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Cortes

Prá não dizer que não falei de partos…

Há 30 anos minha briga era debater com os neonatologistas a falta de sentido em cortar imediatamente o cordão após o parto. Meu argumento já naquela época era: “Se essa fosse uma necessidade imperiosa, como explicar o parto humano em bases evolucionistas? Como admitir que a natureza, para ser completa, precisava do surgimento de atendentes de parto com instrumentos cirúrgicos sofisticados? Como justificar esse corte imediato, usando a ideia de livrar o bebê dos perigos do “excesso de sangue”, se estamos cortando o suprimento do sangue FETAL extra que se encontra estocado na placenta?”

Pois nas 3 últimas décadas as evidências foram se acumulando no sentido de comprovar que a natureza não esqueceu destes detalhes. O corte prematuro e extemporâneo se mostra perigoso e deletério para o bem estar fetal, não oferecendo nenhuma vantagem para aquele que nasce. Pelo contrário: privar o bebê desse aporte extra de oxigênio e hemácias só poderia produzir resultados funestos. Esta prática não embasada sobreviveu apenas como ritual (repetitivo, padronizado e simbólico) para dar sustento ao controle dos profissionais sobre o fenômeno do parto sob a capa falaciosa do cuidado.

Para dar sentido a esse procedimento equivocado é preciso antes disso produzir a ideia socialmente construída de que a natureza é falha e não confiável, enquanto a mulher e seu mecanismo de parto são incompetentes e defectivos para garantir a segurança de mães e bebês.

Segundo Robbie, o modelo obstétrico contemporâneo só pôde ser estabelecido dentro do patriarcado e na visão profundamente arraigada da incompetência essencial da mulher, onde a tecnologia assumiria o papel de protagonista na tarefa nobre de resgatar mães e recém-nascidos de uma “natureza insensata e cruel”.

A introdução de tecnologias e personagens estranhos aos processos fisiológicos só pode ocorrer depois de uma análise muito criteriosa exatamente porque, depois de sua instituição, os sistemas de poder que a elas aderem dificultam sobremaneira a sua retirada.

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“The cord continues to act as the baby’s only oxygen supply until the baby starts to breathe, before the placenta becomes detached. So, even when a baby needs help to breathe, the cord should ideally remain intact as the baby is resuscitated at the bedside. If the umbilical cord is cut too early, the baby can be deprived of oxygen, 20-30% of its blood volume and 50% of its red blood cell volume.

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Dores necessárias

 

Acho que foi Claudia Murta quem primeiro me falou, ou talvez ela tenha sido apenas a mais enfática. Entre taças de vinho em sua casa, junto com outros malucos se nutrindo de ideias, ela concordava comigo sobre a radicalidade do parto. Dizia eu que “Por isso é parto; é partir, romper, quebrar, destroçar. Por isso tanta dor; para impregnar aquele corpo com os infinitos significados de um nascimento ele precisa ser rasgado de dentro para fora através dela. Ardente e corrosiva, que seja, mas para transformar e fazer do passado pó, trocar a pele, queimar as roupas, vomitar seus medos ”.

Eu enxergava na epidemia de bloqueios peridurais uma traição aos sentidos últimos do parir. Não seu uso, mas seu abuso. Uma carona no Caminho de Santiago a lhe falsear os significados. Roubando-se a dor retira-se também a construção misteriosa e oculta que se esconde por detrás do evidente. Minha dor era a falta de dor, a falta de marca, a cicatriz que não se fazia. O corpo que não sabia.

Ao nosso país também faltou sua dor; nossa anistia “ampla e irrestrita” foi uma cesariana em um corpo que pedia a passagem da democracia. Não quisemos enfrentar nossas caras contorcidas, as fezes, os puxos, as secreções, os gritos, e por isso perdemos o êxtase. Fugimos das angústias de uma passagem estreita, a dor de romper a própria carne. O olhar-se para envergonhar-se. Preferimos colocar uma pedra, sobre tudo e todos. Uma pedra que agora nos pesa, pois o monstro … desperta.

