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Zíper

Ainda impactado com as novidades que vivenciei em meu primeiro plantão em um centro obstétrico, encontrei meu pai recostado em sua poltrona lendo um livro e tomando uma xícara de café. Eu não tinha mais do que 20 anos de idade e o contato com o nascimento humano me havia deixado deslumbrado. Mais do que o universo químico, hormonal e mecânico que eu só aprenderia mais tarde, esta oportunidade me havia jogado de cabeça na realidade crua e animal do parto. Em verdade, mal eu sabia que esta experiência me transformaria a tal ponto que seria o funil pelo qual, por muitos anos, eu enxergaria o mundo.

No plantão que fiz como estudante em um pequeno hospital de periferia acompanhei, junto ao médico, o nascimento de uma criança. Lembro até hoje do nome do bebê que nasceu: Maurício. Não pude esquecer porque se parecia com o nome do meu pai, “Maurice”, uma provável homenagem ao cantor, ator e humorista parisiense Maurice Chevalier. A explosão sensorial a que fui submetido foi estupenda. Senti-me catapultado para um estrato de percepção completamente diverso daquele a que um menino ainda adolescente vive em seu cotidiano. As dores, os puxos, os esforços, o suor, o sangue, o líquido da bolsa, o grito, o alívio. Depois o cansaço, a dúvida, as incertezas. Também vi o abandono e a superação, todos juntos e embrulhados em um pacote chamado “vida”.

– Acompanhei um parto ontem no hospital, disse-lhe eu, fingindo uma naturalidade que evidentemente era falsa.

– Humm, disse ele. Que tal?

– Interessante, respondi.

– E como é? Em verdade eu sou do tempo em que os pais eram proibidos de entrar em um centro obstétrico. Mas, para ser sincero, nunca me passou pela cabeça assistir algo assim. Mesmo se tivesse esse direito eu declinaria. No nascimento dos meus 4 filhos minha única preocupação sempre foi saber se havia gasolina no carro para levar até o hospital. O resto era com as freiras e com os médicos.

– Eram outros tempos, disse eu. Pois é muito curioso ver uma criança nascendo. A dilatação, o aparecimento da cabeça, o corte no períneo para permitir a saída e o nascimento e depois os pontos para fechar o corte.

– Corte na vagina?

– Sim, se chama “episiotomia”.

Ele parou alguns instantes, tomou um gole de café. Ficou me olhando com uma face desconfiada. Por fim, perguntou:

– Como é feito este corte na vagina?

– Com bisturi ou tesoura. Fazemos assim para não estragar a vagina. Se o corte não for feito os tecidos esgarçados pela passagem da cabeça podem se romper de forma errática, destruindo a anatomia dessa região, o períneo. É uma forma de “civilizar o parto” que, de outra forma, poderia trazer danos para a mulher.

– Hummm, respondeu ele coçando a cabeça. Ok, eu entendi, mas com qual material é feito esse bisturi? E a tesoura?

– Creio que de aço inoxidável, por quê?

Ele sorriu e respondeu:

– Sua história não faz sentido. Não consigo entender como poderiam usar aço inoxidável para fazer isso.

Eu sabia que havia um truque em sua pergunta, mesmo assim resolvi continuar.

– Qual o problema? Queria que usasse outro material? A questão é que nos hospitais a esterilização e as autoclaves pre….

Ele me interrompeu com a mão espalmada a frente.

– Calma, não estou fazendo críticas ao material, mas não consigo entender como um processo fisiológico e natural como o parto precisa de uma ajuda tecnológica que tem apenas algumas poucas dezenas de anos. Para mim, ajudar tecnologicamente um parto é como furar o nariz para aumentar a passagem de ar, como se nossos narizes fossem insuficientes, defectivos e falhos. Como o processo adaptativo de milhões de anos se esqueceu de dotar as mulheres de um “zíper” neste local para auxiliar na passagem de um bebê? Como as parteiras primitivas cortavam o períneo na pré-história? Com pedra lascada?

Tomou mais um gole de café e continuou a me bombardear com perguntas desconcertantes.

– Como podemos admitir que um processo fisiológico e natural necessita de um “conserto” que só vai ocorrer milhões de anos depois? Essa conduta – romper as vaginas para alargar a passagem – me parece insensata se formos analisar por uma perspectiva darwinista. Onde estava o processo evolutivo que não olhou para as mulheres? Por que a natureza se esqueceu delas e ficou milhões de anos aguardando um garoto como você para ajudar estas senhoras a terem filhos?

