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Doenças da moda

Não existe sujeito sem cultura e nem cultura sem sujeito. Assim, as doenças são também expressões culturais. As histéricas de Freud tinham significado na constrição sexual europeia do final do século XIX, mas perderam muito de sua pervasividade em uma cultura mais liberal. Ainda vale o adágio que nos diz “sociedades constritivas, manifestações histéricas; sociedades histéricas, sujeitos depressivos”. Hoje a depressão é quem mais afeta uma sociedade abusivamente individualista e hedonista.

Doenças funcionam também como moda. Na época da faculdade, após a criação dos ecocardiógrafos, houve uma explosão de diagnósticos de “prolapso de válvula mitral” – até minha mãe conseguiu um – a educar uma infinidade de sintomas. Hoje saiu de moda como fenômeno. Na época da minha formatura, meados dos anos 80, a moda na ginecologia era a Chlamydia. Hoje ela é apenas mais uma das DST. AIDs teve seu esplendor, mas hoje não frequenta mais as manchetes.

A tuberculose mata mais do que todas estas doenças, e há séculos, mas é uma doença da miséria, seja pelo contágio ou pelo controle insuficiente. Ela não ganha manchetes, só lápides.

As manifestações de pânico, déficit de atenção, desordens do espectro autista e depressão ganham manchetes, estudos, pesquisas e diagnósticos. Existem por certo como sofrimento real, mas é inegável que a atenção social sobre estes eventos produz excessos que apenas o tempo acabará depurando.

Lembrei agora de um professor de medicina que teve uma morte meteórica após a descoberta de um melanoma. Imediatamente depois de seu falecimento, que nos chocou a todos, nós víamos alunos, residentes e enfermeiras com curativos de biópsia no rosto e nos braços circulando pelo hospital. Quantos receberam diagnósticos limítrofes e fizeram cirurgias desnecessárias apenas pelo ambiente de medo criado por um fato real?

E o que dizer das indicações de cesariana por sofrimento fetal, ou as cirurgias marcadas por bebês “muito grandes ou “muito pequenos”, diagnósticos que surgiram como fenômeno apenas depois da invasão do claustro amniótico pela tecnologia? Seriam estas enfermidades verdadeiras?

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Avós

Eu não tive meu avô materno por perto, que faleceu quando eu não tinha mais que 3 anos de idade. Meus avós paternos moravam no interior, e só vieram para a capital quando eu era um menino crescido. Minha vó Irma, a “vó mágica”, foi nossa grande imagem de avó. Foi na sua casa, no bairro Moinhos de Vento, que ficamos quando meu pai viajou para o exterior para um período de estudos.

Vó Irma foi minha referência. Ela me protegia da fúria dos meus pais por causa das traquinagens. Ela guardava na cozinha as infusões em álcool, as ervas, rotuladas com sua letra desenhada. Ela fazia o primeiro atendimento nos acidentes domésticos, e falava palavras mágicas em alemão, em especial os palavrões.

Heile, heile
Katzendrek

Morgen fruh
Ist alles weg!!

Cura, cura
Cocô de gato
Que amanhã
Está tudo bem!!

Ela tinha as violetas de genciana para passar na garganta, as mandingas das alemoas para curar feridas. Ela sabia como desatar os nós cegos nas cordas e sabia todos os segredos da cozinha. Milhões deles, como colocar uma pitada – e jamais duas!! – de um pó branco na comida, para deixá-la deliciosa. Ela me pedia para calçar os “boots” ou amarrar os “guides”, ou para botar as alpargatas para ir ao pátio brincar com meus irmãos. Me obrigava a colocar “brincoringa” nos dias de frio e me proibia de colecionar maços velhos de cigarro. Era ela quem nos escondia no quarto para minha tia matar uma galinha para o almoço.

Minha avó me ensinou a admirar as orquídeas, as plantas, as ervas, os chás e me mostrou a importância de cuidar. Ela e minha mãe pareciam uma unidade Panzer de cuidados maternos, que agiam em ”blitzkrieg” para dar conta das nossas brigas de irmãos. Tudo que sou hoje tem, de uma forma ou de outra, uma referência nestes anos em que minha avó era o centro que irradiava conhecimento e afeto.

Hoje tenho o supremo privilégio de ter sobrevivido o suficiente para ter meus netos ao redor e penso que nada mais faço do que restituir uma parcela do que recebi de cuidado e carinho dos meus avós. Felicidades a todos os que foram abençoados por um avô ou avó em suas vidas.

