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Medicina e Sexo

Quando adolescente eu era fascinado por literatura de suspense e mistério. Herdei dos meus tios uma coleção de revistas chamadas “Ellery Queen’s Mistery Magazine”, onde eram publicados contos carregados de ação e tramas detetivescas. Eram histórias cativantes, contos curtos ao estilo dos filmes de Alfred Hitchcock. As histórias me faziam viajar pelas incríveis soluções encontradas pelos detetives para os casos complexos, e minha imaginação embarcava junto com eles para países distantes e exóticos.

De tantos contos lidos naquela época, uma história apenas eu guardo na memória. O resto são flashes desconexos feitos de lembranças, como pedaços soltos de um quebra-cabeças. Esta história me marcou por ser uma história que misturava sexo, mistério e horror.

A trama eu não me recordo em detalhes, mas apenas a cena principal. Uma bela jovem havia sido sequestrada por sujeitos estranhos, que mais tarde se revelaram seres de outro planeta, e levada para uma casa abandonada. Sozinha e nua , amarrada em uma cadeira em um quarto vazio, ela seria violada pelo alienígena chefe, como forma de produzir uma linhagem de seres geneticamente híbridos, “parte humanos, parte ETs”, que seriam o embrião de uma nova civilização cujo objetivo era a conquista do planeta. Todavia, a cena brutal do estupro foi descrita da forma mais estranha possível, e por isso mesmo produziu um choque que após 50 anos ainda não se desfez.

Despido de seu invólucro humano, o alienígena finalmente apareceu diante da moça como verdadeiramente era: um ser disforme, viscoso, esverdeado e com múltiplos tentáculos que faziam o papel das suas mãos. Como um polvo gigante abraçou o corpo da menina envolvendo-a num abraço vigoroso e sexual.

Entretanto, como os alienígenas estavam há tempo estudando nossa espécie, os tentáculos foram milimetricamente direcionados às partes mais sensíveis do corpo da mulher. Os pontos de prazer feminino eram massageados por cada uma das finas e delicadas pontas tentaculares do monstro. O “polvo espacial” nada dizia, não esboçava nenhuma reação, apenas operava mecanicamente, estimulando a sensibilidade da mulher, tornada uma máquina na qual o uso correto de pontos específicos a faria sucumbir ao prazer.

É evidente que isso foi conseguido com sucesso. Diante da manipulação cientificamente calculada, e levando em consideração o estudo aprofundado das terminações nervosas da garota, ela não apenas multiplicou orgasmos, como engravidou da besta interplanetária.

O fim do texto mostrava a própria jovem descrevendo a cena como uma “experiência fantástica“, e que “havia sido tocada como jamais uma mulher o foi“.

A base da história – aparte toda a trama desinteressante e clichê das invasões alienígenas – é de que a sexualidade feminina pode ser despertada e controlada pelo conhecimento científico, pela razão, pelo entendimento da anatomia, pela compreensão do papel dos hormônios e pela determinação exata da topografia do desejo.. A inscrição do gozo estaria no corpo, mediada pelos nervos e hormônios e controlada pelo cérebro.

Até hoje me espanto com a ideia de que a sexualidade pode ser encontrada na superfície. Sempre que vejo essa busca lembro da metáfora do poste de luz, do sujeito e de sua chave. Este, depois de perder suas chaves e procurar por mais de uma hora, encontra um amigo que se apresenta para ajudá-lo. Mais um tempo se passa até que o amigo, confuso, pergunta: “Você tem certeza que a perdeu aqui?”, ao que ele responde: “Eu não a perdi aqui. Eu a perdi lá em baixo na rua, mas lá está escuro demais para procurar.”

Assim o fazemos: como o simbólico é imponderável e invisível, apesar de presente e vibrante, preferimos procurar a fonte do desejo onde ele não está, mas onde é possível enxergar em volta.

Nunca conseguirei entender a razão dessa busca da sexualidade fora da alma humana, e o discurso médico sobre este tema continuará absolutamente incompreensível para mim

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Poder e Ciência

Basicamente quando se procura um tratamento lançamos mão da melhor evidência sobre uma determinada doença, com o estudo mais abrangente possível e com o maior rigor científico que se possa aplicar. Não creio que possa haver algum profissional da saúde que esteja em desacordo com esta afirmação. Se a medicina não é uma ciência – mas uma arte e um saber – ela certamente se apoia na ciência para aplicar tratamentos e implementar exames e terapêuticas.

