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O Fim das listas

O Yahooo anuncia que as listas de discussão serão apagadas no dia 14 de dezembro, enterrando as memórias do surgimento de um dos mais importantes movimentos sociais ocorridos na virada do século, no bojo dos debates de gênero e sexualidade.

Não é justo dizer que a humanização do nascimento “nasceu” com os grupos de discussão da Internet. Afinal, a inconformidade já existia, os “encontros da Fadynha” todos os anos no Rio de Janeiro também e a ReHuNa havia sido criada em 1993, em Campinas. Porém, foi com a cumplicidade compartilhada via internet que essa grande massa de pessoas da classe média conseguiu um canal para o escoamento de ideias, propostas, indignações, reclamações, sonhos e projetos. Deixo claro meu reconhecimento de que os grupos de discussão foram, mesmo, um fenômeno burguês. Mulheres – em sua imensa maioria – que dispunham de tempo e recursos (no final do século passado um computador era uma pequena fortuna) começaram a debater sobre suas frustrações com os partos e com o que elas imaginavam ser um futuro possível. Eu sempre tive essa certeza das limitações de nosso discurso, mas antevia que essa narrativa um dia tomaria uma mudança radical. Certa feita, durante uma palestra na Bahia, fui confrontado educadamente por uma negra ativista e feminista que, diante do meu entusiasmo com as possibilidades oferecidas pela Internet na sedimentação do nosso ideário de humanização, me contestou, com um sorriso emoldurado por um cabelo cheio de contas multicoloridas: “Muito bonita sua proposta, doutor, mas quando isto será realidade para as mulheres pobres e faveladas da periferia de Salvador?

Minha resposta foi curta e simples: “Se essa proposta se revelar uma modinha para mulheres de classe média, que dispõem de um computador para desaguar suas insatisfações, será bom que termine rápido, como são as cores e roupas de verão. Entretanto, se for um projeto para destituir “podres poderes” que abusam da autonomia e da liberdade de escolha das mulheres sobre seus corpos, deverá atingir a todas as mulheres, em especial as destituídas e esquecidas de quaisquer periferias“.

Eu fui arrastado para este universo por desenvolver duas paixões – pelos computadores e pelo parto humanizado. Imediatamente me envolvi nos debates das listas que surgiram, sendo as mais expressivas a Partonatural, a Amigasdoparto e a sua sucedânea, a Partonosso. Foi neste espaço virtual que se solidificaram lideranças, amizades e – impossível evitar – algumas grandes inimizades. Como eu sempre disse, os espaços entre os dígitos de uma tela são preenchidos da mesma forma que os versículos da Bíblia, onde mais inserimos nossos valores, medos, frustrações, ressentimentos e (pre)conceitos do que retiramos ensinamentos. De qualquer modo, se não foi a semente da humanização, as listas de discussão rapidamente se tornaram o grande adubo para o crescimento desse movimento que, a cada dia que passa, se torna uma ameaça mais vívida aos poderes patriarcais estabelecidos sobre o controle dos corpos e sobre a expropriação espúria dos nascimentos.

Com os debates das listas de discussão do Yahoo serão enterradas as lembranças mais cálidas dos momentos de heroísmo de um movimento nascente. O que hoje é um consenso – por exemplo, o direito ao parto domiciliar planejado – naquela época era cercado de dúvidas e incertezas. Debatíamos questões hoje soterradas pelas evidências, como episiotomias e direito a acompanhante. Foi lá onde, pela primeira vez, houve um debate aberto e extensivo sobre um personagem que aos poucos se tornou o epicentro dos ressentimentos da classe médica: as doulas, mas que hoje são quase uma unanimidade entre os pesquisadores do bem-estar materno.

É triste ver uma parte da nossa história ser enterrada, mas também temos que comemorar o que esta etapa significou em nossas vidas. Sem estas listas talvez não houvesse SIAPARTO (Ana Cris seria uma mega-empresária no ramo de flores), não haveria um movimento nacional de doulas, não teríamos amigos de quase duas décadas morando a milhares de km e muitos contatos que hoje fazem parte dos nossos amigos mais presentes e calorosos estariam ainda distantes, guardando para si mesmos e seus parceiros ideias que, por este veículo, hoje encantam a todos.