Para um eletricitário aposentado ele tinha uma observação muito objetiva da realidade. Eu fiquei sem entender sua posição e por causa disso resolvi fazer o que qualquer um faria: desconsiderei sua fala acreditando ser apenas uma tolice produzida por alguém que não conhecia o tema em profundidade. Troquei de assunto e contei as outras peripécias do meu dia de plantão.

Corta a cena e, oito anos depois, eu fazia plantões – agora como obstetra – em um hospital de periferia. Depois de costurar um períneo na madrugada lembrei das ponderações do meu pai naquele encontro regado a café. Pensei na sua observação e nas suas exatas palavras: “Não faz sentido”. Questionei solitariamente os significados últimos desse procedimento e o que lugar ele ocupava na narrativa contemporânea da obstetrícia. Lembrei de suas origens com De Lee e a emergência da obstetrícia como especialidade médica, ao mesmo tempo em que ocorria o ocaso da parteria. Alguns anos depois Robbie Davis-Floyd escreveria “Birth as an American Rite of Passage” e este enigma, em minha mente, seria solucionado. Antes disso, no início dos anos 90, durante a solidão de um plantão de periferia, eu decidi que não faria mais episiotomias de rotina, que não mais perpetuaria um procedimento que, lentamente, ia se configurando como uma real violência contra as mulheres e sua integridade física. Naquele exato dia, com as lembranças da perspectiva do meu pai sobre esse procedimento, eu abandonei essa prática.

Ainda perplexo pela minha decisão, resolvi escrever nas costas de um manual de obstetrícia, um código pessoal de conduta para os procedimentos obstétricos. Procurei ser o mais sucinto possível e escrevi uma lista que se baseava em cinco pontos capitais, sendo o sexto adicionado apenas 10 anos depois quando do surgimento das doulas no Brasil:

1- Ambiente acolhedor

2- Posição vertical como padrão

3- Suporte físico e emocional

4- Uso restrito de drogas

5- Uso restrito de intervenções

6- Auxílio de doulas

A observação do meu pai havia plantado uma semente de dúvida sobre o que era o proceder médico. Pude enxergar que tais procedimentos são baseados no que eu mais tarde chamaria de “misoginia essencial”, que pode ser definida como a incapacidade da sociedade patriarcal em reconhecer as mulheres como intrinsecamente capazes e aptas para suportar os desafios que lhes cabem, em especial aqueles ligados à reprodução.

Por fim, eu entendi que a tarefa de auxiliar as mulheres durante o parto passava por uma compreensão da real posição de um cuidador: aquele que deve estar ao lado, invisível, como feito de vidro, para que suas intervenções não venham a ofuscar a luz que emana daquelas que devem brilhar.

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Vigilância fetal

Sobre vigilância fetal:

Minha pergunta é simples, até singela: haverá uma justificativa comprovada dos benefícios da vigilância ostensiva sobre o bem estar fetal se forem retirados todos os condicionantes tecnocráticos da assistência ao parto?

A ausculta fetal faz parte do cenário da assistência ao parto, assim como os exames de toque sequenciais e sistemáticos. Estes últimos só agora – e muito timidamente – começam a ser questionados. Já a ausculta se mantém intocada e impávida. Ambos os exames produzem poderosas mensagens subliminares: o profissional é quem diz do andamento do parto, e estabelece o bem estar do bebê. Só ele tem o livro de códigos para saber o que houve, quanto falta e se tudo está bem. As mulheres e seus maridos são passivos observadores da tradução que o profissional faz a partir destes sinais. Um poder gigantesco, acreditem…

Porém, sempre houve em mim uma dúvida corrosiva sobre a real necessidade destas invasões, ou quais os limites desta intervenção. Se fosse possível eliminarmos o stress, o isolamento (físico e psíquico), o medo, o pânico induzido, a separação, as drogas indutoras, os anestésicos, a linguagem agressiva e a própria hospitalização – ápice da objetualização da gestante – continuaria sendo válido o tratamento do bebê como “bomba relógio”, prestes a explodir? Qual o real percentual de bebês que produzem transtornos perceptíveis em partos livres do artificialismo da medicina atual? Talvez ninguém tenha essa resposta…

Quem sabe esta ação panóptica sobre o bebê se justifica apenas pelo ordenamento tecnológico que o antecede?

Será esta ausculta o resultado natural que criamos para remendar o estrago anterior criado pela profunda desnaturalização do parto pelas culturas contemporâneas?

