Arquivo da categoria: Histórias Pessoais

Galaxie

 

O ano era 1984 e a aula recém havia terminado. Enquanto meus colegas se dirigiam para a porta da velha sala de aulas da Santa Casa eu ainda conversava com meu professor sobre temas da aula de ginecologia. Recém concursado para a vaga de monitor da cadeira de GO da faculdade de medicina eu era uma “esponja”, aflito por absorver todas as informações possíveis sobre o universo da obstetrícia. Resolvi fazer ainda aquela última pergunta, enquanto o professor guardava papéis dentro de uma pasta de couro. “Vamos indo para o estacionamento enquanto lhe explico“. Segui meu professor enquanto ele discorria sobre um assunto que se perdeu na poeira das décadas, e quando chegamos no estacionamento ele perguntou para onde eu ia. “Para o Hospital de Clínicas“, respondi. “Bem, disse ele, é para lá que eu vou. Quer uma carona?

Respondi afirmativamente, claro. Afinal, isso me garantiria meia hora a mais de descanso antes de começar a aula da tarde e um tempo a mais para almoçar.

Cheguei ao carro e senti uma sensação estranha. Um susto. Na verdade meu professor não tinha um carro, mas um Galaxie Landau azul, com estofamento em “jacquard” inglês e direção hidráulica. Fiquei estupefato de ver na minha frente um carro de cinema, que eu só conhecia da TV, ou de ver ao longe nas ruas.

Tive o cuidado dos pobres ao entrar no veículo, sabendo que se eu derrubasse alguma coisa jamais teria dinheiro para pagar. Ele me perguntou “Está quente. Quer que ligue o ar?

“Ar”? Como assim? Então ele ligou o ar condicionado do carro e o frescor súbito foi a sensação tecnológica mais impressionante da minha vida, só rivalizando com a primeira vez que falei num celular. Ar condicionado em carros era coisa de ricos, de gente “de bem” ou “grã-finos“. Tudo isso em um Galaxie Landau era a imagem do glamour. O presidente Sarney tinha um, e o meu professor também.

Nossa viagem durou os 10 minutos que separam a Santa Casa do Hospital de Clínicas, mas a sensação me acompanha até hoje, mesmo depois de 34 anos. Nos despedimos e nunca mais conversamos de novo. Este professor foi um dos pioneiros em clínicas de diagnóstico por imagem e ficou rico com suas ecografias. Para meus vinte e poucos anos de vida ele parecia uma luz, um exemplo de excelência.

Escrevi essa lembrança porque o impacto que a vida de luxo de um médico que investiu numa área charmosa e rica da medicina poderia ter me encantado a ponto de querer seguir seus passos. Os estudantes não aprendem muito com as aulas, mas com os exemplos de seus mestres. Um médico, professor na universidade, ligado às tecnologias de ponta e com sinais evidentes de sucesso é um exemplo difícil de não seguir.

Todavia, meu caminho foi no sentido oposto. Tecnologia nunca me seduziu e sempre acreditei que o verdadeiro desafio estava nos mistérios que se escondiam no vão que separa as palavras. Agora que aos poucos entendemos melhor os limites das ultrassonografias e reconhecemos seu impacto pífio nos resultados obstétricos, penso na força que estes exemplos produzem nos estudantes. Para os jovens que olham para o futuro com medo e excitação, o sucesso emoldurado por um estofado em “jacquard” inglês produz uma inequívoca fantasia de futuro radiante.

Menos de um ano depois comprei meu primeiro automóvel, que guardava de semelhança com o carro do meu professor apenas o número de rodas girando. Era um Fusca 1972.

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O passado presente

 

Quando eu tinha 5 anos de idade aconteceram duas coisas importantes na minha vida: o Brasil mergulhou em uma ditadura militar que durou toda a minha infância até a entrada na vida adulta e meu pai fez uma inusitada e incrível viagem de estudos à França, onde ficou por 6 meses.

Quando na minha entrada na adolescência eu disse ao meu pai que ele era um sujeito de muita sorte, pois teve a possibilidade de conhecer Paris e Marselha; Nice e Lyon. Ele me respondeu de forma profética: “Isso não é nada. Quando você tiver a minha idade estas viagens, que hoje parecem tão difíceis e caras, serão tão acessíveis quanto pegar um ônibus até o centro da cidade”.

Hoje percebo o quanto estes fatos me marcaram. Não só não consigo aceitar o novo golpe que nosso país sofreu como me tornei um viajante compulsivo. Nunca menospreze a importância das experiências primitivas na constituição do sujeito.

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Marshmallow Cockroach

 

Muitos me acusaram de estar inventando histórias, então aqui vai o texto original do famoso “disco perdido do Pink Floyd”

O disco de estúdio que eu mais gosto do Pink Floyd é “Marshmallow Cockroach” que foi gravado às pressas em 1976 e jogado fora por uma discussão da banda (em especial o Roger Waters) com o produtor Brian Humphries pela inserção de algumas faixas contendo temática anti-Israel.

A banda apoiou a atitude de Waters mas isso significaria o cancelamento da turnê programada e o fim do contrato. O grupo decidiu manter o contrato e a turnê, mas guardaram os originais do disco já gravado. Imediatamente depois da controvérsia com Humphries e a desistência em gravar “Marshmallow” eles resolveram partir para a gravação do novo album “Animals” com a promessa de abandonar esta temática “enquanto a banda existisse”. O episódio em que Roger cospe em uma fã se relaciona a esta discussão prévia sobre o disco a ser lançado. Há uma cópia dessa gravação pirateada com som ambiente (estava sendo tocado no estúdio contíguo) que mostra o Pink Floyd no auge de sua criatividade e os vocais espetaculares de Roger Waters. Uma das músicas se chama “Forever Hebron” e o refrão diz assim:

“Hebron, hebron
Every stone stolen
Every stolen bone
May your soul
Live in us forever”

Tenho esse disco em MP3 em péssima qualidade, mas é possível reconhecer a genialidade palpitante do Pink Floyd e toda a verve indignada de Roger Waters. Esse, pelas circunstâncias, é o melhor disco jamais lançado do Pink Floyd, mas respeito opiniões em contrário.