Para todos os “herois da resistência” que enfrentaram os leões do patriarcado obstétrico, meu abraço e meu reconhecimento pela história que ajudaram a escrever. Para as pessoas com quem briguei, espero que me perdoem. Afinal, não se faz uma revolução como fizemos com tapinhas nas costas; algum nível de atrito sempre haverá. Para todos aqueles que aprendi a amar e admirar através das nossas listas, digo apenas que foi uma grande honra poder compartilhar essa aventura com vocês.

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A nave Brasil

Depois de 25 anos como “caixeiro viajante” da humanização do nascimento um fato novo ocorreu esta semana: pela primeira vez (provavelmente última) eu viajei de primeira classe.

Claro que foi uma feliz coincidência. Meu voo de volta ao Brasil foi cancelado por causa do furacão Dorian e a minha companhia original foi obrigada a me realocar para que conseguisse chegar ao Brasil a tempo de comemorar os 90 anos do meu pai. A única solução encontrada foi evitar o foco das tempestades e fazer uma viagem para o norte, até Washington DC, e de lá seguir para São Paulo. Diante da inexistência de alternativas, aquiesci.

Para minha estupefação, ao entrar no site para marcar os assentos no novo percurso descobri que havíamos sido colocados na primeira classe.

Achei melhor não acreditar para evitar falsas expectativas mas a realidade acabou me vencendo. Os cartões de embarque não mentiam. Entramos com toda a pompa e circunstância na frente de todo mundo e quando vi o cubículo a mim reservado lembrei quando, há uns 10 anos, vi Gisele Bündchen – que viajava no mesmo voo que eu – na acomodação que agora eu ocuparia. Que emoção!!!

Claro que a atitude da companhia se deu porque o voo estava lotado e só estes assentos ainda estavam livres. Era a única forma de chegarmos ao Brasil no dia determinado. Eu não me furtei de agradecer ao Sr. Dorian pelo presente, mesmo com a inevitável culpa de saber que a dor de tantas pessoas atingidas pelo furacão nas Bahamas havia se transformado numa sorte inusitada para mim.

Ao olhar para o fundo do setor da primeira classe eu percebi uma senhora vestida de forma muito simples, como eu. Pensei “deve ser outra sortuda“. Claro que fui vítima do preconceito estrutural que nos contamina, mas não pude evitar. Quando ela se levantou para ir ao banheiro durante a decolagem – e foi contida pelos comissários – a minha certeza se acentuou. Talvez fosse sua segunda viagem de avião, mas certamente a primeira nesta classe. Assim como eu, estava em um mundo que não lhe pertencia.

Foi só depois de algumas horas que eu passei a me dar conta de que a situação, apesar de insólita, era muito familiar. Inobstante o fato de que tal regalia nunca tivesse ocorrido a mim, a situação tinha inúmeras correlações com o mundo em que vivo.

Era muito claro que eu não merecia estar ali; minha presença foi causada por um mero acidente. Fui colocado naquela situação sem esforço pessoal; não havia mérito algum em estar num lugar melhor que o das outras pessoas daquele avião. As regalias, a comida, o licor Bailey’s (não pude evitar), a cama reclinável, a “nécessaire” chique, o sorvete, o tratamento diferenciado da tripulação… nada daquilo era merecido. Não havia justiça em ser tratado de forma tão…. diferenciada.

Por outro lado, um pensamento absurdo me assaltava. Por várias vezes eu imaginava que… afinal… se isto chegou até a mim… muito provavelmente… de alguma forma tortuosa e indecifrável… eu merecia.

(Não pude conter um sorriso lembrando da menina gritando histericamente: “SE EU ESTOU AQUI É PORQUE EU… ME – RE – CI !!!)

