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A dor à flor da pele

O confinamento está trazendo à tona o pior e o melhor de nós. Um conselho do vovô: quando você sentir que está entrando na espiral do ódio dê um passo atrás. Não se permita infectar pelo vírus do ódio e do ressentimento. O mundo cibernético não possui amortecedores afetivos. As letras duras da tela não oferecem os matizes e as nuances de um sorriso, um chimarrão compartilhado, um aroma de café ou um tímido levantar de sobrancelhas. Essa dureza se espalha pelo espaço cibernético e pode destruir o tênue limiar de sanidade que está sustentando alguém a centenas de quilômetros. Não seja o mensageiro do rancor e da amargura; se precisar criticar, faça-o, mas “sin jamás perder la ternura”.

Não jogue fora suas amizades, seus amigos e seus parceiros com discussões agressivas, palavras duras, expressões que podem machucar e até destruir. Digo isso exatamente porque me vejo na tentação de fazer isso a toda hora, mas estou aos poucos vendo como isso pode arruinar o dia de alguém, em especial o meu.

Estamos todos tensos e ao mesmo tempo frágeis. Cuide de quem você gosta e não ofereça a elas o subterfúgio fácil da briga e da confrontação violenta. Não perca seu tempo falando para quem deixa claro que jamais vai lhe ouvir. Seja carinhoso, mas também caridoso; se não houver uma interface racional e minimamente respeitosa, afaste-se. Se for necessário, bloqueie, pois é melhor a distância em paz do que a proximidade em conflito inútil.

Todos estamos mal. O mundo tem febre, nosso coração está apressado e nossa face é pálida. Tossimos as angústias de tanta iniquidade purulenta acumulada em nossas entranhas. Suamos por cada poro a falência de um modelo que produziu morte e miséria. Não impeça que a reação a esta enfermidade contenha o próprio processo de cura. Aceite o fluxo transformador da vida e lute por uma realidade mais justa. Pense que essa crise – do grego krisis, decisão, momento difícil – está aqui para que possamos dar um salto quântico e aprender com ela.

Lembre que o que mais lhe incomoda mais se parece com você. Sua raiva lhe ensina, seu ódio lhe orienta e seu ressentimento lhe aponta o caminho. Use esses sentimentos para produzir sua própria cura, mas evite jogá-los em cima dos outros.

Acima de tudo “cuida o que dizes, pois talvez sejas o único evangelho que teu irmão lê”.

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Semmelweis

Ignaz Philipp Semmelweis, o herói que enfrentou sua corporação para salvar as gestantes.

O chefe de Semmelweis na Clínica Obstétrica do Hospital Geral de Viena era o Dr. Klin, que Ignaz considerava “o mais idiota de todos os homens“. Foi ele quem o demitiu após receber em mãos os documentos que mostravam o sucesso de sua política de obrigar os médicos a lavarem as mãos numa bacia colocada na frente da porta de entrada da sua enfermaria. Em um mundo pré Pasteur, que ainda acreditava que as infecções eram determinadas pela direção do vento (entre outras hipóteses), esta ação parecia grosseira e ofensiva aos olhos de seus colegas.

Semmelweis foi duramente perseguido por suas pesquisas sobre o agente causador da febre puerperal e pelas suas conclusões de que os “miasmas” causadores da febre vinham das mãos dos próprios médicos, que levavam os eflúvios da “matéria morta para a matéria viva”. Essa “iluminação” surgiu após a morte de um querido colega patologista causada por um corte no dedo ao realizar uma necrópsia.

“A matéria morta transmite um elemento mórbido à matéria viva através das mãos”, observou Semmelweis. Essa visão da etiologia por trás da morte de mulheres no puerpério o levou a determinar condutas de antissepsia aos médicos da enfermaria que foram por eles consideradas “radicais” e desrespeitosas.

A conduta de obrigar seus colegas à lavagem das mãos em uma bacia com ácido clórico causou primeiramente escárnio e deboche, e posteriormente furor e indignação. Sua condição de húngaro trabalhando como médico no coração do decadente Império Austro-húngaro o colocava na delicada posição de “estrangeiro”, um incômodo invasor, assim visto pela elite vienense em face das aspirações independentistas de boa parte da população da Hungria. Ele não conseguiu viver para testemunhar o que finalmente veio a ocorrer algumas décadas depois, com a morte do Rei Ferdinand em Sarajevo e a eclosão da I Guerra Mundial, que finalmente fragmentou o império austro-húngaro.

