Mentiras Sinceras

Após um texto em que eu falava dos sentimentos contraditórios que os pais sofrem com o abandono insidioso dos filhos em percebi que houve muitas pessoas negando ciúme sobre filhos. É curioso como estes sentimentos naturais e – digo eu – obrigatórios são suprimidos do discurso. Ora, o ciúme, o desejo, o desprezo, a inveja operam nos estratos mais inferiores da consciência, enterrados pelo nosso eu protetor. Só raramente ele é explícito e abertamente expressado. Todavia, sem dúvida estão lá, por mais que nos esforcemos por recalcá-los.

“De perto ninguém é normal”, diria Caetano, mas quanto mais nos aproximamos mais aparecem os equívocos, as idiossincrasias, as falhas e muitas sujeiras escondidas sob as vestes engomadas.

Quando alguém me diz que nunca ficou enciumado pelo abandono inexorável dos filhos em busca de novos amores eu acho graça da inocência de quem imagina poder esconder dos outros – e de si mesmo – os sintomas de sua condição humana.

O mesmo acontece com o ódio dissimulado daquelas pessoas que me dizem: “Juro, eu não tenho ódio algum do Fulano. Dele eu só tenho pena”. Poucas mentiras são mais reveladoras do que esta. Porém, parece que esconder este sentimento negativo (e transformá-lo numa virtude, a comiseração) é capaz de melhorar um pouco a imagem ilusória que construímos de nós mesmos.

Ainda acho que, apesar de ser uma tarefa insana e custosa, reconhecer e aceitar nossos sentimentos mais primitivos e mundanos só tem a nos ajudar. Se não for por nós mesmos, ao menos nos auxilia a não julgar os outros com tanta dureza quando seus erros tão somente espelham os nossos.

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