Entretanto, esse não é – nem de longe!! – o problema da aplicação de conhecimento científico aos pacientes e seus sofrimentos. O drama reside na adaptação destas evidências aos choques de poder inevitáveis que vão ocorrer quando se está diante de descobertas capazes de abalar sistemas de poder bem sedimentados. No caso das vacinas, para usar um exemplo em voga, são BILHÕES de dólares que estão sendo disputados pelas “biotechs” de vários países na luta feroz por fatias bilionárias de mercado com essa pandemia. A experiência nos mostra que nenhuma ética na história da humanidade resiste a tanto dinheiro – e o poder que dele emana.

Pensem bem: se as evidências funcionassem no sentido de implementar mudanças ou determinar protocolos, 90% dos remédios de uma farmácia comum seriam jogados no lixo, pois são comprovadamente inúteis e/ou perigosos – em especial os psicotrópicos. A maioria das cirurgias seriam abandonadas, em especial algumas altamente lucrativas como as intervenções cirúrgicas cardíacas. Muitos exames inúteis (boa parte das ecografias, por exemplo) seriam abandonados, assim como as mamografias de rotina. No campo da obstetrícia, não haveria episiotomias, cesarianas seriam exceções (nem 15% dos casos) e sequer haveria médicos atendendo partos, pois as evidências comprovam que eles são os piores atendentes de parto disponíveis, atrás de parteiras e médicos de família. A presença de doulas seria obrigatória em todos os hospitais.

Percebam como a “verdade” que emana dos estudos e das pesquisas não é suficiente – por si só – para implementar mudanças. É preciso haver pressão política para que uma verdade deixe de ser oculta e passe a ser a vertente hegemônica de entendimento de um fenômeno qualquer na sociedade.

Olhar para a ciência como uma entidade mítica e isenta, amorfa e imparcial, é um erro brutal. A ciência que nos chega aos sentidos é trazida por sujeitos como nós e feita por homens e mulheres com interesses, preconceitos, desejos e falhas. Seu trabalho sofre todo tipo de pressão para apresentar resultados. Acreditar que a ciência possa se expressar num vácuo cultural, infensa à vaidade humana e ao poder, é pura ingenuidade – que pode custar vidas.

Sobre essas drogas que são propagandeadas como “positivas para tratar a Covid19” existe um conflito muito grande. A respeito da Ivermectina há uma verdadeira cisão entre especialistas. Novos estudos – em especial um que surgiu há poucos dias na Argentina onde esta droga foi usada em profissionais da saúde – confirmam que pode existir um resultado muito positivo com seu uso, o qual não pode ser desprezado por preconceitos de ordem científica ou política.

Recomendo esse vídeo do senado americano para ver o quanto o debate por lá é muito mais intenso e aberto do que por aqui.

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Os Heróis da Capa da Revista

Que absurdo.

Essa “babação de ovo” para a corporação é tremendamente ridícula e injusta com o contingente MUITO MAIOR de enfermeiras, obstetrizes, doulas, técnicas de enfermagem e do pessoal de apoio (limpeza, motoristas, porteiros, etc) que trabalharam – muitos com o sacrifício da vida – nessa pandemia. Sim, os médicos se sacrificaram também, mas não mais que os policiais todos os dias, os bombeiros, os lixeiros, os salva vidas, os eletricistas, os funcionários que colocam cabos de telefonia etc. Não há porque chamar de heróis aqueles que cumprem sua função com dignidade e honestamente.

Nem preciso falar sobre o apoio institucional e disseminado ao golpe de 2016 entre os médicos, o que os torna responsáveis pela agressão à democracia e a eleição de Bolsonaro.

Fica evidente que por trás disso está a exaltação politiqueira do Mandetta, um médico cuja vida foi dedicada à desvalorização do SUS e SÓ POR ISSO foi escolhido pelo Bolsonaro para liderar a pasta da saúde. Ele não é herói de nada, não passa de um ex-bolsonarista que tenta limpar seu currículo cuspindo (agora) no prato onde comeu.

Tudo isso para lançar um nome da direita limpinha para 2022.

PS: esse post não é para desvalorizar o importante trabalho dos médicos, mas para ressaltar a injustiça de premiar um grupo em detrimento dos outros profissionais – tão ou mais importantes.

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Revelação

Algumas questões contemporâneas:

Quando o pessoal faz “chá de revelação” a mãe também não sabe o sexo do bebê ou ela já sabe e só finge surpresa? Caso seja surpresa também para ela, como faz isso? Combina com o ecografista para avisar apenas ao confeiteiro?

Minha curiosidade vem do fato de que meus filhos nasceram exatamente na época da introdução das ecografias na prática obstétrica. Não foram realizados estes exames durante as gestações de Zeza, mas também não havia nenhuma curiosidade sobre o sexo dos bebês que justificasse a invasão da intimidade do ventre materno. O sexo era uma descoberta emocionante, mas o que havia era o “parto revelação”. O parto revelava tudo: peso, cara, cabelos e o sexo de nascimento.

