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Atitude

Afinal, onde está a humanização? Será ela um protocolo, uma rotina, uma série de regras a seguir? Ou estará ela no espaço que separa as palavras e nas finas camadas etéreas que separam nossos olhares? Que corpo tem uma ideia que se expressa muito mais pelos silêncios do que pelos discursos?

Diante da criação de espaços para a atenção ao parto altamente sofisticados nos Estados Unidos, creio que se impõe uma análise  sobre os significados e perspectivas da criação destes Centros de Atenção ao Parto caro e acessíveis a uma fatia muito pequena da sociedade. Por certo que não acho errado a existência desses lugares, mas acho perigosa a relação que se pode estabelecer entre parto humanizado e “sofisticação de ambiência” tornando esse produto algo que apenas pessoas abastadas podem pagar; como se dignidade, respeito e atenção às evidencias cientificas fossem artigos de luxo, muito caros, cuja aquisição seria reservada apenas às elites econômicas de uma localidade. Este é um risco que precisa ser entendido e assimilado.

Há 32 anos quando comecei a atender partos pela perspectiva da humanização a ideia era outra: só teria condições de se submeter a um parto humanizado – de cócoras – quem tivesse “preparo”. Físico, sim, como se o parto fosse um desafio atlético para poucas mulheres determinadas e preparadas com denodo. “Eu queria muito parto humanizado (SQN), mas não tive como me preparar“. Lorota. O preparo para o parto emergia como a desculpa ideal para a desistência do projeto de um parto onde a mulher era protagonista. A alienação sempre é muito sedutora.

Essa foi uma das razões para começar a fotografar partos. Minhas primeiras fotografias – com maquininha Kodak – foram tiradas em hospitais do SUS de periferia, sem banqueta, sem mesa elétrica de parto, sem doula, sem óleos e essências, sem glamour, sem nada de sofisticado, apenas eu e alguém para escorar a paciente por trás, no chão da sala forrado de campos limpos sobre um colchonete.

Sim, a gourmetização é um risco ali na esquina e precisamos estar atentos à sedução que ela nos apresenta. Por outro lado, oferecer o melhor ambiente possível para o mais importante momento é um esforço que sempre vale a pena. Todavia, se é verdade que um atendimento humanizado pode ocorrer em qualquer lugar, por outro lado a humanização não exclui ambiência; só não pode se reduzir a ela

Podemos concordar que não é o óleo, o incenso, a banqueta, os quadros na parede, a música ou a parafina que se situam no centro da humanização, e não seria a sua presença o que caracterizaria uma atenção humanizada. Esta, nas palavras de Robbie, se constitui em uma ATITUDE onde os recursos externos – dos óleos essenciais às suítes de luxo – desempenham tão somente papel secundário. O cerne da humanização está no olhar de quem ajuda.

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Rituais médicos

Quando vejo protocolos de utilização de ultrasonografias durante a gestação, em especial escritos por médicos com especialização em medicina fetal ou imagem, eu sempre desconfio que as recomendações partem de um profissional com um viés absolutamente desviado por sua formação. Em verdade, a introducao (ou manutenção) de uma tecnologia qualquer aplicada à gestação deveria partir de um ponto bem específico: demonstrar quais as referências bibliográficas que justificam seu uso de rotina em gestações de baixo risco e o impacto que elas produzem no bem estar materno e fetal. Isto é: quantas vidas de mães e bebês salvamos com a introdução desses procedimentos e quantos problemas são evitados NA PRÁTICA (e não teoricamente) com sua realização rotineira.

Apenas acho importante lembrar que não cabe a mim trazer evidências sobre a falta de benefícios como exames ou cirurgias. No caso das ecografias, aqueles que modificam o status quo é que precisam comprovar que uma tecnologia tremendamente dispendiosa e potencialmente arriscada produz inequívocos benefícios às mães e seus bebês. Isto é: há 30 anos que aguardo pacientemente os trabalhos comprovando que as ultrassonografias utilizadas de rotina na gestação produzem incremento na qualidade do pré natal e que se refletem numa melhoria das condições de mães e bebês. Minha preocupação durante estas décadas de convívio com esse exame foi que sua aplicação cria uma série de expectativas, receios, angústias, custos elevados e alienação na relação mãe bebê (que passa a se estabelecer com um intermediário tecnólogico) sem jamais ter comprovado impacto positivo na saúde de ambos.

