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A Estatueta

Martyn pediu uma cerveja e dois copos ao garçom e ajeitou-se na cadeira do restaurante, como que a procurar espaço para poder dizer o que queria.

– Terry, você lembra da minha queda na cozinha, não? O hospital, a mancha roxa, o seu colega médico mal educado, a minha bronca. Pois eu lembro muito bem, parceiro, inclusive da sua gentileza em me buscar em casa na madrugada. Nunca pude lhe agradecer o suficiente por isso.

Ensaiei um “que é isso, amigo é prá essas coisas”, mas ele me interrompeu com um tapinha no braço.

– Era mentira, Terry. Era tudo mentira. Hoje resolvi lhe contar a história toda. Não fique bravo comigo, tenho certeza que você vai entender as minhas razões para ocultar a verdade.

Mentalmente minha memória viajou dez anos para trás, e pousou exatamente no dia em que, no início da madrugada, Martyn me ligou pedindo socorro.

O ponteiro maior do relógio já havia completado quase uma volta inteira depois da meia noite quando o telefone berrou nos meus ouvidos enquanto eu saboreava Nabocov na cama. Por sorte Ellen continuou dormindo sem se impressionar com a estridência do aparelho. Seu sono pesado era uma lenda conhecida por toda a sua família. No dia em que o mundo acabar ela só vai acordar do outro lado da vida. Imaginei que se tratava de uma chamada do hospital, mas eu não estava de sobreaviso.

– Terry, preciso de ajuda. Não é uma emergência, mas preciso que você venha aqui em casa agora.

– Martyn, é você? Alguma coisa que eu deva me preocupar?

– Um acidente doméstico, não precisa se preocupar tanto, mas não há como lidar com isso sozinho. Você pode vir aqui? Tipo, agora?

– Claro, claro. Fique aí. Espere só eu me vestir.

Martyn é meu amigo de infância, talvez meu único grande amigo. Crescemos juntos, e frequentamos as mesmas escolas apesar de eu ser mais velho uma meia dúzia de anos. Seu irmão, Mark, foi meu colega de escola, na mesma sala de aula, mas ele acabou se afastando de mim pelas derrapagens que a vida dá. Não foi o caso com Martyn. Fizemos muitas coisas juntos, torcíamos pelo mesmo clube, festas, conversas, bebedeiras, filosofias… mas também porque tínhamos uma perspectiva de vida igualmente sombria e pessimista. Nossas sombras eram carregadas com as mesmas tonalidades de cinza.

Martyn era casado com Anna, uma mulher inteligente e ambiciosa. Trabalhava na Bolsa de Valores e era uma espécie de expert em alguma coisa que ela um dia me explicou, mas não guardei na memória. Minha cabeça de cirurgião não tem nenhum contato com o mundo do comércio, valores, poupança, ativos, lucros. Em verdade, sequer o dinheiro exercia qualquer atrativo especial para mim. Minha mulher Ellen reclamava que eu poderia ganhar muito mais com as minhas cirurgias se tivesse um pouco mais de habilidade para cobrar, mas não há dúvida que nessa área sempre fui um fracasso.

O prédio onde Martyn morava não ficava mais do que 15 minutos de distância. Quando cheguei lá ele estava parado na rua, na frente do edifício. Achei estranho que ele não ficasse dentro de casa esperando minha chegada, mas talvez não quisesse acordar Anna. Quando parei o carro ao seu lado na rua percebi que ele abriu a porta de forma um pouco estranha. Deduzi que havia machucado o braço

– Então Martyn, o que houve? Foi algo no braço?

Ele deu um meio sorriso.

– Você sabe o quanto consigo ser desajeitado quando quero. Fui pegar algo na prateleira da cozinha e desabei do banquinho que coloquei para subir. Bati com o pulso na borda do balcão. Já faz umas duas horas, mas agora a dor apertou e eu temo que tenha quebrado algo.

– Posso ver?

Meu amigo levantou com cuidado a manga da camisa e pude ver uma grande mancha que coloria de roxo a parte inferior do seu braço direito. Era grande, e mostrava que algum vaso havia se rompido.

– Martyn, não sou ortopedista, mas sei que isso aí é uma fratura. Sua religião faz alguma restrição a amputações?

Martyn sorriu do meu característico humor negro. Em seguida explicou que não pensava me chamar mas não conseguia nem segurar a chave do carro, quanto mais dirigir até o hospital.

– Não sabia o que fazer, então resolvi lhe chamar. Sei que só mesmo um outro idiota como você entenderia minha patetice.

Rimos um pouco e lembramos de alguns fatos engraçados que passamos juntos na escola. Martyn, entretanto, parecia mais sério do que de costume, mas acreditei que sua face circunspecta era o reflexo da dor que por certo estava sentindo.

Ao chegarmos ao hospital não tardou em ser atendido. Pedi para entrar junto e me apresentei como médico. Aquele era o hospital em que eu fizera minhas primeiras cirurgias, meus primeiros atendimentos de emergência há mais de 20 anos. Ainda guardava nas narinas o cheiro das salas de clínica, onde o odor de sangue e vômito se mistura com os desinfetantes poderosos utilizados. Martyn explicou para o plantonista da ortopedia o que havia ocorrido. Este, depois de um breve exame físico, pediu uma radiografia.

Alguns minutos depois ele voltou com a radiografia e, com um sorriso no rosto, anunciou:

– Muito bem Sr. Martyn, sua travessura foi premiada. Conseguiu o que desejava: uma fratura no rádio distal. Agora o senhor vai ficar alguns dias sem fazer os deveres da escola.

Martyn fuzilou o médico com os olhos e disparou:

– Quem sabe o senhor se mete com a sua vida, seus pacientes, e me deixa em paz? Quem é você para vir aqui debochar de mim? Vá fazer piadas para a sua turma!!

Segurei o braço do meu amigo e o puxei para trás. O ortopedista ficou perplexo e balbuciava coisas como “hei, eu estava só brincando, calma, desculpe”. Coloquei Martyn sentado em uma cadeira próxima e fui falar com meu colega médico.

– O que há com seu amigo? Não sabe brincar?

Expliquei que ele deveria estar com dor e que o desculpasse. O médico fez um muxoxo e disse que ele seria transferido para uma sala ao lado onde colocariam uma tala, mas que deveria procurar uma clínica em uma semana para o gesso definitivo. Entregou-me uma receita de analgésicos, despediu-se e saiu caminhando pelos corredores do hospital.

Perguntei a Martyn o que tinha acontecido e por que dera aquela resposta.

– Ahh, desculpe aí Terry, mas não aguento esses seus colegas. São uns arrogantes, metidos a besta. Ficam fazendo piadinhas com os desastres que acontecem com as pessoas. Agem como se fossem superiores, como se fossem adultos rodeados de crianças travessas; eles são os infalíveis enquanto nós somos os tolos e idiotas.

Pedi que tivesse calma, e ele deu de ombros. Caminhamos até o estacionamento e pegamos o meu carro. Já passavam das 3h e eu tinha que atender o ambulatório pela manhã. Ele ficou em silêncio até chegarmos no seu edifício. Quando estacionamos na frente ele olhou para cima pela janela do carro, para saber se havia luz no apartamento.

– Não quero acordar Anna, Terry. Obrigado por tudo. Não sei o que dizer e nem como lhe agradecer. Falamos depois. Boa noite e durma bem.

Dirigi e voltei para casa. Entrei no quarto e Ellen permanecia dormindo. Lolita teria que esperar mais um dia para que eu voltasse a me ocupar dela.

A lembrança dessa cena permaneceu adormecida, num canto da gaveta de memórias, e foi despertada apenas agora pelas palavras de Martyn. Já haviam se passado dez anos da cena.

– Foi a estatueta e não uma queda do banquinho numa travessura na cozinha, Terry. E por trás da estatueta estava Anna.

Pedi que explicasse melhor.

– Foi Anna, Terry. Foi apenas mais um acesso de fúria contra mim. Durante anos eu havia me acostumado às suas agressões, e colocava na conta da vida estressante que ela tinha na Bolsa de Valores. Aquele dia havia sido especialmente ruim para ela. Perdeu dinheiro e clientes. Estava frustrada. Eu fui pegar pratos para a gente jantar e um deles escorregou da minha mão e caiu. Era um prato que havia ganhado de sua mãe no enxoval do nosso casamento. Aquilo a enfureceu. Passou a gritar como se fosse a maior tragédia da sua vida. Quando tentei acalmá-la passou a mão na estatueta que estava na sala e a jogou contra o meu rosto. Sabe aquela meia face pedindo silêncio? Essa mesma. Tive tempo apenas de me defender com a mão. Ela se assustou com o som do objeto batendo contra o meu braço, mas mesmo assim nada disse e se trancou no quarto. Fiquei mais de uma hora sentado na sala esperando a dor passar, e só então resolvi ligar para você. Eu até pretendia lhe contar, mas não queria que você me julgasse e muito menos que tivesse sentimentos contra Anna. Bem sei o quanto você gostava dela e não desejava que esse acidente se tornasse uma barreira entre vocês.

Eu apenas escutava e não me atrevia a dizer nada. Martyn continuou.

– Essa não foi a primeira e nem a última agressão que sofri. Sequer foi a mais dolorosa. As violências morais eram muito piores e muito mais cruéis. Eu tinha vergonha daquele comportamento dela mas, como uma boa vítima, acreditava que eu tinha culpa, que deveria ganhar mais, não quebrar coisas, ser mais impositivo no trabalho ou ser mais romântico. Sei lá… a gente não sabe exatamente o que nos falta, mas acredita carregar essa culpa, pelo menos em parte.

Martyn continuava seu relato e eu não ousava interrompê-lo.

– As violências eram diárias e eu não sabia o que fazer. As brigas continuaram até eu descobrir do caso que ela teve com Peter. Essa foi a gota d’água, e foi quando eu fui até sua casa e pedi para dormir lá por uma noite. Na semana seguinte nos separamos.

– Sim, lembro bem que você anunciou o fim do casamento e me pediu para não insistir ou tentar contemporizar. Percebi que algo de muito sério havia ocorrido e resolvi oferecer apenas a minha mão para ajudar.

– Esta foi a derradeira violência, mas as brigas foram um problema que perdurou a exata extensão do nosso casamento. Depois disso nos separamos, eu casei de novo e nunca mais a vi. Queria lhe dizer mais uma vez obrigado pela sua compreensão, por não ter insistido com perguntas quando eu não tinha condições para responder. Obrigado por ter ficado em silêncio ao meu lado; significou muito para mim. Eu nunca falei disso para ninguém, e por razões óbvias. Um homem apanhar em casa é algo vergonhoso em uma cultura machista. Nunca falei para ninguém desses fatos, e jamais ameacei Anna com essa verdade, mesmo quando ela tentou me tomar um dinheiro indevido em nossa separação. A minha vergonha era tanta que nenhum dinheiro pagaria isso.

Eu continuava a olhar para Martyn para entender o significado dessa confissão. Não acredito em casos de violência e abuso onde não exista a participação de ambos na construção do enlace doentio, e no caso de Martyn não poderia ser diferente. Mas por certo que ele era a parte frágil do casal, o espírito mais dócil e submisso. No seu caso ficou bem claro como a questão física – aparte de ser importante – não é o único determinante para os casos de violência, inclusive física. Agora, depois da separação de Martyn e Anna (por quem eu até nutria amizade e afeto), ficou bem mais clara a verdadeira imagem de Anna. Em minha mente ela era uma perversa de funcionamento neurótico, com um longo histórico de perversão e abandono na família. Afastada de ambos os pais foi criada pela avó, que também recebeu seu quinhão de maus trator por parte dela. O que ela fez com Martyn durante os anos em que estiveram casados teve características de pura crueldade. Até hoje, sempre que penso em Anna, imediatamente me vem à mente a personagem de Juliette Binoche que contracena com Jeremy Irons no filme “Perdas e Danos”. Um filme brilhante e sombrio, que eu sempre lembro, mas não consigo rever. As histórias de mulheres agressoras não são muito exploradas em um mundo infestado de machismo, e numa cultura violentamente patriarcal a escuridão que emana da agressividade masculina eclipsa a sombra da violência feminina.

Martyn recebeu as garrafas da mão do garçom que imediatamente as abriu. Serviu meu copo e saboreou um pouco da cerveja, enquanto olhava para a rua cinzenta que aos poucos perdia os últimos raios de sol. Violências domésticas com “sinal trocado” é um tema que eu tenho contato há muitos anos por causa de alguns textos que li e por inúmeras histórias de consultório. No ambiente feminino em que circulei durante décadas o tema é tabu. Falar de “misandria” é como falar de “racismo reverso”; quando eu tocava no assunto a reação variava do escárnio à fúria, em especial perto de colegas feministas. Entretanto foram tantos os casos de abuso contra homens que eu acabei por me interessar pelo tema. Apesar de ser um assunto que me atrai reconheço que no contexto em que vivemos este será por séculos um assunto “marginal”, mas não menos doloroso.

Toquei no ombro de Martyn e disse com meus olhos o que ele já sabia: “Conte comigo sempre, parceiro. É para isso que servem os amigos”.

William F. Prescott, “So down there I can’t even see” (Tão lá em baixo que nem consigo ver), ed. Panacea, pág. 135

William Francis Prescott é um escritor, ensaísta, jornalista e produtor teatral americano nascido em Westbrook no Maine em 1965. Filho de um pastor protestante e uma enfermeira ele começou a escrever desde muito cedo para os jornais da escola. Em 1983 foi estudar na University of Maine em Augusta, onde cursou jornalismo. Logo depois da graduação casou-se com Lorraine Madison, e mudaram-se em 1995 para Nova York para trabalhar na Revista New Yorker como assessor de Roger Angell, quando então começou a se dedicar à reportagem esportiva, especialmente o Baseball. Pelos contatos na revista tornou-se amigo de Woody Allen, uma amizade que perdura até hoje. Escreveu seu primeiro livro de ficção, “Até que horas posso ficar?” em 1998 que logo se tornou um sucesso de público e de crítica, para posteriormente fazer carreira na Broadway, tendo sido estrelado por Patrick Wilson no papel do coronel Samuel Bakerston. Seu segundo livro, também uma comédia dramática, foi “Azul não lhe cai bem”, onde narra as desventuras de uma vedete do teatro de revista que se envolve com um cirurgião plástico apenas para conseguir uma cirurgia de mamas por preços módicos, mas percebe que seu namorado é um traficante de drogas cuja clínica médica é apenas uma fachada. Seu terceiro livro foi “Tão lá em baixo que nem consigo ver”, que é seu único livro de contos, recolhidos de histórias verídicas que colheu enquanto jornalista no New Yorker. Mora em Washington com sua esposa Lorraine e os filhos Jeremia e Alicia

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Mentira

Creio ser necessário lembrar…

“…não haveria vida civilizada sem as verdades escondidas. Digo mais, creio que não haveria sequer a multiplicação das células no caldo primitivo não fosse a mentira, a dissimulação, a hipocrisia e a falsidade. A vida humana se construiu a partir do falseamento do verbo, a troca maldosa dos sentidos, a mudança sorrateira da direção das palavras à sorrelfa da própria realidade, a qual desaparece diante do gigantismo implacável da linguagem. Como diria Lacan, “a palavra matou o Real”, mas quem lamenta? Ou alguém um dia experimentou alegria e genuíno prazer ao abraçar um feixe de nervos e tendões, suores e lágrimas, só para sentir junto ao peito as contrações rítmicas de uma bomba de sangue?”

Jean B. Laviolette “L’art de mentir”, ed. Parole, pág. 135

Jean Benoit Laviolette é um psicanalista francês, nascido em Marseille em 1952. Fez formação na Sorbonne e formou-se em psicologia em 1978. Escreveu inúmeros artigos para a “Gazette Psychanalytique” quando morava em Paris e estudava com seu mestre, Jacques Lacan. Depois disso, já nos anos 80, passou a atender em sua clínica em Strassbourg, quando conheceu Madeleine Truffaut, escritora e poetisa, com quem se casou e teve 3 filhos. Escreveu três livros da área da psicologia, que poderiam ser entendidos como uma trilogia, apesar do autor negar que tivesse a intenção de continuidade para qualquer um dos seus livros. O primeiro foi “A Palavra Escondida”, seguida de “Ouvidos de Pedra”. Em 1995 escreveu “L’art de Mentir”, que, segundo ele, lhe ofereceu uma inesperada popularidade. Mora em Strassbourg com esposa e filhos.

