Reminiscências e Futebol

Na minha infância no bairro Menino Deus (aquele que o Caetano gostou), futebol era muito importante para a garotada, mas a gente também jogava muita bola, porque havia muitos campinhos em terrenos baldios. Hoje nestes “estádios” estão edifícios onde mora a pequena burguesia da província. Aquela foi uma época de domínio do Inter, de meados dos anos 70 até o glorioso 1981, quando o Grêmio venceu o São Paulo na final e conquistou seu primeiro torneio em nível nacional. Dois anos depois conquistaria a América e o mundo, algo impensável na minha infância.

O Menino Deus era como uma pequena cidade do interior. Na esquina da minha rua, dona Linda e a família Ruschel colocavam cadeiras de praia na calçada para tomar chimarrão ao por do sol. As mães das crianças da Vicente e da Botafogo se conheciam. O supermercado Pavan era um ponto de encontro e o colégio Presidente Roosevelt era onde todos estudávamos (nós, os pobres, pois os chiques iam para o Anchieta). Meninos usavam azul e meninas usavam rosa; a diversidade ainda estava para ser inventada.

No meu bairro moravam muitos jogadores do Inter e a gente sabia onde eram seus endereços. O Figueroa, por exemplo, morava no prédio das “escadinhas” no morro em frente ao Beira Rio. Tovar e Carpegiani moravam no prédio na esquina da Botafogo com Getúlio Vargas. Aliás… Elias Ricardo Figueroa Brander foi o jogador mais badalado do Inter durante uns 10 anos, de 1971 até sua saída no final da década. O salário dele era de incríveis 5 mil dólares. Sim, mesmo com as diferenças de câmbio é possível ver como o futebol era algo muito mais próximo do cidadão comum.

O dinheiro em 1977 era o Cruzeiro. Um dólar valia 14 cruzeiros, portanto Figueiroa devia ganhar 70 mil cruzeiros mensais, o maior salário do clube. Naquele ano um fusca zero Km custava Cr$ 45.215,00. Já um carrão da época, o Dodge Charger, custava Cr$ 97.260,83. Assim, o melhor jogador do Inter ganhava o suficiente para comprar um carro zero cada mês, nem fusca nem “Dojão”, mas entre esses dois. Tipo, um opalão.

O salário mínimo em 1977 oscilou ao redor de Cr$ 1.100,00, portanto um jogador famoso ganhava 70 vezes este valor. Hoje em dia seriam 80 mil reais de salário, mas um jogador de ponta, aqui mesmo na nossa cidade, ganha 10 vezes esse valor.

Podemos dizer que o futebol mudou um pouco, mas a neurose social que sustenta essa disparidade entre um assalariado e um astro de Futebol foi multiplicada por dez.

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