Trânsito

Eu desenvolvi uma estratégia há mais de 20 anos a respeito da educação de motoristas. Na época eu já tinha essa vida dupla: a maior parte do tempo como pedestre e eventualmente como motorista. Portanto, eu tinha “lugar de fala” para criticar a forma como os motoristas eram abusivos em sua relação como aqueles que caminhavam pela cidade. Podia reclamar sabendo que eu também fazia parte do grande grupo motorizado que não respeitava a civilidade.

Uma das coisas que eu fazia era jamais apressar o passo quando andava por cima de uma faixa de pedestres, mesmo obrigando os motoristas a diminuírem a marcha ou eventualmente pararem o carro. Ora, pensava eu, o conceito de “faixa de segurança”ou “faixa de pedestres” é a continuação da calçada. Avançar uma faixa dessas é o mesmo que entrar sobre o passeio público e atingir alguém. Por isso eu fazia questão de me comportar como se estivesse caminhando na calçada, sem parar, sem diminuir o passo e sem dar passagem para os carros por medo do seu tamanho.

No início recebi buzinadas e xingamentos. Muitas caras feias. Gente abrindo o vidro lateral e gritando coisas. “Babaca”, “lesma”, “idiota”, “quer se matar?” etc. A tudo eu respondia com impassividade, sem levantar a cabeça, ou mostrando o dedo médio. Eu explicava às pessoas que era um projeto de “educação continuada”: somente se a gente assumir a posse das ruas os carros entenderão. Enquanto ficarmos acuados eles vão tomar conta do espaço, até porque é exatamente assim que funcionam as disputas de classe. Se você recua o espaço não fica vago, ele é imediatamente ocupado.

Fiz isso por anos e acabei vendo o sucesso dessa iniciativa. Não por minha causa, mas também pelo meu exemplo diário, eu testemunhei a lenta e constante mudança na atitude dos motoristas em relação aos transeuntes na cidade onde moro. Não é assim uma Zurique, mas já é muito mais seguro do que outrora.

Quando me perguntavam se eu não olhava para os lados quando atravessava uma faixa de pedestres eu respondia que “sim, olho bem para os lados“. A seguir vinha a pergunta: “mas, se você olha para os lados então não confia plenamente no seu método“. Eu sempre dizia que, por mais que eduquemos toda a população, ainda haverá pessoas desatentas ou perversas a ponto de passar por cima de quem está atravessando a rua. Portanto, se eu for atropelado em uma faixa de segurança a culpa jamais será minha, mas é minha responsabilidade tomar todas as precauções para que isso não aconteça diante do fato de que as eventualidades e os doentes existem.

A piada que me diziam aqui em casa era a cena da minha chegada ao céu, explicando para São Pedro as circunstâncias do meu atropelamento e dizendo: “Si, morri, mas eu estava certo”

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