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Inteligência artificial

Era uma vez um sujeito que tinha um cachorro que jogava xadrez. Ele sentava numa mesinha com o tabuleiro pintado na praça da cidade e ficava toda a tarde jogando com seu totó. Os passantes ficavam encantados com a cena. Todos se maravilhavam com o espetáculo inusitado. Até o jornal da cidade fez uma matéria sobre o caso. Não havia na cidade quem não conhecesse o caso insólito do cão enxadrista.

Ou melhor, todos menos o seu Gouveia. Seu Gouveia frequentava a mesma praça e, vestindo seu indefectível abrigo da Adidas azul com listras brancas, aproveitava o tempo de sobra da sua aposentadoria para fazer seus exercícios diários. Ele costumava completar suas voltas na praça e depois se postava ao lado da dupla em seus jogos diários de tabuleiro. Entetanto, ao contrário do resto do assistentes, fazia-o sempre de cara amarrada, contorcendo a face em caretas e com um ar contrariado. Seu comportamento destoava da pequena multidão que se aglomerava em torno da dupla.

Certa feita uma senhora, acompanhada do filho, estava vendo o jogo do cão e seu dono quando percebeu o incômodo do seu Gouveia. Intrigada, perguntou-lhe por qual razão ele era o único que não se encantava com a cena. Apesar de todos elogiarem efusivamente a dupla, ele se mantinha irritado e inquieto. Seu Gouveia tirou as mãos do bolso, olhou com ar severo para a moça, e exclamou:

– Esta brincando? E não é para se irritar? Tudo o que vejo é o cão enxadrista mais medíocre da história. Nos últimos três dias só ganhou duas partidas e pediu empate em outras três; o resto perdeu!!

Moral: não se deixe encantar tão rápido pela forma esquecendo a importância do conteúdo.

* A imagem que ilustra este texto foi criada por inteligência artificial

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Cachorros

Vou contar uma história sobre cães: quando era pequeno meu vizinho tinha um cachorro peludo e brabo chamado “Fully”, que me dava muito medo. Brabo, irritante, neurótico, barulhento e traiçoeiro. Era um cachorro pequinês, e por isso nunca consegui resolver meu trauma com esta raça de cães. Um dia avançou no meu irmão menor, que era bem pequeno ainda, e tive que segurá-lo no colo para que o maldito não o mordesse. Pois quis o destino que, na primeira vez que fui à China – mais especificamente em Beijing – eu encontrasse ao lado de uma barraca na feira de rua um cachorro muito bonitinho. Era tipo o nosso caramelo, marrom, magricela, alegre e simpático, que ficava balançando a cauda sem parar, com aspecto dócil e amável. Fiquei magnetizado pelo cachorrinho, mas quando me aproximei senti um arrepio no couro cabeludo e fui tomado por um sentimento de de puro pavor. Por instantes fiquei paralisado, por certo pelo retorno do recalcado dos temores infantis.

Não, ele não me mordeu, nem ameaçou. Ficou balançando o rabo e me olhando. Porém, quando me aproximei dele me dei conta que naquela cidade, inobstante a raça… todo o cachorro é pequinês.

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