Arquivo da categoria: Parto

Calaboca

 

Nao tenho nenhuma dúvida dos meus inúmeros privilégios, e mais alguns que a maioria nem percebe. Entretanto, nenhum deles me obriga a ficar quieto diante de uma discordância ou mitificar a fala alheia como se fosse dotada de valor inquestionável. Não; reconhecer seus privilégios e de onde provém sua fala NÃO é o mesmo que se calar culposamente e permitir que outra fala seja opressora. Oferecer o contraditório sem jamais atacar os sujeitos de quem discorda é um ato de civilidade.

Sei como começam as desqualificações e o “calaboca” sutil dos grupos que acreditam no monopólio das narrativas – que se expressa pelo desprezo à fala alheia – mas sei também onde terminam. Para mim o “lugar de fala” é um câncer que impede o debate, mesmo que eu CONCORDE PLENAMENTE com a ideia que o sustenta. Entretanto, esse recurso é usado de forma a criar exclusividade de discursos que, por serem incontestes e não sofrerem contraditório, viram dogmas pétreos que EMPERRAM qualquer movimento. E pode citar qualquer movimento libertário pois, mais cedo ou mais tarde, a sedução de ter a fala última (ou única) nos debates impregna os ativistas.

No movimento de humanização do nascimento esse problema ocorreu desde o seu surgimento e certamente 70% da minha reconhecida e inquestionável antipatia vem do fato de que eu NUNCA baixei a cabeça para as pessoas que me mandaram calar a boca, até porque acho que feminismo, parto, nascimento, racialismo, direitos LGBT ou Palestina Livre são assuntos HUMANOS que me atingem direta ou indiretamente, e por essa razão eu tenho o direito – e o DEVER – de me manifestar diante de erros ou condutas que considero equivocadas.

Sobre o fato recente, a morte violenta de um ser humano ME ATINGE DIRETAMENTE, mesmo que eu não seja mulher, negra ou lésbica, porque compartilho com Marielle algo MUITO MAIS IMPORTANTE do que estas diferenças: a minha condição humana. Se é impossível entender por completo a “dor de ser quem ela foi”, existem dentro de mim dores que só eu sei e apenas eu compreendo a dimensão, mas que podem produzir ressonância com as dores dela por similitude, assim como os sofrimentos de tantas outras pessoas. Para isso Terencio já dizia “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”, deixando claro que qualquer experiência do humano existe em todos nós e pode ser despertada pela empatia.

Se as pessoas não entenderem essa ideia simples também de nada adiantará fazerem campanhas por qualquer solidariedade, porque se NADA QUE NÃO SEJA MEU ME DIZ RESPEITO como posso mobilizar alguém na busca por ajuda?

Enclausurada as falas e as ideias e libera-las apenas sos escolhidos é dintimacde degenetacao e fragilidade. Escutar todas as vozes, em especial as discordantes, mesmo respeitando e hierarquizando os lugares de onde provém essas falas é um elemento de sucesso de um movimento.

Sou solidário ao movimento palestino e não passo de um branquelo de origem europeia, mas das vítimas da limpeza étnica só recebo abraços e sorrisos pela minha simpatia à sua luta de libertação. Talvez porque eles não precisem me odiar para forjar uma identidade.

Jamais aceitarei “calaboca” disfarçado de “lugar de fala”.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, violência

Rumos

 

Fatos que teremos de encarar nos próximos anos na atenção ao parto:

O modelo “um obstetra para uma gestante” está moribundo; é um doente terminal. Ele ainda sobrevive apenas a partir de 3 elementos:

  1. A indústria da cesariana
  2. O engôdo do “parto normal se tudo der certo”, uma espécie de falsa propaganda criminosa.
  3. Meia dúzia de abnegados Kamikazes que aos poucos vão se aposentando, sendo excluídos, adoecendo, desistindo por exaustão e/ou desilusão.

“Não existe humanização do nascimento sem humanizar e proteger o trabalho dos cuidadores” já dizia meu colega Max há mais de 30 anos. O futuro aponta claramente para as “cooperativas” de parteiras profissionais ou para as Casas de Parto, com pré-natal coletivo e rodízio de cuidadores para atenção no momento do parto. O resto cai nas possibilidades acima.

