Morri

De uma certa forma, foi assim mesmo. Há exatos 30 dias eu recebi uma punição do Facebook, sem direito a apelação. Meu crime? Dizer durante uma discussão com um bolsonarista (a respeito do racismo e do machismo do presidente) que “posso defender o direito de votar em quem desejar, mas ver negr*s, mulheres e g*ys votando em Bolson*ro dói no coração”. Pronto; foi o que bastou para ser denunciado e lá se foram 30 dias de gancho. Sem apelação e sem discussão.

Reconheço que fiquei indignado com (mais) esta arbitrariedade. Todavia, com o passar dos dias, percebi que minha ausência teve até algumas vantagens. Por certo que algumas ex amigas ficaram felizes por ficarem desobrigadas de ler meus comentários diários, o que tanto as incomodava. Porém, esse grupo é muito diminuto – tanto quanto daquelas que realmente sentiram minha falta.

Pois em verdade é aqui se esconde a realidade mais dura, que só vim a descobrir em função de minha “morte virtual”: as pessoas realmente não se importaram com o meu desaparecimento. Minha ausência sequer foi notada, com meia dúzia de notáveis exceções. Meu sumiço passou em branco…

E aqui não se trata de uma crítica aos amigos e conhecidos, mas a constatação de que somos fagulhas, pequenos e singulares pontos de luz, únicos e fugazes, cujo apagamento, entretanto, não produz diferença alguma na intensidade luminosa que emana da fogueira da vida.

O ensinamento que fica é o da desimportância que carregamos como marca: quando morremos o mundo continua praticamente inalterado, pois damos uma valor exagerado e injusto à nossa parcela de contribuição ao universo. Este, para ser tão pródigo em criatividade e diversidade, não poderia mesmo oferecer destaque especial à nossa notável insignificância. Somos muito menos importantes e essenciais do que acreditamos.

Minha experiência, aliás, foi a de um espírito inferior (o que em verdade me define), ligado às coisas da terra, que se nega a abandonar as banalidades cotidianas e se mostra incapaz de fechar uma página para abrir outras. Sim, voltei todos os dias para saber o que comentavam, o que diziam e criticavam, colher opiniões e notícias, mas sem poder interagir ou responder. Tal qual um obsessor, cheio de angústia e loquacidade, mas prisioneiro de seu silêncio.

Numa época de algumas mortes próximas – minha mãe, meu neto não-nascido Theo e a proximidade da morte do meu pai – achei interessante vivenciar no mundo virtual o desenlace que acabei padecendo como uma “avant première”. Entretanto, como toda metáfora é incompleta, aqui estou eu de volta à existência nas redes sociais. Como Cristo Redivivo voltei às páginas do Facebook, onde me manterei até meu banimento definitivo. A diferença é que agora, mais do que antes, sei que tudo que faço e digo em pouco tempo se transforma no que sempre foi: mera poeira de estrelas. Resta fazer um bom uso do pouco tempo que me resta.

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