Consumismo e Superficialidade

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Uma conhecida colunista de minha cidade escreveu uma matéria no site de uma grande empresa jornalística cujo título era “Rodrigo Faro me fez adiar a maternidade”. A palavra “maternidade” me despertou a atenção, e instintivamente procurei saber do que se tratava.

Ao clicar no link aparecia a foto acima, em que um apresentador de televisão aparecia capitaneando a primeira festa de aniversário de seu filho ao lado de uma esguia esposa e de duas outras filhas vestidas com fantasias “rosa choque” de gosto duvidoso. (Ok, eram apenas fantasias de Miss Piggy, dirão alguns…).

Interessado pelo teor e curioso pelo título resolvi investigar o conteúdo da crônica, até porque me interesso pelas questões dos ritos de passagem e a questão do consumismo exagerado à que são expostas nossas crianças. Muito mais do que uma festa as celebrações de um ano de vida, principalmente entre as celebridades (ou aspirantes a famosos) tais eventos costumam ser festivais de exageros, breguices, apelações e exibicionismo descarado.

Claro que a festa do Sr Faro não fugiu à regra, pelo que ficou demonstrado na foto. Mas para mim foi muito pior o comentário da colunista de minha cidade.

O aniversário das filhas do Rodrigo Faro me fez ter insônia essa noite.

Eu nunca imaginei que se tratasse de um texto tão superficial. Achei que que a chamada da crônica pudesse me levar a uma crítica ao consumismo sem freios, ao desejo incontido de “coisas” ao invés de momentos para serem lembrados ou talvez uma análise mais profunda sobre a importância dos ritos no desenvolvimento emocional infantil. Achei mesmo que a referida coluna se ocupasse de uma apreciação da glamorização de figuras desimportantes do cenário artístico nacional e de suas festinhas suntuosas. Tais eventos que são produzidos com esse formato exuberante e extravagante apenas para que os enxerguemos como diferentes de nós. Colocam-se como seres superiores, uma espécie de “nobreza republicana” que olha para nós com o mesmo olhar de desprezo que a realeza olhava para a plebe faminta.

Todavia, o texto que encontrei é superficial e até infantil. Com um tema tão complexo, intrigante e até estimulante a jornalista conseguiu construir uma história boba de “como arranjar dinheiro para fazer uma festinha igual”. Uma pena, pois poderia ter feito algo muito mais interessante com este fato.

Mas… vai ver eu entrei mesmo na porta errada, e o blog da referida colunista é para quem curte preços de vestido de noiva, enxoval chique para bebês, onde fazer a cesariana mais chique, a numerologia do nome daquele que vai nascer e os obstetras operadores de barriga da moda. Resolvi escrever para ela a criticar a forma inadequada de abordar o consumo infantil, as festinhas suntuosas e os gastos com tamanhas futilidades.

A resposta à minha crítica, por parte da jornalista, foi a seguinte:

(…) várias pessoas comentaram aqui sobre gente que faz festa mais para si do que para os filhos. Eu, modestamente, acho que quem tem dinheiro faz a festa do tamanho que quiser (que graça tem ser rico se não puder usar a grana?). Só me preocupa – e foi esse o sentido do meu post – que esteja se estabelecendo um padrão. Festa de criança é de arromba ou não é. Daí tem gente que se mata pra poder dar uma para o filho. Meu medo é justamente esse: que a coisa descambe de tal forma que meu filho não pense em festa a não ser assim. Mas aí vai da criação que eu vou dar pra ele, como bem pontuou uma mãe aqui. Um beijo!

Voltei para o post que ela havia colocado e resolvi reler, a seu pedido. Tinha esperanças de ter lido de má vontade e não ter entendido o “sentido oculto”.
Foi em vão.

Normalmente quando o autor pede para “lerem de novo” é porque não conseguiu comunicar adequadamente o que desejava ou porque se arrependeu e está suplicando uma interpretação diferente e mais condescendente. É clássica a desculpa “Vocês não entenderam que eu estava sendo irônico(a)?

Não, ela não estava. Havia MESMO um desejo de glamorizar as festinhas perdulárias de astros desimportantes da TV brasileira. E não é à toa que escreveu em uma das respostas sobre o “corpão da mulher do Rodrigo” (elogiando a silhueta esguia da mulher do apresentador), por que isso está no pacotão da futilidade do post.

Veja bem, aqui não há nenhuma ironia na sua fala: “Ver as fotos da festinha da família me fez abrir uma poupança para o primeiro aninho do meu piá. O dinheiro ficará no banco como garantia: se sobrar, eu e o pai dele partimos para uma viagem romântica.”

Isso não foi ironia: foi uma ameaça de entrar de cabeça no modelo exibicionista de criação de filhos. Só depois que fui ler outras crônicas desta jornalista e percebi que uma festa deste tipo faz todo sentido em sua trajetória. Ok, se isso satisfaz o ego da moça, nenhum comentário. Cada um glamoriza sua vida como quer, colocando glacê sobre o bolo da vida.

Mas precisava mesmo envolver o seu futuro filho em algo tão tolo e comercial? Ao invés de questionar a importância de uma maternidade consciente, de uma gestação sadia, de um parto humanizado para fugir da carnificina do modelo cesarista e para LIVRAR seu filho do consumismo que destrói a mentalidade infantil, ela ressaltou EXATAMENTE o que existe de mais fútil no desenvolvimento de um sujeito: a festinha de primeiro ano de uma criança que sequer participará (menos mal) do absurdo exibicionismo de seus pais.

Cheguei a ficar constrangido e até culpado por ter dado audiência para crônicas fúteis e que ressaltam o consumismo e a deseducação de crianças, colocadas como troféus parentais e bichinhos de estimação, com roupas ridículas para “enfeitar” a festa dos pais. Mas o grande número de críticas que eu vi, de pessoas maduras e que levam o nascimento de uma criança a sério, me fez ver que provavelmente esta crônica cafona e fora de lugar é que prestou um desserviço ao amadurecimento de uma maternidade e uma parentalidade maduras. Ao falar de forma tão frívola das festinhas de “exaltação do dinheiro”, ela trouxe à tona a importância de exigirmos um jornalismo mais responsável e maduro.

Tenho certeza que a jornalista não escreveu nada disso por “mal”, e nem com más intenções, mas por descompromisso com a seriedade na educação das crianças e uma falta de noção sobre a importância de livrá-las da doença do consumismo.

Recomendei a ela o brilhante documentário brasileiro “Criança – A Alma do Negócio”.
Talvez ela consiga ver o estrago que este tipo de atitude pode produzir em um ser em desenvolvimento.

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