Criava na minha cabeça mil fantasias sobre um valor pessoal que só eu enxergava. Pensava que a “justiça divina” era sábia e premiava com justeza. Entretanto, por mais que minha imaginação flutuasse sem controle, eu sabia que era tudo mentira, tudo falso, tudo engano.

Foi o Dorian, somente ele. Nenhuma justiça atrasada, nenhum mérito, nenhum pagamento por valor, nenhuma vantagem merecida. Apenas a coincidência fortuita de uma viagem e um fenômeno meteorológico.

Outra sensação curiosa – que eu procurava afastar com humor caipira – era imaginar ser realmente diferente dos passageiros que estavam na classe “popular”. Olhava lá para trás do avião e brincava com Zeza dizendo “coitados desses pobretões“. Fazia troça dizendo que nunca mais viajaria naquele “poleiro” lá do fundo e que o meu lugar de direito era onde estava agora. “Finalmente estou entre os meus iguais“, sorria em pensamento .

Nesta viagem fui transportado magicamente para a nave Brasil. Como na nossa realidade cotidiana, todos estavam no mesmo avião, haviam embarcado no mesmo lugar e desceriam no destino final, inexoravelmente. Alguns, como eu e Zeza, recebemos por pura sorte um presente que, por sua vez, causou desgraça a centenas ou milhares de pessoas atingidas por uma pequena tragédia, mas isso não nos fez deixar de brindar com o Champagne oferecido. “Não é minha culpa“, pensei eu…

Por outro lado, mesmo o caráter absolutamente fortuito de minha “posição social” não me impediu de fantasiar a respeito de uma suposta diferença que tinha com os outros passageiros. A sensação de ser alguém, superior e “especial” é muito mais inebriante do que qualquer Scotch que se possa beber.

Bastou colocar o pé para fora da aeronave e o encanto da Cinderela se desfez. Imediatamente depois de sair já estávamos na fila do passaporte como todo mundo e meu sonho encantado de primeira classe se tornou apenas lembrança, de onde restou uma boa história. Todavia, esta situação me fez pensar nas injustiças existentes por trás de muitas das nossas hierarquias sociais, onde os méritos são, com frequência, obra do acaso e dos desígnios misteriosos da deusa Álea, a divindade dos fatos aleatórios, na mitologia particular do meu irmão Roger.

Saí do avião com a ideia de que, no fundo, as diferenças que observamos em nossas vidas são artificialismos e muito mais simbólicas do que práticas e reais. O que se vende na classe alta é a ilusão de ser diferente e a fantasia de ser especial. Em verdade, saímos do mesmo lugar e chegamos no mesmo destino, em uma viagem curta, onde o que mais importa é o que carregamos em nossa bagagem de amores.

Como a vida.

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Valores

Aos 5 anos de idade eu caminhava na rua Salgado Filho quando vi uma banca de jornais que vendia loterias. Olhei os números recheados de zeros no prêmio estampado e perguntei para o gigante que segurava minha mão:

– Pai, por que não compra um bilhete da loteria? Se você ganhar podemos ficar ricos e comprar qualquer coisa que quisermos.

Ele continuou andando firme e olhando para frente e me disse, do jeito sisudo e objetivo que sempre o caracterizou:

– Só acredito em dinheiro que foi ganho através do trabalho. Esse aí pode ser legal, mas é imoral.

É desses pequenos fragmentos dispersos que somos constituídos. Obrigado, pai, por essa lembrança.

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Luz e Sombra

Quase ninguém se importa em dar apoio e suporte aos cuidadores. Quando as perdas acontecem eles se tornam invisíveis ou se transformam em alvos fáceis para nossas frustrações. Humanizar o nascimento também é cuidar de quem cuida.”

Reese Waldorf, “Who cares”, ed Epigram, pág. 135

Esta escolha é sempre complexa pois se baseia em fatores subjetivos e questões circunstanciais e, em verdade, ela está na base de toda a opção que fazemos por cuidar das pessoas. Você pode escolher o contato nos limites do necessário para realizar sua função específica ou pode entender que somente ao raspar as crostras superficiais do sujeito é possível entender o que se passa para além de sua epiderme.