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Assédio

Fundação Century

Sentado na cadeira à frente da escrivaninha de Mark eu não tinha a exata noção do que ele desejava comigo. Poderia ser apenas algum informe novo sobre nossa intervenção no Parque Halliburton e todas as questões ambientais envolvidas, que fortuitamente atrasaram a execução do projeto. Como uma ONG de proteção ambiental, era nossa tarefa combater os assentamentos irregulares que pudessem colocar em risco a delicada natureza que ainda sobrevivia em nossa cidade. Imaginei que Mark deveria estar ocupado desde nossa última reunião, há uma semana, quando discutimos a possibilidade de um patrocínio para nossa ação de proteção do banhado, o rio e as salamandras do Condado de Lippville. O oferecimento partiu do instituto “Century”, controlado pelo bilionário de origem romena Atanase Ardelean, conhecido por suas ações predatórias na bolsa de valores americana. Para além disso, é um pródigo financiador de rebeliões neoliberais, o que faz das doações a entidades identitárias uma perfeita cortina de fumaça a encobrir suas ações de reforço ao capitalismo sem fronteiras e sem barreiras, modelo que tanto admira.

Por certo que uma instituição como a nossa, a “Climate Green Challenge”, composta de ativistas que doam seu tempo e seus esforços para a construção de uma sociedade em harmonia com a natureza, precisa de ajuda – em especial de dinheiro. Entretanto, a Fundação Century nunca me pareceu confiável, em especial porque seu controlador é uma figura sinistra, ligada a ataques financeiros, cujas repercussões desestabilizam países inteiros. Não creio que seja adequado ou sensato valer-se do dinheiro de um sujeito que se tornou bilionário pela exploração dos trabalhadores, através do tráfego de influências e incentivando a miséria capitalista disseminada pelo mundo.

Na reunião passada, nossa colega Jesse expôs sua visão positiva sobre o aporte financeiro da Fundação Century para os nossos projetos, em especial a proteção do Parque Halliburton. Falou que muitas outras instituições já foram beneficiadas por este tipo de “grant” e que seria tolice não pleitear esse dinheiro; afinal, não era uma quantia advinda do crime e não estamos em posição de recusar ofertas. Eu escutei sua posição e resolvi responder com a visão que tenho sobre a Century e sobre o próprio Atanase. Minha opinião foi expressa em poucos minutos, porque nosso chefe Mark a todo tempo sinalizava para que eu a interrompesse em função do pouco tempo que tínhamos para encerrar o encontro. De qualquer modo, deixei muito claro que a situação era eticamente delicada, pois o envolvimento de uma ONG de ecologia com um bilionário internacional envolvido em inúmeras ações controversas poderia nos causar constrangimentos no futuro.

A reunião terminou depois de várias outros assuntos terem sido tratados. Desde aquele momento – e até antes disso – ficou claro para mim que eu era uma voz dissonante de todo o grupo. É bem provável que ninguém além de mim tinha informações mais detalhadas sobre a parte sombria da Fundação Century e muito menos sobre as controvérsias mais sérias a respeito do magnata Atanase. Para meus colegas tratava-se de uma instituição “do bem” e Atanase não passava de um filantropo moderno e progressista. Sabia eu também que, mais do que aceitar ou não esse tipo de verba, era preciso que todos avaliássemos com cuidado todos os pontos de vista, as perspectivas e as repercussões dessa iniciativa.

Finda a reunião tive a sensação que Jesse havia se sentido desconfortável. Quando questionei nossa possível união com a Fundação Century ela pareceu ter se sentido pessoalmente atingida. Afinal, a ideia partiu dela, e ela o fez com a melhor das intenções. Senti a necessidade de explicar a minha forma de enxergar a questão. Como tenho seu contato no telefone resolvi mandar uma mensagem para ela à noite do mesmo dia.

Conversa com Jesse

“Não quero mais polemizar sobre este tema, pois acho que apenas atrapalharei as decisões para serem tomadas pelo grupo, mas aqui está meu posicionamento em relação ao Atanase e em particular sobre o tema das suas ações em nível internacional”.

Assim comecei minha comunicação com ela, e depois disso mandei um texto elaborado sobre o histórico de Atanase Ardelean e sua instituição, mas é óbvio que o fiz diante da minha perspectiva marxista e anti-imperialista. Anexei posteriormente um vídeo explicativo de como essas organizações – como a Fundação Century e similares – podem ter intromissões deletérias nos países onde se estabelecem.

Ela respondeu de forma educada e ofereceu também suas explicações. Mandou um vídeo sobre a instituição de Atanase e a explicação sobre algumas de suas obras mais importantes. Percebi que suas informações não eram tão elaboradas quanto as informações que eu tinha, e ela parecia ter uma visão bem próxima do que eu classificaria como “senso comum” sobre o tema: Instituição do bem, bilionário generoso, progressista, a favor da diversidade etc.