Por suas ideias inovadoras sobre a etiologia da febre puerperal e sua condição de “estranho no ninho” na Viena do final do século XIX, ele foi impiedosamente atacado, perseguido e por fim demitido, sendo obrigado a voltar para Budapeste, sua cidade natal, mesmo diante da comprovação da justeza de suas propostas, que levaram à queda vertiginosa da mortalidade materna na enfermaria dos médicos, igualando-se à mortalidade encontrada na enfermaria contígua, comandada pelas enfermeiras.

Associe-se a estas circunstâncias o gênio explosivo e irascível de Semmelweis e temos a imagem perfeita do gênio que virou mártir. Sua personalidade marcante e indômita acabou levando-o à loucura, ao confinamento em um sanatório e à morte prematura por infecção e sépsis, a mesma condição que havia levado ao óbito seu querido amigo Koletchka e que o fez entender a causa infecciosa das febres mortais das puérperas.

Semmelweis ficará para sempre para a história da medicina como o exemplo de coragem, o senso de propósito, a fidelidade às ideias e o compromisso com seus pacientes, mesmo sabendo do preço violento a pagar pela sua determinação em mostrar a verdade.

Hoje em dia ninguém sabe quem foi Klin, mas todos sabem do gênio húngaro que salvou milhões de gestantes pela sua teoria infecciosa da febre puerperal, finalmente entendida como doença iatrogênica de contágio.

Nesses tempos de Corona vírus é sempre bom lembrar que um dos maiores heróis da medicina ofereceu a própria vida em nome de suas ideias e lutou incansavelmente para proteger seus semelhantes.

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Sobre as perseguições

A verdade é que os homens sempre foram perseguidos pelo seu conhecimento, suas ideias e descobertas. Grandes nomes como Freud, Marx, Nietzsche, Giordano, Galilei etc sofreram pela qualidade e profundidade da sua obra e pela ameaça que instituíram aos poderes constituídos. A diferença sobre as mulheres é que, para elas, o conhecimento EM SI, já seria ameaçante a despeito ou inobstante sua qualidade. Mulheres no comando significariam um “enfraquecimento” da sociedade, de acordo com a forma de domínio do patriarcado. Por isso é que as bruxas eram sacrificadas, curandeiras e parteiras perseguidas, pois representavam a exaltação de um “poder feminino”, que para o patriarcado parecia degradante e perigoso.

Isso é, para os homens era necessário que seu conhecimento fosse uma real ameaça ao sistema dominante, seja com Freud ao desbancar a razão como norteadora das ações, seja com Galilei ao afrontar a igreja ao questionar o geocentrismo ou com Darwin ao estabelecer o homem como tão somente mais um participante da vasta natureza, e não o ápice da criação. O conhecimento só poderia ser aceito se validasse o modelo hegemônico; caso se opusesse seria atacado, assim como seu mensageiro.

Já para as mulheres bastaria sua condição feminina para que fossem atacadas. Uma mulher inteligente e racional agride o patriarcado pois que oferece uma prova de que sua essência não é apenas como parideira, e que às mulheres podem ser reservados outros lugares que não apenas os de matriz.Por isso creio que mulheres foram atacadas durante toda a história como os homens o foram. Todavia, apenas elas foram atacadas por sua condição de mulher, exatamente porque o modelo social não admitiria uma reversão dos papéis a elas impostos.

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Partos e Obras

Há alguns anos o empreiteiro que construiu minha casa pediu que eu comprasse uma substância para passar no madeirame do telhado. “Quantos galões?“, perguntei eu. Ele coçou a cabeça, calculou mentalmente e respondeu: “Seis serão suficientes“. Saiu caro, mas comprei conforme sua indicação.

Muitos anos depois fiz uma reforma na casa e perguntei se precisaria comprar de novo aquela substância. O pedreiro que estava me acompanhando na época respondeu que sim, seria conveniente. Perguntei mais uma vez a quantidade, e ele respondeu sem titubear: “Um galão dá e sobra para tudo isso aqui“. Meu antigo empreiteiro usou o produto que comprei para a minha casa e mais cinco outras…

O mestre de obra que está à frente da reforma da Escola da Comuna me diz: “Precisa comprar mais canos, porque com a vazão da água do telhado, a drenagem…” e tudo que eu escuto é “Precisa uma cesariana porque o batimento e a posição do bebê…

A realidade é que ficamos inexoravelmente nas mãos dos especialistas. Não apenas porque sabem mais e conhecem as técnicas e as “manhas”, mas por terem o “conhecimento autoritativo” aquele que lhes garante o reconhecimento social e a responsabilidade de fazer e acontecer.

