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Calar dissidências

Há uns 15 anos fui procurado por uma jornalista para falar sobre parto domiciliar para um jornal local, que nem existe mais. Na entrevista, falei o básico: direito de escolha, experiência internacional, estudos, pesquisas, protocolos, riscos, Holanda, Inglaterra, etc. Terminei a entrevista sem saber que haveria um contraponto, o qual foi feito por outro profissional. O convidado foi um representante do conselho médico, cesarista, bolsonarista e que sempre atacou os pressupostos da humanização do nascimento. Mentiu sobre riscos, sobre taxas de parto domiciliar e sobre mortalidade neonatal no norte da Europa. Houve três grandes mentiras e algumas menores. Quando vi a matéria no jornal não me surpreendi: esse era mesmo o tom do debate nessa época. Mentir sobre o tema era o padrão entre os profissionais da obstetrícia, assim como ainda hoje se mente sobre o comunismo, a II Guerra Mundial, palestinos, etc.

Todavia, eu não imaginava que, por causa dessa entrevista, fui chamado no conselho médico para ser punido por tratar desse assunto. A justificativa era que, se eu falasse de parto domiciliar em público, tal abordagem poderia convencer (seduzir seria um termo melhor?) as mulheres a esta abordagem, e isso causaria, na pior das hipóteses, riscos a mães e bebês.

Esqueçam os estudos, as provas, as metanálises, as publicações de vários países.  Nada disso tem valor, só o poder de proibir. Da mesma forma, na Palestina esqueçam os vídeos, depoimentos e laudos sobre o genocídio. O que vale é o poder de quem detém a força. Na época escrevi uma longa defesa cujo centro argumentativo era (adivinhem) este: não é admissível que se possa censurar a livre expressão de uma ideia disseminada pelo mundo todo. Não seria justo com as mulheres esconder delas uma alternativa, sem que se usem argumentos consistentes e provas clínicas, e não o simples exercício abusivo do poder de silenciar dissidências. Se voce falar em Israel que as mortes de 7 de outubro foram causadas pelos helicópteros Apache israelenses será censurado. Afinal, isso pode colocar a segurança do país em risco. Pense nisso.

“Se não concordam com esse pedido, que vem primariamente das mulheres, abram uma frente de debate acadêmico sobre o tema e vamos conversar. Podem até me calar, mas não vão silenciar todas as mulheres por todo o tempo”, foi o que escrevi como minha defesa.

Escrevi isso agora para que entendam que quando a gente quer censurar um cara por dizer uma merda gigantesca, defendendo o sionismo, o nazismo ou o mais inveterado machismo, a censura é absolutamente contraproducente. Mas existe algo ainda muito pior: quando censuramos – com a melhor das intenções – uma fala considerada abjeta, porque teoricamente poderia causar dano, abrimos as portas para, logo ali adiante, sermos as vítimas da censura. E aí, como vamos nos defender?

Não existe censura do bem. Toda a censura é uma autodeclaração de incapacidade. Nao se combate mentira com silêncio, mas com a verdade.

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Apagamentos

A ideia de falar sobre qualquer tema sem freios e com plena liberdade ainda causa controvérsias. Para muitos, em especial para a esquerda identitária, alguns debates são opressivos, pois ofendem grupos oprimidos e podem gerar dano. É o que se chama “palavras que matam”, ou “discurso de ódio”. Isso está por trás de projetos como o da Misoginia ou o famigerado projeto para criminalizar críticas a Israel, pois levariam ao antissemitismo e ao holocausto.

Para quem defende essas pautas existem temas que não podem ser expressos publicamente. Por essa lógica, não poderemos falar de coisas que podem afetar negativamente as pessoas. Tipo, comunismo. Não pode falar, afinal o comunismo “matou milhões”. Não podemos criticar Israel, pois…. ora, Holocausto. Não podemos falar da ditadura militar pois ela salvou o Brasil do… comunismo, ora. E a lista vai ao infinito, mas chama a atenção que o rol de proibições é feito sempre por quem tem poder de calar a voz dos outros.

