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Revolução ou Reformismo?

O século XX nos colocou diante de uma enorme reformulação na forma como entendemos as questões relacionadas à saúde, e em especial como atendemos partos e nascimentos. Também, no outro extremo, passamos a questionar as maneiras de fechar o ciclo da existência; hoje em dia morremos em salas altamente sofisticadas, em ambientes assépticos e rodeados de maquinário e tecnologia de ponta, onde antigamente havia tão somente a presença da família, dos amigos e dos amores. Em ambas as pontas do circuito da vida percebemos que a tecnologia invadiu de forma inexorável, prometendo a esses eventos mais segurança, ao mesmo tempo em que os desnaturalizava – e com isso os tornando paradoxalmente mais arriscados. Os nossos momentos mais marcantes sofrem uma perda crescente do contato com os aspectos mais sutis da vida – a nossa conexão com a natureza, nossas emoções e as relações amorosas que cultivamos – e, por esta razão, existe uma constante crítica aos caminhos que as sociedades contemporâneas traçaram para lidar com eles.

O Movimento de Humanização do Nascimento há muitos anos lança um olhar crítico às tendências da obstetrícia hegemônica, questionado o caráter intervencionista de suas práticas, que acabam por alijar as mulheres das decisões sobre seus próprios corpos e transformando um evento fisiológico em uma série intercalada de intervenções que adicionam risco ao processo. Hoje em dia em nações industrializadas como os Estados Unidos, mas também no meu país o Brasil, a chance de uma mulher passar pela experiência de um parto fisiológico e sem interrupções exageradas (e até abusivas) é de apenas 5%. Ou seja; 95% das gestantes vão se submeter aos procedimentos obstétricos invasivos que surgiram há menos de 100 anos, com a ideia de que, sem eles, as mulheres estariam correndo sérios riscos. Todavia, ao contrário da avalanche alienante e invasiva do modelo obstétrico contemporâneo ocidental, milhares de artigos e estudos atestam a falsidade destas propostas, e apontam o parto normal e vaginal como a maneira mais segura de parir e nascer.

A verdade é que, mesmo reconhecendo a importância da tecnologia aplicada à saúde – de cesarianas à UTIs sofisticadas – é inegável que houve um exagero ao se colocar nas mãos de cirurgiões a condução prioritária de um processo fisiológico e natural como o parto. Fica claro que, sendo formados e treinados intensamente para as intervenções salvadoras e para medidas emergenciais e dramáticas, os médicos obtém sua respeitabilidade e valor social através da utilização dessas ferramentas. É ingenuidade imaginar que formaremos profissionais capacitados para tarefas importantes e complexas como estas e depois os impediremos de utilizá-las livremente. Por esta razão, não é justo para a população – e menos ainda para os médicos – que a tarefa da atenção fisiológica do parto esteja delegada preferencialmente a estes profissionais, que seriam muito mais bem aproveitados se colocados na linha de frente das ações salvadoras, e não na atenção cotidiana ao nascimento fisiológico e de risco habitual.

Para a tarefa de acompanhar e assistir os partos eutócicos (de risco habitual) já temos profissionais cujo história na atenção aos processos femininos de gestar, parir e amamentar remontam à aurora da humanidade. São as parteiras profissionais – enfermeiras obstétricas, obstetrizes e parteiras tradicionais em suas comunidades – aquelas que realizam esta tarefa com a máxima qualidade e com segurança superior. Elas são as mais capacitadas para distinguir os processos que estão disfuncionais e encaminhá-los para os profissionais médicos. São elas as profissionais mais qualificadas para a atenção do parto normal, pois congregam os ensinamentos técnicos para uma atenção segura com a especial característica afetiva, emocional, social e espiritual de cuidar das mulheres em seus períodos de transição. O novo paradigma da Parteria precisa se apoiar sobre o trabalho destas profissionais, porém sem jamais negar a importância do trabalho médico em atuar nas franjas do processo, naqueles especiais momentos em que a rota da fisiologia dá lugar aos caminhos tortuosos e perigosos da patologia.

