Síndrome de Estocolmo

Há muitos anos eu já usava a metáfora da Síndrome de Estocolmo para descrever o relacionamento entre as mulheres e os representantes do modelo tecnocrático de atenção ao parto. Ela cabe – mesmo reconhecendo os limites de qualquer analogia – por mostrar a delicada tessitura de relacionamento entre mulheres “cativas” e as figuras de poder que governam suas ações.

A metáfora também é útil para desvelar o fato de que, mesmo sendo uma relação claramente opressiva, existe um circuito de afeto que circula entre oprimido e opressor. Para que isso seja implementando muitas histórias e mitos são criados, em especial as “histórias de hospital”, reforçadas pelo pessoal de apoio como enfermeiras e suas auxiliares, onde os médicos são, via de regra, pintados como cavaleiros heróicos que salvam donzelas condenadas pela crueldade de sua natureza madrasta. Nada que já não esteja nos contos de fada.

O problema, segundo Marsden, é que esse afeto exagerado, por sua natureza amorosa profunda, facilmente se transforma em ódio.

Meu bebê quase morreu por ser muito grande (quase 4 kg), mas foi salvo por uma cesariana” ou também “Graças ao Dr Frotinha estamos vivos pois ele notou na palpação que o cordão estava enforcando minha bebê“. Quem é da área conhece centenas dessas histórias de auto glorificação contadas pelos profissionais, e sabe também o quão difícil – por vezes impossível – desfazer noções erradas nas pacientes por causa desses mitos criados pelos próprios protagonistas, e sobre fatos que muitas vezes eles mesmo criaram.

Mulheres são cativas de um sistema misógino e depreciativo de suas qualidades e a maneira mais engenhosa de manter esse sistema funcionando é faze-las acreditar que a sua servidão e cativeiro lhes beneficia, e que tudo é feito para seu próprio bem. Logicamente alguns vão se insurgir contra esse paradigma e tentarão mostrar que o Rei está nu, mas serão facilmente esmagados e engolidos pela máquina que controla o sistema, como o protagonista Winston Smith, de Geroge Orwell, em “1984”. Nunca esquecerei que Winston não foi executado pelo Big Brother, apenas deixado livre a vagar para ser considerado por todos como um “louco”.

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