Mantivemos esse debate via WhatsApp por mais de uma hora até quando fui dormir. No dia seguinte, acordei com um longo texto em que ela expunha a sua opinião – francamente contrária à minha – dizendo que minha perspectiva era constituída apenas por opiniões e análises confusas. Respondi que a atividade de Ardelean não podia ser entendida apenas pela ponta aparente, a “benemerência identitária”, mas no contexto político do capitalismo transnacional de “portas abertas” que ele propunha, o que é uma forma de manter a miséria e a exploração de vastas porções do planeta.

A conversa se manteve por mais 6 horas com idas e vindas. Por duas vezes, já cansado, me despedi da conversa e fiquei sem responder, mas ela insistia em atacar minha posição tratando-me como exagerado e radical. No final do debate deixei claro que reconhecia que a minha posição era minoritária – para não dizer isolada – e que o nosso grupo precisaria apenas fazer uma votação para decidir. Partiu de Jesse uma pauta consensual:

“Certo. Então proponho uma reunião de deliberação e votação no Colegiado. Porque as negociações estão avançando e o nosso escritório tem um encontro marcado com a Fundação Century na próxima semana para uma conversa inicial. Até que me digam o contrário eu estou avançando no projeto com o aval de Mark.”


Como eu estava cansado aceitei de pronto, até porque esta era exatamente a proposta que eu estivera o tempo todo perseguindo. Concordei dizendo apenas que desejava que todos estivessem cientes do que esta proposta significava. Terminei nosso longo diálogo dizendo:

“Concordo. Sei que serei o voto vencido, mas gostaria que todos se comprometessem com essa escolha. Não acho justo que alguém no futuro venha a dizer que “não sabia destas questões quando foram apresentadas”. Certo?”


Jesse apenas respondeu “Perfeito” e nada mais falamos. Diante das lembranças e acontecimentos de uma semana atrás, imaginei que Mark havia me pedido para ir à sua sala apenas para me dar informações sobre nossas propostas e ações em Lippville. Talvez estivesse interessado em ouvir também o meu ponto de vista sobre o Atanase Ardelean, o que não me parecia provável, uma vez que na própria reunião mostrou-se claramente favorável a este patrocínio.

Depois de alguns minutos Mark entrou na sala e me cumprimentou. Trazia um sorriso estranho no rosto e uma pressa tão grande em me dizer algo que não se permitiu sequer fazer um preâmbulo.

Mark

– Meu amigo, falei com Jesse há pouco, Ela ficou muito incomodada com a conversa que tiveram na semana passada. Disse que você enviou um quantidade enorme de textos e vídeos para ela. Usou também fontes suspeitas para falar da Fundação Century – como o New York Times. Por esta razão acabei de mandar uma circular para todos os nossos colaboradores. A partir de agora você estará suspenso das nossas reuniões. Sua conexão com o Whatsapp do grupo está cancelada. Você terá uma semana para pensar nas suas atitudes e para compreender que não pode usar estes veículos de comunicação desta forma. Na próxima reunião você terá tempo para defender sua proposta, mas não poderá usar as fontes que usou até agora – elas não serão aceitas. Sua atitude em relação a Jesse foi considerada assédio. Como ela se sentiu incomodada, e eu acredito que só a vítima pode dizer dos seus sentimentos, é assim que vou considerar. Ahh, e antes que eu me esqueça, você está com mensalidades da “Green” atrasadas, faça o favor de pagar o quanto antes.

Nos primeiros segundos fiquei em silêncio, atônito e estupefato, realmente confuso. Eu não conseguia acreditar no que estava escutando. Percebi que os meus olhos escureceram de raiva, mas respirei fundo antes de dizer qualquer coisa e correr o risco de me arrepender. Olhei com o canto do olho para o meu celular e vi que meu acesso ao WhatsApp do grupo havia realmente sido suspenso. Era verdade; Mark havia me expulsado do grupo após escutar apenas uma parte da história. Considerou como “assédio” uma conversa livre, educada e cordial entre duas pessoas. Imediatamente veio à minha mente a pergunta: “se conversar com alguém por WhatsApp sobre temas eminentemente técnicos de forma educada e cordial pode ser considerado assédio, o que não seria?” Se uma pessoa pode retrospectivamente – já havia se passado uma semana – perceber que uma troca de ideias com um colega poderia ser considerada como assédio, porque essa mesma conversa com Mark e qualquer outro diálogo que tive em 20 anos trabalhando nesta instituição não poderiam também ser considerados assédio? Por que esta troca de mensagens em especial merecia ser chamada desta forma mas as ligações de Mark para a minha casa durante os 20 anos em que concordamos e discordamos em diversos assuntos da instituição não seriam também criminosas?

Percebi também que o que movia Mark era um espécie de zelo pelo “politicamente correto” com as demandas femininas, mas que também é frequentemente usado com outras minorias. Partia do princípio de que a queixa de uma mulher é verdadeira até prova em contrário, uma inversão do ônus da prova que me obrigaria a provar que não cometi nenhum delito, e não a ela provar que algo criminoso ocorreu. A justificativa de Mark era uma velha conhecida minha: “a vítima sempre tem razão”, que é uma das maiores aberrações jurídicas criadas pelo identitarismo. Ela surge de um conceito bizarro, que eu chamaria de “legislação subjetiva”, ou seja, a ideia de que qualquer um cria suas próprias leis, derivadas de seus sentimentos e percepções subjetivas, mas que deverão ser obedecidas por todos. Assim, se sou negro, exijo que as pessoas ao meu redor usem apenas as palavras que eu permito, pois que algumas tem efeito negativo em minha subjetividade. Se eu for mulher, não aceito que determinadas expressões sejam usadas, e nem mesmo o uso de argumentos fortes e definitivos. Nesta perspectiva, o outro sempre carrega uma dupla posição: vítima e juiz, pois que não há uma instância de lei externa e neutra; o próprio sujeito que se coloca como vítima é quem decide se as palavras e ações alheias que lhe atingem serão lícitas ou não.

