Arquivo da categoria: Histórias Pessoais

Marshmallow Cockroach

 

Muitos me acusaram de estar inventando histórias, então aqui vai o texto original do famoso “disco perdido do Pink Floyd”

O disco de estúdio que eu mais gosto do Pink Floyd é “Marshmallow Cockroach” que foi gravado às pressas em 1976 e jogado fora por uma discussão da banda (em especial o Roger Waters) com o produtor Brian Humphries pela inserção de algumas faixas contendo temática anti-Israel.

A banda apoiou a atitude de Waters mas isso significaria o cancelamento da turnê programada e o fim do contrato. O grupo decidiu manter o contrato e a turnê, mas guardaram os originais do disco já gravado. Imediatamente depois da controvérsia com Humphries e a desistência em gravar “Marshmallow” eles resolveram partir para a gravação do novo album “Animals” com a promessa de abandonar esta temática “enquanto a banda existisse”. O episódio em que Roger cospe em uma fã se relaciona a esta discussão prévia sobre o disco a ser lançado. Há uma cópia dessa gravação pirateada com som ambiente (estava sendo tocado no estúdio contíguo) que mostra o Pink Floyd no auge de sua criatividade e os vocais espetaculares de Roger Waters. Uma das músicas se chama “Forever Hebron” e o refrão diz assim:

“Hebron, hebron
Every stone stolen
Every stolen bone
May your soul
Live in us forever”

Tenho esse disco em MP3 em péssima qualidade, mas é possível reconhecer a genialidade palpitante do Pink Floyd e toda a verve indignada de Roger Waters. Esse, pelas circunstâncias, é o melhor disco jamais lançado do Pink Floyd, mas respeito opiniões em contrário.

A capa provisória do disco foi essa, que Roger Waters revelou recentemente numa entrevista para a BBC

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Surpresas

 

O sujeito tinha uns 45 anos e batia palmas freneticamente no portão da minha casa. Quando me aproximei ele me contou sua história. Havia sido policial e há 15 anos, durante uma batida, ele baleou uma criança que estava na linha de tiro, que veio a falecer. Foi expulso da polícia militar e condenado a 9 anos de prisão. Havia sido liberado naquela tarde e precisava de dinheiro para voltar para sua casa no interior do estado. Perguntei sobre o Serviço Social do presídio e ele me disse que “estas coisas não funcionam” e os funcionários “nunca dão dinheiro para ex-prisioneiros“. Sozinho e desamparado, pedia uma ajuda para voltar para sua cidade, sua única referência, onde encontraria sua mãe, tudo que lhe restava.

Senti pena do rapaz. Uma vida desperdiçada por um erro. Uma fatalidade que o fez passar quase uma década afastado de tudo e de todos, por um momento de desatenção. Que tristeza!! Coloquei a mão no bolso e tirei as notas que tinha comigo. Entreguei a ele e disse “Vá com Deus”.

Passei alguns dias impactado pela história. A sensação incômoda de fragilidade diante da imprevisibilidade da vida. É verdade; a qualquer momento tudo pode mudar e sua existência virar do avesso. Pobre homem!!

Cinco dias depois, ao chegar em casa, encontrei um senhor negro, de uns 50 anos parado ao lado do portão. Pediu desculpas por estar tão tarde do dia na frente da minha casa e disse que precisava de uma ajuda para voltar para casa. Explicou que durante uma ação policial havia matado uma criança por uma bala perdida, pelo que foi expulso da polícia e condenado a 9 anos de prisão. Estava saindo naquela noite do Presídio Central e por isso necessitava ajuda para a passagem do ônibus.

Olhei com firmeza para o homem e pedi que fosse embora, e que combinasse melhor as histórias com seus parceiros. Por outro lado, fiquei feliz pela criança que não morreu e pelo homem que não foi preso pelo crime que jamais cometeu.

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O Caminho como Metáfora

 

Em 2003 fui apresentar uma aula onde procurava mostrar graficamente como o modelo tecnocrático e intervencionista da obstetrícia contemporânea era algo extremamente recente na história da nossa espécie. Minha primeira ideia foi mostrar um relógio e explicar que este modelo, que ora usamos, representava apenas os últimos 15 segundos de um dia inteiro de aprendizado para lidar com os desafios da parturição. Os 40 anos de tecnocracia mais agudizada ficavam minúsculos diante dos 200 mil anos de adaptação apenas desta espécie, sem falar na carga de ensinamentos que recebemos dos 7 milhões de anos de história de bipedalidade.

