Excelência

– Tem um senhor aí que não marcou consulta mas disse que precisa falar com uma certa urgência.

Minha secretária havia entrado com um café e avisou do sujeito sentado na recepção aguardando para falar comigo. Olhei para Zeza e consenti; afinal ainda tínhamos alguns minutos até a próxima consulta. Ele entrou na minha sala parecendo cabisbaixo e triste. Carregava uma sacolinha de supermercado na mão e se vestia de forma muito simples. Pediu licença para sentar e explicou a razão de sua presença.

– Boa tarde, doutor. Eu me chamo Fabrício e sou o marido da Maria, sua paciente da Liga Homeopática. O senhor deve lembrar… baixinha gordinha, sempre sorridente.

Voltei os olhos para cima e passei a vista no meu catálogo mental de pacientes. Quase 25 anos atendendo voluntariamente na “Liga”, quantas Marias poderiam ter passado por mim? Gordinha, sorridente. Não apareceu ninguém na tela da minha memória, mas apenas respondi que sim.

– Então o senhor é o marido da Maria… em que posso ajudá-lo?

Ele se arrumou na cadeira e respondeu de chofre.

– Na verdade doutor eu “era”. Maria morreu ontem.

Senti a informação como um soco no estômago. Olhei para o lado e vi Zeza pálida.

– Ontem? Como assim? O que houve?

– Pressão doutor. Foi internada ontem porque estava com dor de cabeça. O senhor deve se lembrar, ela estava grávida do nosso terceiro filho, e já estava de 9 meses. Teve convulsões no hospital, fizeram uma cesariana de emergência. Nasceu uma menina linda, que está lá com a avó, mas ela não resistiu e morreu da hemorragia. Eclâmpsia que chama, não?

Bastou dizer estas palavras e o homem à minha frente desabou em choro convulsivo. Suas lágrimas escorreram pela face enrugada e se chocaram contra a pedra dura da mesa. Abalado, olhei para Zeza, que só dizia “Meu Deus que tristeza”

Perguntei se ele queria um copo d’água, e ainda me lembrei que este gesto em nada diminui a dor de alguém, mas é usado em contextos de tensão desde tempos imemoriais. Cumpre a função de um ritual que nos livra do silêncio aterrorizante destes momentos. Ele sequer conseguiu responder por causa dos soluços e lágrimas que saíam aos borbotões.

Esperei que se acalmasse um pouco e perguntei se haveria algo com o que poderia ajudá-lo.

– Não preciso de nada, vim apenas lhe contar porque ela falava muito bem do doutor e das consultas que tiveram na Liga Homeopática. Ela tinha muito carinho pelo senhor. Na verdade fui avisado hoje pela manhã e estou indo para a rodoviária comprar uma passagem de ônibus para Passo de Torres onde ela estava internada. Se o senhor quiser ajudar na passagem eu agradeço.

Olhei para Zeza e ela me fez um sinal apontando para meu bolso. Tirei uma nota de 50 reais e coloquei mas mãos do pobre homem. Ele agradeceu ainda secando as lágrimas e se levantou. Caminhou comigo até a porta e me disse, ainda consternado: “Deus lhe abençoe doutor. Obrigado por ter atendido Maria durante esses anos todos. Fique em paz”.

Agradeci ainda emocionado, mas tâo logo fechei a porta uma peça dentro do meu cérebro fez barulho. Um “click” que eu conhecia muito bem.

Olhando fixo para a parede eu disse em voz alta: “Não pode ser, não acredito, não, não, não…”

Imediatamente peguei a lista telefônica e encontrei o número da prefeitura de Passo de Torres. Eu conheço bem o lugar – passo por lá quando faço a pé a Travessia Torres-Cidreira – e por isso mesmo achei que havia algo estranho. Passo de Torres é a primeira cidade do lado catarinense de quem atravessa o rio Mampituba vindo de Torres, no Rio Grande do Sul. Liguei para lá e uma telefonista atendeu.

– Por favor, pode me dar o telefone do hospital da cidade?

A moça do outro lado ficou em silêncio por alguns instantes e depois respondeu:

– Moço, nossa cidade não tem hospital, só posto de saúde. Se precisar de atendimento precisa ir a Torres.

Olhei para Zeza e depois para a minha secretária. Perguntei a esta última como ele havia se apresentado ao chegar no consultório.

– Olha doutor, ele chegou aqui e perguntou se o Dr. Ricardo estava atendendo. Respondi que sim, e ele perguntou depois sobre algum outro lugar que o senhor atendia, e eu respondi que era na Liga Homeopática. Por que, algum problema?

Maria” – nome genérico – o nome e a especialidade do doutor na placa da porta e o local onde trabalha fora do consultório. Some-se a estas poucas informações um talento teatral extraordinário. Hoje tenho quase orgulho de ter caído na encenação mais espetacular de que já fui testemunha. A mais absoluta excelência na arte de representar.

Gênio.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Livro de Citações

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s