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Pugilato no C.O.

– Eu vou quebrar a sua cara, safado!!

– Então venha, seu mau caráter!!

Há muitos anos eu era residente no hospital escola onde estudei e me formei. O plantão havia sido intenso, com muitos partos, atendimentos e cirurgias, mas já havia passado uma hora do último parto, o que oferecia ao nosso setor uma benfazeja calmaria. Eu fazia o trabalho mais pesado, enquanto os R2 faziam as atividades que precisavam mais responsabilidade e experiência. Depois de alguns poucos minutos de descanso no “estar médico” esta tranquilidade foi quebrada com gritos – na verdade uma gritaria recheada de palavrões e ameaças – vindo da entrada do centro obstétrico. Corri para o local e quando lá cheguei vi meu colega de plantão pronto para bater num cidadão que estava ao lado de sua esposa, a qual iniciava seu trabalho de parto. Ambos estavam com os pulsos ao alto, prontos para socar um ao outro. Algo havia acontecido momentos antes que havia escalado para uma altercação física.

Eu imediatamente me coloquei entre os dois, enquanto faíscas de ódio passavam por cima dos meus braços e cabeça. A agitação de ambos era limítrofe: os rostos pálidos cheios de adrenalina indicavam que estavam prontos a se engalfinhar. Depois de alguns momentos, e com muita calma e paciência, consegui convencer meu colega a sair e deixar a questão para que eu cuidasse.

Quando a poeira sentou escutei o que o casal tinha a contar. Disseram que o médico estava “negando” a internação. Disseram também que moravam longe, que não tinham como voltar e só lhes restava chamar as rádios populares, fazer uma queixa, depois chamar a polícia e todas aquelas ameaças que os trabalhadores da linha de frente da assistência à saúde já escutaram alguma vez na vida.

Pedi para ver a ficha do atendimento que meu colega havia acabado de registrar. Os batimentos estavam ótimos, mas o toque revelava duas contrações cada 10 minutos, fracas, e a dilatação era de meros dois centímetros. Ficou fácil entender porque meu colega havia “negado” a internação.

– Ele disse que o hospital está lotado!!! Isso é uma mentira!! Olhe em volta!!

Ficava fácil perceber que o centro obstétrico estava vazio, mas o meu colega havia transmitido apenas a recomendação do setor de neonatologia (do andar de baixo) para não internar ninguém pois eles estavam sem leitos disponíveis. Foi o que ele tentou fazer, talvez sem a necessária delicadeza.

Expliquei ao casal o que havia acontecido, pelo menos do nosso ponto de vista. Relatei a eles sobre a lotação da neonatologia e eles pareceram entender, mesmo sem se convencer. Pedi, então, para que fizessem um acordo comigo. Que saíssem do hospital e ficassem dando voltas na quadra. Ou que fossem ao parque – que fica uns 50 metros distante – e que tomassem um sorvete. Pedi que se tranquilizassem e esperassem sem medo a chegada das contrações do trabalho de parto.

– Aguardem a chegada das contrações fortes. O sol está se pondo, alguns recém-nascidos terão alta. Vão sobrar lugares depois disso. Quando voltarem aqui com muitas contrações eu me responsabilizo por atendê-los. Fiquem tranquilos, eu dou minha palavra. Eu garanto a internação.

Com essas garantias eles se acalmaram e saíram da sala. Voltei para a sala e encontrei meu colega ainda alterado. Eu sabia que, se tivesse internado a paciente (sem nenhuma justificativa), os socos e pontapés poderiam ser transferidos para mim, por isso fui rapidamente dizendo que confirmei sua decisão. Porém, isso não foi suficiente para acalmá-lo. Ainda descontrolado, explodiu em palavras de indignação e raiva.

– Quem eles pensam que são para me dar ordens? Como ousam dizer como devo fazer meu trabalho? São uns ignorantes sem preparo algum!!!

Pedi em vão que se acalmasse. Ele continuou esbravejando, com os olhos injetados de inconformidade.

– Pois eu te digo o que vai acontecer. Eles voltarão aqui por volta das 4 da manhã, durante o meu turno de trabalho. Você sabe o que eu vou fazer? Vou colocá-la na última sala de pré-parto, no fundo do corredor, sem acompanhante algum. Vou escutar daqui os seus gritos e não vou ajudar. Deixarei que ganhe seu filho sozinha para ver seu períneo se arrebentar!!! Só então ela vai entender o nosso trabalho!!