Um tempo depois pensei uma imagem mais próxima de nós – uma estrada. Em verdade próxima de mim e da minha fantasia adolescente. Coloquei o gif de um caminhante sobre o mapa do norte da Espanha, com o traçado que liga Saint Jean Pied de Post (na França) até Santiago de Compostela, já na Galícia. Abaixo os dizeres: “Caminho de Santiago = 800 km“. A ideia era mostrar que se a forma como atendemos o parto fosse em um tempo igual ao Caminho de Santiago, o modo tecnocrático, intervencionista, medicamente controlado, cientificista, insensível, frio e afastado das evidências científicas representaria apenas os últimos… 80 metros.

Espero que tenham entendido como as modificações recentes no parto, em especial a hospitalização, produziram efeitos muito importantes e graves na forma como entendemos e sentimos esta parte tão importante da sexualidade humana.

Agora eu me sinto no fim dos pródromos de um grande trabalho de parto, que durou 37 anos. Desde a minha viagem de 108 km de Porto Alegre até o litoral, quanto não contava mais do que 20 anos de idade, que sonho em percorrer a rota mística de Santiago. Ela esteve presente em meus sonhos, nos livros que li, nos filmes e documentários que assisti e nos inúmeros e infindáveis devaneios sobre o que me aguardaria na travessia.

As contrações agora se intensificaram e começo a sentir uma certa regularidade. Não sinto mais tantas dores, as bolhas serenaram, a sola engrossou, ou músculos pararam de se embebedar com o ácido lático de todos os dias. Apesar das dores os passos estão mais confiantes. A cada albergue que chegamos cresce nossa confiança; são como nas pausas silenciosas depois de cada contração. Os olhares de apoio das minhas companheiras de caminho são como as massagens de divinas doulas sobre um corpo cheio de cicatrizes e uma alma ainda rasgada de indignação. São elas que me estimulam, e quando dizem, jocosamente, “é logo ali”, sinto o mesmo frescor das palavras que por tantas vezes eu mesmo disse a quem sofria a dor do desconhecido.

Na minha jornada – o caminho é sempre solitário – levo no alforje a metáfora do nascimento. Se existe sentido na dor, na lágrima, no nariz que corre, no músculo retorcido e nos pés que sangram também terá valido a pena lutar para que o nascimento seja um evento de luz, com autonomia, liberdade, segurança e comunhão de almas.

Sigamos!!!
Ultréia!! Suséia!!!

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Emoção no Caminho

 

Em Carrion de los Condes fica o albergue de Santa Maria, controlado por freiras que se vestem com hábitos tradicionais, parecidos com a roupa de Sally Fields em “A Noviça Voadora” (The Flying Nun). Quando chegamos era possível sentir no ar como doçura e a simpatia destas senhoras é contagiante. Estávamos – obviamente – cansados e doloridos pela caminhada do dia e fomos recebidos com o mais caloroso dos sorrisos. Nos informaram as camas que ficaríamos, explicaram as regras gerais (horários, banhos, roupa por lavar, luzes, etc) e nos avisaram que as 17h haveria um “momento musical” ao qual estávamos convidados a participar.

Encontramos nossos amigos no Jardim dos fundos e ficamos por umas duas horas conversando com Alessandro, da Itália e Brian da Irlanda, contando as curiosidades e peculiaridades de nossos países.

Quando se aproximou das 17h Bebel e Juliana começaram a preparar nosso jantar. Depois de vários dias no “lanchinho” decidimos comer comida de verdade. Arroz, molho, vinho, queijo, legumes. Enquanto elas se ocupavam na cozinha resolvi entrar na sala onde haveria a apresentação.

Quando entrei já havia se iniciado e pude voltar no tempo ao ver as freirinhas tocando violão e cantando com a voz afinadinha canções adaptadas e hinos religiosos. A cena tocou fundo na minha memória mais infantil, quando isso acontecia nas igrejas da minha cidade.

