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A culpa das mulheres

Uma reportagem do jornal Zero Hora do Rio Grande do Sul relata o aumento da taxa de cesarianas ocorrida nos últimos anos em uma cidade do interior do estado, e apresenta a tese – que os próprios médicos oferecem – de que o aumento na idade das pacientes e a incidência aumentada de fatores negativos associados estaria na gênese do incremento das opções cirúrgicas para o parto. No Hospital de Clínicas (HC) da cidade – que podemos imaginar se tratar de um hospital público – a proporção de cesarianas saiu de 56% em 2021 para 64% em 2025, enquanto os partos normais recuaram de 42% para 35%. Ou seja: hoje, neste hospital do interior do RS, somente 1/3 das pacientes de um hospital público conseguem parir de forma fisiológica e com um baixo risco. Este é um retrato muito semelhante ao que ocorre em todo o país. E a culpa é das mulheres, certo?

Sim, mas é preciso entender que as explicações dadas para o número escandaloso – e crescente – de cesarianas são insuficientes para justificar as taxas inaceitáveis. A melhor explicação para este fenômeno não está no perfil das pacientes, mas no perfil dos cuidadores do parto, os profissionais que detém o poder e a responsabilidade sobre os atendimentos. Não é difícil entender que “existe uma tendência nos cirurgiões de realizarem cirurgias”. Sim, parece uma piada, mas enquanto o parto for comandado por profissionais que trabalham na lógica da intervenção o resultado nunca será diferente. A ideia de que as cesarianas aumentam porque os casos são de maior risco é uma meia verdade contada ad nauseum há décadas, que tenta colocar nas condições das pacientes a indicação abusiva de cirurgias. Essa explicação não se sustenta nos fatos. Talvez pudesse aumentar um ou dois pontos percentuais, mas o que vemos é uma franca epidemia de cesarianas que aumenta os riscos para mães e bebês e torna os partos muito mais caros – que no sistema público é uma conta que todos nós pagamos. Além disso, muito do que é apresentado como justificativa deveria ser visto de forrma oposta. Uma hipertensa, por exemplo, tem uma razão a mais – a pressão alta – para evitar uma cirurgia, pois o aumento da pressão multiplica os ricos de uma grande cirurgia. Entretanto, esta condição é vista como “indicação”.

Há muitos anos, ao participar de um congresso nacional de obstetras, fui interpelado por um professor de uma universidade paulista que me afirmava que a culpa pelo excesso de cesarianas era a miscigenação ocorrida no Brasil, que misturava os genes de negras de “ancas avantajadas” com europeias de cintura mais “fina”. Ou seja: aparte da postura racista e sem evidências do colega, percebi que ali se manifestava um padrão que se repetiria em muitos contextos e em locais distintos: para justificar os desmandos na realização de cirurgias sem justificativa clínica se usava o artifício de culpar as vítimas pelos abusos, para que não ficassem à mostra os interesses e incentivos corporativos, judiciais e econômicos dessa opção. A verdade é que as intervenções no parto ocorrem porque médicos têm uma crescente incompetência e um marcado desinteresse no tipo de assistência que um parto demanda, que não se encaixa na lógica médica e na perspectiva que têm do evento. O parto normal está ligado à “lógica do cuidado”, e pertence à parteria, e não à medicina. Por isso abandonei as propostas reformistas há duas décadas; não haverá modificação no perfil da assistência ao parto enquanto os mesmos cuidadores concentrarem o poder, como ocorre com a obstetrícia. Só teremos avanço se a medicina for retirada do atendimento primário às gestantes de risco habitual, e se concentre nos casos de alto risco, deixando o parto para a atenção das parteiras profissionais, como ocorre no norte da Europa e Japão. As questões jurídicas e econômicas completam o pacote da “cesariana inevitável”, onde os médicos que atendem parto normal sofrem perseguições da corporação e da justiça e têm muito menos incentivos econômicos para a sua atividade. Não é difícil entender porque minha postura revolucionária – e o abandono das posições idealistas – produziu o ódio com o qual minha corporação sempre me tratou.

Entretanto, sou um otimista. Houve avanços nos últimos 27 anos que acompanho o desenvolvimento de políticas para o parto e participo de instituições como a ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento. Mas estes avanços são lentos. Muito conseguimos com a popularização das doulas, algo que introduzimos no Brasil no ano 2000, com os primeiros cursos de capacitação que foram realizados no Brasil e em Portugal. Outro fator importante foi a “Lei do Acompanhante“, de 2005, que mudou o direito de um membro da família de acompanhar a mulher durante o trabalho de parto e o parto. Desde que os familiares, em especial maridos, puderam testemunhar o que ocorria no centro obstétrico, houve uma clara transformação na estética do parto. Diminuíram os gritos e as ameaças de forma considerável. Porém, isso não mudou a taxa de cesarianas, que continua crescendo. Conseguimos ao menos deixar os médicos envergonhados pelo atendimento insuficiente que oferecem, expondo sua falta de interesse e dedicação à fisiologia do nascimento. Muito há ainda para fazer, e o futuro do parto dependerá de nossa capacidade de indignação.

