O bolor do pão

Igor Sidorov, preso na brutal prisão siberiana de Tobolsk pela recusa em pagar os pesados impostos que ameaçariam a própria sobrevivência de sua família encontrou seu companheiro de cela Fiódor Vasilev, um dos presos mais antigos de Tobolsk. Este era um homem.de feições rudes, cabelos e barba negra, testa olímpica e nariz bem desenhado. Seu encarceramento foi causado por assoviar a Internacional Socialista durante uma parada marcial da Guarda prussiana, considerado como um desrespeito e uma atitude conspiratória contra o Czar e sua família.

Igor puxou a cadeira à frente de Fiódor parecendo angustiado. Este manteve-se atento ao pedaço de jornal que tinha à sua frente.

– Tovarish Fiódor, sabe das notícias do “salão”?

“Salão” era como se referiam os presos à sala contígua ao escritório do diretor, um amplo ambiente de parede de pedras cortadas, escuro e frio, onde o diretor recebia de forma ameaçante os recém chegados na famosa prisão czarista.

– Nada me foi dito, Igor. Se tens algo na me falar, desembuche ou me deixe desfrutar o jornal e o bolor deste pão azedo, cortesia de Nicolau.

– O diretor Petrov foi deposto, tovarish. Demitido. Afastado por ordens diretas do Czar. Dizem que essa atitude tem a ver com o escândalo das bebidas e a relação disso com Viktor Gruchenko. Corrupção, troca de favores. Nicolai me disse que do setor norte é possível observar as carruagens e a guarda postada em frente ao portão principal. Nosso martírio pode estar chegando ao fim, Fiódor. As torturas, os espancamentos, as mortes terão um fim!!

Com os olhos marejados de emoção, agarrou os braços do amigo e os sacudiu, imaginando ser possível injetar-lhe ânimo através dos dedos descarnados que seguravam a roupa suja e puída do companheiro.

Fiódor, tomou a última gota de chá e retirou com a ponta dos dedos a mancha esverdeada que cobria seu pedaço de pão. Olhou seu amigo no fundo de seus olhos negros e falou com voz pausada:

– Esse pão não fica menos infectado apenas por tirar o bolor que o cobre; isso apenas diminui nosso nojo do visível, mantendo intacto o universo invisível de impurezas que o contaminam. Tirar um diretor corrupto apenas nos oferece a ilusão de um benefício, o espaço de alívio entre o horror de agora e o próximo espancamento. Porém, a dura realidade é que mudam-se as moscas para que a merda permaneça intacta.

Cruzou as mãos sobre a mesa de madeira escura e, ainda olhando firme nos olhos de Igor, completou:

– Não se deixe enganar pela ilusão dos sentidos mais grosseiros, tovarish. Somente teremos paz quando não houver mais prisões e não houver mais injustiça, e não apenas por melhorarem a índole dos nossos carrascos.


Levantou-se e saiu a caminhar em direção à porta. De longe Igor ainda pode escutar a música que Fiódor assobiava. Sem dúvida, a Internacional.”


Bóris S. Gregoriev, “ночь волков” (A Noite dos Lobos), ed. Vostok, pág. 135

Bóris Sergueievich Gregoriev é um escritor russo dedicado aos romances históricos, em especial aos acontecimentos do final do século XIX que culminaram com as revoluções proletárias de 1905 e 1917, a queda do Czar e a execução de sua família. O livro “A Noite dos Lobos” trata da prisão de fuga de prisioneiros da famosa prisão de Tobolsk, onde esteve também preso o escritor Dostoiévski. No livro um grupo de prisioneiros políticos, liderados por Fiódor Vasilev fogem da prisão para criar uma brigada de conspiracionistas anarquistas para a derrubada do Czar. Esta intentona anárquica recebeu dos historiadores a alcunha de “A Noite dos Lobos”, que acabou de forma fatídica no “massacre da Catedral de São Basílio”, com a morte de todos os participantes, mas com o desaparecimento de seu líder, Fiódor Vasilev. Sua figura mítica de revolucionário suscita dúvidas até os dias de hoje, e para muitos historiadores sua reaparição no cenário das disputas teria sido constatada por várias testemunhas durante a revolução de 1917, existindo a forte suspeita de que ele se tornou um dos principais conselheiro militares de Trotsky.

Boris Gregoriev nasceu em Petrogrado em 1942, escreve em várias revistas culturais e é casado com Olga Gregorieva, com quem tem dois filhos, Ivan e Natália.

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