Quando terminei meu sacerdócio pela humanização estava atendendo 80 pacientes por ano, o que ultrapassa em muito o número de excelência e qualidade. Não tinha férias tranquilas, nem descanso garantido e sequer paz de espírito em função do bullying. Portanto, o trabalho em equipe colaborativa não se trata sequer de uma escolha a ser dada aos pacientes, mas uma imposição para os próximos passos da atenção ao parto.

O tempo dos abnegados e daqueles movidos por pura paixão está no fim. Aceitemos isso e humanizemos (também) os humanizadores.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Normas e Atitudes

 

“Não esqueçam: humanização do parto não é um protocolo que médicos devem adotar, mas uma atitude que mulheres precisam assumir”.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Profissionalização

 

ProfissionalIzar o trabalho das doulas, com todas as vantagens presumidas e os encargos, custos e obrigações envolvidas, pode ser um caminho óbvio para esta ocupação. Entretanto antes que esforços sejam direcionados para este fim é indispensável debater friamente as suas múltiplas perspectivas.

Provavelmente o que houve de mais significativo na obstetrícia ocidental nos últimos anos do século XX e no início deste novo século foi a incorporação das doulas no cenário do parto com todas as consequências que vieram na esteira desta descoberta. Se antes a ciência médica obstétrica se esforçava para trazer o fenômeno do parto para o reducionismo biológico que lhe caracteriza, a partir da entrada das doulas na atenção ao nascimento esta tarefa se tornou ainda mais complexa.

A introdução de um elemento não químico no evento foi capaz de produzir muitas transformações nos resultados objetivos e isso acabou por demonstrar que os elementos não mensuráveis do parto são – apesar de sua invisibilidade aos olhos desavisados – de valor inquestionável na condução do processo. Havia claramente muito mais do que trajeto, objeto e força. O parto realmente acontecia “entre as orelhas”, e era ali o lugar onde as doulas se inseriam de forma mais marcante.

A doulas produziram uma inegável inquietude nos atendentes de parto e nos hospitais. De intrusas foram pouco a pouco conquistando espaço e ganhando a confiança cada vez maior de serviços que investem na humanização. Sua importância e reconhecimento pela cultura foram crescendo, assim como as evidências de sua ação positiva no cuidado oferecido às mulheres em trabalho de parto.

Com isso seu número proliferou no Brasil. Só o nosso grupo formou perto de mil doulas e os outros grupos que surgiram se aproximam de números como este. O sucesso das doulas foi aos poucos se consolidando até encontrar seu dilema mais óbvio: a profissionalização.

“Ora, pensamos, se médicos, enfermeiras, psicoterapeutas, obstetrizes, psicólogas e técnicas de enfermagem são profissionais, por que não haveriam as doulas – que tanto benefício comprovam nos resultados do parto – de também se tornar uma profissão, mais do que uma ocupação?” Não haveria este upgrade de acrescentar valor e visibilidade ao trabalho que aos poucos vai se fortalecendo?

A primeira questão que eu que trazia, desde 2014 quando ousei me posicionar sobre isso, foi de que não havia vantagens fortes o suficiente para suplantar as inúmeras desvantagens que viriam com esse passo. Tornar as doulas “profissionais” exigiria um número enorme de requisitos e no mínimo duas décadas de luta institucional. Com isso viriam junto os conselhos, sindicatos, burocracias, regulamentações, restrições, códigos, protocolos, sanções, punições, cobranças das várias anuidades (sindicato, conselho, associação), vigilância, currículos mínimos, e muitas outras obrigações que qualquer corporação precisa encarar.

Para profissões tradicionais como medicina, enfermagem, engenharia e direito não havia alternativa: o controle sobre os pares seria inevitável para mantê-los sob rígida vigilância . Mas para as doulas, que fazem do afeto e do contato sua ferramenta mais intensa, que vantagem seria forte o suficiente para suplantar o peso de estarem congregadas em uma corporação? Em contrapartida, é bom lembrar que psicanalistas e técnicos de futebol não são profissões, não desejam ser, e são bem remunerados.

