Sobre a Origem das Mudanças

bisturi

Esta é uma velha discussão que eu carrego há muitos e muitos anos. Sempre que eu perguntava para algum colega meu – que havia começado a praticar uma obstetrícia mais “gentil”, suave, baseada em evidências e com um respeito ao protagonismo feminino no processo – sobre quais os fatores preponderantes que o levaram a produzir uma modificação significativa no paradigma de atenção, eu sempre me deparava com um tipo específico de resposta que não era exatamente aquela que eu esperava. O ponto deflagrador, o estopim de um processo transformativo da envergadura que se faz necessária para a humanização do nascimento era invariavelmente descrito como um processo de ordem afetiva, e não um choque “cognitivo”. NÃO nos tornamos médicos humanistas pela via da razão! Se por um lado isso pode produzir uma frustração de nossas ilusões racionalistas, pelo menos nos oferece um anteparo à arrogância cientificista.

Na história de cada profissional que optou por uma postura humanizada existe uma ferida aberta, um processo que ainda sangra, uma lesão na alma que se mantém ardente e corrosiva. A tal “farpa” da qual Max me falava. Assim, a mudança ocorre pela via da emoção. Um vídeo, uma palestra, um parto, um bebê, uma mãe que chora, um pai que se derrete, um grito (como o da “Glamour Girl”), uma conversa, um silêncio. Tanto faz, e não importa. É necessário apenas que seja algo suficientemente sonoro para nos acordar e para levantar a ponta do véu de algo profundamente recalcado nas memórias mais primitivas, numa época em que nossa vida era ausente de palavras, permeada somente por sons, cheiros, gostos e toques.

Somente depois, quando tais sentimentos atingirem as estruturas subcutâneas, e tal tumoração produzir a vermelhidão, a dor, o calor e o desconforto na alma, é que o saber científico, tal qual um “bisturi de evidências”, poderá cortar a carne e aliviar nossa angústia. E só aí você precisará “saber”, pois o mundo racional e estatístico pedirá passagem para normatizar suas ações dentro de parâmetros aceitos e confiáveis.

Eu sei que é por causa dessas ideias que não sou convidado para festas desde a época da faculdade, mas eu sempre acho oportuna uma reflexão sobre a humanização do nascimento um pouco diversa daquela que a gente se acostumou a fazer para outras questões. Entender a dinâmica inconsciente que nos “empurra” para uma determinada posição ideológica é sempre salutar, e nos ajuda a criar barreiras contra a idealização, o sectarismo e os radicalismos.

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