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Doulas aqui e lá

 

Poucos dias atrás tive uma conversa interessante e esclarecedora com Zeza, Debra e um maravilhoso grupo de doulas de Austin – Texas. Temas principais: organização das Doulas em grupos para otimizar o trabalho e garantir a elas tempo para suas vidas privadas, trabalho, estudos e filhos. A outra questão fundamental debatida foi o processo de certificação de doulas através de critérios abrangentes e adequados para realidades plurais e – até mesmo – divergentes, evitando a “padronização” do ofício das doulas e mesmo sua vinculação a correntes ideológicas de qualquer natureza. .

Debra ficou espantada com a ideia que eu lhe expus da criação de cursos de 160 horas ou com a proposta de criar a “profissão” de doulas. Aqui nos Estados Unidos a tendência é não aceitar qualquer tipo de “licença” ou profissionalização pelos riscos de submergir na burocracia sufocante das corporações.

Estas idéias me deixaram mais seguro de me contrapor às decisões de um congresso de doulas recentemente realizado que aponta para direções opostas das que foram aqui debatidas. Cursos caros e demorados, curriculum complexo, redundante e ideologicamente direcionados, certificações, conselhos nacionais e todos estes pesos a carregar não me parecem auxiliar as doulas e suas clientes, mas apenas criam uma estrutura de caráter controlador, punitivo e regulador, tirando de suas associadas a liberdade para agir de acordo com seus valores e ideias.

Por outro lado, as doulas de Austin me contaram que nenhuma maternidade da cidade estabelece qualquer constrangimento para o livre exercício das doulas, o que demonstra que os hospitais brasileiros – e suas políticas medievais de ataques e agressões às doulas – são a vanguarda do atraso no que diz respeito à liberdade de escolha.

A menção de que em algumas cidades se insinua que doulas só poderiam atuar se fossem profissionais de saúde (enfermeiras, fisioterapeutas, etc) causou espanto entre elas. A pressão dos consumidores aqui faz com que os hospitais se esforcem para ser “doula friendly” e assim atrair mais clientes.

Não houve em nossa conversa história alguma de médicos rejeitado as doulas ou se negando a atender ao lado delas. Afinal, até a ACOG (a associação dos obstetras) já reconhece oficialmente a excelência do trabalho das “baratinhas”. Isso me dá esperanças de que no futuro tenhamos evoluído nessa direção, mas esse tempo só depende da nossa capacidade de aglutinação e luta.

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Vacinas e Religião

 

É impressionante como nos Estados Unidos o debate sobre os perigos e as inconsistências das vacinas é aberto e franco. As conferências reúnem milhares de pessoas de várias partes do país, com a presença de médicos, professores, bioquímicos, pais de crianças prejudicadas, pesquisadores e políticos. Entender a vacinação – seus riscos e benefícios – é um assunto sério e que mobiliza muitas pessoas. No Brasil o assunto é tratado com o mais completo escárnio e deboche. Questionar a validade da vacinação é tratado como “negacionismo” e as pessoas que o fazem são colocadas ao lado de sujeitos que negam o holocausto e os terraplanistas. Os pouquíssimos profissionais da saúde que ousam questionar e decidem apontar os perigos e os riscos evidentes da injeção de tantas substâncias perigosas e não testadas são levados ao ostracismo, quando não francamente perseguidos.

Falta muito ainda para tirarmos a religião de dentro da ciência. Vacinas são crenças de caráter religioso. Se elas funcionam ou não, ou se os malefícios encontrados são graves o suficiente para interromper seu uso, é uma outra questão. Todavia, a vinculação que temos com elas é de caráter dogmático e irracional. Elas ocupam o lugar das comunhões religiosas do passado: para ser aceito em uma determinada comunidade é preciso passar por um ritual de aceitação dos seus pressupostos básicos. Ontem, o batismo no cristianismo; hoje as vacinas no cientificismo.

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Ubi et Quomodo

Entrei em mais um debate a respeito da ideia de que, chamar as cesarianas de “extração fetal”, nada mais seria do que um exercício de crueldade e uma estratégia suicida para o ativismo do parto humanizado.