Nenhum, ao meu ver. As doulas precisam ser LIVRES para atender suas clientes, assim como livre deve ser o amor. Nenhuma amarra protocolar deve se interpor entre o livre acesso e escolha de uma gestante por quem haverá de lhe dar esse suporte físico, mas também emocional, amoroso e cálido.

Profissionalizar as doulas lhe retira sua original característica de se estabelecer na interface entre o carinho mais doce e a técnica mais apurada. Normatizar essa ação tem efeito tão deletério quanto regulamentar o desejo.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

A questão das (super) doulas

 

A capacitação de doulas deveria produzir, acima de tudo, um processo de “castração”. Tanto quanto ensinar as ações de uma doula no auxílio direto à gestante as doulas precisam ser orientadas a encarar com dignidade e respeito os seus LIMITES. Doula peitando médico e enfermeira, questionando condutas profissionais e até sequestrado pacientes de hospital já chegaram ao meu conhecimento. A tudo isso entendi como “entusiasmo”, característica da infância de uma ocupação. Passei por isso na infância da minha atuação como médico, em especial pelos dois “furores” principais: o “furor curandis” e o “furor interpretans”, a insânia por curar ou interpretar. Pois muitas doulas passam pelo “furor protetans”, que é o desejo de alguem que se esmera em proteger a paciente das violências institucionais, mas atacando, por vezes, os profissionais no hospital.

Isso não ajuda as doulas e menos ainda as gestantes e precisa ser coibido desde a formação.

Abandonar a obsessão pela “profissionalização” é o caminho que eu ofereci num duro debate em 2014. Naquela época eu já denunciava que não havia sentido em profissionalizar as doulas e a consequente inserção no mundo das corporações. Em pouco tempo as doulas seriam amarradas em torniquetes legais com a criação de sindicatos, conselhos, política corporativa, greves(???), fundo de garantia, regulamentações trabalhistas, etc… até serem sufocadas pela burocracia e pelas lutas internas. Na época eu disse que doula não era profissão (strictu sensu) mas uma ocupação, pelo que que fui prontamente atacado (qual a novidade?).

Pois bem, a atitude esperta dos legisladores de Curitiba (a exemplo do que fizeram em Porto Alegre com sucesso relativo) impôs às doulas uma formação na área da saúde. É óbvio que o objetivo era inviabilizar a atuação das doulas e o grande erro (nosso, do ativismo) foi aceitar essa condição, que nada mais era que um engodo para dividir o movimento de humanização do nascimento. Em Porto Alegre o projeto foi retirado. Acabamos ficando sem uma lei, mas não parimos uma aberração.

A solução, por mais difícil que seja, é mudar esta lei aberrante e não aceitar uma imposição esdrúxula, que não obedece nenhuma experiência ou estudo realizado pelo mundo. Minha ideia é que as doulas devem ser LIVRES de qualquer amarra legal ou corporativa e obedecer apenas ao contrato estabelecido com suas clientes. Pode ser uma postura contra-hegemônica e estranha para um mundo em que muitas ocupações lutam pela profissionalização, mas creio ser a atitude mais inteligente para a solidificação desta atividade na cultura.

As “super-doulas” partem de um equívoco conceitual, ao meu ver: a ideia de que a atividade da doula se sustenta por seu aprendizado cognitivo e racional objetivo, ao invés de ser uma ação de caráter sensitivo, afetivo, emocional e subjetivo. Essas últimas características são amiúde desconsideradas como sendo “não profissionais” e, portanto, não “comercializáveis”. Ledo engano, e a psicanálise que se ocupa em escutar e orientar compassivamente seus clientes é um exemplo disso. Assim, se é de ajuda o arcabouço teórico e prático que uma doula carrega ao oferecer seu auxílio, por certo que não é ele que dará a sustentação para esta árdua tarefa, mas a conexão íntima e pessoal que ela vai estabelecer com a alma da mulher que está em seu momento mais feminino.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto