Fui avisado da minha liberdade há 10 dias, mas quando isso ocorreu já havia escrito uma mensagem para ser publicada. Achei a carta em meio a centenas de folhas manuscritas que guardei e estou organizando para lhes dar alguma coerência e destino. Aqui vai minha última mensagem do cárcere…
“Caros amigos:
Agradecido sempre pela lembrança, pelo carinho que vem de tantos lugares, pela ajuda financeira na luta por justiça e pelos avanços importantes na condução do nosso caso. Cito, em especial, o documento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), sediada em Washington, que reconheceu a perseguição contra profissionais que apoiam o parto humanizado e a garantia do protagonismo às mulheres, citando nominalmente não apenas a mim, mas também Zeza e meu colega Bráulio Zorzella como vítimas de uma trama para atingir os “mensageiros”, já que a mensagem — por ser escorada nas evidências científicas — é mais difícil de ser atingida.
Durante algum tempo anotei minhas caminhadas para saber o quão distante eu conseguiria chegar. Minha regra era: 1 hora de caminhada “puxada” igual a 6km. Ontem (14/4), completei 600 km de percurso nas minhas caminhadas, o que me deixa a pouco mais de 100 km de atingir minha “Santiago de Compostela virtual”. Assim, se eu tivesse feito o verdadeiro Caminho de Santiago, estaria chegando na mítica cidade de Sarria. Esta cidade fica a 115 km de Santiago de Compostela, e de onde saem os peregrinos mais “preguiçosos” (ok, e os velhinhos, as crianças e os debilitados) porque esta é a menor distância autorizada para receber o diploma de peregrino. Assim, cheguei próximo do meu destino e se tivesse mais algumas semanas de meditação compulsória teria alcançado a catedral e toda sua pompa. Quem sabe desta vez participaria do “Botafumeiro”.
Nos últimos dias, terminei a biografia de William Shakespeare e estou iniciando a do maior romancista francês, Honoré de Balzac. Você sabia que, enquanto o bardo de Stratford era vivo, suas peças foram encenadas apenas por atores homens, como na tradição Kabuki japonesa? Somente em 1660, após a Restauração, permitiu-se que mulheres participassem das montagens teatrais, 43 anos após a morte de William Shakespeare. Ou seja, durante as primeiras 5 décadas do século XVII, Romeu e Julieta, os amantes de Verona, foram encenados não por atrizes e atores como Olivia Hussey e Leonard Whiting (da versão Zeffireli), mas por uma dupla de garotos imberbes!
Tenho passado muito tempo a escrever: crônicas, histórias, observações do cotidiano e reflexões sobre o que sinto e vejo. Passo os dias fazendo infinitas analogias do microcosmo da prisão com a vida que existe fora dos muros. Neste tempo também resolvi reescrever minha novela “Pai”, dando-lhe uma nova roupagem e acrescentando um drama paralelo. Estou catalogando estes escritos para formarem um livro sobre meu percurso no universo prisional, pela perspectiva de um ativista dos direitos humanos. Sinto muitas saudades da família: dos filhos, netos, genro, nora, irmãos e amigos. Lembro-me de todos e, antes de dormir, tento pensar neles e desejar o melhor.
O mundo é feito de desafios e lutas. Algumas dessas lutas implicam reveses e derrotas. Algumas são muito duras, mas, se a causa é nobre, sempre vale a pena.
Um beijo a todos, Ric”
