
Ele me falou o preço sem me olhar no rosto. Disse em voz baixa, por desintetesse ou quiçá descaso. O número era quebrado em noves, para enganar os sentidos, mas não podia fazer brotar algo da aridez dos meus bolsos. O vendedor já tinha me avaliado de cima abaixo quando entrei na loja. “Chinelão”, pensou, mas foi educado o suficiente para evitar que o pensamento descesse à boca. Não tentou sequer falar de parcelamentos, facilidades, prestações ou descontos. Era evidente que aquilo estava muito além das minhas possibidades.
Mas era preciso. Eu tentava não demonstrar, mas era evidente o quanto eu desejava aquilo. Ele também sabia, mas não podia descer o valor. Cumpria ordens, e a sua margem de desconto não faria muita diferença.
– É caro – falei, olhando para baixo. – Não digo que não tenha o valor que você diz, mas está muito distante da minha realidade.
O vendedor levantou o olhar da planilha à sua frente e o olhou para o homem com uma espécie de benevolência. Falou quase com doçura.
– Esse nem é o modelo mais caro, mas elas normalmente custam os olhos….
Interrompeu a frase pela metade para não ferir os sentimentos de um homem com óculos tão grossos, quase ofensivos.
O homem manteve-se em silêncio por alguns instantes. Olhou para o rosto do vendedor atrás do balcão, que se mantinha dividido entre a planilha e o monitor que cuspia dígitos à sua frente. Finalmente, o homem colocou os óculos “fundo de garrafa” no bolso do casaco, virou-se de costas, colocou as mãos sobre o rosto e ficou a remexer na sua face. Repetiu o gesto até escutar um clique seco. Voltou-se novamente para o vendedor, mostrou a mão espalmada à frente e falou:
– Vou ficar com ela. Pode embrulhar.