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Calar

Para que entendam:

Há uns 15 anos fui procurado por uma jornalista para falar sobre parto domiciliar para um jornal local, que nem existe mais. Na entrevista, falei o básico: direito de escolha, experiência internacional, estudos, pesquisas, protocolos, riscos, Holanda, Inglaterra, etc. Terminei a entrevista sem saber que haveria um contraponto, o qual foi feito por outro profissional. O convidado foi um representante do conselho médico, cesarista, bolsonarista e que sempre atacou os pressupostos da humanização do nascimento.

Mentiu sobre riscos, sobre taxas de parto domiciliar e sobre mortalidade neonatal no norte da Europa. Houve três grandes mentiras e algumas menores. Quando vi a matéria no jornal não me surpreendi: esse era mesmo o tom do debate nessa época. Mentir sobre o tema era o padrão entre os profissionais da obstetrícia, assim como ainda hoje se mente sobre o comunismo, a II Guerra Mundial, palestinos, etc.

Todavia, eu não estava preparado para ser chamado no conselho médico para ser punido por tratar desse assunto. A justificativa era que, se eu falasse de parto domiciliar em público, tal abordagem poderia convencer (seduzir seria um termo melhor?) as mulheres a esta abordagem, e isso causaria, na pior das hipóteses, riscos a mães e bebês.

Esqueçam os estudos, as provas, as metanálises, as publicações de vários países.  Nada disso tem valor, só o poder de proibir. Da mesma forma, na Palestina esqueçam os vídeos, depoimentos e laudos sobre o genocídio. O que vale é o poder de quem detém a força.

Na época escrevi uma longa defesa cujo centro argumentativo era (adivinhem) este: não é admissível que se possa censurar a livre expressão de uma ideia disseminada pelo mundo todo. Não seria justo com as mulheres esconder delas uma alternativa, sem que se usem argumentos consistentes e provas clínicas, e não o simples exercício abusivo do poder de silenciar dissidências.

“Se não concordam com esse pedido, que vem primariamente das mulheres, abram uma frente de debate acadêmico sobre o tema e vamos conversar. Podem até me calar, mas não vão silenciar todas as mulheres por todo o tempo”, foi o que escrevi como minha defesa.

Escrevi isso agora para que entendam que quando a gente quer censurar um cara por dizer uma merda gigantesca, defendendo o sionismo, o nazismo ou o mais inveterado machismo, a censura é absolutamente contraproducente. Mas existe algo ainda muito pior: quando censuramos – com a melhor das intenções – uma fala considerada abjeta, porque teoricamente poderia causar dano, abrimos as portas para, logo ali adiante, sermos as vítimas da censura. E aí, como vamos nos defender?

Não existe censura do bem. Toda a censura é uma autodeclaração de incapacidade. Nao se combate mentira com silêncio, mas com a verdade.

se voce falar em Israel que as mortes de 7 de outubro foram causadas pelos helicópteros Apache israelenses será censurado. Afinal, isso pode colocar a segurança do país em risco. Pense nisso.

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