Arquivo da categoria: Parto

Prisões

“A prisão mais efetiva é aquela que vem fantasiada de liberdade”.

Será uma tarefa difícil convencer a população de que a “liberdade” de escolher cesarianas em verdade esconde a subordinação das gestantes aos interesses de instituições e corporações. Tudo isso para que o nascimento continue propriedade dos profissionais e sob o controle da medicina.

Em verdade a falsa “liberdade de escolha” das gestantes que escolhem a cesariana tem tanto sentido quanto escolher o Bolsonaro pela sensação de ter votado contra o “sistema”.

Não… escolher cesariana é abraçar-se ao sistema mais alienante e que mais agrada ao modelo patriarcal dominante. Contrário senso, a escolha pelo sexo, pela alegria, pela indignação e pelo parto normal são opções de enfrentamento a um modelo social injusto em nome da liberdade e da autonomia.

Se você não conhece suas escolhas elas não são escolhas verdadeiras, mas opções que alguém determinou para você.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Teta

Vi há pouco o vídeo da movimentação da língua de um bebê recém-nascido dormindo, simulando os movimentos da amamentação. Minha observação foi:

“Sonhando com teta, um sonho que vai acompanhá-lo por toda a vida”.

A ideia por trás desta observação é de que nesses estratos primitivos pré-verbais é que se alicerça a sexualidade humana. Nessa fase, chamada de “fase oral”, a boca é a grande ferramenta de prazer sexual. Só bem depois, passada a longa infância humana e com a lenta maturação sexual, encontraremos prazer genital, o qual será fundamental para a vida adulta e a reprodução.

Entretanto, as marcas da oralidade manterão resquícios por toda a vida. Arrisco dizer que o beijo é a característica de expressão afetiva mais saliente nas culturas exatamente porque carrega as memórias prazerosas da amamentação. Não fosse por isso – nossa oralidade e a ligação ao seio como fonte de prazer – e teríamos uma humanidade sem bitocas, selinhos ou beijos “desentope-pia“.

É evidente que a amamentação carrega essa carga enorme de erotismo o qual vai entrelaçar de forma amorosa mãe e bebê. “Se amor existe, este é o sentimento de uma mãe pelo seu filho e todos os outros amores são dele derivados“, diria o mestre Freud. É ali na imbricação de mútuos prazeres que uma mãe cumpre seu mais alto fim: ensinar seu filho a amar. Não resta mais muita dúvida sobre esta questão.

Também é óbvio que na mente da criança haverá marcas indeléveis desse período. A fixação ancestral dos humanos pelos seios produziu um fenômeno único entre os mamíferos: as mulheres humanas são os únicos primatas que mantém a turgidez das mamas fora do período de amamentação. Olhe uma fêmea chimpanzé, gorila ou orangotango e se pergunte: “onde estão as mamas?

Ora… do ponto de vista evolutivo as mamas das fêmeas humanas se mantiveram grandes e túrgidas pelo forte apelo atrativo e sexual que desempenham na nossa espécie. Foi um processo seletivo que ocorreu nos últimos milhões de anos. No Museu de história natural de Nova York, Lucy (australopitecus afarensis) é retratada com as mamas murchinhas, dando a entender que a mama como objeto de desejo ainda custaria a aparecer. Quando então começou essa transformação? Homo erectus? Homo rudolphensis? Ou junto com a razão – no Homo sapiens sapiens?

Por isso podemos apostar na ideia de que o sonho dourado desse bebê vai se manter em sua mente por toda a vida. Essa experiência primitiva de prazer vai acompanhá-lo, mesmo que não perceba. A estética graciosa, redonda, macia e voluptuosa das mamas permanecerá como ícone máximo do prazer.

As mamas, no imaginário humano – em especial no Édipo masculino – vão nos seguir, guiando nossas escolhas, direcionando nossos olhares e construindo nossos sonhos – nem que venham disfarçadas, como balões, flores gigantes e até bolas de futebol (as gorduchinhas).

Pois bastou tocar com essa singela frase na questão da eroticidade da amamentação para – de novo – aparecerem ataques no sentido de questionar a “erotização das mamas”. Ataques, como sempre, violentos.

Claro… mea culpa, mea maxima culpa, respondi de forma exagerada aos ataques. Peço perdão por isso. Entretanto, sempre me assombro com a onda puritana da geração atual. A mera menção do desejo relacionado à amamentação faz com que essas pessoas reajam com ferocidade. A simples ideia de que homens (e mulheres) venerem as mamas como sublime objeto de desejo deixa furiosas(os) as(os) jovens ativistas.

Suspeito que o problema é desnudar a própria existência deste desejo e trazer à tona um gozo escondido, recôndito e dissimulado. O que emerge com tanta voluptuosidade é a denegação do prazer que brota quando se amamenta em liberdade.

Aos envolvidos minhas sinceras desculpas.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto, Pensamentos

Parto e Trauma

Na minha visão, há muitos anos sustentada, o advento da síndrome pós traumática está diretamente relacionada à ausência de autonomia da mulher no processo e a noção de que os fatos (ruins) aconteceram com ela a despeito de sua ação – ou exatamente por isso.

Além disso é importante que, via de regra, não é o parto que produz a síndrome pós traumática, mas a nossa incapacidade para lidar com um evento essencialmente subjetivo e sexual, que demanda do cuidador a mais extremada delicadeza com o evento. Essa capacidade é difícil de atingir em vista dos conhecimentos técnicos e habilidades de interação pessoal, como a empatia, a afetividade e a intuição conjugadas.

