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Distopia do parto

“Quando o absurdo se torna a regra nós perdemos a capacidade de perceber o quão distante estamos do normal. No Brasil se alguém relatasse que um hospital tem 70% de partos vaginais todos soltariam foguetes e comemorariam, mas isso significaria também que a taxa de cesarianas deste mesmo hospital estaria entre o DOBRO e o TRIPLO do valores recomendados pela OMS. Que fique claro: este lugar sequer existe.

A atenção ao parto inserida na medicina e no capitalismo produziu um monstrengo que, de tão deformado, impede que se perceba sua forma original. Uma construção social feita da matéria prima dos medos, controle social e submissão, envolta no tecido puído e desgastado do patriarcado decadente. Ou, seguindo a ideia de Baudrilhard, um mundo material que desapareceu deixando em seu lugar apenas um mapa, imagem deformada da verdade, que desenhamos de acordo com nossas conveniências egoísticas. O real desapareceu para fazer surgir uma distopia autocida.”

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Doula é Conexão

Percebam que os grandes estudos envolvendo o trabalho de doulas, como na África do Sul e nos Estados Unidos, utilizaram amigas, tias, irmãs, parceiras, mães e sogras sem qualquer tipo de preparo ou formação específica. O “efeito doula” ocorria a despeito de qualquer conhecimento técnico operacional. Não há nenhuma obrigatoriedade – pelo menos no que diz respeito às evidências científicas – de que doulas tenham formação na área da saúde, que conheçam ciclos femininos, entendam da anatomia envolvida, aprendam a fisiologia do parto ou mesmo que tenham educação formal. Doulas podem ser (e muitas são) analfabetas, e mesmo assim serem doulas maravilhosas .

O efeito positivo das doulas não se dá pela via técnica ou cognitiva. Seu efeito ocorre majoritariamente como apaziguadoras de tensões, pela identificação com a mulher e sua crise vital e através do suporte incondicional que oferecem. Todo o resto – as massagens, posturas, posicionamentos, técnicas de alívio da dor, acupressura etc – são o verniz intelectual, uma fachada racional que pode ser extremamente útil, mas que jamais será o centro da ação das doulas ou a razão essencial para o sucesso obtido com o auxílio que prestam.

Um médico pode ter todos os equipamentos e as técnicas, mas se não tiver o conceito de “fraternidade instrumentalizada” como norte de sua atuação jamais deixará de ser um “técnico em medicina”. O mesmo ocorre com as doulas; sem a vinculação emocional, afetiva, psicológica e espiritual as doulas não passam de “auxiliares técnicas”, cuja eficiência sempre poderá ser barrada pelos corpos que se fecham pela falta de sintonia.

O segredo da doula está nessa vinculação emocional, profundamente feminina. Toda técnica será meramente acessória e poderá até ser inútil caso não venha acompanhada da conexão psíquica e íntima que ocorre no parto entre uma doula e a mulher em suas dores.

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Feminilidade essencial

Quando e por quê tornamos o parto uma patologia que merece ser tratada e medicada?

“A construção da percepção patológica do nascimento na cultura ocidental, e a subsequente aceitação desta visão pelas mulheres, é um dos capítulos mais fascinantes da história do feminino no ocidente, e um dos menos estudados. Entretanto, a plena libertação das mulheres dos entraves da cultura patriarcal não se dará negando seus aspectos essenciais. Pelo contrário; será pelo mergulho profundo na feminilidade vibrante de seus ciclos e pelo reforço de suas especificidades.”

Marguerite Keller, “Wolves over the prairie”, ed. Cabell, pag. 135

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Partos e Obras

Há alguns anos o empreiteiro que construiu minha casa pediu que eu comprasse uma substância para passar no madeirame do telhado. “Quantos galões?“, perguntei eu. Ele coçou a cabeça, calculou mentalmente e respondeu: “Seis serão suficientes“. Saiu caro, mas comprei conforme sua indicação.

Muitos anos depois fiz uma reforma na casa e perguntei se precisaria comprar de novo aquela substância. O pedreiro que estava me acompanhando na época respondeu que sim, seria conveniente. Perguntei mais uma vez a quantidade, e ele respondeu sem titubear: “Um galão dá e sobra para tudo isso aqui“. Meu antigo empreiteiro usou o produto que comprei para a minha casa e mais cinco outras…

O mestre de obra que está à frente da reforma da Escola da Comuna me diz: “Precisa comprar mais canos, porque com a vazão da água do telhado, a drenagem…” e tudo que eu escuto é “Precisa uma cesariana porque o batimento e a posição do bebê…

A realidade é que ficamos inexoravelmente nas mãos dos especialistas. Não apenas porque sabem mais e conhecem as técnicas e as “manhas”, mas por terem o “conhecimento autoritativo” aquele que lhes garante o reconhecimento social e a responsabilidade de fazer e acontecer.