É evidente que meu colega, um sujeito brincalhão e boa praça, jamais faria isso. Não se pode analisar este tipo de arroubo de forma literal. Retirar essa explosão de raiva do contexto seria um crime imperdoável. Ele nunca cometeria um ato tão odioso quanto esse e a tudo isso entendi como uma explosão de indignação, dita para dois ou três de seus colegas imediatamente após uma cena de quase pugilato.

Entretanto, sua frase nunca saiu de minha cabeça. Ela continha, de forma sintética, a quintessência do pensamento médico obstétrico e todos os ensinamentos da antropologia do nascimento que eu ainda viria a conhecer.

“Vou escutar daqui os seus gritos e não vou ajudar. Deixarei que ganhe seu filho sozinho para ver seu períneo se arrebentar. Só então vai entender nosso trabalho.”

Com esta frase ele queria mostrar que a única forma de uma mulher parir com segurança e dignidade é submetendo-se à ordenação médica e deixando-se cortar, abrindo-se e tendo seu filho sacado do seu ventre para entrar nesse mundo – “por baixo ou por cima”. A alienação era a ÚNICA via que poderia lhe garantir segurança; inobstante a via de nascimento, ela seria controlada por forças externas a ela, já que, em essência, era vista como incompetente para dar conta dessa tarefa.

A episiotomia entrava, em seu breve discurso, como um processo civilizatório, uma marca da cultura em seu corpo a lhe lembrar de sua posição social, como uma cicatriz de guerra, uma escarificação, uma tatuagem a lhe dizer eternamente que, para dar conta de suas tarefas femininas, precisou da ajuda de alguém representando o mundo masculino. Mesmo sendo um ato violento, a episiotomia se justificava como uma forma de pedagogia. “É para o seu bem, mãezinha”.

“Eu sou o caminho à verdade e à Vida, e só parirás se for por mim”, já me avisava Max nos primórdios da minha conversão.

Nenhuma “humanização do nascimento” vai prosperar e vicejar sem que esses elementos da cultura sejam lentamente eliminados dos nossos ouvidos como a narrativa condutora e hegemônica. Nenhum avanço será feito se continuarmos a acreditar na defectividade feminina, em sua incompetência essencial e no direito inquestionável da tecnologia de lhes expropriar deste momento especial.

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Conversa ao telefone

Meu pai, 90 anos, ao telefone hoje:

– Fui fazer um tratamento dentário que precisava fazer a tempo. Fiquei esperando pra ver se morria antes. Como não morri, resolvi fazer. Chato isso…

– Não se apresse, pai. Se precisar bote uma chapa novinha.

– Pois é. Ultimamente vejo filmes e leio coisas antigas. Não me sinto deprimido mas fiquei chorão vendo filmes e lendo os livros que vocês escreveram (eu e meu irmão Roger Jones)

– Leia coisa de qualidade, pai. Não perca suas energias com canastrões. Use os meus livros para ajeitar o pé da mesa da cozinha, que está desequilibrada.

– Estou falando sério, vocês escrevem bem. Quando você fala de parto é muito bom de ler e viajar por esse mundo desconhecido para um homem como eu. Só não leio mais porque tenho medo de ler alguma coisa que você escreveu sobre política. Meu filho, eu já te falei tantas vezes que…

– Pai, nós já falamos sobre isso.

– Sim eu sei, eu sei. Nao vamos entrar nessa seara. Tenho saudades da tua mãe. Penso em reencontrá-la. Não sinto tristeza, sinto curiosidade desse mundo que vou reencontrar.

– Quem sabe vou antes que você. Nunca se sabe.

– Tchau filho, fiquem em casa.

– Tchau pai, fique em paz

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A doença sagrada

– Ajudem!! Ajudem!! Salvem o meu filho!!

O homem negro e magro entrou correndo na sala de atendimento com o filho desfalecido nos braços. No Pronto Socorro ele ultrapassou todas as portas aos gritos. “Salvem meu filho!!!”, gritava. Trazia nos olhos a marca rubra da embriaguez. O filho, também esquálido, não tinha mais do que 6 anos. Jogou a criança nos meus braços, jovem interno, estudante do 5o ano de medicina. Não houve tempo de chamar o médico responsável; corri com o menino nos braços e o coloquei sobre a maca de curvim azul.

– A gente estava num churrasco. Ele caiu e começou a tremer e chacoalhar. Tentei puxar a língua. Depois ele desmaiou.

