Panegírico

Há alguns dias escrevi um texto sobre o “Mister Bento” e suas diatribes pelo zap-zap. No episódio ele xavecava uma menina de sua região dizendo-se “o homem mais lindo da cidade e um dos mais belos do RS” e em suas palavras, sucintamente escritas, transbordava indignação e estupefação diante da declaração da menina de que ele “não fazia seu tipo”.

“Como assim, se até lésbicas e homens se encantam por mim?”, disse ele em outras palavras. Ainda tentou mais alguns argumentos para demover a moça de sua recusa, mas sem resultado.

No texto anterior eu questionava se a pena imposta – por todos nós – a ele não era exagerada e perguntava se a sua atitude auto elogiosa, porém não violenta e não agressiva, merecia tanta reprovação a ponto de fazê-lo alvo de nossos ataques. Muitas pessoas acharam que “macho escroto(??) que age assim tem mais é que ser exposto”. Para muitas a pena foi até branda, pois suas ações não merecem perdão. Penso que para estas o fato de ser homem torna qualquer pena irrisória.

Mantenho a pergunta. O que fez ele de tão agressivo? Qual seu vitupério mais imperdoável? Por que foi tão impiedosamente atacado?

Ouso responder: o que há de insuportável e que nos choca de forma direta é o encômio, o elogio a si mesmo, a auto adulação, a louvação de si próprio. Estas são ações socialmente reprováveis e repulsivas. Vou adiante: mas por que elogiar-se publicamente é feio? Qual a razão para soar tão mal aos nossos ouvidos uma apologia às nossas virtudes pessoais? E veja que curioso paradoxo: aceitamos graciosamente a mentira da falsa modéstia e repudiamos com vigor a verdade do autoelogio. Então, qual o pecado de nos amarmos tanto em público?

Meu amigo Julio Cesar compôs uma música na nossa juventude cujo refrão era “Eu sou bonito, eu sou bacana, eu sou bonito, eu sou bacana”. Fazíamos troça com algo proibido. Brincávamos com o absurdo de criarmos para nós uma imagem de beleza.

O crime de exaltar-se explicitamente é ainda mais agravado quando é um homem a falar de sua própria beleza física, algo que também não é aceito na sociedade patriarcal. Esculachar-se (como eu faço com minha falta de cabelos) é até elogiável, mas descrever-se como lindo merece a pena da humilhação pública.

Minha humilde resposta para essa pergunta é que o auto elogio é uma usurpação. Em verdade, ao ouvirmos uma exaltação laudatória de si mesmo, pensamos: você não pode dizer isso…. porque não sabe do que fala!! Só nós temos esse direito. Você é o que dizemos de você, construído pelos nossos olhos e nossos valores estéticos. O encômio não cabe a você; espere que um outro lhe promova e reconheça suas virtudes, jamais você mesmo. Você está falando de um lugar que não é seu!! Saia já daí!!!

Talvez isso ajude a esclarecer a razão de tanto mal estar causado pelo panegírico que o Mister Bento fez de si mesmo. Ele roubava um lugar que não era seu. Ou há outra explicação para tanto desconforto com suas palavras?

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s