Jesse nunca reclamou de nada durante nossa conversa. Pior: ela retomou o debate no dia seguinte, quando para mim já poderia ter sido encerrado. Ainda mais, ela manteve a conversa em duas ocasiões, mesmo depois de eu ter encerrado o debate e ter me despedido dela!! Se há alguém que poderia ter uma base qualquer para se queixar de um fantasioso assédio este seria eu…. e não ela.

Por instantes fiquei pensando que durante nossa conversa eu poderia ter usado uma piada, um gracejo ou qualquer coisa que pudesse ter um duplo sentido, e que isso pudesse tê-la constrangido. Por sorte nossa conversa estava toda no celular e eu poderia investigar com cuidado se isso porventura tivesse ocorrido. Todavia, apesar dessa minha “culpa masculina essencial” eu tinha certeza que nossa conversa foi absolutamente técnica e tocou em vários aspectos delicados da ligação da “Green” com a Fundação Century. Nada pessoal, nada áspero, nada dúbio, nada confuso e nada que pudesse se configurar como “assédio”

Na medida em que os segundos iam passando, e ainda sem saber o que responder, peguei o papel da mão de Mark, que ele parecia estar tentando me oferecer. Era uma cópia do email mandado para todos os membros da diretoria e associados. Meus olhos cravaram na palavra assédio que se situava bem no meio da página impressa, pulava do texto e se chocava contra a minha retina. Lembrei que o termo “harassment” e o termo “abuse” em inglês têm um sentido mais geral, porém em português “assédio” e “abuso” ganham uma conotação claramente sexual. Qualquer membro da diretoria que pusesse os olhos nesse e-mail imediatamente pensaria que eu estava mandando mensagens pornográficas para a minha colega ou fazendo insinuações indevidas. Esta seria, por certo, a primeira primeira coisa que pensariam, a impressão inicial, mesmo que a maioria dos meus colegas conhecessem a mim e a minha família há mais de duas décadas. Era inacreditável o que estava diante dos meus olhos.

Não fui procurado para esclarecer qualquer problema por parte de Jesse. Ela se comportou como uma colegial, uma menina de não mais de 12 anos de idade, confusa com o debate que tivera comigo. Ao invés de escrever uma mensagem diretamente para mim – ou mesmo me bloquear – foi queixar-se para Mark. Diante da dificuldade de metabolizar minhas informações e meus receios com a parceria que estava para se estabelecer ela se refugiou no estereótipo da menina indefesa diante do homem opressor. Já Mark, num surto de autoritarismo e grosseria, resolveu me punir sem que eu tivesse a oportunidade de me defender. Pior ainda: me puniu institucionalmente por uma situação que só poderia ser entendida como privada, já que minha conversa com Jesse não ocorrera no ambiente físico da nossa instituição, em seu horário de funcionamento ou em uma ação na qual ambos deveríamos tomar decisões relacionadas ao nosso trabalho. Não, tratou-se de uma gentileza de minha parte de explicar particularmente a ela a minha posição quanto à Century, para não atrapalhar o ambiente da “Green”. Essa minha grande mágoa: no afã de proteger as mulheres criamos um modelo onde sua defesa pressupõe tratá-las como tolas, ignorantes, desqualificadas e frágeis – como crianças, incompetentes para tomar decisões e incapazes de estabelecer limites.

Adeus, Mark

Poucos segundos e estes pensamentos todos se acumularam em minha cabeça, mas eu nada conseguia falar. Era inegável que a questão não se resumia ao fato específico da minha conversa – repetindo, cordial e respeitosa – com Jesse. Havia algo de pessoal com Mark, uma mágoa, um ressentimento de algo que fiz ou deixei de fazer. Talvez – como saber? – algo relacionado ao que eu sou. Mais do que um malfeito, algo da minha essência que me tornaria insuportável aos seus olhos, e a crise criada por Jesse sobre uma troca de postagens privadas nada mais fez do que permitir que estes sentimentos eclodissem e subissem à tona. Talvez não se tratasse mesmo de uma questão “relacional”, mas “ontológica”. No entanto, eu nada podia lembrar que justificasse estas ações. Nossa amizade de mais de 20 anos não possuía nenhuma nódoa grave que pudesse produzir ressentimentos de minha parte. Tivemos centenas de conversas, até desentendimentos, ligações que Mark me fazia no meio da noite, domingos, feriados e a qualquer momento para me falar de seus problemas pessoais e até perguntar como eu estava. Da mesma forma, não conseguia enxergar algo em minhas ações que pudesse produzir tamanho ódio no meu amigo.