Os argumentos os conheço muito bem; eles acompanham as discussões sobre parto e nascimentos humanizados pela internet há duas décadas. De um lado algumas mulheres (muitas vezes ativistas) reclamando que chamar uma cesariana de “cirurgia”, de “extração fetal” ou “operação” servia para afundar ainda mais a combalida autoestima de uma mulher cujo projeto de um parto normal havia fracassado. Do outro lado, alguns propõem – como eu – que os nomes sejam usados de forma correta, sem máscaras, sem tratar as mulheres como torrões de açúcar que se desmancham com qualquer palavra mais dura utilizada. Não há porque chamar Fusquinha de Mercedes, nem cesariana de “parto cesáreo”, ou “parto via alta”, pois estes estratagemas semânticos se prestam para banalizar a cirurgia e torná-la um procedimento “igual” ao parto. Tipo a fórmula láctea, chamada de “leite” para confundir este produto artificial com o leite humano.

Mas cesarianas não são partos. Os ativistas do parto normal sabem muito bem as diferenças entre um procedimento inscrito na fisiologia do corpo e nas entranhas obscuras do nosso DNA, e uma cirurgia de extração fetal. Os riscos de ordem física para ambos – mãe e bebê – são por demais descritos na literatura, e sobre eles não cabe mais dúvida alguma. Para além disso, temos as cicatrizes emocionais deixadas na alma das mulheres que foram impedidas de um processo fisiológico. Não há como confundir os dois eventos, e a linguagem não pode ser prestar a esta mistificação.

Por outro lado, é claro que os debates sempre ficam acesos quando se toca nesse ponto; afinal, estamos tratando da sexualidade nua e crua do nascimento. Falar de parto é falar de sexo em sua expressão mais simbólica – e poderosa. O escritor “maldito” (que também era médico) Louis-Ferdinand Celine nos alertava: “Esqueçam o sexo; se querem ver a sexualidade, olhem para um parto.” Por esta razão esses choques se tornam sempre duros; eles são, em verdade, expressões relacionadas ao mito da “menas main“, que assola as mulheres diante da avalanche de tecnologias que deslocaram o leite das mamas e os partos das vaginas.

Então eu me pergunto: como criar um ponto de acordo nestes conflitos? Depois de escutar estas queixas (de ambos os lados do espectro) por três décadas eu acho que as respostas são agressivas porque a PERGUNTA é mal formulada. Não se trata de saber COMO descrever uma cesariana tal qual uma grande cirurgia de extração fetal e suas naturais consequências para a saúde do binômio mãe-bebê, mas QUANDO poderemos oferecer uma explicação mais adequada do evento que se passou. Quase todos os ativistas concordam que dizer o nome correto do que aconteceu é importante para evitar o engodo embutido nas construções linguísticas do “parto cesariana” e do “parto via alta”. Ao mesmo tempo, todos sabem que os médicos criam essa confusão para diminuir o impacto das cesarianas e fazer com que se tornem mais “palatáveis” pela cultura. Entretanto, é também verdade – e quase todos reconhecem – que encontrar uma mãe na sala de recuperação do hospital e lhe dizer : “Que pena que não conseguiu ter seu parto normal e acabou numa extração fetal” não tem nenhum sentido humano e é apenas uma expressão de crueldade e falta de sensibilidade.

Portanto, eu proponho que olhemos para o dilema da nominação dos eventos não mais pela perspectiva do “como” chamar, mas do “quando” isso pode ser feito para uma puérpera para que ela possa entender os significados últimos de uma cirurgia, seja para fazer adequadamente seu luto ou seja para evitar os erros que porventura possa ter cometido na construção do seu não-parto.

Creio que assim agindo vamos poupar muitas batalhas que continuam a proliferar no espaço cibernético sobre esse tema tão palpitante.

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Posturas e Posturas

Há 32 anos passados tive a iniciativa de oferecer partos na posição de cócoras para pacientes em período expulsivo após a instigante leitura do livro do mestre Moisés Paciornick. Ainda estava cursando a residência médica e esta atitude recebeu o seguinte comentário de um professor (que ainda está na ativa):

“Você precisa respeitar as abordagens sem dissociá-las das suas culturas. Parto de cócoras só funciona com índios assim como acupuntura só funciona no Japão”.