Talvez alguns não entendam minha reação alérgica à censura, isso porque são muito jovens. Já eu sou do tempo em que as mentiras eram combatidas com a verdade e não com a censura. Aliás, levei borrachada da Brigada Militar por dizer “censura nunca mais”. Ora vejam só que ingênuo eu era. A censura, como debate público, ressurgiria com muita força exatamente na esquerda e entre os movimentos identitários ali inseridos, nos dando a entender que censurar, afinal de contas, poderia ser uma… coisa boa. “Vamos proteger minorias criando uma blindagem do discurso para eles”, mas só para eles. Homens héteros, brancos e cis são os nossos ‘inimigos” e para eles continua valendo a nossa natural virulência. Essa precisa permanecer assegurada.

Opressão mata mesmo, mas a opressão verdadeira, não os “gatilhos”, as “palavras mortais” ou o “discurso de ódio” – um conceito vago e impreciso exatamente para poder caber nele o que nos interessa. Opressão é matar palestinos, é fome, bloqueio, invasão, violência, miséria, e não chamar um cara de “viado”. O fato de algo ser ofensivo e preconceituoso não significa que ele é ilegal. As palavras precisam ser livres, incluindo aí as ofensas, pois sem isso obstruímos o debate, moralizando o discurso e impedindo que ele chegue nas feridas mais profundas da sociedade.

Por último, a ideia da “censura do bem” é um erro brutal sobre o funcionamento psiquico humano. Parte da ideia de que, se uma coisa não é dita ou não é escrita, ela pode enfraquecer e até desaparecer. Será que Freud precisa reencarnar para nos ensinar de novo sobre o “retorno do recalcado”? Será que as pessoas não viram que os partidos comunistas sempre foram proibidos e estão cada vez mais fortes? Não notaram o recrudescimento das células nazistas apesar de organizações e símbolos serem proibidos há décadas? Não perceberam o quanto proibir homossexualidade é absurdo? E, por fim,  não perceberam o quanto silenciar a expressão de inconformidade apenas atrasa o surgimento das ideias, fazendo-as retornar ainda mais poderosas?

Liberdade de expressão é quando alguém diz o que você não quer ouvir. Sem tratar esse valor como sagrado, todos os outros direitos fundamentais são atingidos. E quem não consegue combater nazismo, sionismo, machismo e qualquer outra ideologia apresentando argumentos tenho uma má notícia: você não acredita na sua verdade, por isso quer tanto destruir a fala de quem se opõem a ela.

Proust fala sobre isso em um de seus livros, “A Fugitiva” (Albertine Disparue). Nele, o narrador, Marcel, vive a perda de Albertine, que o abandona inesperadamente. A partir daí, ele tenta obsessivamente recuperá-la e compreender sua partida, recorrendo inclusive a intermediários e procurando descobrir detalhes sobre a vida dela. A situação muda radicalmente quando recebe a notícia da morte de Albertine. É aqui que quero chamar a atenção para a opção de Marcel. Ao invés de censurar seus sentimentos, jogou-se a eles para entender seu significado. Ele sabia que escondê-los seria um erro, pois sua fúria acabaria voltando. Ou seja, ao invés de apagar as lembranças e tentar esquecer a mulher que o abandonou fez exatamente o oposto: foi atrás dela para entender sua fuga, e só assim, confrontando a realidade dura, ser capaz de superar seu luto. Essa é uma aula memorável de Marcel Proust ao mundo (e à psicanálise): de nada adianta apagar ou calar aquilo que nos desagrada; a única solução é a superação, e esta só ocorre por meio da confrontação.
 

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Discurso de Ódio e Direitos Absolutos

Perceberam como o uso da expressão “nenhum direito é absoluto” sempre aparece quando se torna necessário encobrir uma ilegalidade ou um abuso cometido contra direitos fundamentais – em especial o direito de livre expressão? Tipo, rejeitam a fala de um sujeito ou sua manifestação controversa e, na ausência de argumentos satisfatórios, apresentam o silenciamento, argumentando que este preceito constitucional nao pode ser “levado aos extremos”, e que não é um “direito absoluto”.

Outra forma de atacar a liberdade é acusar as críticas ferozes de serem “discursos de ódio”. E desde quando o ódio passou a ser proibido? Como estes “arautos da paz” acreditam que os países e os povos se libertaram da opressão e da escravidão? Por acaso creem que as tiranias – todas elas – foram abolidas com discursos, abaixo-assinados ou tapinhas nas costas? Como negar a potência transformadora do ódio para remover estruturas recalcitrantes e opressivas? Por qual razão achamos razoável criminalizar a inevitável aspereza das palavras, as adjetivações duras e os ataques severos, se isso faz parte da linguagem humana?