A qualidade técnica é essencial, não há dúvida sobre isso. O estudo, o aprimoramento, a sede pelos novos conhecimentos, o capricho, o detalhe e a delicadeza são primordiais. Entretanto, todos estes valores sucumbem rapidamente diante de sua base de sustentação: os valores éticos de uma profissão.

No meu tempo de estudante era comum dizerem: “Dr Fulano é um cavalo, um animal vestido, mas é um ótimo cirurgião.” Nunca acreditei nessa tese. O Dr Fulano dominava técnicas manuais e tinha experiência como operador, mas carecia dos elementos fundamentais que configuram um bom profissional: a conexão visceral com os preceitos éticos de beneficência e da não maleficência. Muitos são técnicos; operadores e prescritores de drogas, mas não são médicos na verdadeira extensão dessa função social.

Antes de escolher o mestre que levará adiante o sonho de uma escola de comunidade é importante conhecer o sujeito dentro do profissional, para poder confiar que suas decisões serão tomadas tendo a ética como norte. Para escolher alguém que estará tomando decisões sérias e delicadas diante do mais espetacular e decisivo evento de uma família – o nascimento de seus filhos – é essencial que se conheçam os profissionais e as vinculações éticas que estabelecem com o próprio trabalho.

Sem isso serão tão somente técnicos sem o brilho que se espera de alguém que será testemunha de uma revolução emocional e espiritual de tamanha amplitude.

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Aprender

Imagina um sujeito que questionava as rotinas insensatas da atenção ao parto – como as episiotomias, o kristeller, as cesarianas abusivas, o corte prematuro de cordão, o afastamento precoce da mãe e do bebê, as vacinas usadas imediatamente após o parto, as rotinas de afastamento etc. – há 30 anos e demonstrava que todas elas faziam parte de uma mitologia médica sem qualquer evidência científica que as justificasse, que apenas serviam aos interesses de uma corporação e ao patriarcado na sua missão de expropriar o parto da mulher. O que aconteceria com um profissional assim? Não é difícil de imaginar…

Pois esta semana eu li um conceito que me chamou a atenção, e que veio em forma de questionamento. Era sobre a ideia – felizmente ainda não colocada em prática – de colocar crianças na escola aos 6 meses de idade e ensiná-las a caminhar com a ajuda de professores e através de equipamentos sofisticados de “auxílio à marcha”. O que aconteceria se as crianças aprendessem a andar com esses profissionais, em vez de o fazerem junto à sua família, em suas casas, como uma experiência afetiva e familiar?

Pois eu afirmo que bastariam duas gerações para passarmos a acreditar que somente com uma escola especializada seriam os bebês capazes de aprender a andar. O ensino domiciliar poderia até ser proibido.

Imagina, aprender em casa, sem professores, sem equipamentos!! E se uma criança cair? E se um bebê morrer? Aprender em casa é coisa da idade média!!! Estamos no século XXI, não podemos mais aceitar modismos perigosos!!

Parece familiar?

Não seriam necessárias mais do que poucas décadas para que o aprendizado “natural” e “fisiológico” de andar – que sempre foi feito através do afeto e respeitando aos tempos subjetivos (10 meses? 11 meses? 1 ano? Qual a diferença?) – desaparecesse por completo. Os estudos sobre o mecanismo da marcha seriam feitos apenas em escolas, comparando métodos de ensino entre si, mas negando a existência de um método multi milenar que sempre nos acompanhou, pois que este agora seria tratado como exemplo de atraso e perigo.

Sabe qual o resultado óbvio dessa aventura tecnocrática? “Disfunção de marcha“, atraso no desenvolvimento, problemas de equilíbrio e desenvolvimento muscular, da mesma forma como a intervenção médica abusiva sobre os ciclos vitais criou os problemas no parto e estimulou o desmame precoce. Pior, nós acabaríamos formando mais especialistas para tratar os graves problemas de marcha e equilíbrio que criamos, porém não de forma crítica e responsável, mas acrescentando ainda mais intervenções para manter intocado o poder sobre os corpos, desnaturalizando dramaticamente nossas experiências de vida.

A crítica aos limites da intervenção só pode ser feita com coragem e determinação. A expropriação da natureza humana em nome do poder consagrado aos “especialistas” precisa ser desafiada, para que não destruamos o pouco de humano que ainda resta em nós.

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