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A ilusão do conhecimento

Em inúmeros campos do conhecimento é possivel ver de forma clara a relação promíscua entre saber e poder, bastando para isso que tenhamos a atenção e a coragem necessárias para reconhecer nossa parte nesse latifúndio. Na assistência ao parto, campo no qual atuei por mais de três décadas, nossa arrogância nos impediu de enxergar a evidência cristalina de que não havia – e não há – falta de conhecimento ou informação para adotar as melhores práticas. Em verdade, não há dificuldade alguma para encontrar as evidências cientificas que sustentam a atenção humanizada ao parto, em especial após o advento da internet. Assim, a prática cotidiana se exerce pelo exercício autoritário de poder sustentado pela narrativa cientificista. Essa transformação, que se estabeleceu nos umbrais do século XX, exterminou o saber milenar das parteiras em nome do conhecimento médico na maior parte do mundo ocidental . Apesar de hoje ser possível avaliar as repercussões dessa mudança e estabelecer críticas sobre ela, não é justo desmerecer a importância dos avanços científicos da obstetrícia, mas é necessário questionar a dificuldade em reconhecer suas falhas e inconsistências. Em especial, é essencial avaliar o que e o quanto perdemos com a aventura tecnológica no parto.

Para manter perspectivas equivocadas intocadas é fundamental realizar sobre as práticas emergentes uma série de ataques e criar desconfianca sobre seus resultados. Uma forma de fazer isso é por meio da dissonância cognitiva, que ficou conhecida no bolsonarismo. Tudo vira uma “opinião”, portanto, relativo e subjetivo. Parto normal é opinião, episiotomia é opinião e cesarianas em excesso são uma questão de gosto pessoal do cirurgião. Chomsky tratou desse tema ao questionar os “consensos manufaturados”, explicando como os grandes meios de comunicação em democracias capitalistas ajudam a moldar a opinião pública de forma favorável aos interesses políticos e econômicos dominantes. Desta forma, a repetição incessante de uma determinada visão de mundo cria um sentimento de identidade entre aqueles que a adotam. Ser aceito pelos seus pares é uma das necessidades humanas mais primitiva, e por isso muitos absurdos que testemunhamos na época Bolsonaro – a chamada de ETs por celular, as marchas ridículas, a continência para pneus, o anti-intelectualismo, o deboche com as vítimas da Covid, etc – produziram uma enorme energia de coesão social, mesmo oferecendo um espetáculo ridículo para a posteridade. O mesmo acontece com os médicos, jogados em um sistema onde essas inverdades são repetidas até se tornarem verdades.

Na questão dos direitos reprodutivos e sexuais das mulheres, em um mundo gerenciado pelo modelo patriarcal, é tolice continuar apostando em informação e conhecimento como suficientes para moldar consciências e mudar a prática, sem reconhecer que a inércia na atenção ao parto é devida às questões de poder e de quem o controla, o que impede as mulheres de conhecerem uma perspectiva alternativa para os seus partos. Sem tocar na ferida da ideia do parto como “evento médico”, controlado por cirurgiões e em hospitais especialmente criados para tratar pessoas debilitadas e doentes, não vamos avançar no atendimento à fisiologia do parto. Desta maneira, controlados pela ilusão do conhecimento objetivo e sem encarar a luta política por partos normais, seremos incapazes de salvar o nascimento humano de seu destino macabro: dele restará uma foto na página amarelada dos livros de medicina cibernética do século XXII, cuja legenda será um melancólico “parto ancestral”.

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Talentos

A atenção ao parto, com sua vinculação aos aspectos artísticos do acompanhamento , é um dom que algumas pessoas possuem? Para ser uma boa parteira ou doula é necessário ser tocado pela por uma especial magia que é de difícil acesso – ou interditada – à maioria dos mortais?

Eu pergunto: cantar é um dom? E escrever, pintar ou dançar? Eu concordo que essa é uma questão controversa, mas olhar uma qualidade especial como um dom inato ou um presente divino pode ter um efeito paralisante. “Ahhh, não vou cantar; não nasci com esse talento”. “Ahhh, não consigo enxergar no parto além disso limites do corpo real; nasci cego para sua transcendência”. Nahh, não vejo assim. Creio que essas habilidades podem ser mais do que aprendidas ou treinadas, mas “despertadas”, já que fazem parte da bagagem de sentimentos e emoções que cada humano traz ao mundo como bagagem. Posso aceitar que a excelência de Mozart, Da Vinci, Michelangelo pode demandar uma explicação mais espiritual, transcendente, para além dessa experiência terrena, mas não a nossa – de meros mortais. Esta é uma questão que nos desafia há séculos. Afinal, seria a qualidade incomum de alguns artistas e homens de ciência algo relacionado ao seu aprendizado na infância ou seriam eles valores adquiridos no período embrionário, pela conjugação inusitada de elementos que estruturam o cérebro humano? Indo mais além, seria tais características fruto de experiências de “outras vidas”? Ou seriam as qualidades superiores de alguns gênios o resultado visível de um trauma de infância, determinando que o mergulho em um determinado campo do conhecimento surgisse como um lenitivo para as suas dores? Esta perpectiva mobilizou muitos pesquisadores do passado, exatamente pela prevalência do trauma da perda paterna precoce entre grandes nomes da filsofia.