Parto desnaturalizado = punch 1
Vigilância fetal = punch 2

Ou…

A polícia brutal que temos e a vigilância sobre pretos e pobres não é o resultado da sociedade de classes? Eliminadas as castas e a brutalidade de sua injustiça quanto ainda precisaríamos de polícia?

Creio que tratamos como necessidade o que é, em verdade, a criação artificial derivada de uma deturpação.

Não é?

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Simpatia

Eu sempre disse que na próxima encarnação vou escolher a simpatia como a minha mais expressiva virtude. Mas não bonito, porque um cara simpático e bonito está a um passo de se tornar um canalha, ou um chato insuportável. Muita tentação…

Digo isso porque, ora, chega de ser antipático. Essa é uma sina horrível. Ninguém jamais se lembra de você pensando “Ah, que legal ele, que simpatia!!”. No máximo dizem “Um cara gente boa, apesar daquela antipatia colossal, mas láááááá no fundo se descobre uma boa pessoa”.

Para todas as pessoas da área médica que se aproximavam de mim – entre emocionadas ou apenas interessadas – depois de uma palestra sobre o tema da humanização eu apresentava a mesma cara sem entusiasmo, e até com certa reserva. Antipático, diriam… mas era de propósito uma apatia forçada, apenas porque eu sabia muito bem o preço de ser o que se é.

Eu tinha plena consciência de que falar de parto mobilizava emoções e que as pessoas poderiam ficar prisioneiras destes sentimentos. Não queria ouvir declarações de amor como as que acontecem a bordo de Cruzeiros no Caribe, mas que se dissolvem mal encontram a crueza do chão firme ao atracar no cais.

Sim, eu afastava de caso pensado os curiosos e os emocionados, esperando reter apenas aqueles que entendiam o projeto da parteria com a razão, e a seara da humanização como uma terra árida e inóspita. Muitos foram os casos em que vi colegas desistindo diante do primeiro nariz torcido ou diante de uma “egípcia” recebida dos colegas. “É muito bacana isso tudo, mas tenho uma carreira e uma família. Não tenho sua coragem“, diziam eles.

Como discordar dessa sinceridade? Como condenar o desejo de ter uma vida tranquila onde bastaria levantar os braços e aguardar que a própria corrente de águas cálidas o levasse adiante? Por que deveria eu insistir para que dedicassem sua vida a uma proposta que os deixaria desprotegidos, sem dinheiro, sem horas de folga, sem respeito dos colegas e sujeito a todo tipo de acusações? Seria injusto…

Como um psicanalista velho eu avisava: “Você está muito bem adaptado. Volte quando estiver em pedaços”.

Meu olhar seco carregava uma mensagem: “Se a vida dentro do paradigma hegemônico lhe permite uma vida boa, sem culpas e sem angústias, não o abandone por minhas palavras cheias de paixão reformista. Siga seu caminho em paz e seja feliz. Entretanto, se a sua atitude profissional lhe causa dor, se a cada cesariana realizada você sofre a oportunidade perdida, se a expropriação do momento máximo da feminilidade é sentido com vergonha, então nenhuma cara feia vai fazer você parar. Minha carranca e minhas palavras insossas não impedirão que busque seu caminho.”

Assim foi por 20 anos de trajetória, fugindo da simpatia sedutora e dos caminhos mais fáceis, exatamente porque nunca duvidei da potência renovadora da humanização e do protagonismo garantido às mulheres, mas sempre soube que jamais seria perdoado por pensar assim.

Para Caroline Chiarelli

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Esboço de uma historiografia da Humanização do Nascimento

Foi em 1999 eu encontrei pela primeira vez as pessoas da minha tribo. Após atender o parto de Cristina Balzano Guimarães em Porto Alegre ela me contou saber da existência de um congresso que se realizava todos os anos no Rio de Janeiro, apenas com pessoas que desejavam trabalhar com a humanização do nascimento. Nesse congresso apareciam pessoas de várias áreas de conhecimento não apenas da medicina. Suas palavras reforçavam minha ideia, há muito acalentada, de que o parto não era um ato médico como fui levado a acreditar na Escola de Medicina, mas um evento para muito além dessa caixa pequena da medicina. Parto era um evento humano, onde concorriam muitas formas de saber, e cuja complexidade não poderia jamais ser amarrada a uma forma apenas de entendimento.

