Anjos Caídos

Anjos Caídos
Harvey, Kevin, Cosby e Waack

A história destes quatro poderosos da comunicação poderia nos oferecer alguns ensinamentos, para além do “bem feito” que agora dizemos entredentes. Todos se tornaram ricos e famosos concentrando em si uma quantidade volumosa de poder. Também eles trabalhavam na ribalta midiática contemporânea que coloca egos nas alturas ou transforma sujeitos em poeira num piscar de olhos. Em seus ramos específicos na indústria do entretenimento suas vozes soavam sobre a dos demais, criando ao seu redor um misto de veneração e medo.

Natural que para dois deles as vitimas fossem as mulheres que deles se aproximavam em busca de um lugar ao sol e uma chance de fugir do anonimato. Para outro, a vítima eram os rapazes, mas a lógica do poder abusivo era a mesma. A simpatia conquistada poderia abrir portas e fechar contratos. A indústria da imagem é cruel e desumana e o comércio de corpos e consciências é uma realidade amarga. Para o último, as vítimas foram os negros e pardos, enquadrados no preconceito diminutivo e característico de boa parcela da branquesia de classe média desse país.

Boa parte dessas personalidades carregadas de fama e dinheiro, mais por sorte do que por talento, passam incólumes por toda a vida, como o apresentador Jimmy Saville da BBC, que conseguiu driblar por 40 anos as evidências e testemunhos de abusos cometidos contra crianças, vindo a morrer sem ser acusado. Com o aumento da vigilância sobre os abusos sexuais isso se torna cada dia mais difícil. Os personagens acima não tiveram a mesma sorte, e terão que amargar um fim de vida sombrio e triste, sob os dedos apontados de muitos acusadores.

Se é verdade que o poder embriaga e que somente depois de tomar desse cálice nos é permitido entender a profundidade de sua abrangência, também é certo que desse deslumbramento seremos inevitavelmente vítimas. O poder enlouquece, nos afirmava Gore Vidal ao analisar a vida dos Césares. A loucura vem da falta de limites, da sensação de onipotência e da certeza da impunidade. Uma falha gritante na castração, levando à insanidade.

O episódio último, do jornalista antiPT, nos mostra que por trás de uma máscara de sobriedade e pretensa isenção havia o mais abjeto preconceito de classe. Assim como Boris Casoy e sua agressão aos faxineiros, Waak foi vítima de suas próprias palavras carregadas de racismo. Pode ter sido um “deslize”, mas não há como negar que estas “falhas” e fissuras no discurso apontam para o que verdadeiramente somos, e nos levam ao cerne dos nossos valores constitutivos.

A lição a ser aprendida é jamais confiar que o poder, por maior que seja, nos torna indestrutíveis. Sem uma base ética sólida e firme qualquer um desaba e cai estrondosamente ao solo, tão certo como ao dia sobrevém o escuro da noite. Quanto maior o tamanho, maior será a queda.

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