Arquivo da categoria: Histórias Pessoais

A morte repetida

 

A morte de um assaltante foi exibida em horário nobre repetidas vezes para exaltar o trabalho de quem o executou: a policial candidata a deputada que o baleou na frente da escola onde ele se preparava para cometer um crime. Consta que a policial foi eleita, e a mãe do rapaz a está processando por uso da imagem mórbida e renitente do filho agonizando no asfalto quente.

As “pessoas de bem” tem uma profunda dificuldade de entender que existem DOIS crimes cometidos neste caso, e insistem em olhar para apenas um. O primeiro crime foi uma tentativa de assalto em que o rapaz acabou morto. Não há sequer o que fazer; ele foi julgado e punido no mesmo instante. Não sou expert em segurança para dizer se foi correto abrir fogo no meio da multidão, mas… que seja. Pronto, o crime foi evitado e o rapaz que estava para cometer um ato criminoso foi punido.

O OUTRO CRIME é a exposição do rapaz para fins de propaganda, o crime de usar a morte de alguém para se vangloriar, impedindo que sua família possa viver seu luto em paz. A negativa desse direito – de não ser punido duas vezes pelo mesmo crime, tanto em vida quanto após a morte – faz sentido numa sociedade que não considera negros e pobres como gente. Eles não são como nós, “gente de bem”; eles são a escória, o lixo, os inferiores. Por isso podemos mostrar indefinidamente seus corpos baleados no asfalto, agonizando indefinidamente para o nosso gozo de classe média branca.

Esse é o crime que nos negamos a ver. Afinal, que mal há em expor um negro pobre morrendo todos os dias para a nossa diversão? Por isso qualquer ideia de criticar essa desumanidade e esse abuso é tratado como “defesa do crime”.

Leva pra casa… bandido bom é…

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Arquivado em Histórias Pessoais, Política

Ginetes

Rita era uma mulher de 45 anos, bonita, separada e de voz doce. Tinha dois filhos adolescentes e vivia em um belo apartamento num bairro nobre da mesma cidade em que eu morava. Seu casamento com um arquiteto conhecido havia sucumbido há alguns anos, e a história dessa relação eu ainda preciso escrever, antes que a memória venha a me trair. Certamente um enredo de mistério, romance, aventura e tragédia…

Mas não era essa a história a contar. Em um encontro da Igreja Rita conheceu um senhor divorciado que tinha uma idade semelhante à sua. Pai de dois filhos adultos, um casamento desfeito há uns 10 anos, proprietário de terras em uma cidade do interior. Cristão fervoroso, defensor da família e dos bons costumes. Conservador. Era advogado, mas não atuava; vivia tão somente dos proventos que recebia das terras que arrendava para o plantio de arroz.

Começaram a namorar depois de um certo tempo, e a relação parecia boa. Ambos maduros, com filhos crescidos, sem problemas financeiros. Rita era professora estadual, mas além disso ganhava uma polpuda pensão do seu ex-marido. Os filhos de ambos eram quase independentes.

Depois de algumas semanas de namoro formal o namorado lhe faz um convite especial. Precisaria ir à sua cidade no interior para resolver assuntos pendentes relacionados à sua propriedade rural e a convidou para acompanhá-lo. Aproveitaria a ocasião de uma feira agropecuária na cidade para fazer essa visita. As “gineteadas”, os “tiros de laço”, a festa popular e todas estas atividades da cultura do interior poderiam ser divertidas, mesmo para uma mulher cosmopolita como Rita. Ela aceitou.

Partiram no dia combinado para a cidade. Lá encontraram uma festa típica das cidades pequenas, com a elite de agricultores e pecuaristas que dominam a cena e os inúmeros subalternos que tocam o espetáculo. Barraquinhas de comidas típicas, mulheres com vestidos rendados, jovens imitando a estética caubói, música sertaneja por todos os cantos, filas para o banheiro e gente por todo o lado.

Vamos assistir a “gineteada”, disse ele. Sei de uns bons ginetes que vão se apresentar hoje.

