Arquivo da categoria: Citações

Ainda sobre o perdão

É preciso estar atento ao uso errado e ideológico do ato de perdoar. O perdão só será reacionário se forçar a confusão conceitual oportunista entre “perdão” e “absolvição”, que são processos de mobilização afetiva completamente diferentes.

Quem diz “eu lhe perdoo” está dizendo “eu entendo suas motivações”, mas não está em hipótese alguma querendo dizer “eu absolvo seus erros”. Perdoar é enxergar-se no sujeito que erra, assim humanizando-o.

Perdoar é um ato pessoal e independe do outro, tão solitário que pode ser privado e silencioso. É uma forma de oferecer paz ao seu sofrimento, mas não se propõe a cristalizar erros e injustiças.

Roberto Schiffino, “Venti cupi del sud” (Ventos sombrios do sul), ed. Távora, pág 135

Roberto Schiffino nasceu em Savona, Itália em 1905, filho de uma rica família de comerciantes de Gênova. Estudou na Universidade de Milano tendo se formado em artes em 1930. Serviu no exército italiano durante a guerra e depois do seu fim com a deposição de Mussolini ingressou na Escola de Filosofia desta mesma Universidade. Escreveu muitos artigos sobre arte e filosofia, e mais dois livros além de “Venti cupi del sud”: “Dolore, seduzione e martirio a Michelangelo” de 1957 e “Niente dal niente” de 1965 sobre o sintoma depressivo como condutor das narrativas literárias. Morreu em agosto de 1985 em Roma. Foi casado com a arquiteta Hentiquetta D´Alloro e teve duas filhas, Sophia e Isabella.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Somos nós

O perdão nada mais é do que a capacidade de produzir empatia, e esta só ocorre quando existe identificação. Por isso vemos tantos textos que perdoam a mãe que causou a morte do filho ao esquecê-lo e quase nenhum sobre o pai que perdeu a cabeça e bateu na mulher.

Não é o crime, somos nós.

Do livro de Jeff Barrett, “Under my skin”, na voz do personagem Jack Menendez, ed. Parnaso, pág 135

Jeffrey Edmond Barrett é um escritor canadense, nascido em Regina no estado de Saskatchewan no Canadá em 1946. Foi amigo pessoal de Jack Kerouak e fez parte da geração de escritores de contestação surgida em meados do século passado. Homossexual assumido e panfletário, socialista e defensor dos direitos LGBT, foi preso na manifestação de 28 de junho de 1969 em Nova York, que se tornou conhecida como “Stonewall Uprising”. Ficou dois anos encarcerado, condenado por “chutar o rosto de um policial”, acusação nunca contestada e que carregou com orgulho por toda a vida. Tem uma larga produção literária na poesia, crônicas e contos. Escreveu “Under my Skin” – sua única obra de ficção – como um libelo contra a repressão sexual. Morreu de Aids em 1987.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Vladimirski Central

“Nikolai havia acordado mais cedo do que todos nós. Senti entrando por debaixo do lençol puído o cheiro de sopa de pacote que ele havia esquentado. Graças às mãos delicadas e ágeis de Petrov foi possível puxar dois fios da tomada acima da pequena mesa encostada na parede descascada e adaptar uma resistência, que usávamos para esquentar o chá, mas também uma sopa.

Coloquei os pés para fora da cama e toquei o chão gelado da cela com as meias que Zoya havia me trazido na visita do mês anterior. O chão feria a sola dos meus pés como lanças de gelo a penetrar o espaço entre os dedos. E ainda não era o pior do inverno em Vladimirsky, onde não era incomum que os prisioneiros perdessem os dedos pelo frio. Olho para o lado e encontro Petrov dormindo envolvido em um edredom cinza, enquanto Aleksei mantinha-se sentado em sua cama olhando para um ponto perdido na parede à frente. Ninguém falava, e aos poucos a luz externa aparecia pelas aberturas superiores da parede de nossa cela.

O silêncio matutino foi quebrado pelo som metálico da porta de ferro sendo aberta. Um carcereiro apenas falou em voz alta o nome de Nikolai e colocou no chão um envelope de papel amarelo escuro. Logo depois a porta se fechou mais uma vez deixando o breve eco do metal chocando-se com o batente em nossos ouvidos.

Nikolai deixou a sopa sobre a mesa e curvou o corpo para apanhar o envelope. Abriu-o lentamente e passeou os olhos sobre o documento. Poucos segundos depois fechou o envelope e voltou a sentar-se no banquinho tosco que puxou debaixo da mesa. Segurou a xícara com ambas as mãos e continuou captar seu calor sem dizer palavra.

– Negado?, disse eu

Ele se limitou a balançar a cabeça afirmativamente, como a dizer que nada do que se encontrava naquele papel era surpresa. Fiquei em silêncio alguns minutos e me limitei a dizer em voz baixa “bastardos” e “canalhas“.

Nikolai sorveu mais um gole de sua sopa e, sem olhar para mim, me disse:

– Sabe o que eu queria, Sergey? Nenhuma utopia política, e muito menos bens materiais. Estou velho para desejar o que sabemos ser inútil ou fugaz, como um carro, uma casa ou que o mundo seja controlado por um sistema político mais justo. Em verdade, meus sonhos são todos tolos, inocentes e de uma ingenuidade dolorida e triste.

Sorveu um gole a mais, mordiscou um pedaço de pão e continuou.

