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Parto e Fotografia

Hoje é difícil de avaliar, mas o impacto há 20 anos passados dos primeiros slideshows sobre parto foi incrível. Eu lembro das lágrimas das pessoas quando assistiam nos congressos que eu participava, e como isso tocava a todos de forma tão intensa.

O parto e sua estética foram redescobertos com a popularização das câmeras fotográficas digitais. Eu lembro de uma aula que fui dar sobre parto normal e parto de cócoras no Hospital da Aeronáutica em meados dos anos 90 e recordo a dificuldade que havia para conseguir imagens de parto. Qualquer uma. Era preciso procurar em livros, ou em revistas médicas para falar de posições, episiotomias, coroamento, etc. A iconografia do nascimento era inexistente, ou dificilmente acessível. A internet virou tudo isso de cabeça para baixo.

Naquela época, algumas mulheres me diziam no consultório que achavam bizarro ter um filho nessa posição “verticalizada” porque o bebê poderia “cair lá de cima”. Então eu me levantava e fazia como o Moyses Paciornik: ficava de cócoras com a bunda quase tocando o chão e dizia para elas fazerem o mesmo. Depois eu explicava que, para o bebê ter espaço para nascer, precisava até subir um pouco as nádegas. Essa demonstração, para muitas delas, era reveladora.

A imagem era um fator impactante para um mundo onde o parto havia sido escondido das pessoas – inclusive as mulheres – pelo processo de medicalização e hospitalização. Quando foi possível enxergar de novo como era um parto, com toda sua potência crua e feminina, foi como um portal se abrindo.

Para poder mostrar às minhas pacientes como era o processo de partos pedi licença para fotografar algumas gestantes no plantão do SUS que eu fazia na época. Esses bebês hoje tem por volta de 25 anos de idade. Eram fotografias com câmera Kodak de filme de rolo comum, e as tenho até hoje, mas na época provocaram um forte impacto nos casais que as viram.

Finalmente eu comprei uma máquina digital jurássica que meu irmão mandou dos Estados Unidos por volta de 1995. Era uma Kodak DC50, uma espécie de tijolo cinza, enorme, que podia tirar umas 7 ou 8 fotos antes de precisar descarregar no computador, e custou uma pequena fortuna (uns 250 dólares) em uma promoção. As imagens eram de baixíssima resolução, mas essa máquina me permitiu fazer os primeiros slideshows com um programinha que vinha em um CD vendido nas bancas de jornal.

Lembro bem da reação que eu tive ao terminar o meu primeiro projeto: estava sozinho no consultório e caí em um choro convulsivo depois de assistir. Então liguei para uma doula amiga minha – e que estava no parto fotografado – e disse a ela que tudo o que a gente passava de perseguição e violência valia a pena, pois o parto era um milagre, uma beleza sem fim. Sim, mais parecia papo de bêbado, mas minha droga era apenas ocitocina.

“Birth is all about rithym” já dizia Penny Simkyn, e a combinação da música com as imagens de parto oferecia a sintonia adequada para acompanhar as modificações fisiológicas, emocionais, psíquicas e espirituais que estavam acontecendo. As músicas, com as imagens sobrepostas, nos faziam viajar nas emoções do parto, reviver cada passo, cada sentimento, cada momento de tensão e cada emoção pela chegada de uma nova vida.

Com o tempo foi possível filmar, mais do que apenas fotografar. Meu filho Lucas, que morava em Londres, comprou uma pequena filmadora e me deu de presente. A partir daí todos os partos eram filmados e todas as pacientes recebiam um CD de presente, o qual chamávamos de “resgate da memória”, para que ela pudesse ver e recordar cada momento que a amnésia da ocitocina lhe havia privado em seu parto.

De todas as coisas que sinto falta na atenção direta ao parto uma das mais significativas é a adrenalina de sentar na frente do computador e viver de novo cada instante do parto que tínhamos acabado de auxiliar. Uma sensação inefável, grandiosa e inesquecível.