“As estimativas extraídas de estudos indicam que onde ocorrem intervenções realizadas por parteiras profissionais, como planejamento familiar, controle do diabete, parto assistido e apoio à amamentação, 4.3 MILHÕES de vidas poderão ser salvas por ano até 2035″ (https://www.who.int/news/item/03-12-2020-investing-in-midwife-led-interventions-could-save-4.3-million-lives-per-year-new-study-finds)

Não há mais dúvida de que o mundo ocidental não pode aceitar as promessas de um “reformismo obstétrico” imaginando treinar – ou condicionar – profissionais para uma conduta mais suave, mais embasada em evidências, menos intervencionista quando é da essência da própria prática médica a intervenção sobre o corpo doente para lhe restaurar a saúde. Todavia, o parto não se adapta a esta lógica pois não há saúde a ser restaurada, apenas para ser mantida. E para esta tarefa é muito mais importante o suporte, o cuidado, a proximidade e a empatia entre a profissional do cuidado e aquela mulher que está parindo. Esta é a tarefa para qual a parteria está qualificada e sempre demonstrou resultados superiores.

A transformação deste paradigma se dará também com o questionamento cada vez mais intenso do capitalismo aplicado à saúde e a vinculação dos tratamentos às grande corporações farmacêuticas. A maior utilização de “Tratamentos e práticas complementares” como acupuntura e homeopatia entre outros, é um passo nesse sentido, e todo profissional de saúde deveria adquirir conhecimentos destas alternativas para oferecer uma ampla gama de possibilidades terapêuticas às gestantes.

Precisamos desmedicalizar a vida, em especial suas pontas: nascimento e morte. É urgente uma “revolução do parto”, onde as ordens hierárquicas sejam transformadas para que os valores da segurança e satisfação de mães e bebês estejam acima de qualquer outra consideração, e onde os profissionais ocupados com o nascimento sintam-se plenamente realizados ao participar desta grande aventura da vida.

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English version

The 20th century has put us in front of a huge overhaul in the way we assist births. Also, at the other extreme, nowadays we die in highly sophisticated rooms, in aseptic environments and surrounded by state-of-the-art machinery and technology, where in the past there was the presence of family, friends and loved ones. At both ends of the circuit of life, we perceive that technology has inexorably invaded, promising more security to these events while, at the same time, denaturalizing them. These moments now suffer a growing loss of contact with the subtle aspects of life – our own connection with nature, our emotions and the loving relationships we cultivate – and, for this reason, there is a constant criticism on the paths that human beings have traced to deal with them.

The Movement for the Humanization of Birth all over the world has been debating the trends of hegemonic obstetrics for many years by questioning the interventionist tendency of its practices, removing women from decisions about their own bodies and transforming a physiological event into a series of interventions that add risk to the process. Nowadays in industrialized nations like the United States, but also in my country Brazil, the chance of a woman going through the experience of a physiological birth without exaggerated and even abusive interruptions is only 5%. Around 95% of pregnant women will undergo invasive obstetric procedures that emerged less than 100 years ago, with the illusion that, without them, all women would be at serious risk.

The truth is that, even recognizing the importance of technology applied to health – from cesarean sections to sophisticated ICUs – it is undeniable that there was an exaggeration in its overuse and in placing the management of a physiological and natural process – such as childbirth – in the hands of surgeons. It is clear that, being educated and trained intensively for lifesaving interventions and dramatic measures, physicians obtain their respectability and social value through the use of these tools. It is naive to imagine that we will train qualified professionals for important and complex tasks and then prevent them from using them freely. For this reason, after more than 30 years working with childbirth care, I realized that it is not fair to the population – and even less to doctors – that the task of physiological childbirth care is delegated primarily to these professionals, who would be very best used if placed at the forefront of lifesaving actions rather than in the daily attention to normal birth.