– Nós tivemos uma infância dourada, Sergey. Fomos a última geração a ter uma mãe em casa cuidando de nós. Eu era capaz de dizer o que minha mãe preparava para o almoço antes mesmo de chegar, já a meia quadra de distancia, só de sentir o cheiro da comida. Éramos recebidos como heróis, recém chegados da batalha diária da escola. Cansados, famintos e eletrizados, nossa mãe nos tratava como reis; éramos o centro de sua vida. Isso é amor Sergey…

Baixei os olhos e sacudi a cabeça afirmativamente. Ele seguiu.

– Elas se sacrificaram por nós, camarada. Hoje as mulheres tem vida própria, para além de sua família. São empresárias, médicas, engenheiras, advogadas e – apontando para o documento – juízas. Não há nada que seja interdito a elas, e bem sei não há como voltar atrás, resgatando nossa infância idílica. A nós resta apenas a saudade de um mundo construído para sermos felizes.

Suspirou olhando para a fumaça que saía de sua caneca de metal e continuou com seu desabafo.

– Pois eu queria apenas cinco minutos daquela vida, camarada. Sentir o cheiro da comida de minha mãe e encontrar seu sorriso na porta de casa. Nada mais.

Eu respondi, mas com cuidado, pois sabia que seu mundo havia desmoronado há apenas alguns poucos segundos.

– Sua vida foi digna, Nikolai. Nossas mães nos prepararam para a felicidade, mas nós escolhemos uma vida de luta e valor. Mais importante do que ser feliz é dar sentido à esta breve existência na terra.

– Não tentem descobrir sentido algum para a vida, camaradas. Se há um sentido ele nunca se mostrou para nós. Somos os que perderam, os derrotados, os desvalidos. Não haverá história a contar.

Era Petrov a falar, ainda de olhos fechados e envolto em seu cobertor cinza. Aleksei, por sua vez, se mantinha observando o ponto fixo no meio da parede descascada. Talvez ali estivesse escondido algum sentido para a vida, que a nós todos escapava.”

Genny Sidorov, “Vladimirsky Central”, Ed. Belaya skala, pág 135

Genny Sidorov, batizado Gennady Sidorov, nasceu na cidade russa de Leningrado (atual São Petersburgo) e fez seus estudos na tradicional Universidade Estatal de São Petersburgo, onde cursou engenharia de minas. Depois de trabalhar durante 15 anos como engenheiro abandonou a profissão depois do acidente na mina de Osinniki, em 2004 na Sibéria. Escreveu um livro contando os detalhes da tragédia, onde morreram 28 mineiros – entre eles seu amigo e protagonista no livro, Rodion. “O último suspiro”, seu livro de estreia, lhe rendeu o prêmio de jovem escritor e o impulsionou a abandonar a engenharia para se dedicar à literatura. Ainda nessa década escreveu 2 livros de ficção (“No fundo do Neva” e “Sob o olhar de Yekaterina”) e um de ensaios (“Galina e outras histórias frias”). Hoje tem mais de 20 livros publicados e escreve em colunas de jornais por todo o país. É casado com Yelena Pavlova e tem dois filhos, Natalya e Mikhail. É filiado ao Partido Comunista da Federação Russa.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Humor

“Costumo avaliar a inteligência de um sujeito pela capacidade de formular uma piada, e a genialidade de alguém pela habilidade de escrevê-la. Uma piada é feita de tempo, ritmo, fluxo, contexto e circunstância. Uma piada tem a ver com frações de milésimos de segundos na espera precisa entre seus tempos. As piadas e gracejos brincam com os sons, as rimas, os sentidos múltiplos, as confluências e o distanciamento dos conceitos.

Um chiste se estabelece nas entonações de voz, na mudança acertada dos personagens, nas supressões de termos e pela notável simplificação necessária, pois que se relaciona à contenção e ao minimalismo. A piada é uma prece em louvor à nossa grandiosa pequenez, um ode à maravilhosa falibilidade humana. O humor é sagrado e imortal.”

Jonathan Harris-Walker, “Laugh or Death – The Biography of Googa, the Clown”, ed. Parnell, pág 13

Jonathan “Googa the Clown” Walker nasceu no Brooklin em 1916 de uma família de palhaços. Judeu de origem ucraniana, seu nome de batismo era Hrihoryi Kredzierski, filho de Aleksei e Martina Kredzierski, trapezistas do “Gran Circus Anatoli”. Trabalhou no circo em que os pais trabalhavam desde os 5 anos de idade e depois circulou pelos Estados Unidos como comediante, garçom, estafeta, cozinheiro, trapezista, malabarista e principalmente como palhaço. Chegou a participar de dois filmes de Buster Keaton e fez alguns episódios de “Lauren & Hardy” (O gordo e o magro). Suas memórias foram publicadas após sua morte por pneumonia em 1986 quando seu filho Jason descobriu vários cadernos de apontamentos, onde constavam piadas, chistes, truques e pensamentos que foram recolhidos em mais de 60 anos de profissão. Foi enterrado no cemitério de Cypress Hills, no Brooklin.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Caridade

“…. e digo mais ainda, a essência da caridade é exterminar a si mesma, de forma que sua existência seja a imagem da incapacidade ou da indecência”.

Dinesh Gupta, “The rising sun – from misery to splendor”, Ed. Kashir, pag 135.

Dinesh Gupta é um jornalista e escritor indiano, nascido em New Delhi e educado na Califórnia. Escreveu três livros: “Um mundo para Raja”, “Crônicas de Paharganj” e “The Rising Sun – from Mistery to Splendor”. Recebeu o prêmio Young Mumbai como escritor revelação em 2008.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações