Medo

Mad doctor with a syringe in his hand

Somos um núcleo de medos, envoltos por uma faixa de crenças, sobre as quais repousa um verniz de intelecto.

Nos últimos anos como divulgador de um conjunto de ideias agrupadas com o nome de humanização do nascimento eu tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas da área médica que mostravam interesse em se aproximar de um modelo que apregoava mais respeito e dignidade no parto. Muitas tinham um perfil que eu chamaria de “clássico”: boas intenções, bom trabalho, gentileza, boa experiência, um certo enfado com o excesso de intervenções e uma legítima vontade de fazer mudanças em suas condutas. Entretanto, quando oferecíamos um olhar mais profundo sobre as reais motivações, o verdadeiro cerne do processo de nascer, as implicações políticas, econômicas, sociais, psicológicas, antropológicas e médicas do nascimento, muitas delas estabeleciam de imediato um discurso defensivo, e iniciavam uma retórica de contra-ataque. Bastava falar que “fazemos demais”, “intervimos demais”, “cortamos em demasia”, ou que “nossa proposta passa pela defesa de um parto fisiológico de acordo com os desejos das pacientes”, para sermos taxados de “ditadores”, “arrogantes”, “xiitas”, “fanáticos” e até “salvacionistas”. Tantas foram as vezes que tal fato ocorreu que eu acho até estranho quando não percebo o processo de retração.

Para mim este discurso desvelava uma característica tão humana quanto inexorável: o medo. Sim, medo de que, expostos a uma realidade mais ampla seremos obrigados a rever conceitos antigos, os quais, de certa forma, muito nos haviam beneficiado. Medo de mudar, de reconsiderar posturas, de despir-se de conceitos que durante muitos anos foram caros para nós.

Eu acho compreensível isso, até porque também faço isso (tenho consciência dessas limitações). Portanto, quando as pessoas se colocam para trás e dizem: “Quer saber? Vocês são radicais demais, falam muito em parto normal. O que importa é o bem estar de mães e bebês. Não importa como veio ao mundo. cesarianas também podem ser humanizadas. É um horror obrigar uma mulher a ter um parto normal e etc” tudo o que vejo na minha frente, quando se dissipa a névoa de preconceitos contra ideais bem simples (repetindo: protagonismo restituído, visão integrativa do parto e medicina baseada em evidências) é o medo de mudar. Medo de reconhecer que fomos muito além do que devíamos. Pânico de ver o castelo de conceitos recebidos na escola ruir por falta de sustentação.

Tenho certeza que as pessoas bem intencionadas – TODAS – passam por esse processo de rejeição. Eu sempre conto a história, que ocorreu há muitos anos, quando Zeza me contou que sua amiga de escola havia decidido ter seu parto de cócoras. Eu estava no quinto ano de medicina e recém havia me decidido a fazer a residência em obstetrícia. Não tinha nenhuma ideia do que seria uma postura mais “suave”e respeitosa em relação ao nascimento. Ao ouvir a afirmação de Zeza, que continha a determinação da paciente em ter seu parto numa posição diferente,  eu disparei incontinenti: “O que? Ela sobe em coqueiro? Ela é índia? Ela não tem períneo para isso. Se fizer tal estultice vai se rasgar toda!

Sim, eu disse isso, com toda a convicção. Com toda a empáfia, toda petulância e com todo…. o medo. Mas medo de quê? Medo de não ser aceito pelos meus pares, de não ser reconhecido, de que zombassem de mim. Medo de ser diferente e de poder estar errado. Medo das consequências de ver o mundo por um outro prisma. É assim que somos: um bando de medrosos. Eu tinha MEDO, muito medo.

Quis o destino que alguns meses depois desse rompante de arrogância e estupidez me caísse nas mãos um exemplar do livro do Dr. Moysés Paciornik chamado “Aprenda a Nascer com os Índios“, e eu acabei sendo, por causa dessa paixão avassaladora pelas ideias que ali encontrei, o introdutor dos partos de cócoras nessa parte do Brasil (muito antes de eu tomar conhecimento de qualquer conceito a respeito de humanização).

Portanto, ficar em pânico e retrair-se diante da novidade é natural. Entretanto, para ser realmente um agente de mudança é necessária uma espécie de força extra, algo intenso o suficiente para suplantar a inércia das posturas recalcitrantes. E isso só é possível para aqueles que não têm alternativas além de seguir em frente.

Eu costumo receber muitos estudantes de medicina, enfermagem e obstetrícia para conversar comigo sobre a humanização do nascimento. Para eles eu sempre apresento uma visão propositalmente sombria. Olho para seus olhos sequiosos de respostas e esperança e digo: “Se você tem alguma alternativa, não me dê ouvidos. Saia daqui, tome a pílula azul e acorde amanhã no seu quarto com o livro do Resende todo babado embaixo de sua cara. Mas se quiser tomar a pílula vermelha lembre que ela não tem volta, não há como retornar de um passeio que te leva a uma consciência maior de si mesmo e da sua profissão. Mas só a tome se não houver mais nenhuma escolha, pois no mundo dos que nadam contra a corrente cada braçada é dolorosa e angustiante“.

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