Na ausência dessas valências altamente sofisticadas, o mais comum é tornarmos um evento feminino e subjetivo – e profundamente sexual – em algo que NÓS controlamos, algo cujas decisões partem apenas de nós, a despeito dos valores que as mulheres expressam, produzindo um momento essencialmente autoritário. Da mesma forma como os fatos autoritários da infância produzem marcas no espírito das crianças, as quais produzem consequências por toda a existência, o mesmo pode ocorrer a partir de um parto (sentido como) violento ou desrespeitoso. Em verdade, qualquer mulher que já teve um parto violento há 20, 30 ou 40 anos sabe exatamente do que se trata esta questão.

A cicatriz na alma é indelével, pois atinge os estratos mais primitivos da constituição humana: nossa sexualidade.

Veja mais aqui

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Sem categoria, Violência

Dores de par(t)ir

No meu modesto ver – e reconhecendo meu lugar de fala de quem jamais vai passar pela experiência de parir – creio ser necessário quebrar a construção cultural da dor do parto como o elemento descritivo e preponderante do evento. Não resta dúvida que a dor existe, às vezes excruciante e violenta – exatamente pela passagem do bebê através da ossatura e pelo colo uterino, da forma como o pediatra Ricardo Chaves demonstrou neste vídeo. Todavia, descrever as infinitas sensações presentes no parto através de apenas UMA delas – a dor – serve apenas para validar uma postura profissional cuja insensibidade às múltiplas funções do parto – psicológicas, afetivas, sociais, emocionais e espirituais – nos faz anestesiar sua expressão mais potente. Calamos esse grito por medo de lidar com algo que extrapola nossa tênue compreensão.

Em verdade sou ainda mais radical. Ao meu ver, para que o parto cumpra sua função de partir, cortar, libertar e transpor é essencial que o evento seja marcado no corpo, com a brasa incandescente da ruptura. Assim transformada pela dor criativa de parir, essa mãe terá as melhores condições possíveis para suportar os desafios do ser que se tornou. A dor, como fenômeno inserido na fisiologia do parto, é um poderoso elemento na construção da maternidade.

Como dizia Bárbara Katz-Rothman “Parir não é apenas fazer um filho, mas forjar uma mãe forte, capaz de suportar os desafios da maternagem“. A dor é a tatuagem mais perene a compor este rito de passagem que, como todo ritual, marca os limites do que se foi e do que nos tornamos.

Deixe um comentário

Arquivado em Parto

Dê a eles brioches

Uma história curtinha contada pela Ana Cris, mas que encerra bons ensinamentos sobre como funciona o pensamento biomédico.

“Diálogos surreais – esse entre uma obstetra humanista e um anestesista do plantão.

O que é esse negócio de balão?

Estou induzindo um parto, mas ela tem cesárea prévia, por isso usei esse balão que ajuda a preparar o colo.

Ué, e por que não pode fazer uma cesárea?”

Já eu acho que seria possível fazer uma tese de doutorado baseando-se na pergunta inocente deste anestesista. Em verdade, toda uma cosmologia se encerra neste questionamento que deixa explícita a incapacidade do médico em questão de enxergar do que estamos falando. Não à toa a pergunta veio de um anestesista, o profissional responsável por obliterar os sentidos e cujos pacientes são absolutamente passivos e inertes. Seria, por óbvio, o último a entender o que seja protagonismo e porque tanto o valorizamos.

Essa cena lembra duas outras. A primeira, Maria Antonieta ao responder um seu ministro que desse ao povo brioches, quando avisada que lhes faltava o pão e a fome destruía as famílias francesas. Não era desdém, era a incapacidade de enxergar para além da bolha palaciana.

A outra cena aconteceu comigo ha 25 anos no hospital da Brigada Militar numa reunião privada com o diretor do hospital, um pediatra de carreira. Dizia-lhe eu da importância de manter a equipe de enfermeiras obstetras no plantão como estratégia para diminuir o exagero nas indicações de cesariana. Ao ouvir minha inconformidade com as taxas elevadas de cirurgias ele exclamou:

Nao entendo o que chamas de “exagero”. Digo-lhe que em 26 anos atendendo salas de parto nunca vi uma cesariana ser mal indicada.

Duvido que essa frase, como a da Rainha francesa, tenha sido pronunciada com escárnio ou deboche. Nada disdo; era mesmo pura ignorância, mas uma falta de conhecimento que se assentava sobre o pilar fundamental que sustenta a prática da maioria dos profissionais que atendem o nascimento: a crença na incapacidade da mulher de parir com segurança e a aposta na suprema fragilidade dos recém-nascidos. Ambas, erros da natureza madrasta, só podem ser corrigidas pela intervenção fálica da tecnologia, mesmo que o preço seja a expropriação do parto de quem sempre o teve como seu.

Claro é que estas são construções que se fazem durante o “rito de passagem” do treinamento médico que ocorre desde o primeiro dia de aula até os últimos instantes da residência. Um saber subliminar, pervasivo, não expresso mas que contamina todo o olhar profissional. Algo de tamanha intensidade que coordena as ações, atitudes e o próprio entendimento sobre os pacientes.

Ao dizer “por que não faz uma cesariana” o profissional expressa de forma holofrástica todo um conceito relacionado não apenas à superioridade da tecnologia sobre a natureza, mas também a questão de gênero – pulsante e onipresente – que permeia toda a decisão médica sobre o corpo das mulheres.

A mesma incapacidade de responder ao pediatra do hospital da brigada eu tive nas vezes em que anestesistas me perguntavam (em suas infinitas variedades) a questão “o que está esperando para operar?”

Sem entender a transcendência de um nascimento e a imponderabilidade dos afetos e significados envolvidos não há como explicar a importância de garantir à mulher o direito de parir por suas próprias forças. É exatamente nesses espaço, neste vão de olhares, que se insere a humanização do nascimento, que vai mostrar sentido onde muitos enxergam apenas capricho.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto