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Amizade

Sobre ser amigo de uma mulher…

“Sempre é mais fácil percorrer seu caminho em terreno conhecido, mas só as trilhas misteriosas, escuras e desconhecidas nos levam a descobertas novas e lugares diferentes. Agradeço às minhas amizades femininas o prazer e a honra de descobrir, através delas, um mundo tão diferente, mágico, desafiante e rico.

Scott Dempsey, “Betrayed by the moon”, ed. Jasper Editing, pag. 135

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Diploma

“Se fosse necessário curso ou aprendizado especial para o exercício da paternidade e da maternidade ainda seríamos um aglomerado de bosquímanos humanoides vagando pela savana africana. Não se constrói a parentalidade por processos cognitivos – mesmo que eles sejam sempre bem vindos – mas por elementos muito mais primitivos e arcaicos como a pulsionalidade afetiva que nos liga à reprodução e à maternagem.

Exigir cursos ou diplomas como condição para tornar-se pai ou mãe é acreditar que o amor pelos filhos pode ser aprendido com a leitura de livros e apostilas e – pior ainda – que para ser um bom pai ou mãe é necessário um certificado na parede”.

Amália Sturnberg, “Echoes of Hallibur”, ed. Parnasus, pag. 135

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Fracassos

“Há fracassos que são oportunidades maravilhosas de crescimento. Em verdade, é a partir da enorme derrota narcísica do Édipo que é possível ascender à sexualidade madura. Fracassos são, portanto, constitutivos do sujeito. Não há grandes vitórias na vida que não sejam precedidas de rotundos fracassos. Olhar para eles de forma negativa é não entender a pedagogia das falhas.”

Judith O’Neal, “Time do Measure”, Ed. Parcoulis, pág 135

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Momento único

“- Sim, esse é o meu desejo.

Jassie manteve o olhar fixo no juiz. Seu olhos sequer piscaram. Manteve a cabeça ereta e as mãos espalmadas, uma sobre a outra, na mesa gelada. Ao seu lado Conrad juntava os papéis com sofreguidão. Ajustados os detalhes do divórcio e não haveria mais nada para um advogado fazer. Ou dizer.

O juiz voltou seu rosto para o lado oposto da mesa de mogno, a qual estava impregnada com décadas de lágrimas e palmas suadas na antiga sala da vara de família e sucessões. Encontrou os olhos de Rick, que ainda fitavam o cabelo dourado de Jassie. O velho Juiz Desmond repetiu a pergunta e recebeu apenas um “sim“, seco e breve. Ato contínuo, entregou os papéis para ambos assinarem e deu por encerrada a sessão.

Rick e Jassie saíram da sala ladeado pelos seus advogados, quase juntos. Com passos apressados se aproximaram do elevador, que fica ao lado da velha cafeteria. Os quatros ficaram parados e mudos, olhando para os velhos ladrilhos do piso, até que Rick quebrou o silêncio e voltou-se para Jassie.

– Você poderia tomar um café comigo? Prometo ser breve.

Jassie, surpresa, olhou reflexamente para Conrad, mas antes que ele dissesse qualquer coisa, respondeu:

– Por certo, Richard.

Rick despediu-se dos advogados e entrou na cafeteria com Jassie. Puxou a cadeira para ela, como sempre fazia, e pediu o cappuccino que tantos anos de convivência haviam lhe ensinado a pedir.

Começou a falar de alguns detalhes da guarda de Peter, a bicicleta, a nova escola, o chalé na montanha, a pensão, o carro, detalhes que já haviam sido tratados pelo advogados. Jassie apenas escutava, sem tirar os olhos do, agora, ex marido.

– Eu acho que também lhe devo desculpas. As coisas meio que fugiram do controle nos últimos tempos. Saiba que eu não…

Jassie interrompeu abruptamente suas palavras, com a mão espalmada a frente.

– Por favor, Rick, hoje não. Já discutimos isso por anos, que foram muito duros para mim. Já entrei e saí dessa casa de tristezas, de rancores e de mágoas. Hoje estou livre. Quero começar uma nova vida, e não vou aceitar que meu ressentimento seja uma prisão da qual não consiga escapar. Hoje não é dia de brigar, mas de agradecer, e só por isso aceitei seu convite para este café. Estou aqui, em verdade, para fechar este ciclo e para lhe dizer da minha gratidão.

Rick escutou um pouco assustado. Não havia sido uma separação fácil. Cada fotografia, cada parede pintada na casa, cada gaveta de badulaques mostrava um fragmento de vidas que cursaram juntas. Também ele juntava os cacos de um projeto que se espatifou, por isso as palavras de Jassie soaram tão estranhas e inesperadas.

– Acho que você não entende, disse ele. Eu apenas queria que…

– Quem não entendeu foi você, interrompeu Jassie. Não preciso mais de suas desculpas. Estas feridas estão se curando. Mas queria agradecer de verdade para você.

– O que está pensando?

– Nada de grandioso, sequer espetacular. Apenas algo que lembrei ontem, quando juntava os papéis do divórcio. São memórias de quando Peter nasceu. Eu lembro da dor, do cansaço, do dia quente de agosto, da banheira que você montou em nossa sala, das cortinas que a tia Betsy nos deu de casamento. Essas imagens são presentes até hoje em minhas lembranças, e gostaria que o aroma do alecrim que circulava por aquela sala ficasse impregnado em minhas narinas até o final dos meus dias.

Jassie respirou fundo, sorriu timidamente e permitiu que uma pequena gota de orvalho viesse a adornar os seus olhos azulados.

– Entretanto, Rick querido, nada foi mais importante e mais impactante em minha vida do quer ver você levantar meu filho – nosso filho – daquela água tinta de sangue e levá-lo aos seus braços, e depois quando disse…

– Seja bem vindo, você é meu filho, completou Rick, enquanto deixava uma lágrima rolar por sua face.

– Sim, Rick, naquele momento, naquele fragmento minúsculo de tempo eu fui a mulher mais feliz do mundo, possuída por uma alegria infinita, com a esperança renovada na vida. Olhar meus dois amores lado a lado foi o momento mais pleno de luz de toda a minha existência. Nada superou aquele instante e eu não vou permitir que nossos caminhos divergentes apaguem a lembrança mais bela e cálida que eu guardo de todos estes anos.

Rick se manteve em silêncio enquanto as lágrimas corriam. Jassie tomou seu cappuccino, agradeceu o convite e se levantou. Com passos firmes e a cabeça erguida saiu da cafeteria para começar o resto de sua vida.”

Jennifer Martin-Ottis, “A dip into nothing” (Um Mergulho no Nada), Ed. Pégasus, pág 135

Jennifer estudou na Pennsylvania University e fez seu debut na literatura com o livro de ensaios e crônicas “Close to the Edge” de 1973, uma referência explícita a um disco do Yes de rock progressivo lançado no ano anterior. Trabalhou durante vários anos como jornalista e crítica literária no Nebraska Herald, até lançar seu primeiro romance em 1980, que se chamou “A Common Day in the Prairie” (Um dia Comum no Campo). “A dip into nothing” foi seu quinto e derradeiro livro, uma coletânea de ensaios, lançado em 1998, um ano antes da sua morte. Ela foi casada por mais de 40 anos com o famoso publicitário Ferris Ottis, e deixou dois filhos, Bartholomeu e Marylin.

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Dia da Morte

Voltando aos clássicos, nesse tempo de aprisionamento, me deparo com a fantasia de Jacob no livro “Le Palais du Haine” de Jules Marie-Vermont. Sua ideia de morte sempre me seduziu e, desde que li essa passagem na adolescência, imaginei minha morte seguindo um roteiro muito parecido.

“- Eu sei como seria o meu jeito escolhido de morrer, disse Jacob enquanto comia um pedaço de pão dormido com a manteiga que Daliah havia deixado sobre a mesa.

– Mal posso esperar para saber, respondeu Hannibal sem desviar o olhar da lareira acesa à frente.

– Diga Jacob, continuou com seu habitual sarcasmo, quem sabe eu possa ajudar no seu intento.

Jacob largou o pedaço de pão sobre a mesa e olhou para o teto do quarto, como se as imagens que descrevia estivessem projetadas sobre o madeirame corroído e sujo de fuligem

– Eu escreveria um texto contundente e acusatório contra o Rei, cheio de ofensas hepáticas e indignações intestinas. Não pouparia nem sua familia imunda das minhas lanças de fogo; sua mulher nojenta, sua mãe estúpida e nem mesmo Estelle, sua concubina. Sairia no breu da madrugada colando meu ódio com cuspe em centenas de postes próximos ao Palácio. Depois, voltaria para cá, tomaria uma taça de Bourbon, colocaria minha melhor roupa, guardaria um canivete no bolso, deitaria nesta cama suja e aguardaria a chegada da guarda real para lutar minha derradeira batalha.

– Que lindo Jacob, que heróico.

– Caido no chão, crivado de balas, ainda teria tempo para um sorriso. Olharia no rosto do soldado que chegasse primeiro, aquele que daria o tiro de piedade, e diria: “Toma aqui meu escarro de sangue. Sente o cheiro da minha pele queimada. Escuta o chiado do meu pulmão que se esvazia. Olha o sangue que pinta de rubro minha palidez. Aqui está um homem cujo ódio nenhuma bala pode matar. Ele seguirá depois que está carne apodrecer, e vai levar ao inferno aqueles que hoje riem de minha morte.”

Hanibal cortou o último pedaço de fumo e olhou seu amigo por cima do ombro. Ele sabia que a visão de Jacob poderia ser uma fantasia mórbida de glória, mas não estava longe de se tornar um dia verdadeira. Talvez mais próximo do que desejava”

Jules Marie-Vermont, “Le Palais du Haine” (O Palácio do Ódio), ed Hachete, pág. 135

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