Renegamos a dor que poderia nos salvar, o sofrimento agudo que nos daria esperança. Faltou em nós o grito redentor, o corte, o caminho que se faz na força. Faltou o parto com dor.

Faltou coragem para deixar o país parir.

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Doulas aqui e lá

 

Poucos dias atrás tive uma conversa interessante e esclarecedora com Zeza, Debra e um maravilhoso grupo de doulas de Austin – Texas. Temas principais: organização das Doulas em grupos para otimizar o trabalho e garantir a elas tempo para suas vidas privadas, trabalho, estudos e filhos. A outra questão fundamental debatida foi o processo de certificação de doulas através de critérios abrangentes e adequados para realidades plurais e – até mesmo – divergentes, evitando a “padronização” do ofício das doulas e mesmo sua vinculação a correntes ideológicas de qualquer natureza. .

Debra ficou espantada com a ideia que eu lhe expus da criação de cursos de 160 horas ou com a proposta de criar a “profissão” de doulas. Aqui nos Estados Unidos a tendência é não aceitar qualquer tipo de “licença” ou profissionalização pelos riscos de submergir na burocracia sufocante das corporações.

Estas idéias me deixaram mais seguro de me contrapor às decisões de um congresso de doulas recentemente realizado que aponta para direções opostas das que foram aqui debatidas. Cursos caros e demorados, curriculum complexo, redundante e ideologicamente direcionados, certificações, conselhos nacionais e todos estes pesos a carregar não me parecem auxiliar as doulas e suas clientes, mas apenas criam uma estrutura de caráter controlador, punitivo e regulador, tirando de suas associadas a liberdade para agir de acordo com seus valores e ideias.

Por outro lado, as doulas de Austin me contaram que nenhuma maternidade da cidade estabelece qualquer constrangimento para o livre exercício das doulas, o que demonstra que os hospitais brasileiros – e suas políticas medievais de ataques e agressões às doulas – são a vanguarda do atraso no que diz respeito à liberdade de escolha.

A menção de que em algumas cidades se insinua que doulas só poderiam atuar se fossem profissionais de saúde (enfermeiras, fisioterapeutas, etc) causou espanto entre elas. A pressão dos consumidores aqui faz com que os hospitais se esforcem para ser “doula friendly” e assim atrair mais clientes.

Não houve em nossa conversa história alguma de médicos rejeitado as doulas ou se negando a atender ao lado delas. Afinal, até a ACOG (a associação dos obstetras) já reconhece oficialmente a excelência do trabalho das “baratinhas”. Isso me dá esperanças de que no futuro tenhamos evoluído nessa direção, mas esse tempo só depende da nossa capacidade de aglutinação e luta.

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Vacinas e Religião

 

É impressionante como nos Estados Unidos o debate sobre os perigos e as inconsistências das vacinas é aberto e franco. As conferências reúnem milhares de pessoas de várias partes do país, com a presença de médicos, professores, bioquímicos, pais de crianças prejudicadas, pesquisadores e políticos. Entender a vacinação – seus riscos e benefícios – é um assunto sério e que mobiliza muitas pessoas. No Brasil o assunto é tratado com o mais completo escárnio e deboche. Questionar a validade da vacinação é tratado como “negacionismo” e as pessoas que o fazem são colocadas ao lado de sujeitos que negam o holocausto e os terraplanistas. Os pouquíssimos profissionais da saúde que ousam questionar e decidem apontar os perigos e os riscos evidentes da injeção de tantas substâncias perigosas e não testadas são levados ao ostracismo, quando não francamente perseguidos.

Falta muito ainda para tirarmos a religião de dentro da ciência. Vacinas são crenças de caráter religioso. Se elas funcionam ou não, ou se os malefícios encontrados são graves o suficiente para interromper seu uso, é uma outra questão. Todavia, a vinculação que temos com elas é de caráter dogmático e irracional. Elas ocupam o lugar das comunhões religiosas do passado: para ser aceito em uma determinada comunidade é preciso passar por um ritual de aceitação dos seus pressupostos básicos. Ontem, o batismo no cristianismo; hoje as vacinas no cientificismo.