Friedrich Nietzsche (1844–1900) perdeu seu pai, Karl Ludwig Nietzsche, um pastor luterano, quando tinha 5 anos de idade e foi criado em um ambiente predominantemente feminino (mãe, irmã, avó e tias). Albert Camus (1913–1960), embora tenha sido conhecido como romancista e ensaísta é fundamental para a filosofia do absurdo. Seu pai, Lucien Camus, morreu na Primeira Guerra Mundial em 1914, quando Albert tinha menos de um ano de idade. Ele foi criado em um ambiente de pobreza por sua mãe, que era surda e analfabeta. O grande filósofo grego Platão (c. 427–347 a.C.) perdeu seu pai Aríston quando ainda era jovem. Sua mãe, Perictione, casou-se novamente com Pirilampo, um político próximo a Péricles, que influenciou sua educação política e intelectual. O “filósofo da vontade”, Arthur Schopenhauer (1788–1860), também conhecido pelo seu pessimismo filosófico, também teve uma grande perda: o suicídio de seu pai quando tinha 17 anos, fato que influenciou profundamente sua filosofia pessimista, focada na dor e no absurdo da existência.

A ausência traumática da figura paterna para estes grandes expoentes do pensamento ocidental é vista como um fator que os estimulou – através da dor – para uma reflexão mais profunda sobre a angústia, as perdas, a autonomia individual e a busca pelo sentido em um mundo “sem pai” ou, pelo menos, sem certezas absolutas. Seriam essas dores as grandes responsáveis pela sua genialidade? Ou seria a reação a elas o motor necessário para produzir tamanha distinção?

Assim, apesar da sedutora ideia de que as habilidades superlativas pudessem resultar de arranjos genéticos – o que facilmente pode produzir perspectivas eugenistas – prefiro acreditar que a moldagem dessas características ocorre pelo contexto de dificuldades ou facilidades encontradas, em especial nos primeiros anos de vida. São as experiências – tanto positivas quanto negativas – as geradoras de propensões, tanto para a genialidade quanto para o vício e a criminalidade. No caso da assistência ao parto, prefiro acreditar que se trata de um talento – adquirido pelo treinamento – o qual pode ser melhorado através da educação continuada. Parteiras aprendem as técnicas do cuidado e do carinho como qualquer outro artista.

Nossa vinculação às habilidades pessoais pode ser feita aqui e agora, e podemos aprendê-la (ou despertá-la) aqui mesmo, com as ferramentas que obtemos a partir das surpresas que o mundo oferece.

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Em busca de um movimento popular

Esta é minha primeira coluna para o DCO desde o meu retorno. Continuo com o projeto de levar o debate dos direitos reprodutivos e sexuais para fora da bolha da humanização. É longo, mas oferece contexto para entender o que houve e o que está por vir.

Caros amigos:

“Esta é a primeira coluna que escrevo depois da minha libertação. Durante 1 ano fui interno do sistema prisional do meu estado e, para quem não sabe, meu crime foi levar adiante o compromisso de garantir às mulheres o protagonismo dos seus partos e respeitar a forma como elas decidem trazer seus filhos ao mundo. Por estes delitos jamais serei perdoado por aqueles que detém o poder sobre os corpos, mas a justiça, em boa hora, percebeu a brutal injustiça realizada, que impediu – entre outras irregularidades – que peritos pudessem se manifestar sobre o tema. Minha libertação se deve à gritante disparidade de armas no debate mas também à mobilização de ativistas que contestaram minha condenação injusta. Em meio a esse debate ocorreu a manifestação da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA – Washington) citando a mim – nominalmente – como uma vítima da perseguição realizada contra defensores de direitos humanos. Este fato notável favoreceu minha posição frente ao STJ e assim, na última terça feira, o Supremo Tribunal de Justiça anulou o júri. Saí do complexo prisional no dia 17 de abril. É importante ressaltar o papel da ReHuNa, da ABENFO e do Partido da Causa Operária (PCO), que encamparam de forma exemplar a luta pela liberdade e autonomia das mulheres. A estas instituições, nosso reconhecimento.

É do interesse de quem controla o nascimento tratar esse como um caso isolado de “má prática”. Entretanto, é evidente que esse evento está inserido em uma ação sistemática e programada de violência e perseguição contra profissionais que desafiam o paradigma tecnocrático da obstetrícia contemporânea, o qual objetualiza mulheres alienando-as das decisões sobre seus corpos e partos. Não se trata de um ataque a um sujeito irreverente e inquieto, mas contra a ideia de garantir às mulheres o direito de tomar decisões informadas sobre uma função fisiológica e natural como o parto. Mais além, se acreditamos que o parto faz parte da vida sexual normal das mulheres, aqueles que o controlam, alienando as mulheres de qualquer decisão, estão interferindo na própria manifestação da sua sexualidade. Esta é uma forma ancestral de estabelecer controle opressivo sobre as mulheres, designando a elas um papel secundário na ordem social. Por esta ótica, elas são tratadas como defectivas em essência, incapazes de determinar os próprios desejos, sempre demandando uma instância superior para tomar, por elas, as decisões relevantes de sua vida.

