Arquivo da categoria: Humor

Chinelão

Quando vejo propaganda de garotos imberbes vendendo cursos, afirmando terem descoberto o “segredo”, destravado as “potencialidades”, revelando a “lei de atração” e mostrando o mistério da “riqueza dos judeus” falando do exterior, com joias caras, carros ou lanchas importados e roupas chiques eu sempre lembro de uma velha história sobre a arrogância que se conta aqui no Rio Grande do Sul.

Bagre Fagundes, um personagem pampeano tosco e grosso como dedo destroncado, era conhecido por ser sincero e direto, sem meias palavras. Certa feita, na disputa pela vereança, ele foi fazer um discurso de campanha em uma pequena cidade do interior, onde os cuscos rengueavam no frio e os guascas cuspiam fumo mascado no meio-fio. Nesta ocasião, depois de olhar a pequena multidão que se aglomerava em frente ao palanque dos candidatos, olhou pra peãozada, cuspiu pro lado, pediu a palavra e disparou:

– Tenham esperança e votem em mim. Lembrem, eu já fui chinelão assim como vocês…

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Atentado

Meu irmão Roger Jones caminhava hoje pelo centro de Happy Harbor voltando para o trabalho após o almoço quando notou que o cadarço do seu tênis estava solto. Próximo à Rua da Praia agachou-se para amarrá-lo quando escutou um tiro. Sentiu um baque surdo no seu braço direito e caiu ao solo.

Ainda assustado e desnorteado, viu uma pequena multidão aproximar-se, enquanto ele tentava entender o que havia acontecido. Passou a mão no braço e notou um pequeno ferimento, mas quase não havia sangue. O tiro havia passado de raspão. Imediatamente se deu conta que o cadarço solto havia salvado sua vida.

Os transeuntes apontavam para o carro tentando anotar a placa, mas ele disparou em alta velocidade. No volante dois terroristas ainda não identificados provavelmente lamentavam o erro. No mundo do terrorismo internacional não se admitem erros, e cabeças rolariam, por certo

Pela graça concedida ao meu irmão, que Deus seja louvado.

PS: na realidade um carro passou por cima de uma pedra e a lançou em direção ao Roger. O pedregulho raspou no seu braço enquanto estava agachado amarrando o cadarço. O som realmente foi semelhante a um tiro, e esta foi sua primeira impressão, que apenas foi desfeita quando ele, e os demais transeuntes, repararam a pequena rocha ao seu lado. Esta é a verdade; entretanto acredito que a minha versão da história acabou sendo muito mais interessante.

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Astronautas

Eu era um garoto de 9 anos (a idade atual do meu neto Oliver) quando assisti pela TV a chegada do homem à lua. A missão Apolo 11 levava 3 astronautas: Armstrong, Aldrin e Collins. Os dois primeiros pisaram na lua, enquanto Collins ficou dando a volta na quadra esperando eles terminarem as compras.

Armstrong e Aldrin tinham 39 anos quando viajaram à lua; Collins era 2 anos mais jovem. Quando meu pai (que na data tinha exatamente essa idade) me contou esse detalhe, ainda com o olhar grudado na TV, eu imediatamente perguntei:

– Por que levaram gente tão velha para uma missão tão importante?

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Orgulho Hétero

Cuiabá decreta “Dia do Orgulho Hétero”. Resta saber como será o desfile.

Sugestões:

  • Haverá bandeirinhas penduradas em mastros artificialmente erguidos por Viagra.
  • Cada membro na marcha carrega um banner com o número exato de anos em que está mantendo sua heterossexualidade. Será a ala “Ainda, mas tá difícil”.
  • Haverá um grupo de homens vestidos de mulher dançando freneticamente. Será a ala “Viu, é só brincadeira”.
  • O porta bandeiras será um gordão peludo com um chinelo matando baratas e levando o lixo pra fora.
  • Na apoteose eles farão com seus corpos um desenho na pista (que só se vê com os drones) onde aparece a cara do presidente fazendo arminha com a mão.
  • Na rabeira do desfile uma série de executivos de maleta, paletó e gravata com os filhos e a mulher, segurando uma bíblia na mão. Será a ala “Casado procura no sigilo”

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Dois legumes

Traduzindo textos para o livro da Robbie me deparei com a expressão “double-edged sword”, que traduzi para “faca de dois gumes”. O interessante é que eu prefiro dizer “faca de dois legumes”, pois o ditado se torna muito mais interessante pelo total desvirtuamento da expressão, que ao invés de falar de uma ferramenta de cozinha que tem duas superfícies de corte (os gumes) se refere a uma faca que serve para cortar dois legumes distintos (algo que a expressão original jamais quis dizer).

