Planeta dos Macacos

Não vejo problema algum em debater filmes clássicos e questionar as curvas lógicas que precisam ser feitas para oferecer ao espectador uma narrativa coerente. Em ficção científica isso é sempre um desafio mas é comum que muitos filmes tenham falhas lógicas, enquanto outros produzem “rombos” que ficam difíceis de ignorar. Um dos filmes que eu sempre comento (quem assistiu os cursos de Doulas sabe bem) é o filme “O Planeta dos Macacos” – o original, de 1968. Esta película – que aliás, eu adoro – tem um claro “misconception“, ou concepção equivocada do processo evolutivo, mas só os atentos percebem. Ou, no meu caso, os chatos.

Minha maior discordância é que, caso os macacos (na verdade os antropoides) realmente evoluíssem a ponto de desenvolver razão e linguagem, ainda assim seriam incapazes de estabelecer linguagem articulada. Ou seja, seriam mudos, incapazes de falar. Entretanto, Zira (Kim Hunter) e Cornélius (Roddy MacDowall), que contracenaram com o astronauta George Taylor (Charlton Heston), não só falavam como tinham uma bela voz. A de Zira ainda era sensual e aveludada.

Mas por qual razão eles não poderiam falar? Pois a resposta curta seria que seus pelos abundantes – que denunciam a falta das estratégias metabólicas e adaptativas que fomos obrigados a utilizar para sobreviver enquanto espécie – seriam um impeditivo para essa função superior.

Ou seja: é impossível ser peludo daquela forma e falar.

Sim, todo mundo nesse momento diz “Ok, mas e o Tony Ramos??” Estamos falando de uma espécie, não de um sujeito, certo? Entendam que os condicionantes para a necessária perda de pelos na nossa espécie são razoavelmente simples. Eles podem ser didaticamente divididos em 6 passos essenciais:

1- Bipedalidade – domínio do meio ambiente;
2- Dieta onívora – mudança dietética;
3- Controle do fogo;
4- Melhor absorção de proteína animal – carne;
5- Encefalização – crescimento cerebral;
6- Resfriamento cerebral obrigatório;
7- Fetação – mudança da estratégia gestacional.

Portanto, enquanto ocorriam essas mudanças surgiu a necessidade crescente de um sistema de arrefecimento de temperatura para a grande produção de calor produzida pelo cérebro. Saímos de um cérebro de 600 ml de um australopitecino (há 4 milhões de anos), passando pelo Homo erectus com 1200 ml (há 2 milhões de anos passados) até 1450 ml para um homo sapiens adulto. O cérebro, apesar de mal passar de 1kg, produz 20% do calor produzido pelo organismo. Acima de 42 graus de temperatura corporal ocorre degradação proteica e o cérebro “apaga”.

Assim sendo, para existir um cérebro gigante como o humano seria necessário diminuir com eficiência essa temperatura. A forma como solucionamos o dilema foi através da despilificação progressiva e a melhoria gradual do sistema de perda de temperatura por irradiação. O mecanismo fisiológico da evaporação do suor produzido se tornou responsável por mais de 80% do calor dissipado durante uma atividade física.

Por essa linha de raciocínio é possível se dizer que o processo de encefalização se tornou evidente e inquestionável com o surgimento do Pitecanthropus erectus – ou Homo erectus – que já vinha de fábrica com uma cabeça absolutamente desproporcional e aberrante. É ele quem vai inaugurar o nosso gênero. Ele era tão humano quanto nós, apesar de inegavelmente uma criatura bestial.

Entretanto, para existir o cérebro do Homo erectus já seria necessária uma despilificação significativa, e por isso a iconografia sobre eles sempre os mostra como “homens das cavernas”, porém claramente muito menos peludos do que os australopitecinos, o Sahelanthropus ou mesmo o Ardipithecus. E assim o é porque porque, pela ideia do sistema de arrefecimento central, perdemos os pelos de forma continuada desde há 2 milhões de anos.

Já a linguagem articulada – a fala – teria talvez 100 mil anos, se concordarmos com Chomsky e sua teoria de “descontinuidade” – basicamente a possibilidade de mutações genéticas serem as principais responsáveis por esse processo. Portanto, há um gap de 1.900.000 anos entre perder pelos e falar de forma articulada e com sintaxe. Estes eventos não podem ser colocados próximos um do outro. Em verdade, a tese que eu sigo assevera que a fala só poderia ocorrer porque muitos milênios antes desenvolvemos um processo de arrefecimento de temperatura para comportar um cérebro imenso, que por sua vez culminou na possibilidade de falarmos. A distância entre esses processos é gigantesca.

Foi a cabeça gigante a responsável pela perda dos pelos, porque precisávamos melhorar a transpiração, e para isso era fundamental deixar a pele glabra, sem pelos, para facilitar a evaporação. Outros mamíferos também tem glândulas sudoríparas, mas em quantidade muito menor e pouco efetivas para dissipar calor. Os mamíferos superiores dissipam calor pela …. língua. Olhem para um cachorro, um gato, uma vaca, um cavalo ou um chimpanzé. Cobertos de pelos só lhes resta a respiração para jogar para o meio ambiente o excesso de calor. Mas como eles têm cérebros pequenos, isso não é um grande problema.

Portanto, a minha posição quando revi o filme muitos anos depois da estreia – e após estudar os mecanismo de adaptação do ser humano até o surgimento da linguagem articulada – foi:

1- Se são inteligentes e possuem linguagem precisariam ter cérebros grandes e neocórtex;
2- Se o cérebro fosse grande precisaria de um refrigerador;
3- Se eles continuassem peludos o calor só poderia ser expelido pela boca;
4- Se fosse pela boca passariam dia e noite jogando calor para fora, tamanha a necessidade para resfriar seu cérebro enorme;
5- Se passassem tanto tempo exalando calor não desenvolveriam a capacidade de falar e sequer conseguiriam realizar a articulação de frases com os movimentos respiratórios, algo que só os sapiens conseguem fazer.

Desta forma – e abusando um pouco do humor – dá para dizer que “ser peludo impede o sujeito de falar”. Claro que a frase é provocativa, mas serve para responder uma bela pergunta: qual o sentido de perdermos pelos enquanto os grandes antropoides se mantiveram cobertos por eles?

A resposta, como visto, é a nossa cabeça enorme. Aliás, foi por causa dessa cabeça grande – e pela fetação – que se comemora o dia das mães, mas essa é outra história.

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