For this task, we already have professionals whose history in the attention to the female processes of gestating, giving birth and breastfeeding goes back to the dawn of humanity. It is the midwives – nurse midwives, midwives and traditional midwives in their communities – who perform this task with maximum quality and superior safety. They are the most qualified professionals for normal childbirth care, as they bring together the technical teachings for safe care with the special affective, emotional, social and spiritual characteristic of caring for women in their transition periods. The new paradigm of midwifery care needs to rely on the work of these professionals, but without ever denying the importance of medical work in acting on the fringes of the process, in those special moments when the route of physiology gives way to the tortuous and dangerous paths of pathology.

There is no longer any doubt that the western world cannot accept the promises of an “obstetric reform” imagining that training – or conditioning – obstetricians for a smoother, more evidence-based, less interventionist assistance could produce good outcomes. Indeed, intervention over the sick body to restore its health is the essence of medical practice itself, but childbirth does not adapt to this logic because there is no health to restore, only to maintain. And for this task, support, care, proximity and empathy between the caregiver and the woman who is giving birth are much more important.

The transformation of this paradigm will also take place with the increasingly intense questioning of capitalism applied to health and the linking of treatments to large pharmaceutical corporations. The greater use of “Complementary treatments” such as acupuncture, homeopathy, among others, is a step towards this goal, and health professionals should be aware of these alternatives to offer a wide range of therapeutic possibilities to pregnant women. 

We need to demedicalize life, especially its most crucial points: the beginning and the end, birth and death. There is an urgent need for a “childbirth revolution”, where hierarchical orders are transformed so that the values ​​of safety and satisfaction of mothers and babies are above all other considerations, and caregivers can be fully satisfied by participating in that great adventure of life.

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Protocolos

Existe na medicina uma tendência quase irresistível de criar rotinas, fluxogramas, protocolos, etc. É da natureza das ciências criar formas de normatização e análise para um entendimento mais preciso dos fenômenos. Aliás, este tipo de abordagem ofereceu uma fantástica oportunidade para a ampliação do conhecimento, uma ferramenta preciosa para o progresso. Obrigado, Descartes…

O problema ocorre quando está perspectiva se aplica à fisiologia do parto, onde os aspectos pessoais e sexuais das mulheres se associam aos fenômenos fisiológicos, hormonais e mecânicos envolvidos na expulsão fetal.

A aplicação de regras, rotinas e protocolos vai ser sempre conturbada pois a abordagem rígida das ciências aponta para um ponto complexo: os aspectos subjetivos, únicos, pessoais, eróticos e afetivos que circundam este evento. Nesta circunstância os fenômenos se tornam erráticos ou pouco previsíveis.

Quando analisamos, como na velha escola obstétrica, o parto por duas variáveis – conteúdo e continente – ele se torna simples para entender, para manipular e para controlar. Essa fórmula é tão sedutora quanto falsa, na medida em que o ser humano, inserido num universo de linguagem, não se adapta ao plano do real, envolvido que está num mundo simbólico de significados mutantes e intransferíveis. Assim, os protocolos sempre vão esbarrar na evidente característica rebelde do corpo erotizado de uma mulher parindo.

Este comportamento selvagem é o que existe de mais precioso no parto, assim como em todas as manifestações sexuais e, por esta razão, fugir dos protocolos homogeneizantes é uma atitude sensata.

Para atender partos e nascimentos é essencial ter princípios, como autonomia, liberdade, protagonismo, ajuda capacitada, ambiência, afeto, cuidado, etc; estes são os objetivos da atenção que é oferecida às todas as parturientes. Todavia, para se chegar a isso os caminhos são infinitos, assim como são infinitas as mulheres parindo, e qualquer cuidador consciente do seu lugar precisa ter esta realidade como norte em qualquer ação utilizada.

(em conversa com Eloiza Fernandes Giraldi)

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Partos, culpas e responsabilidades

Muito já se debateu sobre as estratégias para mudar a narrativa do parto normal fazendo com que os eventos fisiológicos do parto passassem a ser tratados como o “normal do nascimento”, enquanto as intervenções se limitassem às exceções, utilizadas tão somente na vigência de condições de risco aumentado. Este sempre foi o sonho de todo ativista da humanização, entretanto os avanços ainda são tímidos diante dos poderes concentrados na corporação médica e a visão intervencionista que se instalou como modelo hegemônico de atenção ao nascimento.

