Ventre Fechado

Apesar do ativismo pela humanização do nascimento, e da luta para que as mulheres tenham autonomia e liberdade para fazer escolhas informadas sobre sua maternidade, eu ainda creio na existência de “distócias psi”, como diz o Max. Digo isso porque eu mesmo testemunhei vários casos em que os obstáculos para a concretização de um nascimento estavam profundamente alocados nos porões obscuros do inconsciente. Tais distócias podem ser entendidas por bloqueios psicológicos que dificultam – ou até mesmo impedem – o trabalho de parto e o parto.

Ora – dirão os incrédulos – então como as mulheres davam conta dessas distócias no século XVI, já que tais transtornos devem acompanhá-las desde o início dos tempos humanos?

Como seriam os transtornos que se imiscuem nas circunvoluções de afeto, escondidas entre as orelhas , no século XVI? Ou nas imemoriais épocas das cruzadas, entre as populações indígenas (algumas contemporâneas) ou na aurora das civilizações? Talvez se resolvessem da forma mais brutal possível: uma força de nascer sendo contraposta por um muro de músculos e medos a travar o processo. Por outro lado, é possível que tais transtornos fossem tão incomuns no passado que seria pouco comum deparar-se com eles. Eu acredito que o parto é uma expressão do tempo e da latitude, encravado na história e na geografia dos povos. Creio mesmo que tais distócias são produto da cultura, criadas e nutridas por um modelo bem determinado no tempo e no espaço, que funciona para sustentar os valores inconscientes que essas sociedades, por interesses variados, cultivam.

Tais variações culturais explicam porque na antiguidade as deusas eram onipresentes nas manifestações artísticas, incluindo extensa iconografia da amamentação, mas foram paulatinamente substituídas por outras imagens, mais afeitas aos valores e as nuances políticas preponderantes. Hoje em dia, no império da infotecnocracia, os valores humanos e a superação de nossas dificuldades só podem ocorrer pela via da tecnologia. Desvalorizam-se as conquistas femininas de gestar e parir, consideradas pelas sociedades modernas como um “masoquismo insensato e atrasado”. Entretanto, o parto, a amamentação e a maternagem são percorridos por um fio invisível que os conecta, naquilo que chamamos do “continuum da humanização“, onde intrincados processos psicológicos, afetivos, químicos, físicos e até bacteriológicos participam de uma orquestração milenar de adaptação.

Ao mudar de forma atabalhoada tal arquitetura podemos produzir traumas ainda não suficientemente estudados pelas ciências humanas, mas que já são percebidos pelos ficcionistas e poetas. Mesmo reconhecendo a possibilidade de que algo por demais violento ocorra “entre as orelhas” a ponto de impedir um nascimento, lutar para que os partos ocorram de forma espontânea e fisiológica é oferecer as melhores garantias para que um bebê chegue a esse mundo com segurança.

 

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1 comentário

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Uma resposta para “Ventre Fechado

  1. Até que ponto o próprio cristianismo não contribuiu para estas “variações culturais”? O mito do ‘parirás com dor’ está absurdamente associado a como a mulher deve se comportar no parto e como ela deve ser ‘castigada’ por Deus.Prazer no parto? Não! Isso não é coisa ‘de Deus’.

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