Arquivo da categoria: Citações

Feliz Ano Novo

Ao raiar do ano que surge, parece que as histórias do mundo subitamente se tornaram claras à minha frente. Todos os detalhes, as filigranas, o colorido de cada emoção, os contextos e seus cheiros. Foi como se, ao se fechar meu corpo, minha alma pudesse subitamente voar sem restrições. Hoje, no parapeito da janela do quarto, ouvi pela primeira vez o trinado de um “asa de cera”1. É como se o som banal de um pássaro a me desejar um feliz ano novo fizesse sentido pela primeira vez, e sua melodia magicamente pudesse me tocar o espírito, como antes sempre pareceu impossível. Foi Andropov2 quem me disse, com sua característica falta de humor, que as perdas carregam ganhos invisíveis aos olhos desarmados, da mesma forma como os ganhos nos impõe perdas que custamos a perceber. Agora reconheço o quanto havia de sabedoria em suas simples palavras.

Perdi tudo o que mais valorizava, mas apenas agora percebo que ganhei a plena noção da grandeza da vida. Meu corpo imóvel agora é objeto de cuidados, uma prisão onde habita minha mente, agora liberta. Como presente inesperado hoje encontrei a chave para Shermak3 e o significado último da renúncia de Natália4. Um encanto súbito que já estava desistindo de encontrar. Parece mesmo que um portal se abriu à frente, ou talvez sempre estivera aberto, mas meu corpo grosseiro impedia minha passagem para um mundo de clareza. Percebo que só agora essa avalanche de pensamentos sobrecarrega de imagens e sentidos as minhas ideias.

Espero que o ano que começa me permita curar as feridas que teimam em cobrir o que resta desse corpo. Agora vejo o quanto ainda há para escrever, para dizer, para gritar. Que eu tenha as forças que meu desejo demanda.

Ygor Petrov, “Ensaios, cartas e escritos menores”, org Serguei Petrov, ed. Baltic, pág 135

Ygor Ivanov Petrov foi um escritor, romancista e ensaísta russo, nascido em Petrogrado (atual São Petersburgo) em 9 de fevereiro de 1881, no mesmo dia da morte de Fiódor Dostoiévski, que também exerceu grande influência em sua obra. Com forte caráter revolucionário e marxista, escreveu na juventude vários artigos de caráter político, em especial com críticas à Nicolau II e sua corte, o que lhe valeu um mandado de prisão pela Okrana, a polícia política do Czar, e a posterior fuga para Londres. Lá escreveu seu primeiro romance “Sob o gelo do Volga”, que conta a história de amor entre Ekaterina e Nikolai ambientado na decadente e faminta Rússia czarista. Depois desta estreia na ficção escreveu “Chuva de Fogo”, “Vidas de Vidro” e “O Tocador de Balalaika”, todos no exílio londrino.

Foi em Londres, com 23 anos de idade, que conheceu Vladimir Ilyich Ulianov conhecido para a posteridade por Lênin. Em 1903, encontrou-se com o grande revolucionário e outros marxistas russos, quando na ocasião criaram o Partido Social-Democrático dos Trabalhadores Russos. Ygor percebeu a cisão entre os bolcheviques (majoritários) aliados de Lênin que defendiam a ação revolucionária e os Mencheviques que se postavam a favor de um movimento reformista. Imediatamente colocou-se ao lado do grande líder, o que lhe custaria várias represálias e a própria morte prematura com apenas 40 anos durante a guerra civil.

Voltou para a Rússia junto com Lênin em 1905 e passou a colaborar com vários jornais de cunho revolucionário. Em 1910, com 30 anos, escreveu sua obra mais reconhecida, “O Legado de Gannibal”, que tratava da história dos negros influentes na corte de Nicolau II. É dito que este livro valeu elogios do próprio Lev Tolstoi que, já velho e frágil, morreria neste mesmo ano.