Todavia, hoje em dia é exatamente o oposto desta lógica o que ocorre nas sociedades industrializadas ocidentais. No Brasil menos de 5% das mulheres conseguem ultrapassar as dificuldades específicas do parto sem serem submetidas a múltiplas intervenções médicas – a maioria delas intempestiva, inútil, invasiva e/ou perigosa. Esta constatação é a imagem clara da forma como a sociedade enxerga o parto – perigoso, traiçoeiro e imprevisível – mas também a própria mulher – defectiva, falha, incompleta e indigna de confiança. O controle sobre o parto se insere nas disputas sobre a reprodução/sexualidade e reproduz a ideologia corrente.

A estratégia utilizada para transformar a prática da atenção ao parto para um modelo mais seguro, desmedicalizado e natural foi durante décadas centrada no discurso ufanista da “meritocracia feminina” que nos fez acreditar que “se a mulher realmente desejar….” ela terá seu tão sonhado parto normal em suas múltiplas formas – vaginal, cócoras, na água, domiciliar, na casa de parto, etc…

Na resta dúvida que o desejo é um elemento fundamental na conquista do parto fisiológico. Sem que a paciente esteja imbuída do claro interesse, materializado em ações positivas, nenhum contexto a fará aumentar suas reais chances. Podemos chamar esta postura como a “pedra fundamental” sobre a qual as outras se assentam. Mais ainda, para que este desejo floresça há que se oferecer, desde o nascimento, uma perspectiva positiva do parto, trabalhando esta imagem e incorporando-a ao repertório de conceitos – das meninas em especial.

Entretanto, a simples postura propositiva das mulheres será insuficiente para o resultado final, e sobre isso não há dúvidas. “O parto é um evento social que ocorre no corpo das mulheres”, e isto significa que o parto que ocorre nos indivíduos é um retrato do contexto social onde se encontra inserido. Sociedades constritivas, ditatoriais e violentas terão partos igualmente abusivos, enquanto as sociedades justas, equilibradas e dignas vão expressar no momento do nascimento os valores do seu campo simbólico social.

Desta forma, aumentar a pressão sobre a iniciativa das mulheres, como se (somente) delas dependesse o resultado do parto, é colocar sobre elas uma responsabilidade injusta e até desumana. Recaem sobre elas inúmeros boicotes – recônditos ou explícitos – que as desviam da rota para um nascimento fisiológico e seguro, sendo o principal deles a ideologia dos cuidadores. Toda a mulher imbuída do puro desejo por um parto normal sabe o quanto a postura negativa de um profissional pode ser determinante para o fracasso do seu intento.

Cabe aos profissionais envolvidos com o parto (e que entendem a dinâmica complexa e delicada deste evento), retirar a pressão excessiva sobre as mulheres sem desmerecer sua importância, ao mesmo tempo em que reconhecem a imensa importância dos contextos e das circunstâncias na construção de um fracasso – ou sucesso. Abandonar a retórica meritocrática é um passo nesse sentido.

Outro passo essencial é entender que qualquer evento humano – em especial o parto, que conjuga em um só momento morte, vida e sexualidade – jamais acontecerá num vácuo social, e estará inexoravelmente embebido na amálgama de valores que nos circundam

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Sol e Lua

Por certo que precisamos de propostas para a melhoria da atenção ao parto e a todos os fenômenos relacionados aos ciclos femininos, mas é necessário fugir do idealismo que, tal qual uma sereia sedutora, nos leva a crer em soluções parciais para problemas estruturais. É importante reconhecer que as ideias por si só são estéreis, incapazes de produzir as mudanças que pretendemos. Um exemplo clássico é de que as episiotomias são inúteis e prejudiciais, um fato comprovado há mais de três décadas, e mesmo assim ela continua sendo usada indiscriminadamente em nosso meio, exatamente porque a mudança nestas atitudes sedimentadas pela cultura médica não se dá pelas ideias, mas pela confrontação e pela luta. Precisamos, portanto, de uma perspectiva materialista para o nascimento.