Pois eu afirmo que as acusações de “discurso de ódio” e a defesa da inexistência de “direitos absolutos” são estratégias conservadoras, usadas para que verdades nao venham à tona – ou demorem a aparecer na superfície do discurso. A falácia do “discurso de ódio” é amplamente usada para bloquear as críticas ao Estado Terrorista de Israel, criando a ideia de que a mera análise crítica e acusatória ao colonialismo na Palestina é um ato racista e moralmente condenado. O mesmo ocorre com os outros identitarismos, onde criticar mulheres, negros, trans ou gays virou crime de ódio, mesmo que as críticas sejam direcionadas exclusivamente à sua atuação profissional ou política. E se o sujeito reclama do cerceamento do seu direito de expressão recebe como resposta: “nenhum direito é absoluto” e pronto.

Um projeto político que não encare de frente a proteção do sagrado direito de livre manifestação não pode ser considerado de esquerda, e muito menos socialista. Quem prioriza seus vínculos identitários, colocando-os acima da plena liberdade, sem estes subterfúgios oportunistas, não terá moral para reclamar quando sua voz for definitivamente silenciada.

Como dizia Rui Costa Pimenta, sou do tempo que a mentira era combatida com a verdade, não com a censura.

* As imagens que ilustram esta postagem são do tempo em que eu, ainda menino, acreditava no fim definitivo da censura. Acervo da UFRGS.

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Silêncio

Se você quiser saber onde existe uma fraude, vou te apresentar uma boa dica: procure os assuntos que você está proibido de debater. Tipo, holocausto judeu e palestino. Também agora o caso Maria da Penha. Quando pessoas são presas por dizer sua perspectiva ou porque desejam descobrir a verdade, isso deveria ligar um alerta. Quando sofrem agressões e boicotes simplesmente por tocar nesse assunto é porque alguma coisa está sendo escondida.

Ao que tudo indica, muitos ainda aprovam a censura, desde que seja para o que consideram ser “o bem”. O problema dessa seletividade é determinar quem determina o que é bem ou mal, verdade ou mentira. Hoje calam o marido da Maria da Penha. Amanhã será o comunista, como já fizeram milhares de vezes. Depois será o cidadão comum reclamando de qualquer coisa. Liberdade de imprensa é falar o que muitos não querem ouvir; sem isso teremos apenas censura. E quem acha que a liberdade só pode ser “relativa” apenas entenda que essa é a brecha lógica que um dia vai impedir que a verdade seja dita.

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É proibido…

Quando alguém lhe perguntar porque o proibicionismo não funciona podem citar o caso do marido da Maria da Penha. Aposto que 90% das pessoas não sabiam que o caso é cercado de inúmeras controvérsias, inclusive gravitando em torno do núcleo central do processo: a ausência de provas que confirmaram o dolo. As pessoas tomam a Maria da Penha como heroína e seu marido como um monstro, e as primeiras informações do caso realmente permitiam esta perspectiva. Entretanto, depois da proibição, muitas pessoas agora desejam se informar melhor sobre o caso e inclusive gostariam de assistir o tal documentário produzido pela fascistalha do BP.

A verdade é que estas proibições não funcionaram com o cristianismo, com os movimentos burgueses, com os separatistas, com os independentistas, com os nazi e muito menos com os comunistas. Pior: demonstram que quando se proíbe algo é porque existem interesses escusos na manutenção de uma única versão, e a investigação poderia trazer verdades inconvenientes à tona.

Sabe quem mais desejaria que o Herédia falasse? Maria da Penha. Seja porque ela nada teme ou porque impedi-lo de falar vai fazer todo mundo questionar porque o sujeito precisa ser calado.

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Dona Solange

Vejo Dona Solange por todos os lados. Ela costumava se esconder, mas eu sempre a via. Sempre com a canetinha vermelha na mão, como um chicote, caminha de um lado para o outro, olha atrás das portas, abre gavetas, revira os armários. Seu vestido comprido, seu cabelo curto de menino e seu óculos redondos, tipo “pince-nez”, vagueiam pelas salas e quartos, passeiam pelas cozinhas e banheiros, se enfiam nas frestas das palavras, abrindo buracos que se enchem com o fel vermelho de sua caneta. “Isso não pode!” – grita ela, grudando no rosto uma máscara raivosa. Cruza os braços indignada, bate os calcanhares e dá meia volta.