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Ubi et Quomodo

Entrei em mais um debate a respeito da ideia de que, chamar as cesarianas de “extração fetal”, nada mais seria do que um exercício de crueldade e uma estratégia suicida para o ativismo do parto humanizado.

Os argumentos os conheço muito bem; eles acompanham as discussões sobre parto e nascimentos humanizados pela internet há duas décadas. De um lado algumas mulheres (muitas vezes ativistas) reclamando que chamar uma cesariana de “cirurgia”, de “extração fetal” ou “operação” servia para afundar ainda mais a combalida autoestima de uma mulher cujo projeto de um parto normal havia fracassado. Do outro lado, alguns propõem – como eu – que os nomes sejam usados de forma correta, sem máscaras, sem tratar as mulheres como torrões de açúcar que se desmancham com qualquer palavra mais dura utilizada. Não há porque chamar Fusquinha de Mercedes, nem cesariana de “parto cesáreo”, ou “parto via alta”, pois estes estratagemas semânticos se prestam para banalizar a cirurgia e torná-la um procedimento “igual” ao parto. Tipo a fórmula láctea, chamada de “leite” para confundir este produto artificial com o leite humano.

Mas cesarianas não são partos. Os ativistas do parto normal sabem muito bem as diferenças entre um procedimento inscrito na fisiologia do corpo e nas entranhas obscuras do nosso DNA, e uma cirurgia de extração fetal. Os riscos de ordem física para ambos – mãe e bebê – são por demais descritos na literatura, e sobre eles não cabe mais dúvida alguma. Para além disso, temos as cicatrizes emocionais deixadas na alma das mulheres que foram impedidas de um processo fisiológico. Não há como confundir os dois eventos, e a linguagem não pode ser prestar a esta mistificação.

Por outro lado, é claro que os debates sempre ficam acesos quando se toca nesse ponto; afinal, estamos tratando da sexualidade nua e crua do nascimento. Falar de parto é falar de sexo em sua expressão mais simbólica – e poderosa. O escritor “maldito” (que também era médico) Louis-Ferdinand Celine nos alertava: “Esqueçam o sexo; se querem ver a sexualidade, olhem para um parto.” Por esta razão esses choques se tornam sempre duros; eles são, em verdade, expressões relacionadas ao mito da “menas main“, que assola as mulheres diante da avalanche de tecnologias que deslocaram o leite das mamas e os partos das vaginas.

Então eu me pergunto: como criar um ponto de acordo nestes conflitos? Depois de escutar estas queixas (de ambos os lados do espectro) por três décadas eu acho que as respostas são agressivas porque a PERGUNTA é mal formulada. Não se trata de saber COMO descrever uma cesariana tal qual uma grande cirurgia de extração fetal e suas naturais consequências para a saúde do binômio mãe-bebê, mas QUANDO poderemos oferecer uma explicação mais adequada do evento que se passou. Quase todos os ativistas concordam que dizer o nome correto do que aconteceu é importante para evitar o engodo embutido nas construções linguísticas do “parto cesariana” e do “parto via alta”. Ao mesmo tempo, todos sabem que os médicos criam essa confusão para diminuir o impacto das cesarianas e fazer com que se tornem mais “palatáveis” pela cultura. Entretanto, é também verdade – e quase todos reconhecem – que encontrar uma mãe na sala de recuperação do hospital e lhe dizer : “Que pena que não conseguiu ter seu parto normal e acabou numa extração fetal” não tem nenhum sentido humano e é apenas uma expressão de crueldade e falta de sensibilidade.

Portanto, eu proponho que olhemos para o dilema da nominação dos eventos não mais pela perspectiva do “como” chamar, mas do “quando” isso pode ser feito para uma puérpera para que ela possa entender os significados últimos de uma cirurgia, seja para fazer adequadamente seu luto ou seja para evitar os erros que porventura possa ter cometido na construção do seu não-parto.

Creio que assim agindo vamos poupar muitas batalhas que continuam a proliferar no espaço cibernético sobre esse tema tão palpitante.

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