Ainda cloroquina

Não creio em razões políticas para a manutenção da Cloroquina como opção para a pandemia, mesmo após as repetidas informações sobre sua inefetividade, partindo de organizações de saúde e de governos. Creio que o buraco é outro.

As verdadeiras razões jazem nas profundezas do inconsciente e são derivadas da pressão do “imperativo tecnológico” sobre as ações médicas. Existe uma pressão positiva sobre a ação dos profissionais da Medicina, uma expectativa de “algo a ser feito”. Não se admite que alguém com essa responsabilidade social – como o médico – não aja positivamente, ativamente. Essa é uma lei não escrita que regula a medicina.

Se uma pessoa morre de Covid SEM o uso de Cloroquina a família, os colegas e até a opinião pública (mídia) podem acusar o profissional de negligência, por não usar algo que “muitos outros dizem salvar vidas”. Por outro lado, se o sujeito morre de Covid tendo usado a Cloroquina – mesmo que a morte tenha ocorrido pelos seus efeitos tóxicos (!!!!) – ainda restará ao profissional dizer “fizemos tudo ao nosso alcance”. É raro um médico ser acusado por ter FEITO algo, e o comum é o acusarem por NÃO ter feito o que se supõe deveria fazer.

Ciência e evidências científicas desempenham um papel pouco expressivo nas escolhas médicas. Elas são majoritariamente tomadas por pressões de ordem subliminar. Médicos prezam seus empregos, sua qualidade de vida e seu status – como qualquer outra profissão. Enfrentar as acusações em nome do rigor científico e de suas convicções é raríssimo. Se as evidências e estudos sistemáticos REALMENTE guiassem o proceder médico a medicina desta forma empregada seria absolutamente irreconhecível.

Alguns meses depois de formado encontrei colegas de residência que me diziam: “Essa história de parto normal é muito bonita, mas não funciona no mundo real. Na cidade do interior onde trabalho as mulheres chiques (esposas da elite interiorana) marcam cesariana. Se eu negar serei mal falado na cidade, e vão espalhar que ‘não sei operar’. Se eu tentar esclarecer serei chamado de ‘Joãozinho-do-passo-certo’. Todavia, se eu ceder e operar sem justificativa serei abraçado, reconhecido, bem pago, elogiado e jamais serei questionado. Só um maluco suicida faria uma opção diferente desta última.”

Nas escolhas deste colega, onde está a ciência? Mas, quem pode dizer que esta escolha é irracional? Pode ser equivocada e cínica, mas quem a toma tem suas razões.

Médicos são guiados pela mão invisível da cultura. São produzidos pelo cadinho de valores que nela transitam. São PRODUTOS culturais, assim como a medicina que praticam. Aqueles que ousam questionar os pilares sobre os quais se assenta esta prática vão receber a resposta dura e inexorável dos representantes do modelo hegemônico. Não há mudança sem luta – e sem mártires.

Não se trata de culpar as ações de médicos que – por medo ou oportunismo – mantém os modelos intocados, mesmo quando claramente insensatos e sem base científica. Mais importante é mudar a cultura através da educação. Um povo educado produz médicos menos agressivos e mais seguros. Houvesse mais educação para todos sobre ciência e a discussão sobre a Cloroquina teria uma face muito mais racional e simples.

É o nosso atraso que mantém o debate em bases tão primitivas.

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