Este é o modelo de tutela, usado para crianças, anciãos interditados e para pessoas com deficiência mental, que são, por definição, incapazes de decidir por si mesmos. É desta forma diminutiva que a medicina enxerga as mulheres gestantes. Aqueles que negarem esta perspectiva de inferioridade essencial das mulheres, e que se opõem ao paradigma alienante na condução dos nascimentos, serão vistos como traidores do modelo obstétrico contemporâneo. Para eles se impõe primeiro o escárnio, depois o ostracismo e os boicotes e finalmente os ataques diretos, usando, quando necessário, o sistema jurídico para calar as vozes dissonantes.

Neste contexto, a verdade e as evidências científicas são, via de regra, elementos de pouca relevância na defesa dos profissionais que defendem o parto como elemento essencial na estruturação do sujeito. No meu caso, tratou-se de um bebê cujo parto ocorreu sem nenhum transtorno e que veio a óbito no hospital 24h depois de nascer, vítima de uma doença congênita, impossível de prever ou prevenir. Foi atendido em casa e enviado ao hospital em excelentes condições, tendo ficado mais de 4 horas em observação, sem medicação alguma, até ser finalmente medicado. O número de erros cometidos no hospital é impressionante, mas decidiu-se atacar o médico que aceitou atender a paciente no local que a mãe havia escolhido. Mais absurdo ainda é tratar este caso como “doloso”, algo que jamais ocorre nas centenas de óbitos que ocorrem após cesarianas, mesmo naquelas sem qualquer justificativa médica. Resta a pergunta: por que esta diferença no tratamento? Por que aqueles que defendem o parto normal são punidos, enquanto aqueles que abusam dos recursos cirúrgicos – aumentando os riscos – jamais são molestados?

Ora, porque as cesarianas e toda a parafernália médica que as acompanha – hospitais, médicos, enfermeiras, técnicos de enfermagem, drogas, equipamentos, serviços de limpeza, advogados, administradores, etc – giram a “roda da fortuna” do capitalismo aplicado à saúde. Neste modelo todos lucram e todos abocanham uma parte do butim. Todos, menos mães e bebês, a parte mais frágil e desempoderada e que sofre diretamente com as consequências do abuso de intervenções. Mães e bebês são desconsiderados, e por isso correm maiores riscos, em curto e longo prazos, pela aventura tecnológica das cesarianas abusivas. Todavia, as mães e seus bebês ainda são impotentes para lutar contra uma máquina poderosa que os aliena de qualquer decisão. Enquanto isso, os partos normais e fisiológicos correm na direção contrária: são mais baratos, mais humanos, mais tranquilos e mais seguros. Porém, não servem à ideologia e ao monetarismo de quem os comanda. Por isso o ataque àqueles que os defendem. Atiram no mensageiro para atacar a mensagem.

Durante o meu período de reclusão uma ideia ficou sedimentada de forma muito segura em minha mente: se as mulheres não lutarem por seus direitos e por seu espaço ninguém vai lhes oferecer qualidade superior na atenção ao parto. Autonomia e liberdade são conquistas, jamais dádivas. Esperar que o parto humanizado seja bem-vindo em hospitais, que doulas e enfermeiras obstetras sejam recepcionadas com carinho e respeito e que as taxas de cesariana caiam por magia é pura ilusão. Tal conduta é o equivalente moderno à espera pelo príncipe encantado para nos resgatar da afasia. Nada disso vai ocorrer, e o mundo vai continuar a girar perversamente enquanto dormimos o sono dos ingênuos. Qualquer que seja a conquista, ela só vai ocorrer como resultado de uma luta incessante.

Por isso não resta dúvida de que não há como esperar qualquer mudança sem luta e mobilização. Para que uma revolução no parto venha a ocorrer é fundamental arregaçar as mangas. O projeto de humanização do nascimento será um movimento popular… ou não será.”

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A batalha dos corpos

A batalha pelos partos dignos está inserida na luta pelo domínios dos corpos. Não por acaso as parteiras, que durante milênios se ocuparam da atenção ao parto e nascimento, foram desalojadas pelos médicos no início do século XX, usando como principal arma o domínio da tecnologia. Desde o surgimento do fórceps pelos irmãos Chamberlen nos estertores do século XVII até a incorporação das mais sofisticadas tecnologias de diagnóstico e intervenção, a jornada médica na atenção ao parto se configurou como um aumento crescente e sem limites do ferramental tecnológico para a intervenção no parto. Entretanto, ao mesmo tempo em que o parto se tornava mais seguro para a pequena fração de mulheres que sofria de algum desvio da normalidade, a imensa maioria das mulheres era impedida de transitar pelo território do nascimento de forma livre e tranquila. A invasão médica se tornou um transtorno para o bom curso do processo de parto, exatamente porque as sociedades industrializadas, através de uma visão mecanicista do fenômeno, deixaram de levar em consideração os aspectos fisiológicos, sociais, psicológicos, contextuais e espirituais do nascimento humano. O parto, outrora um momento familiar e envolto em familiaridade e suporte emocional, tornou-se um evento frio e angustiante, deslocado do ambiente psiquicamente seguro do entorno familiar.

