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O diamante e a madeira

Há poucos dias fui atropelado por essa ideia: em uma perspectiva cósmica um pedaço rudimentar e tosco de madeira é infinitamente mais raro e muito mais bonito do que um enorme diamante.

Para que esta pedra preciosa seja formada por átomos puros de carbono em condições de cristalização basta que este elemento sofra pressões fortes o suficiente para transmutá-lo. Já para criar os simples blocos de madeira que forram as paredes de um barraco humilde são necessários bilhões de anos de sofisticada elaboração no processo evolutivo.

Os diamantes serão encontrados de forma corriqueira nos planetas onde sequer os mais simples microrganismos existem. Todavia, para que um simples pedaço de pau exista é preciso uma gigantesca engenharia produtora de vida, que leva milhões de anos de elaboração minuciosa e exaustiva adaptação.

As metáforas para esta simples constatação são infinitas, mas fico apenas com esta: a beleza física existe em abundância no planeta, mas a grandeza da alma é produto de demorado e sofisticado processo de evolução, através das grandes quedas, pequenas vitórias, inúmeros erros e a construção infatigável da humildade.

As almas nobres são as pessoas “madeira“, enquanto as outras, lindas e exuberantes, são as pessoas “diamante“. As primeiras são raras e sofisticadas, mas poucos conseguem observar seu valor em um mundo que valoriza muito mais a luz exuberante e ofuscante da beleza exterior. Por isso é importante a atenção e uma análise apurada para que não nos deixemos seduzir pelo brilho fátuo que tão facilmente nos seduz.

Amália Dominguez Chacón, “Crônicas do Sol Poente”, ed. Pacific Press, pág, 135

Amália Chacón é uma poetisa e ensaísta peruana. Nasceu em Arequipa, o “oásis do deserto” em 1951, aos pés do Vulcão Misti. Filha de uma família abastada da região mudou-se para Lima no início dos anos 70 para estudar. Foi lá que se interessou por política e iniciou seu curso de sociologia na Universidad de Lima. Nesta época conheceu Abimael Guzmán, professor de Filosofia da Universidade Nacional de San Cristóbal de Huamanga e, a partir desse encontro e dos ensinamentos que dele surgiram, começou seu percurso dentro do Partido Comunista do Perú e posteriormente pelo Sendero Luminoso. Durante mais de 20 anos esteve atuando na guerrilha e na clandestinidade. Foi casada com o Comandante Quispe, com quem teve dois filhos ainda enquanto foragida: Miguel e Alejandro. Escreveu muitos livros de poesia que eram vendidos nas universidades por alunos que encontravam cópias mimeografadas de seus escritos. Sua poesia era dura, triste, humana, mas sempre trazendo uma perspectiva otimista para o seu país e o mundo. Seus escritos, ensaios, crônicas e poesias falavam da vida em reclusão, da dura labuta na selva e da importância de um país livre do imperialismo e da exploração fundiária. Amália veio a falecer de leucemia em 1982, após ser entregue pela guerrilha às tropas do governo para tratamento médico.

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Sil

Os aplausos ainda eram ouvidos no majestoso salão de conferências do hotel enquanto o representante Benjamin saía ladeado pelos seus assessores e seguranças. Ao se dirigir ao hall principal do hotel pelo corredor lateral encontrou um jovem franzino e bem vestido exatamente à sua frente, impedindo sua passagem.

– Silmara Bürling!! falou o jovem.

Ele tinha os punhos cerrados, os lábios crispados, o rosto contraído e o olhar cravado num ponto fixo entre a calva e as sobrancelhas de Benjamin. Esperou alguns segundos pela reação ao nome que havia pronunciado. Diante do silêncio, finalmente perguntou:

– Você conhece minha irmã. Sei disso.
– Desculpe, quem é você? disse Benjamin.
– Edgar Bürling. Sou o irmão mais novo de Silmara Bürling. Sei que você a conhece e sei sobre vocês. Em verdade sei tudo o que ocorreu, mas quero que você diga na minha cara a sua versão da história.

– Não sei do que você está falando. Por favor, não estou para brincadeiras. Com licença…

Afastou com um gesto brusco o corpo delgado do seu interlocutor da trilha pintada de vermelho do piso do corredor. O discurso inflamado e passional diante da multidão que acabara de lançar seu nome na disputa pela liderança do partido ainda ecoava pelas paredes do auditório, mas Benjamin se encontrava nitidamente inquieto e apressado para tomar um banho antes de sair para o coquetel da cúpula partidária que ocorreria mais tarde.

– Eu sei do bebê, disse ele.

