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Doutor, é grave?

Após ouvir seu nome ele entrou na sala segurando a mão da mãe. Difícil saber se sua postura retraída era causada por medo ou vergonha. A cabeça baixa, o medo de sentir dor, o andar relutante. Sua mãe deu dois passos na saleta acanhada, acomodou-se em uma das duas cadeiras e apontou a outra para seu filho. À frente deles o homem de avental branco levantou rapidamente os olhos da ficha em sua mesa, girou a caneta entre os dedos e disparou perguntas banais. A mãe respondeu sem precisar pensar muito. Sim, 12 anos, sim, sim, sim, não, sim, não come, muito pequeno, ele é magro demais. Poucos minutos de conversa até que o homem escreveu algo num papel, entregou à mãe e apontou a porta. Mãe e filho saíram sem mais nada dizerem. O menino olhou para trás e ainda conseguiu ver o homem sério parado na porta.

Meu pai tinha 12 anos e foi a primeira vez que viu um médico. Um encontro que nunca esqueceu.

Um pouco mais de 40 anos após esta cena, meu filho me perguntou o que era um médico, talvez curioso para saber o que eu fazia. Essa é uma pergunta genial, que só as crianças são capazes de fazer. Na minha mente ainda surgiu a frase célebre Voltaire: “É verdade que, durante muito tempo, de cada cem médicos, noventa e oito foram charlatães”, mas deixei-a guardada em minha mente. Preferi que ele guardasse uma imagem boa daqueles profissionais que se esforçam para que o sofrimento inalienável da condição humana seja mais suportável. Por outro lado, a resposta mais simples para dar a ele seria seguir a linha da formalidade. “Um sujeito é médico quando faz uma faculdade de Medicina reconhecida e ganha um diploma, o qual fica dependurado na parede do consultório”. Essa resposta seria razoável, mas para um criança de 5 anos seria necessário ainda explicar outros termos como “diploma”, “faculdade”, etc. Além disso, o que significa “se formar” numa faculdade”?

Criada em 17 de agosto de 1220, a Faculdade de Medicina de Montpellier, na França, é considerada a primeira faculdade de medicina do mundo a receber reconhecimento. Naquela data, o cardeal Conrad de Urach, concedeu os primeiros estatutos à Universitas Medicorum Montispessulani, estabelecendo oficialmente uma instituição universitária dedicada ao ensino da medicina. Há uma disputa com a Universidade de Salerno, mas ao contrário dessa, a universidade de Montpellier criou uma estrutura que pode ser reconhecida como de uma verdadeira escola médica. Isso propicia uma questão incômoda. Oito séculos do surgimento da primeira escola de medicina é “ontem” quando se leva em consideração a idade da nossa espécie. Temos por volta de 200 mil anos como “sapiens”. Desde que criamos a civilização existem apenas 10 mil anos de percurso. Desta forma, a formalização do ensino médico só ocorreu em menos de 10% do tempo em que vivemos em cidades. Resta então a pergunta: e antes disso? Quem eram os médicos “sem papéis” que atenderam as milhares de gerações de gentes que sofreram antes de existir uma escola regular de ensino de sua arte? Não deveriam ser chamados “assim “médicos” apenas porque não ostentam um documento pendurado na sala de espera de um consultório de classe média em uma cidade moderna?

Antes de existir qualquer formalidade para o reconhecimento da profissão os estudantes procuravam médicos experientes e passavam a acompanhá-los durante anos. Nesta trajetória de aprendizado estes garotos observavam os pacientes, aprendiam a reconhecer sintomas, participavam dos tratamentos e estudavam os conhecimentos transmitidos pelo mestre. O próprio Juramento de Hipócrates revela essa organização. Neste texto, o pai da medicina estabelece obrigações do discípulo para com seu mestre e seus descendentes, mostrando como o ensino médico estava associado a relações pessoais e familiares. Ou seja, a escolha pela medicina era algo pessoal e muitas vezes uma tradição familiar, da mesma forma como se observa na parteria tradicional com o aprendizado direto, modelo de “aprenticeship” que se observa ainda hoje. Assim, responder que um médico é alguém que passou pela faculdade e se graduou retira da foto milhões de personagens da história que cuidaram dos seus semelhantes sem este tipo de documento.

Talvez, para ser justo e abrangente, um médico seria alguém cujo objetivo essencial é ajudar quem sofre. Mas não apenas pelo exercício da fraternidade, que não pode ser característica de apenas uma categoria profissional, posto que é uma qualidade humana. É necessário que este cuidado sofra contínuo e ininterrupto aprimoramento, através do estudo, da experiência e da ytoca de informações. Se utilizarmos este conceito, o cuidado médico é aquele onde o sujeito instrumentaliza, através do estudo formal ou informal, seu natural desejo de tratar a dor alheia. A medicina seria assim, a “Fraternidade instrumentalizada“, a cura mediada pelo conhecimento.

Foi assim que eu tentei explicar ao meu filho o que significa ser médico. Quando analisamos os elementos constitutivos mais essenciais dessa prática, sobra apenas aquilo que nos caracteriza como uma espécie gregária e social: a fraternidade. Esse elemento constitutivo de nossa alma é a semente da qual brotam todas as perspectivas terapêuticas, entre elas a medicina, que sempre esteve ao lado dos pacientes para oferecer um pouco de alívio diante da inexorável angústia de viver.

Parabéns aos doutores cuja simples presença é o maior remédio jamais criado.

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Quantos votos você fez?

Talvez seja interessante entender a diferença entre um partido eleitoral e um partido revolucionário. A pergunta “quantos votos você fez” para um candidato de um partido revolucionário faz tanto sentido quanto perguntar para uma criança quanto de dinheiro ela tem. Sua mente não lida com esse valor e, para ela, isso não faz sentido. Votos dizem respeito a uma formulação política liberal que rejeitamos. Pensem um pouquinho: esse modelo liberal burguês, onde os candidatos são escolhidos pela burguesia – os verdadeiros donos do país – levou aos Estados Unidos a escolherem como seus dois últimos presidentes um demente e um abusador. Antes disso um negro que jamais colocou em prática qualquer iniciativa para diminuir a pobreza no seu país e, antes dele, um playboy inútil, alcoolista e usuário de drogas, filho de um ex presidente e que jamais teve um emprego na vida. Aliás, a trajetória de George W. Bush em muito se assemelha ao candidato das milícias.

No Brasil, em função da configuração do congresso e dos partidos, até mesmo um líder operário como Lula é obrigado a se vergar à Faria Lima e ao latifúndio do Agro, os verdadeiros proprietários do país. E isso porque, nesta configuração, não é possível para ele governar sem a interferência direta desses poderes. Todos vimos o que houve com Dilma que foi defenestrada sem ter cometido qualquer crime de responsabilidade – a única forma legal de retirar uma presidente eleita de seu posto. Ou seja: o sistema é feito para propiciar golpes. Por isso Lula não se atreve a dirigir-se à esquerda, pois sabe que seria facilmente retirado pelos conluios de gente ligada ao imperialismo e aos interesses do grande capital nacional. Para Lula cabe o papel medíocre de ser o gestor da massa falida do capitalismo brasileiro, sem poder realizar as mudanças necessárias para tirar o país do atoleiro.

Foi por perceber o “cul de sac” dessa política liberal que eu abandonei a modalidade eleitoral burguesa e suas ilusões. Percebi, a duras penas, que não é possível avançar as pautas do povo atrelado a um sistema burguês criado e mantido para que não aconteçam mudanças na estrutura de classes do país. Quem um dia prestar atenção no cenário das disputas políticas nacionais vai acabar percebendo que os candidatos apenas são eleitos quando ungidos pelo poder que realmente governa a nação: a burguesia, que pode pender para qualquer lado desde que seus ganhos sejam mantidos ou aumentados e que ninguém questione o sistema de classes. Para que uma real mudança venha a acontecer, será necessário que ocorra uma revolução. Foi assim nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, em Cuba, na Rússia czarista, no Vietnã e qualquer outro país que ousou pensar no futuro. A via da democracia liberal tem um horizonte limitado e que já se mostra esgotado: a crise na Europa e a decadência acelerada dos Estados Unidos (que observa os maiores índices de pobreza e a maior concentração de renda da sua história) são exemplos claros disso.

Quem se surpreende pela quantidade de votos que eu recebi apenas demonstra que não entendeu a opção que eu fiz. Um partido como o PCO pouco se importa com as eleições pois, na melhor das hipóteses, poderíamos eleger alguém como Lula, um presidente engessado e constrangido por uma estrutura política que impede mudanças relevantes e profundas na economia do país.

Eu recebi um pouco mais de 2300 votos, o que é absolutamente surpreendente para alguém que entregou a sua conta eleitoral no Banco do Brasil zerada, que não fez campanha, que não participou de debates e que apenas se limitou a oferecer seu nome ao partido para que daí viesse alguma visibilidade para as nossas propostas. Entretanto, é útil lembrar que o deputado estadual Márcio Canella (União Brasil) recebeu 197.178 votos nas eleições de 4 de outubro de 2026, sendo o segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro. Ao contrário de mim, ele fez um enorme sucesso nas urnas. Canella foi preso pela Polícia Federal em 15 de outubro de 2026, na Operação Unha e Carne, que investiga suspeitas de ligação com organizações criminosas. Ele foi preso por ser líder das milícias do Rio de Janeiro, amicíssimo de Flávio Bolsonaro e parceiro de negócios do candidato das rachadinhas. Diante disso eu pergunto: é possível medir a integridade de um sujeito ou mesmo a adequação de suas propostas por meio da simples contagem dos votos que recebeu? É possível avaliar a qualidade de um sujeito pelo número de “seguidores”, pela quantidade de “likes”, pela votação que recebeu ou pelo dinheiro que possui?

Ou serão essas medidas externas propícias ao engano, pois revelam o exterior fulgurante de um sujeito enquanto escondem sua realidade interna e imaterial?

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As palavras…

“Palavras verdadeiras nem sempre são belas; palavras belas nem sempre são verdadeiras”

Minha mãe me deu, há muitos anos, esta frase escrita num pedacinho de papel. Em sua sabedoria simples e prárica ela queria me lembrar que eu não deveria ter medo de dizer a verdade, mesmo que minhas palavras viessem a desagradar os outros. Se é certo que as palavras verdadeiras podem machucar, também é verdade que as palavras belas muitas vezes são falsas, e por esta razão a ajuda que nos oferecem é tão somente ilusória.

Não por acaso eu tomei esta frase como um lema para a minha vida, agindo conforme determinava a minha consciência, dando menos importância à aceitação ou popularidade de minhas palavras e atos. Essa lembrança da minha mãe comprova que ela tinha uma caligrafia linda, “letra de professora”, mas também que ela tinha cabeleireira marcada para as 10h.

Este papelzinho devia fazer parte de algum exercício que estava fazendo em suas aulas. Apesar de estar escrito em francês – minha mãe era francofílica – a origem dessa frase é de Lao-Tzé e aparece no capítulo 81, o último, do Tao Te Ching. O original em chinês é:

信言不美,美言不信
Xìn yán bù měi, měi yán bù xìn.

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Carma

O ano era 1937. Na sala de estar da casa de paredes altas, o tempo parecia correr mais devagar, ditado pelo tique-taque do relógio e pelo chiado baixo de uma vitrola antiga. Alheia à severidade do pequeno busto de gesso de Beethoven que a observava de cima de um móvel, uma menina de apenas quatro anos esticou o braço por baixo do sofá. Buscava um brinquedo — talvez uma boneca de louça, talvez uma bola de couro. Ao recolher o membro com o objeto em mãos, o antebraço trancou-se contra a madeira maciça do móvel. O peso do próprio corpo forçou a articulação. Houve um estalido seco.

A menina não deu muita importância na hora. Voltou a brincar, ignorando a pontada incipiente. Mas a dor, silenciosa e persistente, fincou raízes. Dias depois, o braço começou a mudar de cor e a inchar de forma alarmante. O choro, antes contido, tornou-se evidente. Diante do inchaço crescente, seu pai, meu avô Olinto Blum, tomou uma decisão difícil. Naquela década, uma visita ao médico era um evento raro para um cidadão comum, um luxo ou um sinal de extrema gravidade.

Aflito, meu avô levou a filha até o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. O diagnóstico dos médicos foi um golpe brutal: uma infecção profunda no osso — o que hoje a medicina presumiria ser uma osteomielite severa. Na era pré-antibiótica, sem a existência da penicilina para combater as bactérias, a infecção era uma sentença de morte por sepse. A única solução apresentada para salvar a vida da menina era a amputação imediata do braço esquerdo.

Arrasado e sem chão, Olinto deixou o quarto de hospital. Sentia-se esmagado pela culpa e pela impotência. Caminhou mecanicamente até a cafeteria da instituição, desabou em uma cadeira e ali ficou, tentando colocar os pensamentos em ordem enquanto o mundo desmoronava ao seu redor.

Foi quando um jovem médico, percebendo o sofrimento profundo daquele homem, aproximou-se. Com um gesto simples de empatia, convidou Olinto para tomar um café. No calor daquela mesa, o pai abriu o coração e relatou a tragédia iminente. O jovem doutor ouviu com atenção e se apresentou. Ele acabara de retornar do exterior, onde testemunhara o uso de uma técnica médica experimental na Europa: uma raspagem minuciosa do osso infectado combinada com a aplicação de substâncias antissépticas recém-descobertas. É provável que se tratassem das sulfonamidas, recém descobertas. Era uma aposta arriscada, dolorosa e cara, mas era a única esperança de manter o braço da menina. Olinto aceitou imediatamente. O tratamento esvaziou as poucas economias da família, mas funcionou. A menina preservou o membro, carregando para o resto da vida uma cicatriz vistosa no antebraço.

Anos mais tarde, já adulta, aquela menina explicava o infortúnio sob uma ótica espiritual profunda. Dizia que estava traçado que ela deveria perder o braço devido ao seu carma. Em existências passadas, em campos de guerra esquecidos pelo tempo, usara aquele mesmo braço para cometer atos condenáveis. Essas ações haviam gerado um escurecimento magnético, uma falha e uma fragilidade em seu envoltório perispiritual que se manifestaram fisicamente naquele acidente de 1935.