O pobre homem trocava as palavras, enrolava a língua. Estava bastante embriagado, mas pude entender do que se tratava. Coloquei a mão sobre o peito do menino. O coração estava acelerado e a respiração normal. Em verdade, dormia. Estava em estado pós-convulsivo.

Eu também suspirei. Por um instante imaginei o pior. Atropelamento, bala perdida, acidente doméstico. Em verdade, o menino estava repousando seus sentidos após a descarga intensa de uma convulsão epilética.

O que eu ainda não sabia é que a sociedade não produz doenças em vasos estanques. Não havia apenas um paciente ali; ao meu redor havia pelo menos dois, além daqueles que ainda estavam por chegar. Um pai que passa pelo terror de carregar um filho supostamente morto nos braços também está enfermo, mesmo que nenhum órgão esteja (ainda) danificado.

– Ele está bem, disse eu afastando o estetoscópio do seu peito após escutar seus batimentos firmes e compassados. Pode aguardar ali fora, cuidaremos dele.

Nesse momento o homem se enfureceu. Fuzilou-me com seu olhar alcoólico e cuspiu as piores violências.

– Como pode estar bem? Estou vendo uma criança que não consegue acordar!! Ele vai morrer!! Vocês não estão fazendo nada!! Bandidos!! Façam alguma coisa!!

Ato contínuo, desferiu um soco no meu estômago. Senti o impacto duro do punho e meu corpo se projetou para trás. Ele, aparentemente assustado, recolheu os braços mas continuou os xingamentos. Meus colegas se colocaram entre nós, enquanto outros saíram da sala em busca dos seguranças.

Eu havia me tornado pai recentemente. Meu filho tinha poucos meses de vida. Podia ler nos olhos daquele homem a indignação, o medo, a dor e a impotência. Reconhecia estes signos e entendia essa fragilidade.

Quando os seguranças chegaram ele já estava mais calmo. Outros estudantes e o médico já lhe haviam confirmado o que eu tinha tentado explicar. Mais calmo ele começou a chorar. Sentou-se em uma cadeira no canto da sala e repetia “achei que ele tinha morrido”. Depois de uns poucos minutos levantou-se de lá, deu dois passos em minha direção e me abraçou. Entre soluços me disse:

– Desculpe doutor, eu estava com muito medo. Achei que tinha perdido meu filho.

Recordei essa história porque li de novo a reportagem que fala da agressão de um homem a um profissional que atendia o parto de sua esposa. Imediatamente houve a justa indignação da corporação, da imprensa e dos colegas.

Passei três décadas lidando com essa tensão e posso entendê-la. Pior ainda, atendia de forma não convencional, aguardando os tempos, respeitando a fisiologia e os desejos do casal. Todavia, nem sempre a “turma de fora” – a família e os amigos – pensavam da mesma forma. Não foram poucos os momentos de alto tensionamento.

Não há dúvida que há despreparo por parte dos familiares, por certo, mas também ocorre uma falsa expectativa produzida na cultura sobre os tempos do nascimento.

Além disso, nossa sociedade ainda acredita que a violência – física ou simbólica – é uma linguagem válida para solucionar conflitos.

Tanto na minha experiência como estudante quanto nos relatos de parto de que fui testemunha existem histórias colaterais que são igualmente interessantes. Por que explodiu dessa maneira? O que existe na sua história pessoal que foi despertado na tensão de um momento limite? Como atender estas pessoas que também precisam de ajuda?

Claro que falta educação por parte de pais e familiares. Entretanto também é fato que os profissionais e os hospitais quase sempre estão despreparados para lidar com pessoas que enfrentam estas crises. É muito frequente que ao invés de acalmá-los, os ameaçam. Ao invés de conversar e tranquilizar oferecem cenários trágicos. Ao invés de valorizar sua presença e sua potencialidade positiva colocam valor apenas nos médicos, nos tratamentos e no hospital. O sujeito se sente encurralado; os profissionais sucumbem ao medo.

Todo mundo acha importante estudar o psiquismo das grávidas e (quase) ninguém se interessa pelos dramas emocionais dos pais, entretanto cobramos e/ou exaltamos a presença dos homens no evento. Da mesma forma, entendemos de forma bem precisa os mecanismos químicos que produzem uma convulsão, mas por vezes ignoramos como tratar a família que adoece junto com aqueles que sofrem este drama.

A atenção à saúde pressupõe uma percepção holística da doença, e uma abordagem inclusiva, que não despreza nenhum dos atores nela envolvidos.

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