O futuro primeiro-ministro interrompeu seu rumo e virou seu corpo em direção ao jovem.

– Não sei do que você está falando. Você deve estar me confundindo, rapaz. Passar bem.

Continuou sobre a trilha vermelha do tapete do corredor por mais alguns metros, sem olhar para trás. Enquanto ele caminhava com passos firmes o jovem se manteve estático.

– Betsy!!

Gritou o nome obrigando o político corpulento a se virar, um pouco antes de chegar à curva que levaria ao hall central do hotel.

– Betsy é o seu nome. Ela tem direitos, e você não pode impedi-la de nada.

– Pela última vez, não sei do que você está falando. Você está me confundindo, e se insistir em me assediar serei obrigado a chamar a segurança do hotel.

O jovem se manteve parado, sem mover um músculo sequer, olhando firme para o homem que viera encontrar, enquanto via seu corpo desaparecer ao virar no fim do corredor.

Jerry por fim se aproximou. Benjamin acenou para o segurança com a mão espalmada em um abano rápido. “Deixe-o; ele se confundiu.”

Entrou no elevador e apertou o 12. Pensou ainda em seu discurso, e o quanto seria custoso suportar os ataques que viriam dos opositores na longa disputa que se aproximava, mas também temia pelo fogo amigo, os inimigos de dentro do partido, em especial aqueles que não se furtavam em dar tapinhas nas costas enquanto armavam para lhe derrubar do posto de liderança. Escutou o estalido da porta do elevador se abrindo e seguiu em direção ao seu quarto. Tirou do bolso do terno a tarjeta magnética para abrir a porta do quarto e viu a luz verde na maçaneta anunciar que estava destravada.

Sentou-se na cama e colocou a mão no bolso interno do casaco. Tirou o celular para confirmar o horário e calculou o tempo do banho e da troca de roupa. Ergueu-se da cama e segurou sua carteira com as duas mãos. Pegou o cartão de crédito e colocou sobre o criado mudo. Na ranhura da carteira onde estava o cartão retirou uma pequena fotografia. Nela havia a imagem de uma moça loira, cabelos soltos, sorriso tímido. No verso da fotografia miúda pôde ler as 3 letras desenhadas.

“SIL”…

Arthur Sutherland-Bell, “Power and Lust”, ed. Manchester Press, pág 135

Arthur Bell é um jornalista e escritor escocês. Nascido em Aberdeen em 1969, estudou jornalismo e depois sociologia em Glasgow. Aos 30 anos escreveu seu primeiro livro, um romance histórico baseado nos acontecimentos ocorridos na guerra contra a coroa britânica em 1745, chamada de “Segundo Levante Jacobita” cujo objetivo era reconduzir Jaime II de Inglaterra, e posteriormente os descendentes da Casa de Stuart, para o trono após sua deposição pelo Parlamento durante a Revolução Gloriosa. Depois desse livro lançou mais dois romances que tiveram enorme sucesso editorial: “In bed with the Queen” e “Bloody Rainbow”, que virou série de TV na BBC com Mary Hildegard no papel da espiã que colocou a coroa britânica em perigo. Seu último livro foi exatamente “Lust and Power”, outro mega sucesso de vendas que dizem ser inspirado nos casos e romances do agora ex primeiro ministro Boris Johnson, fato negado sistematicamente pelo autor. Na trama o representante Benjamin Jenkins (B. J. mais uma coincidência?) é conduzido à liderança do partido e posteriormente ao cargo máximo do parlamento inglês. Entretanto, se vê envolvido em uma trama que inclui chantagem, sexo, morte e as entranhas apodrecidas da política no coração decadente do império inglês. Arthur Bell mora em Edimburgo, é casado com Filipa Nunes Souza e tem um cão chamado Rolf.

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Bajuladores

Meu único preconceito inamovível é com aqueles que me elogiam. Não aceito esse mau gosto, não compro essa mentira, não engulo essa farsa. Não fui feito para ser elogiado, mas para ser odiado ou temido. Não admito que ofereçam a mim qualquer pretensa virtude. Sou o pior escarro, o mais grudento e fétido; sou o pus rançoso e a ferida viva. Sou o erro da criação e o aborto redivivo. Odeio a fraqueza de espírito e os bajuladores que, ao meu, ver nada mais merecem do que a morte.