Contudo, ela sempre enfatizava: o carma não é um destino imutável, mas uma dívida. E a dívida pode ser amortizada. Pelas boas ações, pelos pensamentos elevados e pelos sacrifícios diários ao longo da vida, aquele resgate severo que exigia a perda de um membro foi sendo suavizado pelas leis maiores, transformando-se em uma infecção curada e em uma cicatriz vistosa.

Mas existe mais um elemento extra nessa história: como eu interpretei o acidente e sua explicação para ele. Pelo relato da minha mãe eu sempre achei que ter a mim como filho foi uma forma de saldar essa conta. Assim, minha mãe deve a mim a chance que teve de terminar seus dias com os dois braços. Minha existência em sua vida – arteiro e contestador – foi o peso que ela teve que suportar para amortizar sua dívida.

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Luta

Ric Jones, candidato ao Senado – PCO

Sim, vamos à luta

Mais uma campanha eleitoral está prestes a começar. Devemos nos preparar para o mesmo tipo de campanha que existe no país há muitas décadas, baseadas em pirotecnia, alarmismo, acusações falsas, negativismo, etc. Vejo os políticos dizendo tudo o que já foi dito, com os mesmos clichês e ataques pessoais aos demais candidatos. Ao seu lado, dando a eles suporte, existe um exército de ressentidos que agora querem sair do anonimato, falando as velhas tolices. No nosso campo, é claro que teremos que escutar as mesmas lorotas anti-comunistas dos anos 60. A educação popular em torno das ideias socialistas é um campo muito difícil, pois temos que nadar contra a corrente da ideologia dominante. Apesar disso, continuamos, pois o tempo continuou sua marcha contínua, o capitalismo já mostra sua falência inconteste, o imperialismo torna evidente sua face autoritária e assassina e os países da periferia como Irã, China, Rússia – e até o Brasil – começam a assumir protagonismo no mundo que, lentamente, se torna multipolar.

Apesar disso, uma fração da classe média ressentida sempre vai achar erro nesta trajetória, saudosa do tempo em que os apartamentos já vinham com dependência de empregada e que os serviços eram baratos porque as pessoas pobres não tinham como negociar o valor do seu trabalho. Esses personagens envelhecidos acreditam que havia virtude no modelo semi-escravocrata, determinado pelo berço, onde o sujeito branco e de classe média podia usufruir as benesses de um capitalismo em expansão e onde o emprego ainda crescia. Esse mundo acabou, e essa garotada que tinha dinheiro para ficar em casa tocando guitarra agora tem raiva da nova cara do mundo.

Estes que antes se deleitavam com o ciclo de crescimento capitalista agora percebem, com rancor, a decadência inescapável da sociedade de classes e da propriedade privada dos meios de produção. Um novo mundo precvis nascer, mas o velho teima em parmanecer, como alertava Gramsci. Porém, os velhos ressentidos são sempre tristes; já a política deve ser feita de esperança e desejo. É só por isso que resolvi dar a cara a bater e participar de algo que jamais pensei durante toda a vida: concorrer a um cargo eletivo. Meu objetivo é mostrar no ideário do PCO sua absoluta vinculação com uma postura antissistema, baseada na necessária ruptura com as velhas amarras do capitalismo, como a sociedade de classes, a opressão do homem pelo homem, a propriedade privada dos meios de produção e os engodos criados pelo imperialismo, como o identitarismo, usados para dividir nossa luta.

Se existe algo realmente diferente nas eleições, por certo que poderemos encontrar entre aqueles que abandonaram as ilusões do liberalismo, tanto à esquerda quanto à direita. Não vamos encontrar a ruptura necessária para um novo caminho entre aqueles que há décadas dizem o mesmo, e fazem dos ataques, das lacrações e dos ataques pessoais seu principal (por vezes único) discurso.

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Pai, um momento

Eu e meu pai, na rua dos Andradas

–  Compra pai. Compra!

Ele continuou caminhando e não soltou minha mão. Sei o quanto seu passos eram contidos para acompanhar minhas perninhas pequenas. Era meu aniversário de 10 anos e era costume nestas datas a gente acompanhá-lo ao seu trabalho.

–  Estamos atrasados, Ricardo. Vamos apurar o passo. Ainda precisamos tomar café.

O café no refeitório do CETAF. Nada de mais, mas a possibilidade de comer num lugar diferente no meu aniversário tinha um gosto todo especial. Continuei o caminho e olhei mais uma última vez para a vitrine. A promessa colorida e vistosa do cartaz era de milhões. Bastariam para isso alguns poucos trocados e o resultado seria espetacular. Era possível ficar rico, bastando para isso acreditar.

–  Mas por que você não compra o bilhete? – perguntei eu tentando acompanhar suas pernas compridas dando umas corridinhas para emparelhar.

–  Não acho justo. – disse ele secamente

–  E por que não seria justo? Qual o problema em ficar rico? Se a gente for sorteado podemos ficar milionários. Assim como o Onassis.

Ele riu da minha comparação. “Como ele sabia que o Onassis era rico? Onde ouviu dessas coisas?” – pensou.