A entrada da medicina produziu um espantoso sucesso na correção dos problemas advindos, em especial, das dificuldades com a passagem do bebê por um canal estreito pelo processo evolutivo da espécie. Entretanto, o preço começa a ser sentido na atualidade, onde a expropriação do processo pelos cuidadores deixa as mulheres abolutamente alienadas de qualquer decisão. Os movimentos de humanização do nascimento surgido em várias partes do mundo procuram costurar as partes separadas do processo. Acreditam que estamos – pela primeira vez na história da humanidade – diante da possibilidade de oferecer o “melhor de dois mundos”. Podemos ofecerer o que foi criado pela obstetrícia tecnológica dos últimos dois séculos – que garante segurança para os casos patológicos – ao mesmo tempo que podemos prover o protagonismo às mulheres e o suporte emocional a elas, que foi a marca da atenção ao parto em 99.99% do tempo em que vivemos nesse planeta.

Esta decisão, entretanto, esbarra em muitas dificuldades. De um lado temos a ordem patriarcal e sua sanha de dominação e domínio, que não aceita que as mulheres possam ter controle ou que possam escolher caminhos. Muitos médicos se situam nessa posição, resistindo à ideia de oferecer escolhas informadas às mulheres. Do outro lado estão todos aqueles que percebem que a evolução para uma sociedade mais justa e equilibrada passa pela garantia do protagonismo a todos nós, sejamos homens ou mulheres. Desta forma, a humanização do nascimentose situa na rtincheira daqueles que pretendem combater as forças autoritárias da sociedade oferecendo propostas democráticas de ampla e irrestrita liberdade de escolha.

“Parto não é algo que acontece às mulheres; é algo que elas fazem”. Assim, o nascimento humano é uma construção onde os aspectos físicos e emocionais precisam estar em perfeito equilíbrio para garantir o máximo de segurança ao binômio mãe-bebê, para promover crescimento pessoal e um futuro digno aos que nascem. Mulheres caladas, vítimas de violências múltiplas e cotidianas, não podem oferecer o melhor de si para seus partos, e nem para os seus filhos.

Humanizar nascimento é garantir o protagonismo à mulher. Sem isso teremos tão somente a sofisticação de uma tutela anacrônica e ultrapassada.

Veja mais aqui, na coluna do Diário da Causa Operária

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Como dizer não

Uma verdade difícil de aceitar, mas essencial para oferecer reais alternativas para as mulheres. A simples fantasia de ter um parto como a Gisele não qualifica uma gestante ao parto domiciliar. É necessário muito mais do que essa conexão emocional, em especial a consciência da responsabilidade por suas escolhas.

Escolher um parto num modelo contra-hegemônico e depois abandonar a equipe que a assistiu à própria sorte não é justo nem ético. As equipes de assistência domiciliar precisam desenvolver a habilidade para distinguir quem está verdadeiramente conectado ao paradigma da humanização e quem apenas se deixou seduzir pelo modismo. Dizer “não” é uma tarefa tão difícil quanto fundamental. Muitas das complicações encontradas em partos domiciliares, tanto para os pacientes quanto para as equipes de assistência, poderiam ter sido evitadas se o escrutínio sobre a real capacidade de enfrentar esse desafio fosse mais preciso. Na maioria das vezs nos deixamos seduzir pelos pedidos por um parto extra-hospitalar e pelo interesse expresso em fugir dos ambientes constrangedores e alienantes dos centros obstétricos. Entertanto, o desejo de se afastar das iatrogenias tão comuns no hospital não é motivo suficiente para escolher um parto em domicílio.

A razão para isso é que a pressão que vira do entorno será muito intensa, e apenas as perssoas que têm um preparo emocional adequado conseguirão suportar os revéses. o problema reside em descobrir a verdade que se esconde no espaço que separa as palavras, o que não é dito e não é revelado. E exatamente aí está uma das habilidades mais preciosas dos cuidadores: a leitura dos sentimentos de quem os procura.

“Se o seu instinto, quando qualquer coisa dá errado, é procurar alguém para culpar ou processar, o parto comunitário provavelmente não é para você. Assistentes independentes não têm as máquinas jurídicas dos hospitais para protegê-las de servirem como bodes expiatórios. Obstetras são para patologias. Hospitais são para pessoas que querem terceirizar a responsabilidade. Essa é simplesmente a realidade. Parteiras fracassariam se aceitassem todas as pessoas de baixo risco.” — Ashley Nicole

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Reflexões do Cárcere

Sem trabalho de base, nossos avanços serão apenas fogo-fátuo.

“O esforço de todos aqueles que lutam e lutaram pela revolução no parto – na direção da autonomia e do protagonismo pleno – não poderá jamais se restringir a uma mera transformação nas estruturas de poder, no aperfeiçoamento de instituições e na capacitação daqueles que as controlam. Para ser efetiva, esta mudança precisa ser, acima de tudo, um câmbio profundo, radical e verdadeiramente poderoso da sociedade, incluindo homens e mulheres, por meio de suas consciências, de seus costumes, hábitos, valores e relações sociais. Sem essa perspectiva, continuaremos a apostar no revisionismo estéril, que jamais atinge o cerne da questão.