– Isso que você está fazendo é um absurdo, Mark. Minha posição a respeito da Century é clara, cristalina e simples. Minha opinião não é a “Verdade”, mas tão somente a minha perspectiva, que tem tanto valor quanto qualquer outra. Entretanto, conheço todos os colegas da diretoria e sei que eles enxergam esse problema com olhos diferentes dos meus. Não vejo problema algum em ser “voto vencido” em qualquer debate, porque durante toda a minha vida me postei no contrafluxo da vida, abraçando causas perdidas, utopias distantes e sonhos inalcançáveis. Sofri durante anos com os ataques dos poderosos que denunciei. Fui atacado, expulso, humilhado e agredido por todos estes anos e nunca reclamei porque sabia que lutar por estas causas minoritárias é apenas semeadura para que a colheita seja feita por outros, nas futuras gerações. Da mesma forma eu hoje tenho garantidos os direitos que muitos conquistaram para mim no passado, e vários pagaram com a vida por sua ousadia. Por outro lado, uma instituição como a nossa, que se propõe produzir um ambiente mais livre, com menos toxicidade e sem venenos não pode reproduzir em seu seio a mesma violência que combatemos quando usada contra a Natureza. Se pretendemos humanizar o meio ambiente, retirando dele o lixo que nossa ganância acumulou, é justo que façamos o mesmo com nossas relações pessoais. Ou então seremos apenas hipócritas, que encontramos o cisco no olho alheio e não percebemos a trave a nos obliterar a visão.

Mark manteve-se sério sem pestanejar. Iniciou a falar sobre as regras que eu teria que cumprir para a próxima reunião e, como um professor de escola primária, me deu conselhos de como deveria me portar, assim como pedindo que eu aproveitasse o tempo de suspensão para reavaliar minhas atitudes. Não havia como não me sentir um escolar de 60 anos recebendo um “pito” da professora.

Dobrei o papel com a cópia do e-mail e coloquei no bolso do casaco. Tentei me levantar mais senti que estava pesando algumas toneladas. As minhas juntas estava enrijecidas e os meus músculos tensos e doloridos pelo choque dos últimos minutos. Mesmo assim me coloquei de pé, estendi a mão para cumprimentar pela última vez Mark e falei sobre a minha despedida.

– Caríssimo Mark… nada disso será necessário. Sei que minha visão é minoritária e se você assim o desejar não será preciso sequer colocar este tema em discussão. Logo você vai entender. Todavia, acho importante esclarecer que não fiz assédio de tipo algum. Não incomodei ninguém e apenas debati com Jesse para que ela entendesse minha perspectiva. Não falei com mais ninguém sobre o tema além da minha manifestação na última reunião da Green, e apenas contactei Jesse porque ela estava à frente da proposta e não queria que ela pensasse que eu a estava desprezando. Em nossa última reunião manifestei minha inconformidade pela ligação da Green com este tipo de organização de forma clara e concisa, sem interromper outras falas e sem retomar o assunto depois de ter me manifestado. Depois escrevi um texto no WhatsApp com a minha posição, igualmente de forma educada, para deixar claras as minha motivações. 

Suspirei com pesar e me preparei para finalizar a minha fala, controlando cada palavra para que elas não me traíssem e deixassem escapar a decepção que havia me tomado.

– Infelizmente, como fica claro a partir de agora, não há como continuar a trabalhar nesta instituição. Perdi completamente a confiança em você. Nada – literalmente – impede que qualquer um de nós telefone para a casa de um colega fora do expediente do trabalho para trocar ideias e, depois de um ato de cordialidade e amizade como esse, ser considerado um “assediador”. Não é mais possível correr este risco. Um lugar que cultiva esse tipo de relação está doente. Um lugar onde a confiança desapareceu não tem mais sustentação.

Baixei os olhos por uns instantes e finalizei.

– Espero que a Green continue em sua trilha de sucesso, em suas várias frentes de trabalho. Sei o quanto esta tarefa é importante e o quanto eu amei trabalhar aqui por mais de 20 anos. Aqui eu cresci, como ser humano e como cidadão. Sei da magnitude das responsabilidades e o quanto essa tarefa é prioritária no planeta, mas minha presença aqui se torna impossível. Eu jamais concordaria com o abuso que você está me submetendo, muito menos com as ameaças e as humilhações. Não tenho idade ou temperamento para aceitar este tipo de atitude. Também não quero mais ouvir o que você tem a dizer; eu entendo que isso foi produzido por uma terrível dor que você carrega, mas para a qual eu não tenho acesso e nem capacidade de ajudar. Peço agora apenas que aceite a minha saída e me esqueça. Que sigamos todos em paz.

Levantei-me sem dizer mais nada, enquanto Mark ainda tentou expressar algumas palavras para contemporizar. Apenas virei de costas e me dirigi à porta de saída. Olhei pela última vez para os quadros nas paredes, as fotografias, o azul do céu nas gravuras cheias de verdes e flores multicoloridas e abri a porta com a tristeza em carne viva na ponta dos dedos. Respirei o ar da rua e caminhei sem destino certo, à procura de um café que pudesse abrir as portas do entendimento, para que, assim, alguma luz pudesse entrar.