Participar de uma gineteada é “cavalear”, ou “cavalgar”. Na prática consiste em permanecer montado no cavalo que, através da dor, é estimulado a saltar, arquear o corpo e dar pinotes. Rita conhecia a prática de filmes e de fotografias, mas nunca havia visto uma de tão perto. Aproximou-se da pequena mureta que separa o público do tablado de areia e serragem que protege os cavaleiros das inevitáveis quedas e ali ficou observando as provas. Ficou vivamente impressionada com a agilidade e destreza dos ginetes e percebeu o quanto seu namorado vibrava com cada corcoveada e a cada manobra executada pelos exímios montadores.

Subitamente percebeu que ao lado uma moça se aproxima do seu namorado e suavemente lhe bate no ombro. Retirando os olhos do espetáculo, ele gira o corpo na direção dela, que se posta logo atrás.

– Oi, está lembrada de mim?, disse ela sorrindo.

Ele pareceu meio desconcertado e sem jeito. Tentava recordar as feições, mas não as situava no tempo e no espaço.  Fazia um esforço que só foi interrompido quando ela mesma lhe disse o nome.

– Claro que me lembro, disse ele constrangido. Como você está? Faz tempo que não lhe vejo. Tudo certo?

A jovem – que teria idade para ser sua filha – apenas lhe devolveu o sorriso e disse:

– Eu estou muito bem. Não se preocupe. Queria apenas que você conhecesse o seu filho.

Dizendo isso ergueu nos braços o menino que carregava pela mão, que não passava de três anos de idade. Aproximou-o do peito, enquanto o namorado de Rita o fitava com certo espanto. Porém, nada disse, e foi ela quem falou:

– Pode ficar tranquilo. Assista seu show. Achei apenas que devia mostrá-lo a você. Adeus e felicidades.

Ele respondeu ao adeus e girou novamente o corpo para o tablado onde os ginetes se esforçavam para manter seus corpos atados ao lombo dos cavalos ariscos e assustados. Depois de alguns instantes, voltou o rosto para Rita, que se mantinha estática e sem conseguir falar.

Olhou-a com um sorriso patético e falou:

– E não é que saiu bonito como o pai?

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Galaxie

 

O ano era 1984 e a aula recém havia terminado. Enquanto meus colegas se dirigiam para a porta da velha sala de aulas da Santa Casa eu ainda conversava com meu professor sobre temas da aula de ginecologia. Recém concursado para a vaga de monitor da cadeira de GO da faculdade de medicina eu era uma “esponja”, aflito por absorver todas as informações possíveis sobre o universo da obstetrícia. Resolvi fazer ainda aquela última pergunta, enquanto o professor guardava papéis dentro de uma pasta de couro. “Vamos indo para o estacionamento enquanto lhe explico“. Segui meu professor enquanto ele discorria sobre um assunto que se perdeu na poeira das décadas, e quando chegamos no estacionamento ele perguntou para onde eu ia. “Para o Hospital de Clínicas“, respondi. “Bem, disse ele, é para lá que eu vou. Quer uma carona?

Respondi afirmativamente, claro. Afinal, isso me garantiria meia hora a mais de descanso antes de começar a aula da tarde e um tempo a mais para almoçar.

Cheguei ao carro e senti uma sensação estranha. Um susto. Na verdade meu professor não tinha um carro, mas um Galaxie Landau azul, com estofamento em “jacquard” inglês e direção hidráulica. Fiquei estupefato de ver na minha frente um carro de cinema, que eu só conhecia da TV, ou de ver ao longe nas ruas.

Tive o cuidado dos pobres ao entrar no veículo, sabendo que se eu derrubasse alguma coisa jamais teria dinheiro para pagar. Ele me perguntou “Está quente. Quer que ligue o ar?

“Ar”? Como assim? Então ele ligou o ar condicionado do carro e o frescor súbito foi a sensação tecnológica mais impressionante da minha vida, só rivalizando com a primeira vez que falei num celular. Ar condicionado em carros era coisa de ricos, de gente “de bem” ou “grã-finos“. Tudo isso em um Galaxie Landau era a imagem do glamour. O presidente Sarney tinha um, e o meu professor também.