Não é suficiente mudar as estruturas de poder se não capacitarmos a sociedade a um novo tipo de participação decisória sobre os seus direitos. Precisamos de novos cuidadores tanto quanto necessitamos de uma nova geração de clientes dos serviços de saúde, agora mais informados e conscientes. A revolução do parto se inicia com as pessoas e para servir a elas. Uma verdadeira transformação jamais será verdadeira, consistente e perene se não for capaz de se expressar na estrutura íntima da sociedade. Portanto, mais do que mudar condutas, protocolos, rotinas e profissionais da assistência, é essencial criar uma nova cultura do parto, que inclua respeito à fisiologia e o reconhecimento das consequências últimas do nascimento como imprint indelével no corpo e na alma dos cidadãos. Somente com essa alteração de base poderemos manter as conquistas no campo social firmes e consistentes; do contrário, teremos apenas transformações fugazes e superficiais, baseadas tão somente na autoridade. É importante entender que, sem esta estrutura sólida na consciência coletiva, todo avanço será fugaz e qualquer progresso apenas ilusório.”

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O Labirinto

Minotauro é uma criatura da mitologia grega que tem o corpo de ser humano, mas a cabeça e o rabo são de touro. Nasceu fruto da relação de Pasífae, esposa de Minos, o rei de Creta, com um touro dado a Minos por Poseidon. O Minotauro é uma criatura que está presente na mitologia grega aprisionado em um labirinto construído por Ícaro e Dédalo (lembram? Aqueles das asas de cera) a mando do rei de Creta. Minotauro era descrito como um ser monstruoso que devorava pessoas vivas. Quando chegou a Creta, Teseu conheceu Ariadne, filha do rei, e a jovem o presenteou com uma espada e um novelo de linha para derrotar o monstro e conseguir escapar. Teseu matou o Minotauro, fugiu do labirinto e salvou seus companheiros.

O parto humano está preso em um labirinto cuja saída, até então, não conseguimos encontrar. Entramos por um caminho sedutor no início do século passado, com a introdução da tecnologia na atenção ao parto. Parecia que a absoluta artificialização do parto permitiria ultrapassarmos os ancestrais medos que acompanham a sociedade desde épocas primevas. Ao contrário do fato inesperado, a previsão de todos os eventos: ao invés da surpresa, o controle dos tempos. Ao invés das mortes e das dores, a vida resplandecente em cada nascimento. Bastaria para isso a absoluta alienação do processo: o parto passaria das mãos das parteiras às mãos dos cirurgiões; ao invés da do ambiente cálido e acolhedor da casa, o frio asséptico e luminescente das salas cirúrgicas. No lugar dos silêncios, os ruídos metálicos, a conversa dos médicos e o choro das mães. Também trocaríamos as bactérias maternas pelos micro-organismos hospitalares, as antissepsias, as roupas esterilizadas e os necessários antibióticos. Quem ousaria não se contaminar pelo entusiasmo da ciência vencendo a natureza, até então, indomável?

Como toda solução mágica, depois do seu esplendor é possível avaliar suas contradições. A alienação das mulheres cobra hoje um preço muito alto. A troca das especialistas, parteiras altamente capacitadas forjadas nos milênios de vigilância do parto, por cirurgiões, teve como resultado o afastamento da arte ancestral da parteria de sua prática cotidiana. Ao mesmo tempo, a epidemia de intervenções se tornou a norma: internações, drogas, isolamento, partos instrumentais, extrações cirúrgicas, infecções, desmame, banhos de luz, afastamento e solidão foram os resultados. Com o tempo fomos percebendo que até a segurança apregoada não era verdadeira: as modalidades cirúrgicas são muito mais arriscadas para mães e bebês do que a vivência puramente fisiológica do parto.

O caminho tecnocrático nos levou a um beco. Mães hoje percebem o quanto lhes foi subtraído com a adesão a um modelo alienante que lhes retirava o controle e a autonomia sobre o próprio corpo e as afastava da vivência plena do processo. Mães e bebês, a díade mais sagrada da história humana, se afastavam mutuamente, e o vazio que se produzia era preenchido com mais tecnologia, mais intervenção. Enquanto isso, a morbidade aumentada relacionada ao abuso das intervenções não podia mais ser escondida. A crise se estabeleceu e a insatisfação surgida entre as mulheres no final do século passado hoje está na voz de toda a gestante esclarecida.

Perdemos o fio, e o Minotauro ainda nos espreita. Nesse cenário, somente Ariadne pode nos conduzir. Ela, que conhece os meandros e os desafios do labirinto, precisa nos oferecer o seu novelo de ciência, conhecimento e sabedoria, para ser nosso guia na busca pela saída. Ela sabe que sem o protagonismo garantido à mulher, sem a visão transdisciplinar no nascimento e sem o embasamento na ciência, estaremos perdidos no labirinto do parto humano, acreditando em soluções ilusórias e em promessas vazias.

