Propaganda médica

Justiça seja feita…

Estávamos reunidos no Hospital de Clínicas para os preparativos da formatura quando fomos avisados que havia uma reunião marcada para os formandos. A “rádio corredor” avisava que o Laboratório X estaria fazendo uma palestra na sala Y sobre seus produtos, onde seriam distribuídas amostras grátis, brindes e um livro de especialidades farmacêuticas – por eles editado.

“Grátis”. A palavra mágica tilintou nos meus ouvidos. Assim que nossa reunião terminou me dirigi à sala X para escutar a “palestra” e receber meus presentes. No meio do caminho encontro meu colega Marcelo Zubaran Goldani e o convido a me acompanhar à sala de reuniões.

Má ideia. Com genuína indignação meu colega me deu uma verdadeira “carraspana”. Explicou, nos cinco minutos que durou nossa breve conversa, todos os elementos constitutivos da “propaganda médica” e porque todos nós, jovens médicos, deveríamos no envergonhar deste tipo de aliciamento.

Por certo que minha reação às suas palavras foram exatamente o que se espera de um jovem “doutor” arrogante e prepotente.

“Ora, o que pode haver de mal em receber estes agrados se nada é pedido em troca?“, pensei eu. Ou talvez o meu pensamento fosse ainda mais ingênuo: “Eu sou mais esperto que isso, eles não podem me enganar”, como se os gigantes da BigPharma não conhecessem nossas frágeis resistências e as formas de quebrá-las.

Ainda surpreso, agradeci as palavras do meu colega e me despedi. Sim, sem dúvida fui ao encontro e saí de lá com o meu livro (que guardo até hoje como lembrança) e a minha sacolinha de bugigangas “grátis”. Claro, deixei a sala também com minha reluzente canetinha no bolso, com o nome da droga da moda escrita em dourado. Minha inquietude ainda era muito adolescente para entender os profundos significados desse encontro. Fui, como todos, gado…

Meu colega estava certo. É profundamente humilhante a conduta dos médicos que trocam – mesmo que inconscientemente – sua preciosa prescrição por presentinhos, agrados e conversa sedutora. É inaceitável que ainda hoje aceitemos a publicidade ostensiva aos médicos por parte da indústria farmacêutica nos moldes em que ainda é feita. A relação da Nestlé com sociedades médicas me mostra que esta é uma relação atual e recente, e não uma reminiscência antiga e suplantada.

O fato de, passados 35 anos, eu ainda me lembrar da rápida conversa com Marcelo é a prova que este encontro foi importante e fortaleceu a semente de uma postura crítica sobre a ação médica. A necessária indignação com os (des)caminhos da arte médica é uma das mais importantes matérias que nos falta no currículo da faculdade.

Ao meu amigo Marcelo meu agradecimento. É muito provável que ele não se lembre desse breve encontro, mas é justo que ele saiba a ação que suas palavras tiveram no meu pensamento. Cada dia tenho mais certeza que as Escolas Médicas precisam de sujeitos chatos como ele.

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