A qualidade técnica é essencial, não há dúvida sobre isso. O estudo, o aprimoramento, a sede pelos novos conhecimentos, o capricho, o detalhe e a delicadeza são primordiais. Entretanto, todos estes valores sucumbem rapidamente diante de sua base de sustentação: os valores éticos de uma profissão.

No meu tempo de estudante era comum dizerem: “Dr Fulano é um cavalo, um animal vestido, mas é um ótimo cirurgião.” Nunca acreditei nessa tese. O Dr Fulano dominava técnicas manuais e tinha experiência como operador, mas carecia dos elementos fundamentais que configuram um bom profissional: a conexão visceral com os preceitos éticos de beneficência e da não maleficência. Muitos são técnicos; operadores e prescritores de drogas, mas não são médicos na verdadeira extensão dessa função social.

Antes de escolher o mestre que levará adiante o sonho de uma escola de comunidade é importante conhecer o sujeito dentro do profissional, para poder confiar que suas decisões serão tomadas tendo a ética como norte. Para escolher alguém que estará tomando decisões sérias e delicadas diante do mais espetacular e decisivo evento de uma família – o nascimento de seus filhos – é essencial que se conheçam os profissionais e as vinculações éticas que estabelecem com o próprio trabalho.

Sem isso serão tão somente técnicos sem o brilho que se espera de alguém que será testemunha de uma revolução emocional e espiritual de tamanha amplitude.

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Patriarcado

TODAS as religiões abrahâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo), surgidas da mesma fonte na Palestina, foram criadas para espelhar o PATRIARCADO nascente. Por isso mesmo o Deus era homem, guerreiro, duro, inexorável e cruel; não por acaso chamado de “O Senhor dos Exércitos”. Isto é: as religiões CRIARAM um Deus homem para refletir a mudança substancial na estrutura da sociedade, que passou a ser marcadamente patriarcal, falocêntrica, baseada nos valores do masculino, na invasão, na conquista e – acima de tudo – na proteção da propriedade e das identidades. Veja como as deusas da antiguidade foram todas suprimidas e deixadas de lado para que o Deus masculino e fálico fosse colocado no posto máximo entre as divindades. Leia “As Brumas de Avalon”, por exemplo, para ver o destino das deidades femininas.

O patriarcado, para se impor como a estrutura básica da sociedade, precisava se apoderar de todos os símbolos e mitos, e assim o fez.Desta forma, jamais seria possível criar um modelo patriarcal – para defesa dos territórios, surgidos com a agricultura e a pecuária – e fazer com que a divindade superior fosse uma mulher!! Precisava ser homem, pois só assim seria temido e exaltado pelos exércitos. Ele seria a imagem mais fiel do espírito dos guerreiros e – num mundo agora patriarcal – era necessário que esse Deus mimetizasse os valores dos líderes humanos que guiariam seus povos. O patriarcado se espalhou desta forma pelo planeta inteiro exatamente porque produzia uma sociedade forte e bem protegida. Hoje pode ser questionado, mas há 10 mil anos pensar diferente significava a aniquilação.

Ao dizer que, uma sociedade que elege uma Deusa como figura máxima JAMAIS poderia ser patriarcal, digo apenas que o sistema de domínio seria “matriarcal”. Teríamos uma cultura invertida, nem pior e nem melhor do que a que temos hoje, e talvez nesse mundo imaginário os homens é que deveriam ser protegidos de um “matriarcado opressor”.

Quem acredita que as mulheres são MORALMENTE superiores, ou estão espiritualmente acima dos homens é tão sexista como o pior dos machistas, e só não está matando e estuprando por falta de coragem ou força. Como já foi escrito de diversas formas e em inúmeras línguas, “feminismo é busca por equidade, e não por supremacia”.

Quem acredita nisso – que homens e mulheres são intelectualmente e moralmente iguais em essência – deveria entender as coisas simples expressadas acima. Colocar um gênero abaixo OU ACIMA de outro é tão asqueroso quanto colocar uma raça, uma religião ou uma orientação sexual acima ou abaixo das demais. Sexismos e racismo são filhos do mesmo pai: o preconceito.

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