PS: Escrevi esse texto a partir do convite de Jan Tritten para participar da “Midwifery Conference”, uma conferência sobre parto e a preservação da arte ancestral da parteria, de 25 a 29 de setembro, na ilha de Creta, na Grécia. Provável participação especial do Minotauro, Ariadne e Teseu. Obrigado, Jan.

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Minotaur is a creature from Greek mythology that has the body of a human being, but the head and tail from a bull. It was born out of the relationship of Pasiphae, wife of Minos, the king of Crete, with a bull given to Minos by Poseidon. The Minotaur is a creature that is present in Greek mythology that was imprisoned in a labyrinth built by Icarus and Daedalus (remember? those of the wax wings) at the behest of the king of Crete. Minotaur was described as a monstrous being who devoured living people. When he arrived in Crete, Theseus met Ariadne, the king’s daughter, and she presented him with a sword and a ball of thread to defeat the monster and escape. Theseus killed the Minotaur, fled the labyrinth, and saved his companions.

Human childbirth is stuck in a maze whose exit, until then, we have not been able to find. We entered a seductive path at the beginning of the last century, with the introduction of technology in childbirth care. It seemed that the absolute artificialization of childbirth would allow us to overcome the ancestral fears that have accompanied our species since early times. Contrary to the unexpected fact, the prediction of all events; instead of surprise, the control of the times. Instead of death and pain, life resplendent at every birth. The absolute alienation of the process would suffice for this: childbirth would pass from the hands of midwives to the hands of surgeons; instead of the warm and welcoming environment of the house, the aseptic and luminescent cold of the operating rooms. Instead of silences, metallic noises, the talk of doctors and the cry of mothers. We would also exchange maternal bacteria for hospital microorganisms, antisepsis, sterilized clothing, and the necessary antibiotics. Who would dare not be contaminated by the enthusiasm of science overcoming nature, hitherto indomitable?

Like any magic solution, after its splendor it is possible to evaluate its contradictions. The alienation of women today takes a very high price. The exchange of specialists, highly trained midwives forged in the millennia of childbirth surveillance, by surgeons, resulted in the removal of the ancestral art of midwifery from their daily practice. The epidemic of interventions became the norm: hospitalizations, drugs, isolation, instrumental deliveries, surgical extractions, infections, weaning, light baths, withdrawal and loneliness were the results. Over time we realized that even the security touted was not true: surgical modalities are much riskier for mothers and babies than the purely physiological experience of childbirth.

The technocratic path has led us to a dead end. Mothers today realize how much was subtracted from them by adhering to an alienating model that removed their control and autonomy over their own body and kept them away from the full experience of the process. Mothers and babies, the holiest dyad in human history, drifted apart from each other, and the void that was produced by this distance was filled with more technology, more intervention. Meanwhile, the increased morbidity related to the abuse of interventions could no longer be hidden. The crisis has settled and the dissatisfaction that emerged among women at the end of the last century today is in the voice of every enlightened pregnant woman.

We’ve lost the thread, and the Minotaur is still stalking us. In this scenario, only Ariadne can lead us. She, who knows the intricacies and challenges of the labyrinth, needs to offer us her novel of science, knowledge and wisdom, to be our guide in the search for the way out. She knows that without the guaranteed agency of women, without the transdisciplinary vision of birth and without the foundation in science, we will be lost in the labyrinth of human childbirth, believing in illusory solutions and empty promises.

PS: I wrote this text after the invitation of Jan Tritten to participate in the “Midwifery Conference”, a conference on childbirth and the preservation of the ancestral art of the parteria, from September 25 to 29, on the island of Crete, Greece. Probably special participation of the Minotaur, Ariadne and Theseus. Thanks, Jan.

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Vozes

É possível falar de humanização do nascimento sem ser político? Seria a humanização da atenção ao parto um tema técnico, científico, positivo, que nada tem a ver com as questões sociais ou com temas mais abrangentes como direitos humanos, reprodução e sexualidade e mesmo o direito à vivência sexual plena?

Lembro de um encontro traumático com um membro do Conselho de Medicina quando este, do alto de sua imperial arrogância, disparou: “Não existe ideologia em Medicina, apenas boa ou má prática médica“. Ou seja: para este conselheiro, a medicina é uma expressão positiva da atividade humana; aplicá-la pressupõe que a verdade precisa ser comprovada a partir de técnicas científicas válidas. Além disso, traz a ideia de ciência cumulativa, ou seja, transcultural, atingindo toda a humanidade, inobstante qual cultura surgiu ou se desenvolveu. Parte da ideia de corpos sem alma, sem história, sem subjetividade, onde um muro se ergue entre os aspectos físicos e as questões anímicas. Por certo, o que este profissional pretende se contrapõe a experiência cotidiana de milhões de médicos que se deparam com as características subjetivas de cada sujeito que os procura. Além disso, é evidente que na manifestação de doenças concorrem aspectos emocionais, psicológicos, afetivos e sociais. Desta forma, na análise das doenças como manifestações de transtornos sociais, a política é uma das ferramentas mais importantes para compreender e tratar o adoecimento.