Nossa viagem durou os 10 minutos que separam a Santa Casa do Hospital de Clínicas, mas a sensação me acompanha até hoje, mesmo depois de 34 anos. Nos despedimos e nunca mais conversamos de novo. Este professor foi um dos pioneiros em clínicas de diagnóstico por imagem e ficou rico com suas ecografias. Para meus vinte e poucos anos de vida ele parecia uma luz, um exemplo de excelência.

Escrevi essa lembrança porque o impacto que a vida de luxo de um médico que investiu numa área charmosa e rica da medicina poderia ter me encantado a ponto de querer seguir seus passos. Os estudantes não aprendem muito com as aulas, mas com os exemplos de seus mestres. Um médico, professor na universidade, ligado às tecnologias de ponta e com sinais evidentes de sucesso é um exemplo difícil de não seguir.

Todavia, meu caminho foi no sentido oposto. Tecnologia nunca me seduziu e sempre acreditei que o verdadeiro desafio estava nos mistérios que se escondiam no vão que separa as palavras. Agora que aos poucos entendemos melhor os limites das ultrassonografias e reconhecemos seu impacto pífio nos resultados obstétricos, penso na força que estes exemplos produzem nos estudantes. Para os jovens que olham para o futuro com medo e excitação, o sucesso emoldurado por um estofado em “jacquard” inglês produz uma inequívoca fantasia de futuro radiante.

Menos de um ano depois comprei meu primeiro automóvel, que guardava de semelhança com o carro do meu professor apenas o número de rodas girando. Era um Fusca 1972.

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O passado presente

 

Quando eu tinha 5 anos de idade aconteceram duas coisas importantes na minha vida: o Brasil mergulhou em uma ditadura militar que durou toda a minha infância até a entrada na vida adulta e meu pai fez uma inusitada e incrível viagem de estudos à França, onde ficou por 6 meses.

Quando na minha entrada na adolescência eu disse ao meu pai que ele era um sujeito de muita sorte, pois teve a possibilidade de conhecer Paris e Marselha; Nice e Lyon. Ele me respondeu de forma profética: “Isso não é nada. Quando você tiver a minha idade estas viagens, que hoje parecem tão difíceis e caras, serão tão acessíveis quanto pegar um ônibus até o centro da cidade”.

Hoje percebo o quanto estes fatos me marcaram. Não só não consigo aceitar o novo golpe que nosso país sofreu como me tornei um viajante compulsivo. Nunca menospreze a importância das experiências primitivas na constituição do sujeito.

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Marshmallow Cockroach

 

Muitos me acusaram de estar inventando histórias, então aqui vai o texto original do famoso “disco perdido do Pink Floyd”

O disco de estúdio que eu mais gosto do Pink Floyd é “Marshmallow Cockroach” que foi gravado às pressas em 1976 e jogado fora por uma discussão da banda (em especial o Roger Waters) com o produtor Brian Humphries pela inserção de algumas faixas contendo temática anti-Israel.

A banda apoiou a atitude de Waters mas isso significaria o cancelamento da turnê programada e o fim do contrato. O grupo decidiu manter o contrato e a turnê, mas guardaram os originais do disco já gravado. Imediatamente depois da controvérsia com Humphries e a desistência em gravar “Marshmallow” eles resolveram partir para a gravação do novo album “Animals” com a promessa de abandonar esta temática “enquanto a banda existisse”. O episódio em que Roger cospe em uma fã se relaciona a esta discussão prévia sobre o disco a ser lançado. Há uma cópia dessa gravação pirateada com som ambiente (estava sendo tocado no estúdio contíguo) que mostra o Pink Floyd no auge de sua criatividade e os vocais espetaculares de Roger Waters. Uma das músicas se chama “Forever Hebron” e o refrão diz assim:

“Hebron, hebron
Every stone stolen
Every stolen bone
May your soul
Live in us forever”

Tenho esse disco em MP3 em péssima qualidade, mas é possível reconhecer a genialidade palpitante do Pink Floyd e toda a verve indignada de Roger Waters. Esse, pelas circunstâncias, é o melhor disco jamais lançado do Pink Floyd, mas respeito opiniões em contrário.

A capa provisória do disco foi essa, que Roger Waters revelou recentemente numa entrevista para a BBC

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