemplo, colocar o imposto muito alto (como no cigarro, que chega perto de 80%), estabelecer um controle máximo de gastos pessoais por CPF, impedir jogo para menores de 21 anos, impedir publicidade ostensiva, etc. E, acima de tudo, educar as pessoas para que entendam o real sentido do jogo.

Essa é a peça mais importante. Nos jogos de azar o que se comercializa é a ilusão de ganhar dinheiro sem trabalhar, a ideia de enriquecer por um ato de sorte. Mais do que o problema na economia doméstica, a falência, as dívidas e a dissolução de famílias, a disseminação do jogo estimula as pessoas a acreditarem no ganho fácil, pela graça divina, sem ter o trabalho e o esforço pessoal como fundamentos. Quem apoia o trabalho, o salário ganho com o suor do rosto, não pode apoiar essas armadilhas liberais. Sim, eu sei do efeito deletério que as apostas têm sobre o futebol e outros esportes. Sei o quanto a jogatina desenfreada pode colocar a disputa honesta em perigo. Ainda assim, mesmo sabendo que mais escândalos podem ocorrer, sou obrigado a reconhecer que proibir é uma péssima – e inefetiva – solução.

“Proibicionismo é a política de proibir legalmente a produção, venda, posse ou consumo de determinadas substâncias ou práticas, geralmente com o objetivo de reduzir seu uso e seus efeitos sociais“. O termo é usado sobretudo em relação às drogas, mas também pode se referir à proibição do álcool, jogos de azar, prostituição etc. Porém, a história das legislações restritivas nos permite afirmar que a simples proibição dos jogos virtuais não vai vais funcionar – mais uma vez. O proibicionismo, sobre qualquer tema – prostituição, drogas, cigarro, jogo, partidos políticos – é um fracasso em todas as épocas da humanidade. Bebida foi proibida, o Partido Nazista foi cancelado e os abortos severamente restringidos. E todos eles estão aí, ilegais ou legais. Não se combate proibindo, mas educando.

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