Anwar Ghazawwi, “Top Business”, ed. Princeps, pág. 135

Anwar Fayed Ghazawwi é um escritor americano de origem palestina nascido em New Hampshire em 1958. Estudou jornalismo em Yale e passou trabalhar como correspondente de guerra por vários anos. Foi contemporâneo de Chris Hedges na cobertura da Guerra da Sérvia, tendo sido gravemente ferido na época durante um bombardeio em Saraievo, necessitando voltar para os Estados Unidos para terminar sua recuperação. Depois desse episódio cobriu muitos outros cenários de guerra, até o seu derradeiro: a Guerra dos 51 dias em Gaza, nos ataques israelense que resultaram em mais de 2500 palestinos mortos, entre eles 500 crianças. Depois desse episódio voltou para sua casa em Austin no Texas e passou a escrever sobre o mundo corporativo, que conheceu bem durante as coberturas de conflitos pois, segundo ele “a guerra é acima de tudo um grande comércio. Iludem-se aqueles que enxergam nela apenas patriotismo; há um quinhão de cobiça imenso em cada combate”. Seu primeiro livro foi “Empire of White Delusions”, em que trata das empresas escolhidas para a reconstrução do Iraque destruído pelo imperialismo e a corrupção que coordenava as ações das companhias que se debruçavam por sobre o espólio de milhares de mortos e milhões em destruição. Depois seguiram-se “The Carpet Crawlers” e finalmente “Top Business”, que conta a história de um magnata da indústria do petróleo que “mudou de lado” e resolveu se dedicar à luta pela ecologia e pela preservação da natureza e da vida silvestre. Anwar é ainda músico e toca saxofone na banda de “folk” “Terry versus Ohio”. É casado com Norma Barrington, uma advogada de Austin e tem dois filhos e 3 netos.

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Dependências

Muito vi isso em meu consultório de psicologia. Em tantas histórias contadas se sobressaía um personagem, uma mentira ambulante atraindo como ímã alguém cuja carência a fazia acreditar em qualquer história, qualquer desculpa ou subterfúgio. Pior ainda: não havia forma de demovê-las do autoengano; inútil abrir-lhe os olhos à força. Só a dura, cruel e lenta confrontação com a realidade as fazia perceber, e por si mesmas, numa jornada solitária, triste e depressiva. Depois… a queda, o abismo, o vazio e a vergonha. E por quantas vezes somos obrigados a assistir o espetáculo grotesco da farsa sendo encenado bem à nossa frente, amordaçados pela ineficácia da razão diante da eclosão estupefaciente da paixão. Por certo que um pouco de nós sempre morre quando um amor nos trai. Os momentos de genuína parceria, as boas recordações, o companheirismo, os lamentos, as tristezas compartilhadas, as vitórias e as conquistas. Tudo se liquefaz, tornando-se um caldo de sentimentos confusos. Um gosto amargo de desesperança e culpa.

Gregoriański Banacek, “Uzależnienia afektywne okaleczenia duszy” (Dependências afetivas, mutilações da alma), ed. Vístula, pág. 135

Gregoriański Nicolai Banacek, é um psicoterapeuta polonês nascido na Breslávia em 1965, tendo estudado na Universidade Jaguelônica (Uniwersytet Jagielloński), na Cracóvia. Escreveu várias obras no início da carreira em uma perspectiva behaviorista e baseada no trabalho de John Broadus Watson (1878-1958), que foi considerado o pai do comportamentalismo. Todavia, já na maturidade, em 2006, fez uma importante guinada profissional ao abraçar as teses lacanianas e a psicanálise. Além de “Dependências afetivas, mutilações da alma”, que relata 12 casos de consultório analisados na perspectiva analítica, escreveu também o recente “Nódoas, nós e trincheiras – dilemas da escuta”, onde persegue a narrativa do jovem oficial do exército Fiódor Olensky, um paciente neurótico grave com paralisias motoras e fobia de gatos. Atualmente mora em Bratislava e dá aulas na Universidade Comenius. É casado com a professora de piano Bozena Banacek e tem dois filhos, Haskel e Anninka.

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Punhal

A dor é maior quando o punhal que nos fere saiu da mão daquele irmão cuja alma um dia admiramos.

Ferrer de Castel-Mayor, “Cartas a Endrigo”, Ed Verrigó, pág. 135

Ferrer Alfonso de Castel-Mayor foi um poeta espanhol (em verdade basco), nascido na cidade de Vitória (em basco Gasteiz, a capital oficiosa da comunidade autônoma) em 1912. Foi combatente na Guerra Civil Espanhola. Depois da queda da Catalunha para os liderados por Francisco Franco entre 1938 e 1939, e tendo ocorrido o isolamento das grandes cidades de Barcelona e Madrid, a situação militar dos republicanos, fiéis ao governo tornou-se desesperadora, e teve como consequência a tomada destas cidades, que foram ocupadas rapidamente e sem resistência. Franco declarou a vitória e o seu regime foi reconhecido pelo Reino Unido e pela França. Todos aqueles que durante os conflitos tiveram ligações com os republicanos derrotados foram duramente perseguidos pelos nacionalistas. Milhares de espanhóis de esquerda, artistas e intelectuais como Ferrer de Castel-Mayor fugiram para campos de refugiados no sul da França. Foi lá, em Nice, que Ferrer escreveu “Cartas e Endrigo”, um combatente parceiro de luta nas brigadas de resistência por quem se apaixonara. Muito se diz que as cartas eram direcionadas a Federico Garcia Lorca, morto por fuzilamento a mando do regime fascista de Franco. Todavia, o principal biógrafo de Ferrer coloca esta hipótese em dúvida, ao citar o Comandante Javier Etxebarria, que poderia ter sido o destino das cartas, pois existe a suspeita de que ele teriam sido amantes durante os anos de combate. De qualquer forma, “Cartas a Endrigo” se constitui uma das melhores obras de poesia da primeira metade do século XX em língua espanhola. Sua crueza arrebatadora sobre as vicissitudes da guerra mostra um cenário de desesperança e degradação humana, e descreve o desmonte das utopias dos ideólogos socialistas da Espanha. Ferrer viveu exilado na França até sua morte em 1975, sem conseguir ver a morte de Franco e a restituição da monarquia. Escreveu vários livros de poesia, entre eles “Borboletas de Sangue”, “Amaya rubra” e “Fortalezas de Papel”.

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