Terminadas as canções ofereceram o violão a um grupo de brasileiros que recém haviam chegado. Estes não se fizeram de rogados e cantaram “Meu Erro” dos Paralamas. Foram muito aplaudidos.

No final fizeram uma bênção a cada um dos peregrinos presentes, fazendo uma imposição de mãos sobre a cabeça e nos deram de regalo uma estrela colorida que simbolizava o coração delas que nos acompanharia por todo o caminho. Eu me debulhei em lágrimas pensando em Zeza, Lucas, meus pais, irmãos, nora e netos e por um instante senti que muito da negatividade que carregava no coração pela dor diante das injustiças saíram naquelas lágrimas.

O Caminho traz surpresas inesperadas. Em verdade estas pérolas de carinho e cuidado nos trazem de volta para o otimismo e a positividade que a vida muitas vezes nos sonega. Às irmãs do Albergue Santa Maria um agradecimento especial pela delicadeza e a amorosidade que acolheram este coração ferido.

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Olhos emprestados

 

Olhos emprestados

“Não, acho que estás te fazendo de tonta, te dei meus olhos prá tomares conta, agora conta como hei de partir”.

(Chico Buarque)

A coisa mais mágica – e mais preciosa – que se recebe de um amor é a oportunidade de olhar o mundo pelos seus olhos.

Eu sempre fui um menino de classe média baixa. Nunca tive os brinquedos mais caros, nem meu pai – um funcionário de nível médio de uma estatal – comprava carros novos, nem casa na praia, viagens caras, roupas de grife, etc. Era kichute, camiseta Hering e busāo para todos. Coca-Cola litro no fim de semana.

Aos 17 anos namorava uma menina também da classe operária. Uma jovem garota com 6 irmãos filha de um bancário e uma dona de casa. Classe média, um pouco mais baixa que a minha. Logo depois de começarmos a namorar eu entrei para a faculdade de medicina e ela foi cursar enfermagem.

A faculdade abre nossos horizontes. O mundo se expande de forma avassaladora. O pequeno universo da família e do bairro se torna da cidade e do mundo (urbe et orbi, dizia o omni-bus que eu tomava). Meus colegas de aula tinham sobrenome de ruas da cidade e de instituições financeiras. Entre eles, os novos herdeiros de feudos médicos tradicionais. Chegavam à escola médica de carro próprio aos 18 anos e alguns se recusavam a comer no bandejão da universidade porque não gostavam do “tempero”. Eu era um alienígena em um ambiente feito para eles, não para mim.

Mas tudo poderia ser diferente. Eu poderia ter deixado minha namorada de escola por Jennifer. Filha de um oftalmologista – que dividia seu tempo entre a clínica na Padre Chagas e a criação de gado em Lavras do Sul – e uma juíza do trabalho, ela era o sonho de consumo de qualquer sujeito que almejasse um “upgrade” na escala social. Linda, loira, coqueta, vaidosa e estudiosa. Herdaria a clínica do pai e desde o início da faculdade seu mundo se resumia a um “olho”, cuja anatomia devorara rapidamente dos livros, com suas câmaras, íris, pálpebras e ductos lacrimais. Um futuro róseo e feliz planava altivo por sobre suas sobrancelhas grossas e morenas.

Quis o destino que Jennifer nunca tenha tomado conhecimento da minha existência e que minha namorada de escola tenha me oferecido seus olhos para que eu tomasse conta. Ao invés de ver o mundo através da alta classe fiquei com os olhos verdes de uma proletária.

Acreditem, para mim isso fez toda a diferença. Minha vida se manteve fiel às suas origens sem que as promessas de um mundo charmoso e sofisticado daquela profissão, crivada de privilégios, me deixasse esquecer de onde vim. Tive a oportunidade especial de olhar o mundo que se abriu à minha frente pelos olhos emprestados de uma enfermeira e isso me proporcionou uma brecha de autocrítica extremamente rara no mundo médico. A ela devo tudo que sei, tudo que aprendi e o pouco que pude ensinar.

Se há algo de valioso nas parcerias que fazemos, em especial aquelas cujo amor é o elo essencial, esta é a chance de ver o mundo com os olhos do outro. Agradeço a oportunidade única de ter recebido de uma enfermeira a possibilidade de enxergar os dilemas do nascimento através do seu doce olhar.

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