Castigos

Castigos

Uma oportunidade que a avozeridade (relativo a avô, assim como paternidade é para pai) me ofereceu foi a possibilidade de estabelecer um comparativo intergeracional. Vejo com surpresa e encantamento o desenvolvimento psíquico e emocional dos meus netos com muita atenção – que eu não tinha aos vinte e poucos anos quando fui pai.

Um aspecto muito chamativo nessa observação é o fato de que eles são a primeira das cinco gerações que acompanhei (dos meus avós até aqui) em que não existe a perspectiva de castigos físicos. Não importa qual a travessura ou a “maldade” produzida, a violência não é uma expectativa que eles têm. Eles agem sabendo que, na pior das hipóteses, serão retirados do local para uma “pausa de reflexão”, mas jamais receberão ataques físicos como punição.

Por certo que entre eles a violência é um assunto diário. Brigam entre si todos os dias e com todos os requintes de crueldade, tanto física quanto psíquica. É assim o amor entre irmãos e primos: “entre tapas e beijos”. Também com os animais domésticos existe algum grau de violência, mas é natural que eles percebam os limites da sua expressão através destes experimentos. Quando os cachorros da casa mordem os pequenos em defesa própria é o momento de ensinar que a violência sempre tem um preço.

Por outro lado, a dimensão do “outro poderoso”, sem as tintas da violência explícita, é uma grande novidade para mim. Cresci com a ideia de que, dependendo da travessura ou da blasfêmia proferida, umas boas palmadas poderiam ser a consequência natural. Agora esta instância “pedagógica” foi eliminada. Acredito que há razões de sobra para comemorar.

Percebi na experiência de convívio com meus netos o que muitos já haviam descrito: do ponto de vista educacional os castigos físicos não fazem a menor diferença positiva. São inúteis para produzir a necessária castração simbólica e servem tão somente como válvulas de escape para as frustrações parentais. Mantém o círculo de opressão e violência e comunicam às crianças o valor da agressão como potencial solucionador de impasses.

Criar sem violência física é uma lição que pude aprender com esta espetacular oportunidade que a vida oferece a quem ficou velho o suficiente para merecer ser avô.

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