Esse era o nível. Todavia, eu era mesmo um teimoso e resolvi continuar oferecendo às pacientes a posição de cócoras como padrão de atendimento. Caso elas se negassem poderiam deitar, mas muito poucas pediam por isso. Minha postura, evidentemente, se prestou ao escárnio, ao deboche e ao bullying. “Como assim subverter a ordem? Com que autoridade você pretende mudar a forma como nós médicos atendemos partos há mais de um século?”

Herege e traidor. Exibicionista. “Joãozinho do passo certo”. Romântico. Burro. Louco, arrogante e perigoso – “e se uma criança cair no chão?“. Como não se incomodar com a presença de um sujeito chato como esse?

Depois da residência comecei a atender como plantonista de um hospital de periferia e mantive minha proposta de mudar a posição das mulheres durante o período expulsivo. Intuía que “mudar a postura poderia mudar a…. postura”. Se as mulheres se verticalizassem para parir isso poderia ter um efeito empoderador, equalizando a disputa por espaço e deixando mais justa a luta de poderes na arena das salas de parto. De objeto “inanimado” e contêiner fetal poderiam passar a agentes ativas no processo de nascimento.

Entretanto, nada seria fácil. Ficava claro para mim que a posição supina, estilo “frango assado”, não era utilizada apenas para fazer a intervenção médica mais fácil e acessível. A operacionalidade explícita poderia nos obstruir a visão do simbolismo implícito. Havia uma questão de gênero envolvida e, portanto, de poder e submissão. Algo que se escondia por detrás do meramente manifesto na posição de parir. O parto deitado era uma mensagem clara do patriarcado sobre corpos que deveriam se manter dóceis e submissos.

A pesquisa “Nascer no Brasil” de 2012 mostra que 91% dos partos normais no país ainda ocorrem sob o signo do anacronismo das posições supinas. Isso nos mostra que, mais do que um “hábito”, o parto assim “conduzido” simboliza uma relação de poderes que determina que a mulher se mantenha imóvel, alienada e não participativa no processo; sua condição será de objeto, não de sujeito.

Três décadas se passaram desde a minha postura desaforada. Meu atrevimento já foi punido, com as regras corruptas de uma corporação em crise. Entretanto, a posição de parir ainda é tabu. Ainda temos 9 entre cada 10 mulheres parindo numa posição ruim, perigosa, danosa, incômoda, desagradável, humilhante e alienante. Pouco se fez para modificar essa realidade.

Todavia, sou um otimista incurável e ainda espero ver o escândalo se institucionalizando nas atitudes combativas de enfrentamento. Sonho com o dia em que, ao abrir o jornal, possa ler a manchete em letras chamativas:

“Num movimento coordenado, mulheres do Brasil inteiro se ergueram e impediram seus médicos de atendê-las na posição deitada. Conselhos de Medicina realizam reuniões de emergência para debelar a crise. Guarda Nacional de prontidão”.

Deixe-me sonhar; deixe-me acreditar, eu sou o que tenho a vencer…

 

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Free Birth

 

“Free Birth” se refere às mulheres no mundo ocidental que voluntariamente abandonam o sistema de saúde e decidem parir livremente, por sua conta e risco. Minha ideia é de que tal abandono dos recursos médicos (com o qual não concordo) é consequência da negligência do modelo biomédico contemporâneo para com as necessidades básicas (fisicas, psicológicas, sociais, emocionais e transcendentais) das mulheres, algo que os médicos sequer conseguem perceber em função de estarem à deriva no oceano paradigmático da tecnocracia.

Ou, nas palavras da antropóloga Wenda Trevathan, este afastamento está baseado “na falha do sistema médico de muitas nações industrializadas em reconhecer e suprir as reais necessidades das mulheres que atravessam o rito de passagem chamado parto”.

“Parto Livre” é o sintoma; a distância do sistema médico do que desejam as mulheres para si e para seus filhos é a doença.

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