Cambalhotas

E se eu lhe pedisse para virar uma cambalhota, você viraria?

Havia (creio até que já faleceu) em minha cidade um obstetra bastante famoso e conhecido. Apesar de não ser da Academia – um passo importante para a notoriedade – ele atendia pessoas da alta classe, assim como artistas e pessoas da mídia. Era por certo um obstetra tradicional: tinha mais de 80% de cesarianas, fazia todas as intervenções da moda, preferia cesarianas aos partos normais e quando os realizava fazia uso do pacote completo das intervenções sem embasamento. Usava da mitologia do “imperativo tecnológico” mas era muito bom para lidar com a imprensa e para convencer suas pacientes a lhe escolherem como profissional. Uma vez indicou a cesariana de uma artista da TV dizendo que teve que fazê-lo porque o bebê estava “embolado de um lado só da barriga”, o que demonstra como ele usava de factoides para explicar suas intervenções. Porém, estas são histórias corriqueiras de profissionais inseridos no paradigma intervencionista, que enxergam no nascimento um “ato médico” e que – mesmo sem o saber ou dizer – não acreditam na capacidade das mulheres de parir e gestar com segurança.

O que eu achava curioso e didático desse médico em especial é algo que duas pacientes me contaram a respeito de seu atendimento. Quando a gestação se aproximava do final, ou seja, quando as contrações poderiam ocorrer a qualquer momento, ele se sentava à frente da paciente e lhe fazia a seguinte pergunta:

– Diga-me uma coisa; se durante sua internação no hospital eu pedir que você vire uma cambalhota, o que fará?

As pacientes eram surpreendidas com sua pergunta e algumas retrucavam “Mas por que o senhor me pediria tal coisa”, ao que ele respondia que não importava a razão para isso, apenas queria saber o que fariam em resposta ao pedido. Por certo que a maioria respondia “O senhor é o meu médico e a pessoa em quem confio para fazer o meu parto. Apesar de estranho, se realmente houvesse esse pedido eu viraria uma cambalhota”.

Diante dessa resposta ele sorria e deixava claro “Então você pode ser minha paciente”.

Percebi que ele fazia essa pergunta para muitas – senão todas – pacientes porque duas delas (que não se conheciam) me disseram que a ouviram durante uma consulta. Ambas responderam “não” e a partir dessa negativa ele se mostrou rígido e insatisfeito. Elas preferiram não voltar mais lá.

Todavia, essa pergunta sempre me inquietou pelos seus significados mais profundos. Em verdade, o que ela busca é uma adesão visceral e irracional dos pacientes para com a autoridade médica. Ela me faz lembrar a frase do grande tribuno cartaginês Tertuliano:

Natus est dei filius; non pudet quia pudendum est; et mortuus est dei filius; prosurs credibile est, quia ineptum est: et sepultus resurrexit; certum est, quia impossibile.” (Creio porque é impossível – ou absurdo. Morreu o filho de Deus, isto é perfeitamente crível, porque é absurdo. E, sepultado, ressuscitou; isto é certo porque é impossível.)

O que o médico exigia de suas pacientes era nada menos do que uma declaração de fé ao nível da irracionalidade. “Creio em si, mestre, porque é absurdo. Uma gestante virar uma cambalhota isto é perfeitamente crível, porque é absurdo”. A intenção era determinar o absoluto apoderamento do desejo alheio, a demanda por uma completa rendição à vontade do mestre, a ponto de que uma ação absurda se tornasse plena de sentido. É a mais vibrante demonstração da alienação e da expropriação da autonomia de um sujeito que eu já presenciei, mesmo que pelas palavras de quem a testemunhou. A obediência cega aos comandos se tornava válida e poderosa exatamente por ser um pedido absurdo, o que demandaria uma fé tão poderosa a ponto de fazer a própria lucidez e a noção de ridículo serem deixadas de lado.

A frase do médico em verdade ficou marcada na minha memória não pela originalidade da intenção, mas tão somente por ser demonstrá-la de forma explícita. A arte médica, durante milênios, se caracterizou por este tipo de proposta. “Creia em mim, eu sei o que estou fazendo. Não tenha medo”, Ou então, diante da mais sutil desconfiança das ordens de um médico, este retrucaria: “Eu sou um médico, não um charlatão”, parafraseando o Dr. Valcourt, na novela “O Preço de uma Vida” de 1965.

Por isso é que a proposta de garantir o protagonismo aos pacientes – em especial às mulheres – encontra tanta resistência. É necessário romper uma prática milenar calcada na objetualização dos doentes e na expropriação de sua autonomia tão intensa que quase se confunde com o próprio exercício da medicina. Imaginar uma medicina igualitária e não autoritária – mesmo em se observando a essencial transferência – demanda esforço de imaginação, pois que dificilmente ela se expressa assim. Não poderia haver surpresa que médicos ainda se sustentem pelo antigo paradigma.

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