A pergunta é bem simples: se um ato divino (ou demoníaco) exterminasse de uma só vez todas as máquinas de fazer “beep” ultrassonográficas, qual seria o resultado para a saúde dos envolvidos depois de um período de, digamos, um ano? Sabemos que a saúde (financeira) dos Sr Siemens e do Sr Toshiba melhoram muito com esse exame, e que uma gigantesca corporação de profissionais de diagnóstico por imagem vivem da aplicação desse exame, mas…. é para o bem estar deles que existe a medicina e a tecnologia usada em seu nome? Ou é para impactar positivamente a saúde dos pacientes? Pois os estudos sté hoje realizados nos mostram que o impacto é…. ZERO.

Enquanto não for provado que ecografias produzem efeito positivo usadas rotineiramente todas as pacientes deveriam ser informadas de sua inutilidade e potencial risco, até que alguma novidade sobre o tema surja mostrando uma marcada melhora nos resultados.

Todavía, o que continuo achando interessante debater, e o fiz nos mais de 30 anos de clínica obstétrica, é como tratar um fenômeno social (como a ecografia) que não possui benefícios médicos, mas atinge em cheio o imaginário social sobre a gravidez. Ao meu ver deveria ser uma abordagem restritiva semelhante àquela adotada com a postectomia (circuncisão) a tonsilectomia (retirada de amígdalas) e a episiotomia (corte vaginal na vulva durante o parto), que são todas cirurgias ritualisticas e mutilatórias da medicina ocidental (para diferençar da circuncisão feminina, a clitoridectomia, que é oriental) que não tem base científica que sustente sua aplicação mas cujo uso é regulado pelos mitos que as cercam. Todas elas são realizadas em momentos cruciais (nascimento, adolescência e parto) como marcadores de passagens psíquicas relevantes.

As ecografias funcionam da mesma forma, como um “passaporte” oferecido pelo “oficial obstétrico” que representa a ordem médica e o controle sobre o corpo. Funciona como o Rx nos aeroportos, cujo fim explícito é vigiar e punir, mas no que tange ao parto nossos exames são oferecidos sob o manto encobri dor da “seguranca” e da “prevenção”.

Hoje em dia as gestantes são prisioneiras desse controle sobre suas gestações, que não lhes oferece segurança mas as mantém atreladas ao controle profissional.

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Cortes

Prá não dizer que não falei de partos…

Há 30 anos minha briga era debater com os neonatologistas a falta de sentido em cortar imediatamente o cordão após o parto. Meu argumento já naquela época era: “Se essa fosse uma necessidade imperiosa, como explicar o parto humano em bases evolucionistas? Como admitir que a natureza, para ser completa, precisava do surgimento de atendentes de parto com instrumentos cirúrgicos sofisticados? Como justificar esse corte imediato, usando a ideia de livrar o bebê dos perigos do “excesso de sangue”, se estamos cortando o suprimento do sangue FETAL extra que se encontra estocado na placenta?”

Pois nas 3 últimas décadas as evidências foram se acumulando no sentido de comprovar que a natureza não esqueceu destes detalhes. O corte prematuro e extemporâneo se mostra perigoso e deletério para o bem estar fetal, não oferecendo nenhuma vantagem para aquele que nasce. Pelo contrário: privar o bebê desse aporte extra de oxigênio e hemácias só poderia produzir resultados funestos. Esta prática não embasada sobreviveu apenas como ritual (repetitivo, padronizado e simbólico) para dar sustento ao controle dos profissionais sobre o fenômeno do parto sob a capa falaciosa do cuidado.

Para dar sentido a esse procedimento equivocado é preciso antes disso produzir a ideia socialmente construída de que a natureza é falha e não confiável, enquanto a mulher e seu mecanismo de parto são incompetentes e defectivos para garantir a segurança de mães e bebês.

Segundo Robbie, o modelo obstétrico contemporâneo só pôde ser estabelecido dentro do patriarcado e na visão profundamente arraigada da incompetência essencial da mulher, onde a tecnologia assumiria o papel de protagonista na tarefa nobre de resgatar mães e recém-nascidos de uma “natureza insensata e cruel”.

A introdução de tecnologias e personagens estranhos aos processos fisiológicos só pode ocorrer depois de uma análise muito criteriosa exatamente porque, depois de sua instituição, os sistemas de poder que a elas aderem dificultam sobremaneira a sua retirada.

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“The cord continues to act as the baby’s only oxygen supply until the baby starts to breathe, before the placenta becomes detached. So, even when a baby needs help to breathe, the cord should ideally remain intact as the baby is resuscitated at the bedside. If the umbilical cord is cut too early, the baby can be deprived of oxygen, 20-30% of its blood volume and 50% of its red blood cell volume.