Depois de crispar a boca e os dentes durante um dia inteiro ela volta para casa, cheia de dores nas mãos, abre a revista de moda, passa um batom sobre os lábios finos, voa até as nuvens e sonha com rendas, lingerie, cosméticos e um anjo de músculos fortes que a agarra pela cintura e lhe chama de “Sol”.

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Gol Contra

Esta semana as redes sociais foram sacudidas pela entrevista do compositor João Bosco ao jornal O Estado de São Paulo. Em sua fala ele criticou a patrulha ideológica identitária e as críticas a uma música sua, “Gol Anulado“, que descreve uma mulher que vibra com o gol do Zico. Seu marido, contrariado por ser vascaíno, bate nela “até cansar”. A reação de censura à violência explícita da letra provocou o comentário de João Bosco, mas o debate mostrou de um lado o próprio compositor defendendo a liberdade de retratar a sociedade daquela época (50 anos atrás) e do outro grupos identitários que reclamam de uma suposta banalização da violência contra a mulher.

Ao meu ver, a explicação do João Bosco e seu posicionamento contra a patrulha identitária são perfeitas. O que se vê agora é um monte de gente tentando usar um dos maiores compositores do Brasil como escada para fazer vídeos na Internet e lacrar, usando essa divisão para ganhar notoriedade. Aliás, esse debate é igual ao debate da direita que defende a pena de morte: se você se posicionar contra a pena capital, então é automaticamente a favor de bandidos e do crime. Neste caso da música de João Bosco, se você abomina a censura e defende a liberdade de expressão ampla, você esta ao lado dos espancadores de mulheres. Falso dilema, perceberam?

Essa esquerda liberal – que adora censura – acredita que se você não falar de alguma coisa ruim esta coisa desaparece. Basta não falarmos de violência e…. pufff, acabam as guerras, as lutas, as agressões e os ataques covardes. Estamos diante de um real delírio identitário: ao invés de expor a realidade, apresentar os problemas, trazer o pus à flor da pele, escondemos, censuramos, cerceamos, calamos e proibimos palavras e pronomes. João Bosco descreve um personagem em suas músicas!!! Woody Allen também, Machado de Assis e Chico Buarque idem. Como censurar literatura e música baseando-se nessa leitura torta e oportunista dos identitários? Como aceitar que um personagem não seja a imagem exata de um problema social? Como podemos, no século XXI, defender abertamente a censura mais abjeta, que amordaça a arte e detém a transformação social?

Pois quando alguém perguntar as razões do crescimento da extrema direita aqui teremos um bom início de conversa. Sou um sobrevivente dos anos de chumbo e lembro bem do clima da época da ditadura militar. Naquela época gritávamos contra a censura, que usava da violência para nos calar a voz. Se não aceitávamos que milicos grosseiros e ignorantes passassem caneta vermelha nas nossas músicas, por que deveríamos aceitar a censura dos identitários? Por que continuamos a aceitar que o neoliteralismo empobreça nossa literatura? Leiam as justificativas de hoje para calar os artistas: o bem maior, o drama da violência, as ideias que ameaçam a estrutura da família. Estas não passam de ecos tétricos das desculpas de ontem! Tanto antes como agora estas vozes representam as forças conservadoras, a serviço da direita. Enquanto isso, a esquerda está cada vez mais parecida com o que outrora combatia, tornando-se paulativamente mais moralista, antidemocrática, censuradora, oficialista, oportunista, identitária e desconectada dos reais desejos nacionais.

Censurar músicas? Sério? E a literatura? Cinema também? Revisonismo identitário?

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Censura, de novo

Deixa eu entender: a esquerda quer votar uma lei para censurar as pessoas quando falarem mal de mulheres, é isso? Curiosa essa proposta. Na minha adolescência, nós comunistas lutávamos para extirpar o câncer da censura, porque ela impedia a livre expressão do nosso ideário. Pois agora (quem diria!), a esquerda quer ela de volta. No meu tempo as mentiras eram combatidas com a verdade, com o contraditório, no debate livre e aberto; agora a solução volta a ser aquela tradicionalmente apregoada pelos fascistas: censurar aqueles com quem não concordamos.