Segurou um pouco a passada e olhou sério para mim, como sabendo que era o momento para dar uma explicação mais demorada. Desta vez não seria possível usar o “na volta a gente compra”.

–  Não acho certo que qualquer pessoa ganhe dinheiro que não venha do seu trabalho. Receber o prêmio por um bilhete premiado significa que muitos perderam para você ganhar . Não é bonito ganhar o dinheiro das pessoas sem ter trabalhado para isso. Por isso nunca jogo e nem aposto.

Fiquei pensativo, tentando entender sua posição. Que mal poderia haver em arriscar a sorte? Só ganha quem joga, só acerta o número quem tiver…sorte. Qual o erro?

A realidade é que o significado objetivo dessa conversa não tem tanta importância, e poderíamos debater por horas a questão das loterias, dos bingos, e etc. Entretanto, é óbvio que essa história é plena de significados simbólicos, e só por isso ela se mantém na minha memória já passados 60 anos.

Na verdade, não foi sua negativa ao jogo ou sua resistência em “tentar a sorte” que me impressionou. Não foi por negar a se arriscar diante do desconhecido, pois sua vida foi cheia de apostas corajosas – inclusive a mais desafiadora de todas: desistir das antigas crenças e certezas. O que me pegou – e esta é minha honesta interpretação – foi quando me disse que o dinheiro que ganhamos precisa ter o trabalho e a dedicação como contrapartidas obrigatórias. Foi sua adesão a uma “ética da riqueza” que me cativou e deixou essa marca na memória.

Sobrou dessa história a certeza de que a paternidade não precisa ser feita de ações espetaculares, declarações grandiosas ou momentos sublimes de amor pelos filhos. Ela é construída com tijolos minúsculos, por atos banais do dia a dia, palavras e silêncios. Meu pai, por certo, não se lembraria dessa conversa; ela certamente passou despercebida no aluvião de conversas que compõem o cotidiano.

Quanto a mim, jamais a esqueci.

Até hoje creio que meu coração comunista começou a bater nesse dia, e por isso agradeço ao meu pai por mais esta, entre as milhares de lições que ele me deu e das quais serei eternamente devedor.

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Partos, fases e luas

Em meados dos anos 80, um pouco antes da minha formatura e o início da residência em ginecologia e obstetrícia, decidi fazer uma análise da relação entre as fases da lua com dois fenômenos conhecidos: o inicio do trabalho de parto e o parto propriamente dito. Meu objetivo era bem simples: esclarecer a influência das fases da lua com o nascimento humano, já que popularmente esta relação era feita, mas sem uma metodologia adequada para sua avaliação. Era muito comum encontrar, inclusive entre os médicos, comentários ao estilo: “plantão passado foi terrivel, mas é compreensivel: era lua cheia”. Entretanto, eu sempre achei que este era um viés de observação. Ou seja: por ter sido um dia com excesso de atendimentos o observador se preocupava em saber a fase da lua; fosse um dia sem partos ele sequer se importaria com isso.

Diante disso, resolvi tabelar todos os nascimentos e as internações em trabalho de parto de 1⁰ de janeiro a 31 de dezembro de um ano especifico do hospital escola onde eu havia estudado e estava prestes a cursar a residência. Fui aos arquivos do hospital e dividi essas ocorrências entre as fases da lua para ver se alguma correlação poderia ser encontrada entre estes dois fenômenos: a posição do nosso satélite em relação sol e a emergência dos sinais que iniciam a expulsão fetal. Feito isso, era necessário tabular e usar fórmulas matemáticas de bioestatística para encontrar – ou não – uma relação de causalidade.

Nesse interim eu me formei e comecei a fazer plantões no centro obstétrico do hospital. Num desses plantões eu recebi na emergência uma paciente com queixa de contrações. Era mais de meia-noite e o plantão estava bem calmo. A gestante chegou acompanhada do marido e ambos pareciam muito ansiosos. Mostrou seu cartão do pré-natal e os exames protocolares. Primeiro filho, 39 semanas de gestação, pressão ok, batimentos fetais idem. Sem intercorrências na gestação. Fiquei avaliando os exames com uma demora proposital, esperando testemunhar uma contração. Nos 15 minutos em que ficou na sala, ao lado do companheiro, nenhuma contração foi relatada. Pedi que a atendente a ajeitasse na mesa de exames, e só quando se ergueu da cadeira relatou que estava sentindo uma cólica no útero, que foi rápida e sem muita intensidade. Ao fazer o exame vi que ela tinha não mais do que 2 centímetros de dilatação, contrações frágeis e somente duas cada 10 minutos. No jargão obstétrico, “pródromos” (pró – dromo, precursor, aquele que corre na frente). Recomendei que voltassem mais tarde. Diante da minha indicação o marido me encarou de forma preocupada dizendo:

– Doutor, não há condições. Já é madrugada e moramos na Restinga (bairro afastado da cidade). Não temos dinheiro para pagar um taxi de novo. Para nós é muito caro; somos pobres e esse gasto seria impossível. Como o senhor mesmo disse, ela pode iniciar as dores fortes dentro de 1 ou 2 horas, talvez até antes. Ou depois, mas como saber? Não tem como ela ficar aqui aguardando?