Entretanto, esse “modismo”de descobertas precoces seguidas de um espetáculo de revelação enseja uma série de perguntas: por que exatamente no momento histórico onde o sexo biológico é tão desprezado como “determinante de gênero” essa comemoração é mais intensa, espetacularizada e pervasiva? Afinal, aqueles pequenos detalhes têm ou não importância? Qual o significado último dessas cerimônias de “revelação”? O que essa aparente contradição tem a nos “revelar”?

Para além dessas preocupações sobre os sentidos da revelação, muitas vezes estas festas se transformam em espetáculos de grosseria explícita. Há inúmeros exemplos de como a revelação extemporânea do sexo de uma criança pode ser tratada de forma abusiva, fazendo do momento um Fla-Flu grotesco e sem graça. Pior: a criança enquanto sujeito não vale nada, resumida ao valor das apostas sobre qual sexo pertence. Um objeto de brincadeira entre os adultos.

Fica claro que no mundo atual os eventos precisam ser espetacularizados, e parece que ser reservado significa abdicar do protagonismo. Hoje mesmo vi alguém reivindicando o direito das mulheres em fazer “topless”. Eu acho que esse direito deve ser garantido, mas deixar de cobrir o corpo tem muitos outros significados para além de evitar o calor e proteger-se do fio. O principal deles é a perda insidiosa da intimidade. O corpo deixa de ser algo privado e se torna público.

Assim, tudo o que é seu é exposto, passa a ser de todos, e a noção de pudor ou intimidade se desfaz como um anacronismo sem sentido. Tudo, inclusive sua sexualidade mais pessoal, precisa ser exposto, aberto e iluminado pelos holofotes das redes sociais. O que vejo acontecer, como era de esperar, é um questionamento cada vez mais intenso sobre esse modelo de auto exaltação. Eu, pessoalmente, acho muito bom que haja esta revisão.

Minha inquietude se mantém, e minha pergunta é honesta: Por que logo agora a descoberta do sexo passa a ser valorizada e espetacularizada, exatamente quando aquilo que por milênios definiu nosso sexo está caindo por terra, em nome de uma identidade de gênero muito mais fluida – mais da palavra e menos do corpo?

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Obstetras ou “Obstétricas”

Model in studio isolated on white background

Afinal, é “enfermeira obstétrica”ou “enfermeira obstetra”?

Bem, aqui vai a minha opinião…

Eu discordo da tese que nomeia as enfermeiras com pós-graduação como “obstétricas”. Para mim o nome mais indicado é “enfermeira obstetra” por algumas boas razões, e acho que essa deveria ser uma luta da enfermagem em nome de sua valorização.

A primeira é que colocar “obstetra” no nome não se adjetiva o trabalho, mas o substantiva, coloca-o em uma pessoa. Querem um exemplo simples de entender? Quando me perguntavam minha profissão eu dizia “médico”, e se depois perguntassem a especialidade dizia “obstetra”, jamais “médico obstétrico”. E por que com as enfermeiras deveria ser diferente?

Ora… porque aos olhos do poder médico hegemônico na enfermagem NÃO existem obstetras, mas tão somente “enfermeiras que fazem serviços obstétricos“, o que retira delas esta denominação, essa função e esse poder.

Para mim fica claro que há um truque semiótico e semântico na retirada desse denominador, mas não contem comigo para usar um nome que pode servir para diminuir a importância da enfermagem obstétrica no cenário contemporâneo.

Se não houver uma determinação (equivocada, ao meu ver) para retirar o nome de “obstetras” das parteiras profissionais é assim que vou continuar a chamá-las. “Obstétrica” fala da função, “obstetra” da pessoa; prefiro reforçar o que SÃO, não o que fazem. Aí está a chave para entender a disputa.

Portanto, eu pessoalmente prefiro chamar as profissionais que atendem o parto de “parteiras profissionais” – para reforçar o nome e os valores da parteria – mas na esfera da enfermagem o nome que me parece justo é obstetra mesmo, pelo que eu expus acima.

Semiótica é tudo. Os nomes com os quais batizamos as coisas desvelam o valor que nelas colocamos. Por isso chamamos “paciente” quem nos espera para ser atendido ou descrevemos menopausa como “falência ovariana”. Não existe nome inocente. E não se trata de debater o português, mas as intenções inconscientes do seu uso.

Ahhh, a outra razão? Não acho legal uma profissional cujo nome termina em “tétrica”.

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