Veja mais aqui:

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Dores necessárias

 

Acho que foi Claudia Murta quem primeiro me falou, ou talvez ela tenha sido apenas a mais enfática. Entre taças de vinho em sua casa, junto com outros malucos se nutrindo de ideias, ela concordava comigo sobre a radicalidade do parto. Dizia eu que “Por isso é parto; é partir, romper, quebrar, destroçar. Por isso tanta dor; para impregnar aquele corpo com os infinitos significados de um nascimento ele precisa ser rasgado de dentro para fora através dela. Ardente e corrosiva, que seja, mas para transformar e fazer do passado pó, trocar a pele, queimar as roupas, vomitar seus medos ”.

Eu enxergava na epidemia de bloqueios peridurais uma traição aos sentidos últimos do parir. Não seu uso, mas seu abuso. Uma carona no Caminho de Santiago a lhe falsear os significados. Roubando-se a dor retira-se também a construção misteriosa e oculta que se esconde por detrás do evidente. Minha dor era a falta de dor, a falta de marca, a cicatriz que não se fazia. O corpo que não sabia.

Ao nosso país também faltou sua dor; nossa anistia “ampla e irrestrita” foi uma cesariana em um corpo que pedia a passagem da democracia. Não quisemos enfrentar nossas caras contorcidas, as fezes, os puxos, as secreções, os gritos, e por isso perdemos o êxtase. Fugimos das angústias de uma passagem estreita, a dor de romper a própria carne. O olhar-se para envergonhar-se. Preferimos colocar uma pedra, sobre tudo e todos. Uma pedra que agora nos pesa, pois o monstro … desperta.

Renegamos a dor que poderia nos salvar, o sofrimento agudo que nos daria esperança. Faltou em nós o grito redentor, o corte, o caminho que se faz na força. Faltou o parto com dor.

Faltou coragem para deixar o país parir.

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Doulas aqui e lá

 

Poucos dias atrás tive uma conversa interessante e esclarecedora com Zeza, Debra e um maravilhoso grupo de doulas de Austin – Texas. Temas principais: organização das Doulas em grupos para otimizar o trabalho e garantir a elas tempo para suas vidas privadas, trabalho, estudos e filhos. A outra questão fundamental debatida foi o processo de certificação de doulas através de critérios abrangentes e adequados para realidades plurais e – até mesmo – divergentes, evitando a “padronização” do ofício das doulas e mesmo sua vinculação a correntes ideológicas de qualquer natureza. .

Debra ficou espantada com a ideia que eu lhe expus da criação de cursos de 160 horas ou com a proposta de criar a “profissão” de doulas. Aqui nos Estados Unidos a tendência é não aceitar qualquer tipo de “licença” ou profissionalização pelos riscos de submergir na burocracia sufocante das corporações.

Estas idéias me deixaram mais seguro de me contrapor às decisões de um congresso de doulas recentemente realizado que aponta para direções opostas das que foram aqui debatidas. Cursos caros e demorados, curriculum complexo, redundante e ideologicamente direcionados, certificações, conselhos nacionais e todos estes pesos a carregar não me parecem auxiliar as doulas e suas clientes, mas apenas criam uma estrutura de caráter controlador, punitivo e regulador, tirando de suas associadas a liberdade para agir de acordo com seus valores e ideias.

Por outro lado, as doulas de Austin me contaram que nenhuma maternidade da cidade estabelece qualquer constrangimento para o livre exercício das doulas, o que demonstra que os hospitais brasileiros – e suas políticas medievais de ataques e agressões às doulas – são a vanguarda do atraso no que diz respeito à liberdade de escolha.

A menção de que em algumas cidades se insinua que doulas só poderiam atuar se fossem profissionais de saúde (enfermeiras, fisioterapeutas, etc) causou espanto entre elas. A pressão dos consumidores aqui faz com que os hospitais se esforcem para ser “doula friendly” e assim atrair mais clientes.

Não houve em nossa conversa história alguma de médicos rejeitado as doulas ou se negando a atender ao lado delas. Afinal, até a ACOG (a associação dos obstetras) já reconhece oficialmente a excelência do trabalho das “baratinhas”. Isso me dá esperanças de que no futuro tenhamos evoluído nessa direção, mas esse tempo só depende da nossa capacidade de aglutinação e luta.

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