A capa provisória do disco foi essa, que Roger Waters revelou recentemente numa entrevista para a BBC

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Surpresas

 

O sujeito tinha uns 45 anos e batia palmas freneticamente no portão da minha casa. Quando me aproximei ele me contou sua história. Havia sido policial e há 15 anos, durante uma batida, ele baleou uma criança que estava na linha de tiro, que veio a falecer. Foi expulso da polícia militar e condenado a 9 anos de prisão. Havia sido liberado naquela tarde e precisava de dinheiro para voltar para sua casa no interior do estado. Perguntei sobre o Serviço Social do presídio e ele me disse que “estas coisas não funcionam” e os funcionários “nunca dão dinheiro para ex-prisioneiros“. Sozinho e desamparado, pedia uma ajuda para voltar para sua cidade, sua única referência, onde encontraria sua mãe, tudo que lhe restava.

Senti pena do rapaz. Uma vida desperdiçada por um erro. Uma fatalidade que o fez passar quase uma década afastado de tudo e de todos, por um momento de desatenção. Que tristeza!! Coloquei a mão no bolso e tirei as notas que tinha comigo. Entreguei a ele e disse “Vá com Deus”.

Passei alguns dias impactado pela história. A sensação incômoda de fragilidade diante da imprevisibilidade da vida. É verdade; a qualquer momento tudo pode mudar e sua existência virar do avesso. Pobre homem!!

Cinco dias depois, ao chegar em casa, encontrei um senhor negro, de uns 50 anos parado ao lado do portão. Pediu desculpas por estar tão tarde do dia na frente da minha casa e disse que precisava de uma ajuda para voltar para casa. Explicou que durante uma ação policial havia matado uma criança por uma bala perdida, pelo que foi expulso da polícia e condenado a 9 anos de prisão. Estava saindo naquela noite do Presídio Central e por isso necessitava ajuda para a passagem do ônibus.

Olhei com firmeza para o homem e pedi que fosse embora, e que combinasse melhor as histórias com seus parceiros. Por outro lado, fiquei feliz pela criança que não morreu e pelo homem que não foi preso pelo crime que jamais cometeu.

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O Caminho como Metáfora

 

Em 2003 fui apresentar uma aula onde procurava mostrar graficamente como o modelo tecnocrático e intervencionista da obstetrícia contemporânea era algo extremamente recente na história da nossa espécie. Minha primeira ideia foi mostrar um relógio e explicar que este modelo, que ora usamos, representava apenas os últimos 15 segundos de um dia inteiro de aprendizado para lidar com os desafios da parturição. Os 40 anos de tecnocracia mais agudizada ficavam minúsculos diante dos 200 mil anos de adaptação apenas desta espécie, sem falar na carga de ensinamentos que recebemos dos 7 milhões de anos de história de bipedalidade.

Um tempo depois pensei uma imagem mais próxima de nós – uma estrada. Em verdade próxima de mim e da minha fantasia adolescente. Coloquei o gif de um caminhante sobre o mapa do norte da Espanha, com o traçado que liga Saint Jean Pied de Post (na França) até Santiago de Compostela, já na Galícia. Abaixo os dizeres: “Caminho de Santiago = 800 km“. A ideia era mostrar que se a forma como atendemos o parto fosse em um tempo igual ao Caminho de Santiago, o modo tecnocrático, intervencionista, medicamente controlado, cientificista, insensível, frio e afastado das evidências científicas representaria apenas os últimos… 80 metros.

Espero que tenham entendido como as modificações recentes no parto, em especial a hospitalização, produziram efeitos muito importantes e graves na forma como entendemos e sentimos esta parte tão importante da sexualidade humana.

Agora eu me sinto no fim dos pródromos de um grande trabalho de parto, que durou 37 anos. Desde a minha viagem de 108 km de Porto Alegre até o litoral, quanto não contava mais do que 20 anos de idade, que sonho em percorrer a rota mística de Santiago. Ela esteve presente em meus sonhos, nos livros que li, nos filmes e documentários que assisti e nos inúmeros e infindáveis devaneios sobre o que me aguardaria na travessia.

As contrações agora se intensificaram e começo a sentir uma certa regularidade. Não sinto mais tantas dores, as bolhas serenaram, a sola engrossou, ou músculos pararam de se embebedar com o ácido lático de todos os dias. Apesar das dores os passos estão mais confiantes. A cada albergue que chegamos cresce nossa confiança; são como nas pausas silenciosas depois de cada contração. Os olhares de apoio das minhas companheiras de caminho são como as massagens de divinas doulas sobre um corpo cheio de cicatrizes e uma alma ainda rasgada de indignação. São elas que me estimulam, e quando dizem, jocosamente, “é logo ali”, sinto o mesmo frescor das palavras que por tantas vezes eu mesmo disse a quem sofria a dor do desconhecido.

Na minha jornada – o caminho é sempre solitário – levo no alforje a metáfora do nascimento. Se existe sentido na dor, na lágrima, no nariz que corre, no músculo retorcido e nos pés que sangram também terá valido a pena lutar para que o nascimento seja um evento de luz, com autonomia, liberdade, segurança e comunhão de almas.

Sigamos!!!
Ultréia!! Suséia!!!

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