Ou seja, a fala idiota do neto do ditador, afirmando que “mulheres votam mal”, não poderia ser dita, e nunca saberíamos o que ele realmente pensa. Entretanto, dizer que mulheres votam mal não representa nenhuma ameaça à integridade física delas, a não ser que alguém consiga me provar essa ligação. Falar mal do Bolsonaro ameaça sua vida? E criticar as posturas do Lula? Quem inventou essa ideia de que palavras de crítica ou ofensas equivalem a ameaças de morte? Por que insistimos no combate às ofensas se elas fazem parte do repertório de manifestações humanas? Por acaso o ódio e as diferenças desaparecem quando somos impedidos de expressá-los?

E qual seria o benefício da censura? Positivo, nenhum, mas censurar faz crescer os laços de união entre aqueles que pensam diferente. O nazismo é proibido e censurado no Brasil e na Alemanha, e mesmo assim – e talvez por isso – multiplicaram-se as células nazi nesses países nos últimos anos. Vejam o que virou Santa Catarina e muitos bolsões supremacistas em São Paulo, agora lotados de núcleos de apoio ao nazismo. A censura estimulou seu crescimento nas sombras, onde a luz do debate e da livre exposição das ideias não consegue penetrar. Impedir que idiotas falem – nos limites da lei – é uma estupidez autoritária. Por certo que a incitação ao crime continua sendo ameaça criminosa, mas as criticas – mesmo as preconceituosas e idiotas – devem ser combatidas sem a judicialização, ferramenta controlada pelas forças burguesas da sociedade e que, exatamente por isso, servem apenas para encarcerar negros e pobres.

As mulheres não merecem ser tratadas como seres inferiores e incapazes de se defender.

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Censura e proibicionismo

Não gostou da piada? Corte a amizade. Não fale mais com o sujeito, não vá no seu show, cancele, reclame. Escreva um textão nas redes sociais denunciando a visão preconceituosa que ele dissemina. Temos nas mãos o poder de mostrar que esse humor não é engraçado, que não é construtivo e que se baseia em estereótipos inadequados. Porém, o desejo de calar e censurar os “humoristas do mal” deixa claro que as pessoas que apoiam tal censura não acham que podemos fazer boas escolhas. Na verdade, acreditam que a proibição pode ter efeitos positivos, e pensam ser mais efetivo combater a mentira com a censura, ao invés de oferecer a verdade como contraponto. Não ensinamos a chapeuzinho vermelho a fazer boas escolhas, pois achamos mais certo perseguir todos os lobos. Lembrem que, da mesma forma, o samba já foi proibido, pois havia a ideia de que sua prática incentivava a vagabundagem. Alguém acha ainda que o samba produz preguiçosos?

Vejo que as pessoas têm dificuldade de entender é que o humor de um comediante não produz nada, ele apenas reflete os valores e crenças de uma determinada sociedade. As pessoas que vão no show do comediante Leo Lins não se tornam racistas ou preconceituosas devido às palavras e piadas que escutam no show; o Leo Lins não tem esse talento, não tem esse poder de conversão e muito menos essa capacidade. Todavia, não há dúvida que ele atrai os racistas e reacionários para o seu show, provavelmente os mesmos que se exaltam nas motociatas de líderes fascistas, pois as pessoas sabem com precisão o conteúdo que será oferecido. Da mesma forma, uma missa não converte ninguém a Jesus, mas oferece um local de encontro para os aqueles crentes que há muito desejam exercitar a fé num Salvador.

A prisão ou a penalização desses comediantes, políticos, partidos, programas, religiosos não acabará com a audiência, não vai sequer diminuir o número de pessoas interessadas em suas ideias, apenas vai impedir que estas ideias sejam reconhecidas na sociedade. O mais triste é ver que a lógica usada aqui é a seguinte: se prendemos todos os gays e proibirmos que eles falem desse pecado mortal, os homossexuais vão desaparecer; se ninguém falar desses assuntos acaba tudo, eliminamos o problema. Acrescente a essa ideia punitivista as tentativas de perseguição ao comunismo, ao islamismo, ao álcool, e a ideia de acabar com o crime exterminando os criminosos.

Tudo isso já foi tentado, até mesmo hoje. Spoiler: não funcionou.

