Imigrante

Imigrante

 

Imagine a seguinte situação hipotética. Em função de erros na condução da minha vida pessoal e familiar, por culpa minha e do contexto em que vivo, sofro uma perda financeira catastrófica e fico incapacitado de manter-me no local onde sempre vivo com minha família. Essa é uma “pequena”tragédia familiar muito comum no mundo contemporâneo. Felizmente meu irmão, apiedando-se da minha situação dramática, me convida a morar em sua casa. Para lá me dirijo contrariado, levanto minha família e minhas frustrações, pois se pudesse desejaria continuar na minha casa. Infelizmente isso não é mais possível. Ela foi vendida, perdida, confiscada ou nem existe mais, e no seu lugar restam escombros.

Na casa do meu irmão é tudo limpo e chique. O ônibus pára na porta. Próximo de lá existe uma boa escola para os meus filhos. O bairro é seguro e tranquilo. Meu irmão e minha cunhada me tratam bem; minhas sobrinhas idem. Tudo parece bom.

Os moradores do prédio não falam comigo, mas apenas porque não me conhecem. O porteiro pediu para que eu subisse pelo elevador de serviço, mas expliquei que estava morando ali, no apartamento do meu irmão. Ele parece ter entendido, mas depois eu soube que ele ligou para confirmar com minha cunhada. Ele é uma boa pessoa, apenas se enganou.

Ontem meu irmão ralhou com sua filha por ela ter comido todo o doce que estava na geladeira, mas ela explicou que foi meu filho quem o comeu. Fiquei em silêncio e constrangido, mas meu irmão tentou dizer que se enganou e que, afinal, não havia problema algum. Meu filho chorou envergonhado. Minha mulher também ficou triste ao ouvir um comentário de que a conta de luz está mais alta ultimamente.

Precisei ligar para conseguir um emprego e, como meu irmão e minha cunhada não estavam em casa, pedi licença para a minha sobrinha de 7 anos para usar o telefone . Depois me senti envergonhado por ter feito isso. Humilhado seria um termo melhor.

Sou bem tratado aqui, pelo menos na minha frente todos são gentis e educados, mas sei que as pessoas falam pelas minhas costas. Os serviços são bons, e a escola é próxima. Minha mulher está bem adaptada. As crianças estão seguras. Como poderia ousar reclamar?

Entretanto – sei que é complexo entender – aqui eu sou convidado e minha presença é tolerada, pelas circunstâncias. Sou bem recebido no prédio, mas algumas mulheres mais ricas de lá simplesmente viram a cara para mim no elevador.

Se eu pudesse abriria mão de todas as aparentes vantagens que tenho para ter minha casa de volta. Não queria ter o constrangimento recidivante de não ser dono de nada, de não ser igual às pessoas com quem convivo no lugar onde moro. Ter autonomia e liberdade, ser reconhecido como um igual e com os mesmos direitos, não tem preço.

É possível que isso seja uma especial sensibilidade minha. “Frescura” diriam alguns, dizendo ser imoral reclamar com a barriga cheia. Já ouvi dizer de muitas pessoas que dão de ombros quando escutam “vá para sua casa”, “você não é bem vindo“, mas isso para mim tem uma sonoridade destrutiva.

Eu sei a dor de não ser dono do chão em que se caminha.

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