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Água e civilização

A MESOPOTÂMIA

Em função de uma característica peculiar – nosso cérebro avantajado – foi necessário ao ser humano desenvolver um sistema de arrefecimento de temperatura mais eficiente do que aqueles dos nossos primos que vivem nas selvas, os grandes pongídeos (gorilas, orangotangos, chimpanzés e gibões). Apesar de não pesar muito mais do que 1 kg nosso cérebro é responsável por 20% do calor produzido pelo corpo, e o sobreaquecimento do cérebro pode ocasionar lesões e perda de funcionamento, até mesmo coma e morte. Por esta razão o ser humano perdeu seus pelos para produzir um sistema mais rápido e eficaz de diminuição de temperatura: a transpiração. Esse mecanismo se produz através da perda de água pelas glândulas sudoríparas produzindo uma lâmina de umidade sobre a pele que, ao entrar em contato com o ar e evaporar, leva consigo água e calor, baixando a temperatura do corpo. Esse é um mecanismo muito mais eficiente do que aquele da imensa maioria dos mamíferos – como cães e primatas da selva – que o faz através da respiração. Mas essa modificação nos impôs uma séria restrição: a necessidade imperiosa de água para o funcionamento desse sistema.

Esse preâmbulo serve para mostrar que a espécie humana é extremamente dependente de água para o próprio funcionamento cerebral, pois que para produzir cérebros grandes era necessário um sistema que diminuísse sua temperatura com rapidez e eficiência. Em uma analogia moderna, para que o núcleo do computador seja rápido tornou-se necessário criar pequenos ventiladores para arrefecer sua temperatura, caso contrário…. “tela azul”, e o núcleo se apaga, como nosso cérebro. 

Por esta razão as civilizações se desenvolveram na proximidade de grande mananciais de água potável. O crescente fértil se situa entre dois rios muito importantes, o Tigre e o Eufrates, e pela sua abundância de água – portanto, de vida – tornou-se o local ideal para o início das primeiras civilizações. As cheias que ocasionalmente ocorriam nestes rios produziam a inundação das regiões próximas, levando lodo, umidade, nutrientes, microrganismos, espécies aquáticas e seus predadores, produzindo um “humus” extremamente poderoso para o crescimento da vegetação. Posteriormente, esse fluxo de nutrientes produziria solos ricos para a grande revolução que se aproximava: o surgimento da agricultura, a domesticação de espécies animais e vegetais, o sedentarismo e o sentimento de posse (animais, plantas, terra, matrizes).

Essa modificação radical na relação do homem com a natureza, chamada de Revolução do Neolítico, teve repercussões em todos os aspectos das sociedades humanas, levando ao que conhecemos hoje como sociedade patriarcal, onde não apenas as colheitas, os animais e as terras precisavam possuir um dono e serem por ele cuidados, mas também  as mulheres, matrizes, que por estarem fragilizadas pelas múltiplas gravidezes, amamentação e o cuidado com as crias precisavam ser protegidas pelos homens, que passaram a estabelecer sobre elas um domínio – até os limites da opressão – que se mantém até hoje.

Por certo é que o surgimento das primeiras civilizações nas regiões adjacentes ao Crescente fértil não foi um fato aleatório. A abundância de mananciais de água e as enchentes que traziam nutrientes para as regiões próximas aos rios fizeram desse um local extremamente propício para a grande aventura da agricultura e do sedentarismo que estava para se iniciar.

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