Senti a angústia do casal e entendi a preocupação. Resolvi conversar com o contratado de plantão, o qual aceitou a ideia de deixá-los no hospital esperando as contrações, já que o centro obstétrico estava vazio e, para eles, um retorno mais tarde seria por demais dispendioso. Era o que chamávamos de “baixa social”, uma internação determinada por fatores não médicos, mas relevantes. Essa é uma prática muito comum, que existe em qualquer lugar até hoje. O casal agradeceu, ficaram a noite toda dormindo, as contrações desaparceram e apenas voltaram ao amanhecer. Passei o caso para o novo plantonista que estava assumindo o plantão e este resolveu induzir, usando soro com oxitocina. Sim, precisavam fazer aquele bebê nascer, “já que a paciente havia ficado a noite inteira sem desenvolver um franco trabalho de parto e ocupando um leito que poderia ser necessário mais tarde”. Foi instaurada a indução e eu fui para casa.

Ao sair do plantão ainda estava escuro e percebi que aquela noite havia sido de lua cheia, mas o plantão tinha sido monótono e com poucos casos. Cheguei em casa, peguei todas as minhas anotações sobre partos e fases da lua e guardei em uma pasta, onde então até hoje. Nunca mais me interessei por este estudo. Aquele caso corriqueiro me havia feito perceber que, no mundo ocidental e nas sociedades complexas, é impossível observar a relação dos fenômenos da natureza com as gestantes e o parto. As influências externas são tantas e tão mais intensas que seria impossível depurar os casos de suas interferências de ordem social. A paciente daquela noite internou sem necessidade médica real e recebeu um soro pela manhã igualmente sem ser preciso, apenas porque seu parto tinha que se enquadrar na ideologia obstétrica de nossa época e na grade dos tempos de seus assistentes. Nada naquele nascimento foi natural; inobstante a fase da lua, e se ela poderia ter alguma influência no parto, tudo foi atropelado por fatores sociais e por crenças médicas, impedindo que qualquer correlação pudesse ser observada.

Lacan deixou claro que a “palavra matou o real”. Não existem mais “partos naturais”, pois que estes ficaram perdidos num passado muito remoto, sobrevivendo apenas enquanto fantasia ou utopia. O parto, inserido na linguagem, é o que nossas mentes fazem dele; é um evento da cultura que ocorre no corpo das mulheres, carregando consigo o reflexo dos nossos valores e das nossas crenças. Envolto nesse contexto simbólico ele não pode ser mais avaliado pela suas características primitivas, fisiológicas e “naturais”. A mulher que poderia parir esse “bebê natural” já não existe mais; expulsos do paraíso, somos todos condenados a parir e nascer no contexto da palavra.

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Rosebud

Há alguns dias, meu neto de 8 anos veio me pedir para ajudá-lo a fazer uma maquete para levar à escola. Era necessário unir 3 latas de café para fazer uma torre. Entregou para mim as latas para que fossem unidas com fita colante. Quando peguei as latas percebi que estavam vazias mas com as paredes ainda sujas de café.

– Precisa limpar, Zuki, senão vão ficar cheirando a café.

Levei até a pia e comecei a lavar. Ele ficou me olhando por alguns instantes, deu um sorriso e comentou:

– Que sorte eu pedir ajuda exatamente para o especialista.

Na divisão de tarefas da Comuna coube a mim a função de lavar a louça. Esta não era das tarefas mais disputadas entre as que estavam sobre a mesa; afinal já somos 11 comunas, fora os convidados esporádicos; por certo que era uma das funções menos desejadas. Entretanto, lavar a louca, nunca foi um peso para mim. Ao longo dos anos desenvolvi técnicas para fazer deste tempo algo produtivo. Coloco fones de ouvido e fico ouvindo podcasts, entrevistas, as notícias do dia, às vezes músicas e o tempo passa muito rápido.

Entretanto, esta é tão somente uma meia verdade; de certa forma é apenas uma racionalização barata. Mesmo sem as “técnicas”, a verdade é que eu gosto de lavar a louça. Gosto do barulho da água, de organizar os pratos, dos gestos repetitivos e calmantes com a esponja, do cheiro do sabão e de ver tudo limpo no final. Tenho o costume de lavar a própria pia após a tarefa, até deixá-la brilhando. Quando quis descobrir a chave para explicar este meu estranho gosto lembrei que quando criança minha mãe colocava eu e meu irmão mais velho a ajudá-la nas tarefas após o almoço. Era uma rotina diária, e só podíamos brincar depois de terminá-la. Quando bem pequenos ela contava histórias sobre as aventuras de dois garotos: Joca e Bolão. Quando ficamos mais velhos, ela ligava o rádio e ficávamos escutando “2001”, um programa de ciência narrado por Flávio Alcaraz Gomes, ícone do rádio gaúcho, transmitido pela saudosa Rádio Guaíba (que ainda existe, mas se transformou em um antro bolsonarista). Aliás, foi ele quem adaptou para o rádio brasileiro a “Guerra dos Mundos“, de Orson Welles.