Até o aparecimento desse convite de Cristina foram 13 anos da mais absurda solidão, sem contato com nenhum outro profissional que tivesse ideias semelhantes às minhas. Nunca houve durante a minha formação profissional qualquer médico que ousasse questionar a exclusividade da atenção ao parto na mão dos médicos. Jamais algum profissional – entre professores e colegas – questionou as múltiplas intervenções sobre o corpo da gestante, quanto mais o direito de recusa e consentimento informados por parte dela ou da família. Toda forma dissidente de compreensão do parto era tratada com escárnio, deboche e menosprezo. Não havia sequer espaço para a contestação: o parto humanizado era o terraplanismo da obstetrícia.

Por certo que nos meus anos de formação não havia internet, nem redes sociais. “Rede social” era “rádio corredor”, que era a “fofoca institucionalizada”. Aliás, o nível tóxico de maledicência, vaidade, luta por poder e fogueira de vaidades durante a minha passagem pela universidade foram parte das razões por ter fugido da vida acadêmica, apesar dos inúmeros convites para fazê-lo. Para além disso, eu reconhecia a maldição que meu pai havia vaticinado há muitos anos sobre a minha pessoa: a marca da rebeldia. Não, não tomem como elogio, era algo realmente maldito, uma força compulsiva de questionar os poderes estabelecidos, a incapacidade de receber ordens, a fúria pelas injustiças e a sede de transformação. Todavia, pelos relatos até de familiares meus que ingressaram nessa carreira, a vida acadêmica se mostrava muito mais próxima de uma organização eclesiástica do que com uma fonte de ideias renovadoras e criativas. Não foi difícil para mim perceber a característica conservadora da Academia e, mais ainda, seu sistema de poderes. Achei que viver sob a pressão que se produzia nas Universidades não se encaixava no meu temperamento, mas ainda hoje tenho profunda admiração por muitos colegas que lá trabalham e militam.

Nos “anos heroicos” da humanização do nascimento o “congresso da Fadynha” era o nosso porto seguro. Eu sempre comparei minhas idas a este encontro anual como um jovem homossexual que, vivendo numa cidade do interior, pela primeira vez entra num “club gay” e descobre que existem outros que pensam e sentem como ele. O congresso era muito pequeno, talvez 100 e no máximo 200 pessoas, absolutamente artesanal. Tudo recaía nas costas da organizadora, Maria de Lourdes, chamada carinhosamente de Fadynha, uma hippie sobrevivente dos anos “paz e amor”, que dedicou sua vida na defesa do parto livre. O ambiente era absolutamente “bicho grilo”, o que para mim era desconfortável na época, mas que nas memórias aparece como uma das características mais deliciosas dos encontros. Sim, tinha Hare Krishna, tinha gente de manto, tinha turbante, tinha culto ecumênico, tinha sessão de Yôga. Era um clima de abertura sensorial, como um pedido aberto para os participante se questionarem “se o parto pudesse ser diferente, abra sua mente e imagine o cenário perfeito“.

Na época as viagens eram muito mais complicadas. A gente marcava hotel por telefone, comprava passagem de avião na loja da Varig no centro da cidade, pagava o congresso na hora (em dinheiro ou cheque) mas era sagrado participar do congresso da Fadynha. Não tinha dinheiro para estadia ou para pagar a viagem, e os palestrantes tinham que pagar sua inscrição também. Os temas eram simples, muito mais depoimentos de profissionais que estavam atuando de forma mais “fisiológica” do que debates técnicos com autoridades nacionais ou internacionais. Éramos muito singelos na forma de pensar, e os congressos funcionavam como uma catarse em grupo para desovar indignações e sonhos. Alguns temas seriam considerados absurdos hoje em dia. Lembro uma vez que uma advogada do grupo “SOS Erro Médico” foi chamada a palestrar e o tema de sua fala foi “processar médicos que deixam passar da hora e não fazem cesariana por cordão enrolado no pescoço“. Ai, ai, ai… Ficava claro que a pura indignação diante dos desmandos da obstetrícia contemporânea e da falta de vinculação com as evidências científicas eram insuficientes para levar adiante um projeto de renovação na atenção ao nascimento.

Neste tempo, início do milênio, também não havia uma clareza sobre partos conduzidos por enfermeiras e o tema do parto domiciliar era quase desconhecido. Vivíamos o debate ainda da “Casa de Parto 9 Luas”, uma experiência interessante mas que sucumbiu por questões administrativas – foi assim que lembro até hoje – mas que não era uma Casa de Parto (no conceito de parteria que temos hoje), e sim uma clínica de nascimentos que tinha até bloco cirúrgico.

