Higiene

 

Medieval01

O historiador holandês Norbert Elias, no seu livro “O Processo Civilizatório” faz descrições muito curiosas sobre os hábitos de higiene da idade média, como a invenção das “roupas de baixo”, os banhos, o sexo, o suor, o cheiro do corpo e tantas outras adaptações humanas curiosas que a cultura produziu. Não podemos esquecer da famosa carta de Napoleão à sua amada Josefina, tão curta quanto explícita: “Chego na terça-feira. Não se lave“.

Mais interessante ainda é entender a forma de lidar com o corpo, seus cheiros, sua essência, sua “naturalidade”, suas funções, suas excreções (suor, urina, fezes) e tentar “desnaturalizar” o modelo contemporâneo, colocando-o no seu devido lugar: uma etapa como qualquer outra na longa linha de construções da civilização. Da mesma forma como a gordura corporal feminina (alguma, ao menos) era exaltada do século XVII em diante, como podemos ver em várias pinturas de época, também hoje a magreza das mulheres é estranhamente glorificada como “linda”, a exemplo do que ocorre com algumas figuras públicas femininas, cuja musculatura se assemelha à configuração masculina.

A construção de valores culturais obedece um ordenamento singular, onde finas camadas de sedimentação vão se estabelecendo lentamente, criando novas estruturas sobre as anteriores. O nascimento humano, cheio de aromas, sons, guturalidades, suores, secreções e sombras parace desfocado numa civilização moderna que exalta a limpo, o estéril, o claro, o brilhante, o insípido e o inodoro. Os ruidos metálicos de uma sala cirúrgica são o contraponto moderno do silêncio entrecortado por gemidos de um parto onde a sexualidade imanente do processo não é desconsiderada e, portanto, não é temida.

O nascimento contemporâneo nada mais é do que a vã tentativa de desviar nosso olhar do erotismo inegável dos corpos que se contorcem, do suor que brota da face lívida, do olhar perdido no infinito, da palavra de súplica e do desejo que se materializa magicamente, brotando da vagina ameaçadora, úmida e escura.

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