Por certo que a lembrança destas cenas de convívio com a minha mãe no passado criaram pontos de luz na memória, transformando uma tarefa enfadonha em uma atividade quase lúdica. Lá nas profundezas escuras do meu inconsciente profundo ainda escuto a voz da minha mãe contando as histórias enquanto passo detergente nas panelas. Na verdade, qualquer sujeito que procure atividades prazerosas em sua vida acabará encontrando conexões com fatos escondidos do passado.

Em Cidadão Kane o protagonista morre dizendo o nome do fabricante do trenó com o qual brincava no dia em que foi levado de casa para viver com a família que o adotou. Orson Welles desejava, mostrar que a construção do Império jornalístico de Charles Foster Kane (baseado no barão do jornalismo americano William Randolph Hearst) estava ancorada em um trauma do passado: o desligamento precoce dos laços que tinha com a mãe e a família. Aliás, o fato de Kane ter o nome do meio “Foster” (adotivo) já deveria nos acender um alerta. Sua fortuna imensa e seu poder estavam concentrados na solução da dor profunda criada naquele dia, como um buraco negro poderoso que o sugava de volta para aquele momento decisivo.

Todos carregamos nossos “Rosebud” particulares; eles podem ser vistos em nossas manias, fixações, desejos, fetiches, taras e prazeres. Somos constituídos por estas marcas feitas de lembranças do passado, que nos ligam ao prazer e à dor de forma intensa e vívida, mesmo quando a conexão consciente já foi há muito perdida na neblina do tempo.

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Materialidade

Tenho um querido amigo que nasceu na Turquia mas é grego. Explico: existe um bairro grego em Istambul (creio que é o bairro Fener) no qual os habitantes tem cidadania grega, mesmo tendo nascido em solo turco, porque as reivindicações gregas sobre sua capital Constantinopla nunca cessaram. Assim, não se pode chamá-lo de “turco” nem de brincadeira. Pois esse amigo grego, ainda bem pequeno, mudou de país e foi criado na Suiça desde tenra idade. Fez formação em TI e uma vez resolveu visitar o Rio de Janeiro. Lá conheceu uma gaúcha que estava de férias e logo se apaixonaram. Essa amiga era uma paciente e querida amiga minha. Passado algum tempo se casaram e tiveram uma filha, cujo parto eu atendi, o qual, por si só, é uma história espetacular sobre parto e tecnologia – ou o quanto a tecnologia tem a possibilidade de atrapalhar a fisiologa de um parto. Porém, esta história eu contarei em outra oportunidade.

O casal resolveu morar no Brasil. Meu amigo até que tentou viver aqui; adorava o país, gostava de Porto Alegre, tinha uma profissão para a qual havia demanda, etc. Porém, a diferença de pagamento do quanto ganhava na Suiça para o que conseguia aqui era enorme, talvez na ordem de dez vezes para menos em terras tupiniquins. Depois de algum tempo resolveram se mudar para a Suiça – de mala e cuia. Minha paciente até hoje trabalha como fisioterapeuta, falam suiço-alemão, tiveram uma outra filha e estão lá felizes há mais de 20 anos. Meu amigo grego trabalha numa gigantesca instituição bancária suiça. Há alguns anos vieram visitar familiares em Porto Alegre na época das férias e nos ligaram para encontrá-los em um restaurante – eu e Zeza. Passamos uma noite maravilhosa contando histórias de cá e de lá, falando de filhos, adaptação primeiro mundo, confortos, saudades, etc. Num determinado momento, meu amigo me disse:

– Ricardo, vocês nem imaginam o quanto eu invejo vocês e o trabalho que fazem atendendo partos. É realmente sensacional. Eu adoraria ter esse privilégio.

Isso me pareceu super bizarro. Aquele sujeito deveria ganhar – muito por baixo – umas dez vezes mais do que eu poderia ganhar aqui acordando de madrugada, perdendo aniversário de filho, dormindo mal, sendo atacado pela máfia da cesariana, tendo férias cortadas ao meio etc. Disse isso do alto de um emprego espetacular, atendendo numa sala com ar condicionado, 6 horas por dia, férias remuneradas, cafezinho, benefícios de primeiro mundo, chocolate suiço (que lá se chama só “chocolate”), estabilidade, e tudo mais que a centralidade do capitalismo é capaz de oferecer a estas profissões mais sofisticadas.