Por isso eu sempre digo que sou o sujeito mais afortunado do mundo. Apesar da violência com que minhas propostas foram recebidas, e das injustiças que tive de suportar, passar 34 anos cuidando de gestantes torna a vida de qualquer um valiosa e abençoada.

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Falhas femininas

Os termos “Falta de dilatação” e “falta de leite” são duas faces da mesma moeda, diagnósticos corriqueiros no ciclo gravido-puerperal que servem para desvalorizar o trabalho feminino e jogar as gestantes e mães nas mãos dos técnicos e dos especialistas.

Triste saber que a maior parte desses transtornos nada tem a ver com uma falha na fisiologia materna, mas pela crença na defectividade essencial das mulheres e na incapacidade do sistema de assistência de reconhecer e trabalhar com os aspectos psicológicos, afetivos, emocionais, sociais e espirituais de cada mulher que está a gestar e parir.

Gestação, parto e amamentação são fenômenos sociais e culturais que ocorrem no corpo de uma mulher. Não há como conceber o nascimento apartado do contexto em que ele ocorre. A forma como atendemos este ciclo vital é, em verdade, um espelho muito nítido da sociedade onde ele está inserido.

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Parteiras

Muitos ainda não perceberam a potencialidade revolucionária da parteria. Boa parte de nós ainda está aprisionado aos ícones de Sarah Gamp, uma velha enfermeira-parteira suja, deseducada, grosseira, alcoolista, mal treinada e mal humorada, personagem fictícia da obra “Martin Chuzzlewit” do escritor inglês Charles Dickens. Ou então, nas parteiras adocicadas, solícitas e domesticadas pela obstetrícia nascente do século XX, e talvez por isso mesmo agora seja o momento mais adequado para repensar as novas assistentes do parto. Depois da quase extinção, elas retornam ao cenário do nascimento no Novo Mundo com força renovada, já que na Europa, África e boa parte da Ásia não houve o mesmo extermínio que a tecnocracia por aqui impôs.

O que me parece claro é que a emergência das novas parteiras – que Robbie Davis-Floyd chama de “Parteiras pós-modernas” – vai impor a elas uma inexorável escolha. Podem se adaptar à tecnocracia e seguir a trilha dos médicos na utilização dos instrumentos, do linguajar e da postura. Podem também aceitar com docilidade a posição subalterna ao saber médico, com sua natural ênfase na etiologia. Por outro lado, elas poderão revolucionar a linguagem, a abordagem, a perspectiva e a conexão que estabelecem com as mulheres grávidas e aquelas que estão a parir.

Estar ao lado das mulheres no momento do parto, o qual conjuga em si morte, vida e sexualidade – como dizia Holly Richards – significa tangenciar o sagrado e o mais profundo mistério da vida. Desta forma, aquelas que protegem esse evento acabarão por reconhecer essa responsabilidade e sua destinação para a mudança, no sentido de transcender o patriarcado e, desta forma, transformar o mundo.

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Harpias e Gestantes

“Um criador diz que recebeu há alguns anos uma harpia repatriada da Alemanha. O animal foi trazido de volta ao Brasil porque estava doente e poderia morrer. Assim que chegou ao criatório, Azeredo notou que havia em torno do bico na altura do nariz da ave uma grande quantidade de abelhas. Algumas delas entravam nas narinas. Ao mesmo tempo, ele observou que a harpia passou a respirar cada vez melhor até sarar e que as abelhas retiravam das narinas da ave o material para usar no ninho. (Publicação original: Rogério Marcos Peres Lins, incluindo a foto principal. O texto foi extraído da matéria que pode ser acessada por este link)”

Quando a harpia é retirada de seu habitat, onde ela estabelece relações de mutualismo positivas e benéficas com outras espécies, e deslocada para um lugar desconhecido – por mais sofisticado que seja – ela se desequilibra e tende a sofrer. Os cuidadores não conseguiram perceber a importância dos detalhes mínimos – como as pequenas abelhas que limpam suas narinas e as formigas que higienizam seu ninho – que interagem com as enormes harpias produzindo um meio ambiente positivo para ambos. Assim ocorre porque minimizamos os elementos invisíveis aos olhos desarmados e negamos sua relevância. As complexas relações da natureza são empobrecidas pela nossa incapacidade de perceber a teia imensa de conexões entre todos os seus elementos constituintes.