O mesmo ocorre com a ideia – bem estabelecida por estudos multicêntricos ocorridos há várias décadas – de que é essencial para a saúde coletiva interromper o abuso de cesarianas, assim como as centenas de outras intervenções indevidas que ocorrem no ambiente hospitalar do parto, reconhecidamente inúteis e perigosas para o binômio mãe-bebê. Portanto, a agenda – além de positiva – precisa ser propositiva, centrada nas lutas que garantam o protagonismo e que estabeleçam uma relação centrada na liberdade ampla e irrestrita de escolhas, respeitando amplamente os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres e suas famílias. Mais importante ainda é entender que essa luta será conduzida pelas mulheres, legítimas condutoras do processo, contando com a valiosa ajuda dos profissionais de vanguarda da obstetrícia e da parteira.

Fora dessa perspectiva resta apenas o que se pode chamar de “reformismo obstétrico”, uma plataforma de propostas que se baseia na perspectiva da solução para os dilemas obstétricos através da simples proliferação de obstetras humanistas – profissionais mutantes e bizarros, fixados em sua perspectiva de respeito às evidências – que não passam de meia dúzia de ilhotas minúsculas em um oceano gigantesco de “mesmices” que apenas replicam o modelo anacrônico, personalista, intervencionista, misógino e centrado nos valores do capitalismo que caracteriza a assistência ao parto nos grandes centros do ocidente. Imaginar que a reforma estrutural da obstetrícia se dará sobre as mesmas diretrizes intervencionistas de hoje – mantendo os mesmos atores no comando – é uma ilusão que não podemos nos permitir.

A ruptura com o reformismo obstétrico – que pretende mudar a fachada para não transformar a estrutura – será a grande tarefa da nova geração de ativistas e cuidadores.

Por fim, uma curiosa constatação: no que se refere ao parto as mulheres são o sol, enquanto seus cuidadores são a lua. Aquelas produzem a energia e a luz feérica do nascimento enquanto estes refletem com humildade e respeitosamente o brilho que capturam do momento. Qualquer inversão destes papéis significa uma perversão significativa na essência desse evento, um eclipse que desfaz o brilho de um às custas da intromissão do outro.

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ENAPARTU

ENAPARTU – Sorocaba, julho 2012

Há 10 anos se realizava o ENAPARTU – Encontro Nacional de Parteria Urbana – uma ideia criada para regulamentar, fortalecer e normatizar a parteria nas grandes cidades e através de parteiras profissionais habilitadas. Foi um movimento que pretendia criar dentro da ReHuNa (Rede pela Humanização do Nascimento) um departamento exclusivo para a questão do parto urbano, numa perspectiva revolucionária, rompendo as amarras autoritárias relacionadas ao parto e estimulando o debate aberto e franco sobre nascimento humano, feminilidade, patriarcado, autonomia e suas relações com a parteria.

O movimento tinha ideias e propostas avançadas (demais?) para sua época. Ainda estamos patinando no enfrentamento necessário à corporação e nas propostas de multilateralidade. Vivemos ainda no universo unipolar da obstetrícia, sem perspectivas de curto prazo para abrir outras opções em nível sistêmico.

Apesar de eu ter me afastado em definitivo de qualquer participação institucional sobre o parto ainda acredito na necessidade das redes e das associações e reconheço a importância desse centralismo como propagador de ideias e na produção de representatividade política. Espero que esse congresso possa servir de semente para o florescimento de uma corrente revolucionária para a parteria.

Talvez eu não tenha mais a oportunidade de ver em vida um congresso relacionado ao nascimento igual a esse – em outras bases e com outros personagens – mas as ideias de protagonismo garantido às mulheres, interdisciplinaridade e atenção baseada em evidências sobreviverão à minha partida e não serão jamais abandonadas, pois que estão contidas na essência da liberdade, meta última do ser humano.

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