A carta de ano novo, ditada por Ygor Petrov apenas 18 meses antes de sua morte, foi escrita no hospital após ter sido ferido por um tiro durante a guerra civil russa que o deixou paralisado do pescoço para baixo. No período que se seguiu ao ferimento jamais conseguiu deixar o hospital, até sua morte por septicemia. Lá conheceu Jack Reed, o jovem que escreveu “10 dias que abalaram o mundo” e puderam trocar ideias sobre o futuro da revolução que apenas se iniciava. Ygor morreu pouco mais de um mês após a morte de Jack, mas neste período de confinamento conseguiu terminar dois de seus mais importantes livros, “Mar Gelado” e “As cartas de Bóris”, ditados para sua secretária Ivanova. Morreu em 18 de novembro de 1920, em Moscou.

1– “Asa de cera” é um pássaro muito comum na Rússia ocidental. Tem uma bela plumagem e uma crista marrom chamativa em sua cabeça. Seu canto é o murmúrio “svir-ri-ri-ri”, que muito se parece com o som de uma flauta tocada, com tom agudo e repetitivo.

2- Andropov era o comandante de sua divisão na guerra civil contra os Mencheviques e seu parceiro desde os tempos de exílio na Inglaterra.

3- Shermak era o navio do romance “Mar Gelado” que tinha como centro narrativo o dilema moral do comandante Ivan Gruchenko entre o ideal e a sobrevivência de seus homens, sintetizada na sua frase antológica dirigida aos marinheiros reunidos no convés do Poseydon: “A honra e a liberdade valem mais do que estes blocos de gelo que nos prendem”. Essa história foi posteriormente transformada em filme pelo cineasta Alexei Bakov.

4- No romance “As cartas de Bóris” Natália era a amante de Dimitri Ustalov, prefeito da cidade de Vyborg que escondeu a gravidez e fugiu para Irkutsk, às margens do lago Baikal, na Sibéria para que sua gestação não destruísse a reputação do seu amado. Lá nasceu Vladimir (uma pouco sutil homenagem a seu camarada Lênin) que, sem o saber, combateria o próprio pai na revolução russa.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Hora Marcada

Oi amor
Não dava pra você chegar
Um pouco antes
Da gente se ver?
Assim, se você chega
Antes, da hora marcada
A gente senta e conversa
Antes de se encontrar…


Suzaneuka Matsouri, “Escritos hiperbólicos”, ed. Matraka, pág. 135

Suzaneuka Matsouri é o pseudônimo da poetisa boliviana Adelita Gonzales Gutierrez, nascida em Cochabamba em 1953. Filha de agricultores cocaleiros ela passou uma infância de privações e perdas, como a morte trágica de sua irmã em um incêndio, fato que a marcou por toda sua infância. Fez o curso primário em uma escola rural e foi trabalhar na cidade como cozinheira, doméstica, arrumadeira em uma rede de hotéis e numa fábrica de colchões. Com 20 anos de idade se casou com o militar Adolfo Gutierrez, cabo do exército boliviano, com quem teve 3 filhos. Já com 40 anos escreveu seu primeiro livro de poesias, baseados na sua vida bucólica no interior e sua infância entre rios, plantações, animais e natureza. Esse livro foi muito bem recebido pela crítica, e acabou lhe garantindo o prêmio Poetisa Revelação da associação de escritores da Bolívia – algo que lançou seu nome para o mercado editorial. Suas obras posteriores foram focadas no amor, nas perdas, no ressentimento e, sobretudo, na paixão. “Escritos Hiperbólicos” é o primeiro livro no qual aborda a paixão sob um prisma caracteristicamente erótico, abusando de referências sexuais e instigantes para a imaginação de seu público, prioritariamente feminino. Depois desse livro ainda escreveu “Sob o olhar de Aquiles”, e o recentemente lançado “Narciso e outros contos”, que foi sua primeira experiência com o romance de ficção. Mora em Cochabamba com o marido e seus três filhos. Juan, Oscar e Giselda.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Quinn’s Caffee