Pois me permitam avançar um pouco mais além nessa análise: o que dizer das parturientes deslocadas para lugares inóspitos e cuidadas por pessoas muitas vezes insensíveis às suas necessidades afetivas, emocionais, pessoais e subjetivas, pois que reduzem o ato de parir a um fenômeno meramente mecânico, para não dizer defectivo, problemático e perigoso?

Com este tipo de ideologia diminutiva sobre a capacidade feminina de gestar e parir e a negação dos elementos psíquicos envolvidos na parturição, não seria de se esperar que houvesse esse desequilíbrio que agora testemunhamos?

Por certo que sim, e a crise na atenção ao parto nos dias de hoje nada mais é do que a materialização deste tipo de desarmonia na ecologia sutil do nascimento…

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Medo ancestral

“O que transforma o parto em um evento cercado de medo e pânico é a “cultura do medo” que empodera instituições e corporações às custas do empobrecimento da experiência materna e da submissão à tecnocracia – a criação humana que mais se assemelha a uma religião planetária.”

Os médicos morrem de medo do parto.

A formação médica em obstetrícia é centrada na intervenção, até porque foi o uso das ferramentas (a começar pelo fórceps e depois pelo escalpelo na episiotomia) que separou a parteria da medicina. Quanto mais intervém, mais importante parece o trabalho do médico. A própria obstetrícia é – pelas suas origens – a negação da autonomia feminina na parturição. A medicina, ao intrometer-se no nascimento, produz um corte epistemológico profundo no próprio entendimento do nascimento. A partir de então a intervenção seria a regra, e as mulheres entendidas como inerentemente incapazes de dar conta de um evento inscrito em sua biologia. Defectivas, incapazes, incompletas – assim entendidas e assim vistas por si mesmas, as mulheres entregam-se docilmente à tecnocracia que poderá resgatá-las do destino cruel produzido por uma natureza madrasta.

Médicos são educados dentro dessa perspectiva. Julgam-se salvadores por resgatarem as mulheres das agruras do parto, um evento mal planejado e defeituoso em essência. “A natureza é uma péssima parteira”, já falava o patrono da obstetrícia brasileira, Fernando de Magalhães.

Como poderia ser diferente para um médico de pouca experiência onde a ênfase recebida da escola médica não é a normalidade do parto, mas suas franjas, as patologias, os casos raros, os desastres, e as circunstâncias em que podem se tornar heróis? Ao lado deste senso de importância desmedida existe o medo criado por uma visão catastrofista do parto. Mal percebem que a maior parte das catástrofes do parto ocorre pela própria intervenção intempestiva e injustificada no processo de nascimento, desde a patologia da palavra – a verbose – usada durante todo o pré-natal (onde a semente do medo é plantada) até as internações precoces, as drogas, o isolamento, a doentificação, a patologização etc…

Médicos encaram o parto com pavor, pois sabem – como dizia Holly Richards – que ele contempla os elementos mais temidos da cultura: vida, morte e sexualidade. Não por outra razão o atendimento hospitalar ao parto é totalmente ritualizado, sem nenhuma conexão com evidências, mas que usa da padronização, da repetição e do simbolismo para criar uma atmosfera de proteção mística, onde a ação do médico poderia gerar – mesmo que de forma fantasiosa – resultados positivos em um processo cujo resultado é sempre imprevisível.

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