Assim sendo, diante de nós duas portas se oferecem: uma delas nos leva ao mundo do aparentemente manifesto, do discurso, da evidência, do sinal aparente e do sintoma mais grosseiro. Um mundo muito próximo da biologia, da física e do real que (ilusoriamente) nos envolve. Já a outra porta nos leva ao mundo do simbólico, do relativo, do subjetivo e do pessoal. Um universo de significados e significantes dispersos e fora de ordem, onde moram nossas verdades mais sombrias. A casa das verdades perenes, das memórias sombrias e do medo.

Ambas as portas nos oferecem a oportunidade de conhecer os pacientes, mas enquanto a primeira permite um contato superficial a segunda nos obriga à criação de um vínculo que também nos impõe – em contrapartida – a conexão afetiva e emocional. Por isso mesmo adentrar desta forma no universo mais profundo dos pacientes nos leva obrigatoriamente à empatia e à conexão, à alegria e ao sofrimento.

Quem escolhe a segunda porta sabe que as alegrias serão sempre o tempero da vida; a luz que nos faz caminhar e seguir adiante. Todavia, sabe também que as perdas os insucessos não poderão passar pela vida de quem cuidamos sem nos afetar da mesma forma.

A dor de perder na luta inglória contra a morte será sempre maior quando nossos corações se conectam com quem vestiu as capas do luto. Quem escolhe a com-paixão – o afeto compartilhado – sabe “a dor e a delicia de ser o que se é“. Sabe também que o preço das alegrias supremas é estar junto de quem sofre, para poder auxiliar quem se depara com as dores mais profundas que a vida pode reservar.

Um abraço pra as minhas amigas cuja dor de hoje lhes rasga a alma, exatamente porque são pessoas de luz e espíritos especiais.

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Para os bebês que demoram


Minha filha nasceu também com 41 semanas de gestação quando eu estava há poucos dias de me graduar em medicina. O tempo mais demorado e angustiante que eu lembro na minha vida foi entre as 40 e as 41 semanas. Os dias pareciam não passar, cada hora se arrastava e parecia me dizer que algo não estava certo, mesmo que as datas colocassem o nascimento que se aproximava dentro da mais absoluta normalidade.

Minha dor era ainda mais pungente pois, como futuro obstetra, parecia a mim que “algo devia ser feito”; apenas um sintoma do velho “imperativo tecnológico” de que somos afetados. Mas eu sempre mantive minha fé que Bebel nasceria no tempo dela e na hora exata em que escolheu. Isso serviu de ensinamento por toda a vida, pois que todos os seus outros “nascimentos” também ocorreram em seus tempos próprios, não nas fantasias que criamos para ela. Cada um de nós carrega essa centelha mágica de subjetividade que nos faz ser únicos e diferentes. Não importam as pressões do mundo para que sejamos iguais; há em nós uma força interna igualmente poderosa para que a vida tenha um caráter especial e distinto, e siga seu caminho único.

Cada bebê parece estar mostrando a fagulha de personalidade que já carrega ainda quando se encontra encerrado no mundo idílico do claustro materno. Seu tempo de nascer é determinado pelos hormônios que ele mesmo produz; portanto, esta é sua primeira oportunidade de dizer quem é e como quer ser entendido. Um novo ser já traz consigo suas características mais profundas, que se manifestam tão logo nossa atenção se volta para elas .

Para as mães que sofrem a angústia da espera e que carregam seus “bebês preguiçosos”, eu só peço que tenham paciência e confiança. Se estão no tempo justo de nascer nada há de errado em “cozinhar em fogo brando”, por mais que esta espera toque nas nossas inseguranças e temores. Também peço que não se culpem por sentir medo ou angústia; faz parte da maternidade aprender com a dor de aguardar.

Um beijo para todas vocês e que o parto tão esperado seja um dia de grandes conquistas para todos.

* Este texto escrevi para Derik e Márcia, a quem tive a honra de atender no parto da Valentina e que agora esperam a chegada de mais um bebê…

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