Medicina e Ideologias

 

Pesquisa

Tive há dois dias uma amigável discussão com um jovem colega médico que – entre algumas provocações e palavras ásperas – me afirmou que “Não existe “ideologia médica”. Medicina de verdade é praticada com base em fatos (…) e evidentemente não existe zona de conforto na medicina.”

A ideia de que a medicina é uma ciência baseada em “fatos” é curiosamente muito disseminada dentro das faculdades de medicina. Para nós, estudantes, parece-nos óbvio que as pesquisas, os estudos e as evidências são elementos “matemáticos” que nos aproximam da verdade. A frase do meu jovem colega, em verdade, retrata um modelo de pensamento hegemônico entre os médicos. Nós realmente vemos a medicina através dessa perspectiva positivista e cientificista, onde o conhecimento e o aprimoramento tecnológico por fim vencerão o obscurantismo e nos elevarão ao conhecimento pleno, o conhecimento da Verdade e do Real.

Eu também me deixei embevecer por esta visão por muitos anos. Basta que você veja qualquer livro da história da medicina e a construção dos fatos históricos nos levará a este entendimento. Parecemos estar vencendo as doenças através da invasão ininterrupta do saber racional sobre a economia orgânica, seja pelas drogas, infusões, cirurgias, quimioterapias, etc. O porvir da medicina parece claramente ligado a um controle exógeno cada dia mais intenso. Entretanto, a bela construção de uma “medicina positivista” esbarra nos próprios acontecimentos da prática médica, onde a ciência é desconsiderada e elementos outros (o poder, o patriarcado, a política, a economia, a moral e a religião) ocupam o lugar central no direcionamento das condutas.

As ideologias controlam a medicina. Os paradigmas são vinculados a questões históricas e contextuais, e eles são os geradores da própria pesquisa e suas interpretações.

Todavia, a ideia de uma ciência médica “pura” – não contaminada pela ambiência e pelas brisas políticas que sopram, ora de bombordo, ora estibordo – sempre me incomodou. A própria produção científica e sua matriz preferencial – a Academia – me parecem claramente influenciadas por modelos ideológicos relacionados à sua época e às circunstâncias onde apareceram. As grandes descobertas médicas só podem ser entendidas de forma abrangente se pudermos entender o contexto histórico e político em que foram encenadas, da mesma forma que apenas a compreensão mais ampla das circunstâncias políticas da Guerra Fria pode nos explicar as viagens à lua, da mesma forma como a queda da boate “Stone Wall” em Nova York pode nos fazer entender as pesquisas sobre o “vírus da AIDs”.

Imaginar uma “medicina sem ideologia” é imaginar um corpo sem “alma”, comandado pelo mundo real, excluído da formatação da linguagem. A medicina SEMPRE foi um campo para a aplicação de controle social e autoridade política.

A ideia de que os procedimentos se baseiam em experiências e “fatos” (fatos não existem, apenas interpretações – Nietzsche) deveria fazer as episiotomias terminarem quando os fatos científicos demonstraram a sua inutilidade como procedimento de rotina, e isso aconteceu em 1987, há 27 anos. No entanto, “Nascer no Brasil” apontou 53% de episiotomias entre aquelas afortunadas que conseguem um parto normal no Brasil. As cesarianas abusivas, que determinam o AUMENTO da mortalidade materna em alguns países, entre eles os EUA, também deveriam ser freadas com as evidências e os estudos. Entretanto, como essa clara assincronia entre “o que se sabe e o que se faz” demonstra, a medicina NÃO se expressa necessariamente através da ciência, mas pelos caminhos mais tortuosos da ideologia e da política. A destruição da parteria no Brasil e nos Estados Unidos – e NÃO na Europa – é outra prova de que a construção dos modelos de atenção se baseia em elementos alheios às pesquisas, e muito mais ligados às forças que favorecem umas corporações em detrimentos de outras.

Dizer que praticamos “medicina baseada em fatos” é uma ingenuidade. Pensar que deveríamos agir assim é um objetivo e uma utopia, tão nobres quanto inalcançáveis. Existem forças invisíveis (e as ideologias são exatamente “agir sem se dar conta do que nos move”, no dizer de Slavoj Zizec) que fazem com que a mão corte uma episiotomia ou prescreva um antibiótico, mas nos iludimos ao acreditar que a razão foi a condutora magna de tais movimentos.

As ideologias, que se ligam mais aos desejos do que à razão, são o que está por trás dos fios invisíveis que nos guiam.

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