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Usufruto

 

“A cultura enxerga o corpo da mulher como usufruto de todos, por isso é exposto, vendido, adorado, perseguido e manipulado. Já o corpo da mulher grávida é de todos, menos dela mesma. A sociedade diz: “A gravidez é um evento grandioso demais para ser confiado às mulheres. O fato de elas guardarem para nós os bebês não pode lhes garantir o direito de tratar seus corpos-cofres como bem desejam”.

Um corpo grávido é um bem social, e a grávida um estorvo e um risco ao nosso patrimônio.”

Ric Jones, “Atirem no Mensageiro – Crônicas à beira do abismo“, pág 135 (no prelo)

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Deslumbramento

 

Exatamente por ser tão importante e criativa a função das doulas na construção de uma psicosfera positiva para o parto é que se torna tão fácil que elas caiam no deslumbramento de sua ação no parto. Por outro lado – e isso foi lembrado por muitos – essa constatação não é uma exclusividade das doulas; elas são apenas as últimas personagens a adentrar o cenário do parto e do nascimento. Os médicos há bem mais tempo, ao afirmarem que “fizeram” o parto de fulanas e sicranas, também se deslumbram com sua arte, ao ponto de despudoradamente expropriarem o evento da mulher. Essa “couvade” contemporânea facilmente nos leva à inveja recôndita e ancestral que os homens carregam da parturição, apanágio do mistério feminino. Até mesmo as parteiras, profissionais ou tradicionais, com muita facilidade escorregam no próprio encantamento e se acreditam mais importantes do que verdadeiramente o são.
 
Todavia, não se trata de desmerecer a atuação de nenhum desses personagens que constroem o “circulo de apoio” que milenarmente ofereceu o suporte psicológico, físico, emocional, técnico, social e espiritual para o parto, desde que adentramos o universo da linguagem. Trata-se apenas de estabelecer limites à nossa atuação, para que nossa emoção diante do milagre da vida não carregue – escondida entre lágrimas e emoções – a semente da vaidade desenfreada, que colide frontalmente com o principal atributo de um cuidador: a humildade.
 
A luz que emana do parto, criada a partir da emissão de energia bruta de amor e superação, não pode ser eclipsada pela vaidade daqueles que o acompanham. Para isso é necessário que seja exercitada cotidianamente uma postura de respeito e veneração ao trabalho da mulher.

Doulas, parteiras, médicos que desejam brilhar deveria se inscrever no “big brother“. Não é função desses personagens brilhar, mas tão somente refletir. O brilho só pode vir da mãe, caso contrário não passa da mesma velha expropriação, agora com novos atores.

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Transformações

Se o parto em si é incapaz de imprimir transformações positivas na carne e no espírito de quem é ultrapassado por sua energia então, por coerência, NENHUMA ação humana é capaz de abrir QUALQUER porta de percepção. Não é justo esperar tal processo através da chegada de um filho, por amar alguém, por ser amado em resposta, por lutar, vencer, conquistar ou alcançar um sonho. Não existe luz ou transcendência própria em nenhuma coisa, nenhum evento, NENHUM acontecimento.

Pode ser, mas precisamos forçosamente reconhecer que, de outra parte, qualquer evento é capaz de oferecer essa elevação, esse defenestrar, esta transformação, este deslumbramento, desde que o sujeito que delas participe se permita tocar pela sua força transformativa.

Nenhum evento em si, por mais fulgurante e esplendoroso que seja, é capaz de produzir mudanças; só o sujeito podem se transformar diante dele, desde que esteja pronto para tanto.

Não é?

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Violência exposta

“Da mesma forma como o horror do holocausto judeu da II Guerra ou o genocídio planejado de Palestinos em Gaza precisam ser mostrados para que do choque se faça consciência, também precisamos mostrar a indignidade e a violência (real e simbólica) contra as mulheres que procuram maternidades para dar à luz. Só assim exposta e visível a violência obstétrica poderá ser reconhecida, nominada, assumida e por fim combatida e eliminada”

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Expectativas

expectativas

“É comum acreditar que um parto será “lindo” na dependência do que desejarmos. A prática nos mostra que, mesmo acreditando na importância dos desejos e projeções maternas, eles não são suficientes para garantir o destino de um nascimento. Parto é algo que acontece entre as orelhas, de uma forma subjetiva e única. Sua manifestação se encontra alicerçada no inconsciente, como qualquer outra manifestação da sexualidade humana. Assim, não há como se valer dos desejos expressos sem levar em consideração o universo de sensações, memórias da pele, lembranças, frases, marcas, sentimentos, sons, ruídos, luzes e cores que constituem nossa arquitetura psíquica.

Só o que podemos fazer diante das demandas por experiências criativas e enriquecedoras é não criar falsas expectativas ou garantias ilusórias de um parto maravilhoso. Nem todos podem passar pelo parto como desejam: ele é um projeto que se consolida durante toda uma vida.

Estar preparado para as frustrações é sinal de maturidade e uma condição essencial para quem deseja se aventurar no campo da maternidade. Auxiliar na construção de uma experiência positiva e realista é dever de todos que se dedicam a acompanhar esta jornada”.

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