Parto domiciliar era tabu, e a grande estrela desse tema uma moça que morava na Itália e pariu no Rio de Janeiro com uma obstetra chamada Stella. Certamente que ela teve sua importância na emergência desse debate. Éramos todos entusiasmados e profundamente ingênuos. Sabíamos o que não queríamos, mas não exatamente qual era o nosso Norte. Não se falava em “protagonismo” da mulher – essa vinculação com o conceito de autonomia estava ainda muito embrionário – mas em boas práticas, como abolir episiotomias, diminuir cesarianas, parto de cócoras, marido presente, etc.

O movimento de doulas (apesar de já existirem doulas, como Fadynha e Lucia Caldeyro, entre outras) surgiu em 2002 quando Maria Helena Bastos trouxe a Debra Pascali-Bonaro para um curso de formadoras no Rio, e a partir deste ponto o movimento explodiu como um rastilho chegando no barril de pólvora. A partir da entrada de um gigantesco contingente de mulheres leigas, fora do mundo da assistência ao parto, o movimento ganhou as ruas, as vozes se multiplicaram e as mulheres foram finalmente incorporadas mais diretamente ao debate. Depois disso, a criação da Escola de Obstetrizes da EACH (USP Leste) foi outro grande passo, protagonizado pela professora Dulce Gualda.

A criação dessa história corria paralelo nas listas de discussão nesta ferramenta fantástica criada pelos List Servers. Ali se brigava, se xingava, se debatia, se conhecia gente, se exibia, se crescia nos conceitos. Foi outro fabuloso propagador da boa nova, no alvorecer do milênio.

Já está na hora da história da humanização do nascimento ser escrita, mas o medo que sempre tive foi com a parcialidade dos relatos. O que escrevi acima é um bom exemplo. Está foi a minha perspectiva, de um profissional da medicina, do sul do país, isolado e numa época em que os contatos pessoais eram muito difíceis. Essa história poderia ser coordenada por alguém de qualquer área ou latitude, mas precisaria contemplar as múltiplas perspectivas deste movimento nascente. Como aconteceu esse movimento nos diferentes estados, quais as diferenças locais que produziram entraves e facilitações? Quais as personalidades que produziram mudanças reais e quais não – e por quê?

Esta historiografia seria fundamental para que nossa experiência acumulada de lutas pudesse frutificar, mas precisaria ser um trabalho coletivo. Nesse aspecto, esquecer nomes pode ter um efeito dramático. Como eu disse anteriormente, somos dotados dessa capacidade (única na espécie humana) de acreditar sermos mais importantes do que realmente somos, e isso faz com que pequenos esquecimentos possam produzir grandes transtornos e mágoas.

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ACOG e doulas

“Dados publicados mostram que uma das mais efetivas ferramentas para melhorar os resultados de trabalho de parto e parto é a presença contínua de uma pessoa de apoio, como a Doula” American College of Obstetricians nas Gynecologists.

Durante 20 anos a comunidade do médica e o pessoal hospitalar (com notáveis e maravilhosas exceções) boicotou a presença de doulas, mesmo quando os dados já estavam presentes mostrando a efetividade destas na atenção ao parto. Para essa negativa, nunca houve uma real preocupação com a proteção da gestante, a qualidade do atendimento ou a preservação do espaço hospitalar. Jamais a preocupação foi a experiência subjetiva da gestante ou sua proteção. Não era esse o medo…

A REAL questão em jogo era o poder, o domínio inquestionável e sem obstáculos sobre o corpo da gestante. A presença da doulas – por mais silente e reservada que fosse – representava a vigilância da sociedade sobre esta apropriação. A presença doulas inibe abusos, impõe que o consentimento informado seja obedecido e exige respeito dos profissionais sobre direitos reprodutivos e sexuais. Para além disso, elas usam técnicas de conforto, alívio da dor e reasseguramento emocional que muitas vezes são a grande diferença na experiência subjetiva de parto da mulher. Algumas que conheci eram verdadeiras rochas de confiança e segurança para os momentos de fraqueza (até dos profissionais).

O reconhecimento público do valor das Doulas feito por uma instituição de caráter conservador e fortemente corporativista como a ACOG mostra que não era mais possível esconder (como fizeram por mais de 20 anos) a qualidade superior do atendimento que se alcança com o trabalho das doulas. Isso coloca as doulas em outro patamar, próximo das palavras proféticas de John Kennell:

“Se doulas fosse uma medicação, seria antiético não utilizá-las”.

Agora, qualquer obstaculização ao livre trabalho destas auxiliares nos hospitais deve ser denunciado ao Ministério Público da mesma forma como se denuncia uma injustificável negativa de socorro.

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