Jules Bertrand D’Amicci, “Histoires d’un Amour Parfait” (Histórias de um amor perfeito), ed. Saint Clair-Paris, pag. 135

Jules D’Amicci é um poeta e novelista francês nascido em Lyon em 1959. Desde cedo se dedicou ao estudo de letras e com 22 anos lançou se primeiro livro “Ettoiles”, que venceu o prêmio de jovens escritores de sua cidade. Posteriormente, já vivendo em Paris e estudando na Sorbonne, começou a trabalhar na redação do Jornal Le Monde, onde trabalhou por 35 anos, primeiro como revisor, depois como copydesk, redator, jornalista e até hoje como colunista. É militante do partido socialista (PS) francês desde 1982, tendo já exercido funções administrativas na instituição. No romance “Histórias de um amor perfeito” ele narra a história de Jadelle e Gaspar. Ela uma executiva da Dupont e ele garçom de um restaurante frequentado pela alta sociedade parisiense. O destino (a intervenção de Gaspar na briga com o namorado no restaurante) os uniu em uma união de espiral destrutiva. O enredo envolvente da trama aos poucos revela a personalidade doentia e perversa dos personagens, envoltos em capas ilusórias de humildade e timidez. Quando a paixão entre ambos explode, brotam também na pele as gotas ácidas de ressentimento, rancor e ódio, curtidas por décadas de recalque e frustração. A história de ambos, como Bonnie e Clyde em Paris, nos permite refletir sobre as armadilhas criadas por fachadas dóceis que abrigam feras e monstros com almas destroçadas. Jules D’Amicci mora em Paris com a atriz Anette Bettancourt e seus dois filhos, Jean e Marcel

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Quando o inverno chegar

Quando o inverno chegar passarei minhas letras tortas ao papel e por todas as horas do dia, inclusive quanto o sono me alcançar e pelo chumbo das pálpebras me passar uma rasteira. Até mesmo quando a fome corroer minhas entranhas com sua acidez; os sonhos serão meu alimento. Não deixarei nenhuma lembrança intocada e nenhuma memória infensa à volúpia dos olhos. Não permitirei que as ideias, em especial as incômodas e as estúpidas, permaneçam reclusas em minha mente. Quando o inverno chegar, oferecerei a elas a liberdade que me faltará e o espaço que desejaria. Darei às minhas palavras a alforria, garantindo a elas o que meu corpo perdeu.

Jean Simon Laurent, “Entre les murs”, (Entre muros), Ed. Paschoal, pag 135

Jean Lauren foi num escritor francês nascido em Nouakchott na Mauritânia em 1905. Filho de pai militar francês e mãe mauritana, chegou à Paris em 1910 quando seu pai foi transferido para o Ministério da Defesa francês. Cursou direito em Paris e formou-se com lauda em 1931, vindo a trabalhar com direito migratório. Especializou-se na questão da Argélia e viajou diversas vezes à colônia francesa, emprestando total solidariedade à causa argelina. Tornou-se amigo pessoal de Albert Camus e grande divulgador da obra de Franz Fanon. Mulato, homossexual e anti colonialista, foi preso em Marselha em 1957 acusado de auxiliar na entrada ilegal de magrebinos na França. Escreveu vários livros, romances e livros sobre os direitos dos imigrantes, e na prisão escreveu ” Entre les Murs”, uma espécie de “De Profundis” da língua francesa, onde fala de suas paixões, suas lutas e sua história, e não se furta de falar abertamente de sua homossexualidade. Morreu de tuberculose na prisão em 1961, no mesmo ano da morte de seu amigo dileto Albert Camus.

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As crianças e as palavras

Il n’y a rien de plus magique et extraordinaire qu’un enfant qui répète les premiers pas dans l’aventure du langage, et rien n’apprend plus sur la vie d’adulte que d’accompagner quelqu’un qui ne l’a pas encore atteint.

(Nada existe mais mágico e extraordinário do que uma criança ensaiando os primeiros passos na aventura da linguagem, e nada ensina mais sobre a vida adulta do que acompanhar alguém que ainda não a alcançou).

Juliette Mandrioux, “Pour les enfants, les mots et le monde” (Para as crianças, as palavras e o mundo). Ed. Printemps, pág 135

Juliette Mandrioux é uma poetisa e escritora belga, nascida em Bruges em 1940. Escreveu vários livros de poesia e também sobre a psicologia do desenvolvimento infantil. Era professora primária e estabeleceu seu trabalho na Basisschool De Springplank Brugge, onde atendia crianças com atraso cognitivo. Durante seu período em Bruges escreveu “”Pour les enfantes, les mots e le monde”. mas também “Palavras, narrativas e discursos”, todos pela editora Printemps. Posteriormente transferiu-se para Bruxelas onde lecionou na UCLouvain Saint-Louis Brussels.

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