– Mas por que dizes isso? Que te faz pensar assim? Não consigo entender a razão para isso…

Ele sorriu e respondeu, como se estivesse me falando de algo muito óbvio:

– Ora, Ricardo: a materialidade do trabalho de vocês!!! Vocês atendem as gestantes, enxergam a barriga crescendo, avaliam a qualidade dos exames, enxergam o bebê se mexendo e escutam o coração dele batendo pela primeira vez. Estão presentes quando o bebê nasce e acompanham por vários meses a adaptação da mãe ao novo mundo da maternidade. Podem testemunhar a alegria da família ao receber um novo bebê. Estão presentes desde o início do processo, acompanhando todas as etapas. São responsáveis por cada detalhe e pelo sucesso do projeto. Agora compare com o que eu faço: sou um operário de uma longa esteira de montagem de uma instituição. Trabalho com uma parte – a informática – e não vejo de forma palpável o resultado final do meu trabalho. Não posso chegar em casa e contar para as minhas filhas uma história maravilhosa que aconteceu comigo no meu emprego, quando “salvei uma rede” que estava encalhada, ou coloquei vários “sistemas em série”, ou consegui fazer o “roteador central” voltar a funcionar. Sou uma minúscula peça, mesmo que importante e até essencial, porém não tenho a oportunidade de ver de forma clara à minha frente a materialidade do que fiz, o resultado prático da minha dedicação, o objeto construído por mim para que possa ser mostrado orgulhosamente aos outros. Vocês, por outro lado, enxergam isso todos os dias, em todos os trabalhos que fazem.

Respirou mais um pouco e continuou:

– Pode não parecer, mas quando vi o nascimento da minha filha, no qual vocês estiveram presentes, pude sentir o quanto é importante essa sensação de poder ver o resultado objetivo do que se faz. O sistema de produção em série, o fordismo no qual estamos todos inseridos, nos impede de ter essa noção ampla da participação no resultado final de qualquer tarefa humana. Vocês, por terem a oportunidade de enxergar isso, são abençoados. Acredite, é o que sinto.

Sua explicação foi contundente e muito clara. Pude, pela primeira vez, ter noção do significado mais amplo do trabalho que fazíamos e do privilégio de participar efetivamente no resultado final daquilo que trazíamos como ofício. Neste mundo de funções fragmentadas eu fico impressionado com o trabalho de eletricistas, encanadores, pedreiros, marceneiros e gente que trabalha com a terra pois ele podem ver o resultado objetivo do seu trabalho em uma parede, uma cadeira, uma água escorrendo num tubo, uma fruta que nasce e uma lâmpada que se acende. Isso é capaz de oferecer uma satisfação enorme para o profissional envolvido.

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Road Story

Nos anos 90 eu estava em Camboriú – antes de se tornar a cidade cafona e cheia de novos ricos de agora – com a minha família. Na época meus filhos tinham 8 e 5 anos. Resolvemos voltar para casa depois do almoço, no final das férias de 1 semana no litoral catarinense. Aproveitamos a manhã para tomar o último banho de mar, depois almoçamos e tomei um banho para começar a viagem.

Bem, este foi o problema. Como na época eu tinha um cabelo farto e rebelde, percebi que se saísse para dirigir com o cabelo molhado ele se tornaria um emaranhado obsceno de cabelos, com cada fio apontando para uma localidade distinta do universo. Para evitar isso, resolvi colocar uma touca cirúrgica que guardava comigo para secar o cabelo. Dito e feito: coloquei as malas no carro, ajeitei as crianças e saímos para a estrada, usando minha touca cirúrgia para secar o cabelo.

Alguns quilômetros adiante, já próximo de Florianópolis, percebi ao longe um acidente na estrada. Era possível ver uma fumaça saindo dos veículos envolvidos no acidente enquanto uma fila de carros se formava, diminuindo a velocidade para assistir a cena. Quando me aproximei, percebi que só havia policiais no local e nenhuma ambulância. Fiquei preocupado que houvesse feridos que estariam aguardando a chegada de auxílio e resolvi me apresentar para ajudar. Imediatamente parei ao lado do policial que coordenava o trânsito e gritei:

– Hei, policial!! Eu sou médico. Vocês precisam de alguma ajuda?

O patrulheiro se aproximou do vidro do carro e ficou me olhando por alguns instantes. Depois de um tempo respondeu laconicamente:

– Não precisamos de ajuda. Não houve feridos, apenas danos materiais. Obrigado.

Só me dei conta quando Zeza começou a rir. Ela disse: “O guarda deve ter pensado que tu és um maluco que pensa ser uma mistura de médico com Batman”. Foi então que me dei conta que estava usando aquele bizarro gorro cirúrgico e que o policial teria todo o direito de imaginar que eu era um psicótico que sai de carro pelas ruas procurando avidamente casos para atender.

Talvez minha calvície tenha sido uma forma que Deus criou para eu não pagar mais estes micos

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