Partindo deste pressuposto – a influência da cultura e da política na saúde e na doença – eu não acredito ser possível defender a humanização do nascimento sem assumir uma posição ideológica, o que não significa necessariamente adotar uma posição partidária. Mais ainda: eu considero o abandono do debate político um dos grandes erros cometidos pelo movimento da humanização do nascimento nos últimos 25 anos. Sem o saber, adotamos uma posição claramente revisionista, almejando uma ilusória “conciliação de classes” com os detentores do poder, sem nos darmos conta de que, assim como em qualquer luta social, aqueles que tem nas mãos o poder jamais o entregam de forma pacífica. Além disso, a revolução do parto só vai acontecer quando abandonarmos as ilusões juvenis e assumirmos a necessidade de um enfrentamento firme. Sem entendermos que o “direito de parir direito” é uma luta social e que “revolução” significa câmbio de poder, não vamos atingir os fins últimos a que nos propomos.

O mesmo descaso que observo como regra para as vozes femininas na política também observei durante décadas no silêncio das mesmas vozes no que diz respeito ao parto. Portanto, não se trata de silenciar uma mulher em especial, mas reconhecer o temor inconfesso da sociedade patriarcal em escutar vozes dissonantes que possam questionar os “poderes naturais”. Quem teria mais autoridade para questionar como as mulheres são tratadas em seus partos do que elas próprias? Quando gestantes são desprezadas e diminuídas, eu escuto o eco silencioso de centenas de vozes suprimidas, brotando do peito de mulheres assustadas com seus partos, caladas e impedidas de decidir sobre seus corpos. E aqui não ser trata de questionar a fala de Janja sobre o TikTok – sobre a qual discordo – mas de analisar a repercussão violenta contra essa personagem.

Ou seja: os ataques às mulheres que alcançaram, de alguma forma, o poder nada mais são do que reflexos de uma cultura que ainda receia escutar o que elas têm a dizer. Muito do sofrimento que escutamos das mulheres mais velhas está relacionado às palavras não ditas em sua juventude, guardadas no peito, trancafiadas em silêncios dorosos que se transformam em sintomas e lágrimas. Permitir que as energias do parto tenham vazão é cuidar da saúde de todos, tanto quando reconhecer o direito às mulheres de expressarem suas ideias e sentimentos.

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O Parto Sitiado

É para mim uma realidade inconteste que a obstetrícia está sofrendo um cerco; a prática de atenção ao parto está sitiada, enclausurada e amordaçada, e as consequências para a sociedade podem ser trágicas. De um lado, os profissionais sofrem a pressão da sociedade, intoxicada pela mídia que coloca a cesariana como um “avanço civilizatório”, tratada como uma forma superior de atenção às mulheres, um direito garantido às “consumidoras”, uma prática limpa, higiênica, moderna, tecnológica e segura. Sabemos o quanto isso é falso, mas também temos noção da dificuldade de resistir ao paradigma hegemônico. Como consequência, se percebe na atualidade que a demanda pelos partos sem “sacrifício” (sacro ofício, trabalho sagrado) é uma realidade social e jurídica, que obriga médicos a adaptarem suas condutas às demandas do cliente, e não mais às bases científicas que normatizam o proceder e a conduta médica.

Além disso, obstetras são perseguidos de forma cruel e inexorável quando resultados negativos ocorrem, inobstante sua culpa, bastando para isso que não sigam o catecismo da sua corporação – mesmo quando estas regras se afastam claramente dos pilares de respeito à integridade física de mães e bebês. Outro problema urgente surgido pela enxurrada de cesarianas realizadas a pedido, é que esta situação torna inviável a ação ética de obstetras que levam a sério a ideia de não causar dano aos seus clientes. Mais ainda, está cada vez mais claro que não existem recursos – materiais e humanos – para dar conta de tantas cirurgias e suas consequências, em especial aquelas que ocorrem no sistema público de saúde. Portanto, se trata de um drama ético, jurídico e econômico. Por certo que esta tendência alienante da obstetrícia contemporânea agrada aos poderes corporativos e institucionais – médicos, hospitais, indústria farmacêutica, indústria de equipamentos, etc – mas não é o mais seguro para os pacientes que atravessam o desafio do parto e do nascimento.

Alguns dirão que esta situação ocorre pela liberdade de escolha das mulheres, e qualquer cerceamento desta seria um retrocesso. Sempre foi minha visão de que é necessário respeitar aquilo decidido pelos sujeitos, mesmo quando sabemos que se tratam de escolhas ruins. Todavia, numa sociedade de controle massivo pela propaganda, esta escolha das mulheres não pode ser julgada como “livre e consciente”; elas sofrem um bombardeio brutal e cotidiano dos meios de comunicação, os quais moldam seu pensar e constroem seus valores. Portanto, a escolha pela alienação no parto não é livre; é fruto de uma construção social que criminaliza a vivência fisiológica e protagonista do nascimento.

Cabe à sociedade, e em especial às mulheres, a mudança desse cenário. “O parto humano será o que fizermos dele” e, portanto, é nossa responsabilidade construirmos alternativas ao modelo tecnocrático do nascimento. Ele não surgirá por decreto ou por dádiva, mas pelo debate, pela escuta do contraditório, pela elaboração de propostas e acima de tudo por meio da luta incessante por sua implementação.

E que assim seja…

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