O menino da bicicleta

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Meu carro parou no cruzamento movimentado em sua rotineira volta para casa. O rádio antigo, travado em uma estação ordinária, repetia músicas feitas por um computador que fabrica sucessos imediatos e letras sem sentido. A fila de carros que passavam à minha frente parecia interminável enquanto eu procurava uma brecha segura para cruzar a preferencial. As canções intercaladas com propagandas de mercearias e bancas de advogados populares enchiam o espaço do carro com mensagens enfadonhas de amores desprezados e retirada de multas. E eu apenas sonhava em chegar em casa para tomar café.

Finalmente uma brecha apareceu ao longe. Pisei no debriador e coloquei a primeira marcha. Sabia que a brecha logo se fecharia e, sabe-se lá quando, outra apareceria. Ah, o trânsito desses dias. Olho para o retrovisor e há mais 4 carros aguardando em fila atrás de mim. Minha determinação e agilidade vai determinar não apenas o meu café, mas de todos estes que aguardam impacientes a minha decisão.

Piso no acelerador avisando que vou me arriscar em instantes. O carro anda 20 cm para frente. A brecha se aproxima. Vou sair.

Detenho-me.

Ao longe surge um personagem que não havia percebido: um menino e sua bicicleta. Ele pedala o mais que pode e está no meio da brecha. Vejo diante de mim duas possibilidades: correr e obrigar o menino a frear sua “bike” ou esperar que ele passe, e provavelmente perder a janela de rua vazia à minha frente.

Escuto a primeira buzina a apertar meus tímpanos enquanto meu pé angustiado aguarda as ordens do cérebro. Na dúvida avanço mais 20 cm e vejo melhor o menino da bicicleta que se aproxima. Sua imagem cresceu no vidro dos meus óculos e pude notar quem era o personagem que atrasava a fila de motoristas que tanto desejavam voltar para casa.

Negro, 20 anos, magricela. Sua bicicleta era tão simples e despojada quanto suas roupas: uma bermuda, camiseta e um chinelo havaianas. Olhou para mim mais uma vez enquanto se aproximava do cruzamento e seu olhar se fixou em mim, talvez querendo saber o que eu faria a seguir.

Desisti. Pisei no debriador e ajustei a marcha do carro para o “ponto morto”. Ouvi mais uma buzinada e me resignei. Coloquei as duas mãos no volante apenas a tempo de ver a nova leva de carros surgir ao longe na esquina da rua em frente. Minha brecha havia escapado. Eu nunca mais voltaria para casa. Adeus meus filhos, minha mulher e meu café com torradas.

Olho consternado para a rua enquanto o menino da bicicleta finalmente se aproxima do cruzamento. Foi então que o milagre aconteceu.

Quando sua bicicleta passava em frente ao meu carro ele levanta a mão esquerda, aponta o polegar para cima e me envia o mais belo sorriso do dia. Do mês, e certamente do ano que havia iniciado há 48 horas. Ele agradecia minha espera, minha paciência, meu tempo de aguardo para que ele pudesse passar. Respondi com um sorriso tímido, meio sem graça, e me limitei a esticar os dedos da mão esquerda do volante. Ele passou com pedaladas vigorosas e eu novamente fiquei aguardando pela bendita brecha.

“O menino pobre e negro agradeceu a oportunidade que o senhor branco havia lhe dado”. Não, talvez não. “O menino da bicicleta exigiu que sua vez de passar fosse respeitada pelos carros”. Pode ser. “O sorriso agradecido do menino negro desvela sua humildade diante de um confronto de classes e perspectivas de vida”. Quem sabe. Fui atropelado pelas metáforas possíveis sem saber a razão de ter ficado pensativo e, por que não, emocionado.

Talvez nenhuma das hipóteses anteriores e tudo se resume a ficar encantado diante de um sorriso de agradecimento

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