Talvez seja assim mesmo o processo digestivo das línguas. As expressões são ditas e depois espalhadas para serem deglutidas por cada um dos que vão saboreá-las. Começam com um específico objetivo que o uso continuado vai desvirtuando, como o “bicho carpinteiro”, que começou como “um bicho no corpo inteiro” e com o tempo virou um animal que, de tão inquieto, faz mesas, cadeiras, móveis e outros apetrechos para a casa.

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O Comuna da Galileia

E no meio da multidão Tadeu e Josias debatem sobre os ensinamentos recém recebidos. Junto com tantos outros eles se aglomeraram na pequena vila na Palestina para escutar as palavras de Paulo, o Apóstolo dos gentios.

– Jesus? Não sei, nunca confiei. Mania de andar com pobre e puta. “Divida o pão e o peixe”? Qualé rapá? Achei dinheiro no lixo? Se ele acha mesmo que tem que dividir, por que não dividiu a túnica dele? Que ande pelado, aí sim quero ver. E viu como ele chegou em Jerusalém? Montado num burrico. Agora diga… comunista de burrico? Queria ver chegar a pé, cheio de bolha nos dedos. Vai pra Galileia!!! Depois que foi pra cruz e ressuscitou virou esquerdalha, mas tinha que ver o vinho que eles tinham na última ceia!! Coisa boa, importado. E tu acha que chamar Leonardo da Vinci pra pintar saiu barato? Esses caras cobram o olho da cara e só trabalham prá meia dúzia de riquinhos. “É arte moderna” dizem eles. Tudo comuna rabanete; vermelho por fora branquinho por dentro. Explica essa mané: se Roma é tão ruim assim por que todas as estradas levam pra lá? Agora diz aí quantos romanos querem vir morar na Palestina? Tem gente que se joga no Mediterrâneo pra chegar lá a nado e morre afogado no meio, mas me diz onde está o pessoal que prefere vir para cá, comer areia em Nazaré.

– Cara, são perspectivas, pontos de vista. Tenha calma antes de julgar. Agora fique em silêncio que o palestrante principal vai falar.

– É quem é?

– Não sei, mas é um operário sem dedo. Jesus costumava chamá-lo de “meu garoto”.

– Hummm, da pra sentir daqui o cheiro da mortadela. E essa multidão aí, tudo pago. Todos mamam nas tetas. Pode apostar que essa mamata vai acabar.

– Rapaz, você nunca vai entender, nunca…

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Sugestão

Quando eu morrer, ao chegar nas portas do inferno, deixarei na caixinha de reclamações o seguinte bilhete:

“Agradeço a oportunidade recebida, as condições para levar adiante seus compromissos assim como a intuição para escolher boas causas. Entretanto, deixo como sugestão para novos empreendimentos que estas causas sejam oferecidas àqueles com níveis mínimos de simpatia. Realizar tais tarefas desprovido de carisma e encanto pessoal é uma tarefa difícil demais. Que aos novos postulantes sejam oferecidas classes de simpatia, sorriso, paciência e sedução antes de serem enviados para este planeta de provas e expiações. Grato pela atenção dispensada”

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Medicina e arte

Existe uma piada antiga contada nos corredores e salas de cafezinho de hospital que eu lembrei hoje. Se você não quiser ler algo chulo pode parar de ler por aqui. Entretanto, ela me faz pensar num drama comum da prática médica que eu achei que seria interessante descrever.

Um sujeito está casado há 5 anos e sua mulher não consegue engravidar. Ambos procuram um médico e este pede vários exames, entre eles um espermocitograma. O resultado chega em uma semana, o médico passa os olhos e logo “mata a charada”: Zero espermatozoides. O médico então calmamente explica ao paciente que ele tem “azoospermia”, que é estéril, que não há nada a fazer, que é o destino, talvez uma parotidite na infância que passou despercebida. É isso. Não adianta fazer nada. “Sinto muito”, diz ele.

O paciente escuta e sai sem se despedir. Fica magoado, triste e decepcionado com a frieza e a falta de sensibilidade do médico. “Como pode dizer isso sem levar em consideração todos os sentimentos envolvidos? Como pode ser tão frio, sem emoções, sem comiseração ou dó? Um coração de pedra”.

Sai do consultório e marca um atendimento com outro médico, desta vez particular e pagando uma pequena fortuna. Chegando lá explica o caso para o “bam bam bam”, e finalmente mostra os exames. O médico olha, reflete, sobrevoa os números do papel, passa a mão no queixo e começa a contar uma história. Depois emenda uma piada, e mais outra e por fim terminam ambos dando gargalhadas.

O paciente deixa o consultório e abraça o médico, como se fossem velhos amigos, e a sua mulher, que ficara aguardando na recepção, pergunta ao marido afinal o que havia acontecido e qual era o diagnóstico. Seu marido, ainda rindo das histórias que o médico contara, responde:

– Ele disse pra eu não me preocupar por que não tenho p*rra nenhuma.

Ok, eu avisei que era uma bobagem e que era uma piada chula, mas peço que a partir dela me permitam fazer uma digressão. Eu recordei dessa piada porque hoje, mais uma vez, ouvi um relato que se repetiu durante 40 anos de escuta sobre as histórias de pacientes e seus médicos.

A história de hoje também é triste e envolve diagnósticos desagradáveis. Uma moça vai ao médico do convênio com um sangramento no inicio da gravidez conjugado com um pouco de cólica. O médico faz um exame, constata um colo uterino fechado e pede uma ecografia. Algumas horas depois ela volta e traz o exame que mostra um hematoma atrás da placenta e um cisto no ovário. Por ser uma gestação muito inicial o bebê não foi visto.

O médico então explica que o esse sangramento pode ser um início de aborto espontâneo, que o hematoma pode crescer ou estacionar e que o cisto não é nada, pois é normal na gravidez. Diz isso em uma única frase. Olha para o papel à sua frente e pede para ela voltar em duas semanas para ver se a gestação “vingou ou não”. Levanta-se e lhe indica a porta de saída.

Ela sai da consulta furiosa. “Como assim, vingar a gestação? Isso é forma de se referir a uma gravidez, um bebê… o meu filho? Ele poderia ter sido delicado, explicado com gentileza e cuidado. Esse médico é um carniceiro, desumano, animal,…”

É importante lembrar que ela teve uma perda há poucos meses e temia que fosse a mesma história se repetindo. Estava angustiada, sensível, amedrontada. As palavras do médico caíram como uma bigorna em seus ouvidos. Chegou em cada chorando, amaldiçoou o médico e suas próximas três gerações. Só então me ligou.

Ela contou toda a história mais uma vez. Mandou os exames por WhatsApp e pediu minha opinião. Escutei tudo com atenção e percebi – porque a conheço bem – que a questão principal era como lidar com suas emoções afloradas. E é exatamente aqui que entra o nó da história.

Tudo que eu poderia dizer objetivamente era repetir o que já havia sido dito. Não havia muito mistério neste caso do ponto de vista diagnóstico e prognóstico. Eu concordei com as palavras e as condutas propostas pelo médico do convênio. Agora eu estava na posição do velho urologista da piada infame, diante de um caso claro, mas o que poderia eu dizer?

Respirei fundo e resolvi explicar pausadamente cada detalhe do exame e o que pode ser feito. Procurei ser claro, didático, sem ser paternalista, sem dar falsas esperanças, sem mentir, sem dourar a pílula, mas sendo atencioso e realista.

Ela sentiu-se aliviada e ficou de ligar para outras orientações caso achasse necessário. Percebi que ela estava mais confiante, menos angustiada e mais tranquila ao me ouvir dizer – de uma forma diferente – o mesmo que já lhe havia sido dito.

E aí fica provado que a Medicina não é uma ciência, mas uma arte. Como a pintura – uma arte que usa da química das cores para se expressar – a Medicina é uma forma de artesanato que usa as ciências biológicas para tomar corpo e aplicá-las na cura das enfermidades. Olhar para a Medicina como numa técnica é empobrecê-la, tirando-lhe o brilho e a transcendência.

Porém, há que se considerar que essa conexão do médico com o paciente é uma via dupla. O paciente precisa encontrar no profissional essa conexão de transferência, o reconhecimento de um suposto saber, mas o médico precisa responder com empatia, sem a qual sua ação se torna estéril, como uma boa semente que jaz sobre a pedra fria.

Muitas vezes nossas palavras e ações são cuidadosas e delicadas, mas por mais que haja dedicação, a falta de confiança (em especial com profissionais desconhecidos, como os plantonistas) impedirá que uma conexão produtiva se estabeleça. Outras vezes, a falta de empatia do profissional poderá barrar qualquer possibilidade de cura – ou alívio – da angústia experimentada. É importante reconhecer que muitas vezes não há nada que o médico possa dizer para gerar uma resposta positiva, enquanto em outras qualquer coisa que venha a dizer – inclusive repetir o que já foi dito – será entendida como positiva.

A sabedoria para agir nestas situações é arte que se aprende em décadas, mas muitas vezes ela parece menor aos nossos olhos, tanto quanto ocorre com algumas pinturas cuja elaboração foi fruto de anos de amadurecimento artístico, mas que muitas vezes passam invisíveis à nossa atenção.

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Biografia

Quando eu lançar minhas memórias definitivas as publicarei com um pseudônimo charmoso (pensei algo como “Bertrand du Belmont”) e com o subtítulo “biografia não autorizada”. Mais ainda, vou inserir algumas passagens falsas (ou verdadeiras) para irritar, causar escândalo e posteriormente ser cancelado por grupos identitários. Espero que com essa estratégia será possível transformar um retumbante e espetacular fracasso em um sucesso editorial, alavancado pelos meus próprios inimigos, a quem ficarei eternamente agradecido.

Max, comunicação pessoal, ontem pela manhã, enquanto chovia

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Webinário

LANÇAMENTO DE CURSO

Todos os dias vejo o anúncio de novos gurus da internet dando cursos de qualquer coisa. De “como ganhar dinheiro sem fazer força” até “salgadinhos deliciosos gluten-free”. Pensei se poderia ser possível eu entrar nesse mercado promissor dando aulas pelo YouTube sobre algo que conheço bastante. Existe muita gente jovem e bonita oferecendo estes seminários, mas ainda acho que algumas pessoas se interessariam por um coroa falando de um assunto magnetizante. Aí lembrei que tem uma coisa que eu sou (reconhecidamente) MUITO bom:

Sim, lavar a louça

Achou estranho? Pois alguns dirão que é fácil, tranquilo, não precisa prática e nem habilidades especiais. “A inveja é uma merda”, eu sei. Pois eu respondo que qualquer um constrói um abrigo, mas precisa ser mestre para construir uma casa. Você pode passar a vida inteira lavando a louça como qualquer um, mas agora tem a oportunidade começar a fazê-lo com qualidade e de maneira otimizada.

Elaborei um seminário composto de 5 aulas com dicas e truques para a lavar louça com o máximo de eficiência e o mínimo de esforço, com economia de água e ajudando o meio ambiente.

Abaixo apresento a ementa do curso:

*Aula 1*
– Pré socráticos e a busca da essência da limpeza,
– Platão e mito do sabão,
– Aristóteles “sobre os restos”.
– Kant e a teoria da suficiência,
– Freud e a função paterna nas tarefas infantis,
– Limpeza e modernidade em Derrida.

*Aula 2*
– Sujeira – conceito,
– Iniciando a limpeza pesada,
– Escolha de saponáceos,
– Barra ou líquido? (sob a perspectiva de Bauman),
– Bombril e palha de aço – ainda fazem sentido?,
– Ariação – história, conceitos, perspectivas.

*Aula 3*
– Ordenação e organização da pia – a pré limpeza,
– “Método Ric J” de ordenação de objetos sujos,
– Panelas e pratos (rasos e fundos),
– Métodos de esfregação:
* circular de Ritgen,
* elíptico de Trusseau ou
* ziguezague de Patulle
– Talheres – esfregação vertical ou lateral?,
– Conchas, espátulas, seguradores – como limpar?,
– Pia, sabão, facas e copos – princípios de segurança,
– Esponjas I – quando usar a face verde.

*Aula 4*
– Sabões – química da saponificação,
– História: Sapólio Radium – apogeu e queda,
– Sabão em barra – uma epopeia de sucesso?,
– Detergente líquido – uma metáfora contemporânea?,
– Espuma – prós e contras,
– Enxágue simples e combinado,
– O problema da água,
– Esponjas II – quando usar a face amarela.

*Aula 5*
– Armazenagem posterior vertical
– Armazenagem posterior horizontal
– Secagem imediata x secagem natural (aeração)
– Arrumação imediata e posterior
– Panos de prato – sim ou com certeza?
– Ética – quanto cobrar? Por quê?
– O mito da pia limpa.

Bônus para assinantes: como trocar o vídeo do YouTube ou a música do Spotify com a mão molhada e ensaboada sem danificar o smartphone.

Serão fornecidos certificados
Investimento: 500 reais

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