Garret resgatou o cigarro perdido no bolso do casaco amassado e olhou-o como quem tenta descobrir se ainda presta. Pediu ao barman uma caixa de fósforos e acendeu seu último, anunciando que não se demoraria. Deu duas baforadas e o deixou repousando entre os dedos, enquanto tamborilava no balcão uma música que ele cantava solitariamente em sua própria cabeça, produzindo pequenas ondas no scotch à sua frente. Depois de uma pequena pausa, voltou seu olhar para Elsie e falou com a voz rasgada pelas duas carteiras diárias de cigarro.

– Não seja tola, garota. Não é a justiça que lhe move, Elsie, é o ódio. Você adora se enganar com sua caridade, sua postura superior e sua defesa dos oprimidos. Mas sua bondade não passa de uma grosseira encenação. Sua justiça é uma farsa, tão bem montada que engana a todos, menos o seu velho Garret.

Elsie deixou que uns poucos segundos passassem em branco, o suficiente para escutar a máquina de café girar seu motor na mesinha à frente do barista. Repousou suas mãos no guardanapo à frente e olhou Garret por cima dos óculos de aros redondos.

– Nada do que eu lhe diga o fará mudar de ideia, não é? Você me julga por si mesmo e acredita nessa mentira porque é a matéria que lhe constitui. Não consegue enxergar para além dos limites de si mesmo. Você é um velho patético, Garret. Não passa de um bêbado, uma fraude.

Garret não segurou uma risada, misturada com uma tosse carregada.

– Sua arrogância nada mais é do que uma metástase do seu ressentimento, darling. Infelizmente não há sinceridade no amor que você pensa dedicar aos desvalidos, sequer um real desejo de que eles abandonem o mundo de privação que os sufoca. Ele é puro teatro, mas você finge tão bem que engana a si mesma. Sua caridade é a fantasia traiçoeira do desprezo que nutre pelo mundo. Quando confrontada sua essência se reduz a isso.

Apontou o dedo indicador para o cinzeiro à frente onde as cinzas do cigarro repousavam indiferentes e amorfas. Garret se levantou e acenou para o barman, deixando o local sem dizer mais nada.

Austin MacKay, “Into the Depths of Nothing”, ed. Parliament, pag 135

Austin Phillip MacKay é um escritor escocês, nascido em Iverness em 1965. Estudou artes dramáticas e literatura na University of Aberdeen, onde passou a viver depois de concluir seus estudos secundários. Filho de um ator de teatro e uma enfermeira, dedicou-se muito cedo à escrever sobre ficção científica, uma de suas maiores paixões (além do Celtics). Seu primeiro livro foi lançado em 1990 e se chamava “When there is Only Dust” (Quando houver apenas pó), uma distopia que combina ficção científica, catastrofismo, futuros caóticos e pessimismo escocês. Foi bem recebido pela crítica de seu país, recebendo um prêmio pela obra, o “Booker Prize”, premio escocês de literatura na categoria jovem escritor. Também colaborou com inúmeras revistas especializadas em contos de ficção, como “UFO Scott”, “Outer Paradise” e uma que ele mesmo criou com o novelista Noel Burr “SOS to Earth”. Em “Into the Depths of Nothing” (Nas Profundezas do Nada) Austin conta a história da relação tempestuosa entre dois cientistas responsáveis pelo “Projeto Nova Vida”, uma força tarefa internacional de colonização de outros planetas. Garret é um cínico, alcoolista, depressivo e gênio projetista da NOAH, nave que carregará milhares de pessoas para a colonização de um planeta que ainda mantém condições de habitabilidade. Elsie é a executiva que está responsável pela gigantesca seleção de passageiros que terão o direito de embarcar nessa missão. Os embates entre ambos se dão na contraposição do idealismo romântico de uma e o pragmatismo depressivo do outro. Na tensão desses encontros se forma a conexão magnética entre ambos, que os coloca em contraponto diante da tragédia que se avizinha. Austin é casado com Leslie Thorpe e tem 3 filhos: James, Cameron e Alba. Mora em Edimburgo.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Normose

Nesta vida posso ser acusado de muitas coisas, menos de ter sucumbido à tentação da normalidade.

Dimen Berpa, “Dilemas da Guerra sem Fim”, ed. Paleo, pág. 135

Dimen Kaleb Berpa é um historiador e militante da causa da independência do Curdistão. Nasceu em 1950 em Batman, no Curdistão turco. Filho e neto de militantes pela liberdade do Curdistão, seu avô Berzend Berpa foi líder das tropas curdas na revolução de 1927, na região do Monte Ararat, ocasião em que foi preso e acabou morrendo nas prisões turcas quando da supressão da revolta em 1930. Seu pai, capitão Meiwan Berpa, foi combatente na revolta armada que culminou com a criação da efêmera República de Mahabad, em 1946, mas esta insurreição igualmente fracassou (apesar do reconhecimento da União Soviética) e o território voltou para o domínio iraniano. Dimen estudou história na universidade em Diabaquir às margens do rio Tigre mas jamais abandonou a militância herdada por seu pai e avô. Escreveu vários livros sobre o Curdistão, incluindo-se “História do Curdistão Turco”, “Areias sobre Gaziantep”, e um livro sobre as guerras de independência do nação curda, “Dilemas da Guerra sem Fim”. Dá aulas de história na Gaziantep University e viaja o mundo fazendo palestras sobre a liberdade e a soberania do seu povo.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Tempo

A culpa das falibilidades humanas, para além dos valores cultuados pelo sujeito, também se situa no tempo em que estas se expressam. Somos produto dos contextos, da cultura, das circunstâncias e das múltiplas pressões que provém do entorno. Estabelecemos com o mundo uma relação dialética: atuamos sobre ele e o modificamos, enquanto somos também por ele comandados. O machismo, a misoginia, a intolerância com a diversidade dos nossos pais e avós eram falhas onipresente em seu tempo, assim como a ganância, o capitalismo, o carnivorismo e a tolerância com a miséria são pecados de nossa época.

Culpar os personagens do passado por não possuírem a clarividência que não era de sua época é cair na sedução do anacronismo. “As virtudes são dos homens os pecados de seu tempo”, já dizia meu pai sobre a necessária condescendência com as falhas morais de figuras do passado. “Lembre que um dia, em pouco tempo, você será julgado pela mesma régua. Seja compreensivo com a falhas de outros tempos. Estes, para quem apontas o dedo, não ganharam do mundo a mesma luz que você recebeu para iluminar o caminho”, explicava ele.

Olhar para a história – recente ou distante – e censurar os personagens do passado é como olhar para um bebê e dizer: “Como pode ser tão tolo a ponto de não saber sequer andar ou falar?”.

Bertrand Epstein, “Time after Time – ethics and behavior in medieval times”, ed. Labirinth, pag. 135

Bertrand Epstein é um historiador neozelandês de origem judaica nascido em Tauranga, em 1965. Fez seu estudos na Bethlehem College, e posteriormente cursou a Victoria University of Wellington, formando-se em história. Tornou-se professor de História Antiga nessa universidade em 1990, época em que publicou seu primeiro livro, baseado em sua tese de doutorado sobre a sexualidade dos Césares, chamado “Pink, glitter and lipstick – sexuality in the court of the Roman Empire”, escrito em parceria com Edmon Shapke. Tem uma vasta produção científica e muitos artigos publicados sobre os costumes mundanos das populações medievais, a exemplo de outros autores como Georges Vigarello (O Limpo e o Sujo), Jacques Le Goff (A Civilização da Europa Medieval) ou Norbert Elias (O Processo Civilizatório). Mora em Wellington com sua mulher Anne e seus filhos Jeremiah e Maritza.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações