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Masterchef

Hoje abri minha TL e vi no mínimo cinco comentários sobre a final do “MasterChef”. Eu nunca assisti nenhum capítulo desse programa, mas não porque tenha algo contra as comidas e seus preparos. Creio mesmo que culinária é alquimia, a forma de fazer comida é uma Arte (com A maiúsculo mesmo) e porque acho que o ato de comer em conjunto é uma conquista civilizatória essencial que estamos perdendo. Aliás, “A Festa de Babette” é exatamente a minha visão do que seja o alimento e seu sentido social. Entretanto, não assisto esses programas porque me sinto muito mal assistindo competições televisivas. Acho uma tremenda manipulação dos nossos sentimentos de identificação com os participantes. Todavia, uma coisa ficou muito clara para mim:

Esse não é um programa sobre comida.

Entre os comentários que li não há uma menção sequer às comidas preparadas, nem sobre os pratos, quitutes,e receitas. Não estou criticando, apenas mostrando que os produtores sacaram desde cedo que um programa sobre comida atrai muito pouca gente, e apenas seria visto por alguns aficionados diletantes, cozinheiras e chefs. O MasterChef é um programa sobre PERSONALIDADES e RELACIONAMENTOS. A comida é apenas o pano de fundo. TODOS os comentários que li sobre o programa falaram das personalidades, das intrigas e dos relacionamentos dos participantes. Até agora não sei qual foi o prato preparado na final; pode ter sido pernil ou farofa, salada ou sobremesa de profiteroles. Entretanto, sei que isso não faz a menor diferença. O programa poderia ser sobre penteados ou sobre maquiagem e o formato seria o mesmo, apenas mudando o cenário.

Repito: o programa não é sobre comida. Se o show focasse na comida haveria comentários sobre ela – a maneira como foi feita, o aspecto, os ingredientes, o tempo, a sujeira na cozinha, a temperatura do forno, os utensílios, os temperos, etc – mas NINGUÉM comenta isso. As pessoas estão interessadas nos personagens, nas reações, nos contatos, na derrota e na vitória, nas manifestações, nas fofocas internas, nos olhares e nos SENTIMENTOS dos participantes. Quando eu falei dos penteados e da maquiagem lembrei exatamente do “RuPaul Drag Race” que é uma competição de Drag Queens que segue EXATAMENTE o mesmo roteiro de explorar as reações humanas conflituosas entre os participantes. Tem pouco a ver com penteados e roupas, e muito a ver com os sujeitos que emprestam seus corpos e almas para os vestidos e perucas.

Mas isso não é uma crítica a quem assiste, apesar de que as pessoas que ADORAM culinária poderiam ficar frustradas sobre o quão pouco se fala nos pratos e a ênfase desproporcional nos cozinheiros. Eu apenas me refiro ao fato de que “a mim não enganam” dizendo que o assunto é culinária. Não é e nunca foi o “prato principal”; comida não passa de um “side dish” para usar um termo adequado para o debate. E digo isso porque os produtores e criadores não são bobos: ninguém viria comentar de forma emocional – e por vezes apaixonada – uma rabanada, um filé ao molho madeira ou uma sobremesa de nozes, mas TODOS se interessam pelas reações humanas dos competidores. As vezes ao ponto de brigar.

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Big Brother de Comida

Sobre os “Reality Shows de Culinária”…

Escrevi sobre o tema há alguns meses dizendo que o programa tinha como pano de fundo cozinha e comidas, mas teria igual formato e quase a mesma audiência se fosse uma oficina de conserto de bicicletas. Nunca assisti o programa, exatamente porque não aceitaria ser enganado por um esquema tão óbvio.

Na época chamei de “Big Brother de Comida” e fui criticado. Não concordei com a crítica e mantive minha opinião. Em uma das edições a discussão ficou centrada no machismo dos concorrentes contra uma menina (que disse não ser feminista, mesmo tendo sido colocada nas alturas por estas).

Este episódio me comprovou que os concorrentes eram escolhidos por qualidades alheias às suas habilidades de fazer boa comida ou ao paladar aguçado, mas pela capacidade de gerar identificações com estereótipos (a tímida, o palhaço, o sóbrio, o pobre batalhador, o arrogante, a gordinha simpática, a bonita, etc) e a chance de gerar tretas e brigas sobre temas alheio à culinária. Essa interpretação dos programas de culinária me representa, mas sei que muitos vão continuar discordando de mim. Abaixo um fragmento do texto de Marcos Nogueira (na coluna Cozinha Bruta) publicado na Folha de São Paulo sobre estes reality shows gastronômicos:

“Quem liga a TV em um reality culinário não quer aprender a cozinhar. Tanto faz se queimou o “beef Wellington” do gordo simpático, ou se a menina que chora esqueceu o açúcar do merengue. O espectador está faminto pelo cardápio de maldades oferecido nos bastidores. As intrigas, as panelinhas, os conchavos.”

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