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Censura e silenciamento

Como a história cansa de nos dar lições, censurar para esconder as contradições da realidade jamais será solução para nada. Na questão dos algoritmos e do bloqueio de fake news todo mundo acerta no diagnóstico, mas quando é para apontar a solução, continuam apostando na velha alternativa do silenciamento, na supressão e na proposta de não permitir que os “fascistas” (no nosso caso) e os “comunistas” (no caso deles) tenham vez e voz. No fundo, essa proposta é o que classifico como o velho “modelo materno”, que se aplica quando a mantemos os protegidos (as crianças) num estrato onde não têm autonomia por não possuírem ainda condições para se defender. É o que as professoras fazem na escola primária: protegem os alunos do bullying e das brincadeiras maldosas, como uma mãe o faria, porque sabem que são crianças indefesas. O problema dessa proteção é que os protegidos se tornam o objeto do nosso controle. Em nome da sua segurança, impedimos que se tornem sujeitos independentes, evitando que o mal chegue a deles Fazemos isso porque acreditamos na sua incapacidade de lidar com as agressões e ofensas. De novo, como qualquer mãe amorosa faria.

Todavia, chega um momento em que as crianças pedem que as mães não cheguem à porta da escola. O cuidado e o controle que elas recebem das mães (e aqui “mãe” é a função, não a “pessoa”) torna-se um fardo. Não querem mais proteção; querem liberdade. Nesse momento é que entra o “modelo paterno” que, ao invés de impedir a chegada do mal, reforça as qualidades intrínsecas do sujeito para que ele possa, por si, se defender. Assim, ao invés de proibir as piadas com gays, pretos, gordos ou narigudos, o esforço será em reforçar o orgulho de pertencer a qualquer uma dessas identidades. Da mesma forma, ao invés de proibir conteúdo de extrema-direita, a solução seria estimular a perspectiva de mundo do sujeito socialista, internacionalista e fraterno, na construção de uma nova sociedade, assim como mostrar o ridículo das posições fascistas, racistas, sexistas e todas as expressões do fascismo. Entretanto, sem calar, sem cercear, sem proibir, pois nossa experiência com os preconceitos – todos – e mesmo o próprio nazismo deixam claro que as proibições são inúteis.

Isso não significa que não se pode proibir nada. É proibido violar a lei, e para isso as leis são criadas. Entretanto, opinião não é crime, mesmo aquelas perspectivas mais abjetas, como as racistas ou anti-LGBT. Se as proibições motivadas pela sensibilidade do ofendido forem tomadas como lei, chegaremos rapidamente a 1984 de Orwell, onde um Xandão qualquer pode dizer que ser a favor de parto normal (ou ser comunista) pode levar à morte de pessoas (ou ao “genocídio stalinista”). Para se configurar o crime não se exige mais um ato; basta pensar em voz alta e emitir opiniões. Se estas manifestações – repito, mesmo as bizarras – forem passíveis de silenciamento a delicada tessitura da democracia e do livre pensar desaba, pois que a expressão das ideias vai acabar dependendo do humor e dos valores de um títere qualquer que detenha o poder de discriminar o bom do mau, o certo do errado.

Boa parte das pessoas (a maioria?) ainda acredita que “calar os maus” faz sentido. São os mesmos que acham que linchar um criminoso na rua em flagrante é justo, pois, afinal, por que esperar por toda a burocracia da justiça se podemos fazer um “atalho”? Acreditam ser possível combater o crime com mais crime – como fizeram Moro e a Lava Jato. Estes acreditam que, quando calarmos à força quem de nós discorda, estamos corretos, pois o silêncio que se segue nos dá a ilusão do sucesso. “Veja como acabou o racismo, ninguém mais fala mal de negros!!”, quando em verdade este e outros preconceitos continuam na alma dos sujeitos, e seu preconceito se expressa apenas em sussurros, nos cantos, nas surdida, mas vivo e atuante. Repito: de que adiantou calar os comunistas? Que ocorreu com a proibição do nazismo? Olhem a Alemanha de hoje e o sucesso da AFD (Alternativa para a Alemanha)!! Vejam o bolsonarismo, vivo e forte. Analisem a vitória do Milei e de Trump!!

As proibições e o punitivismo são tão sedutores quanto inúteis. Os Estados Unidos – à mais bem sucedida ditadura burguesa do planeta – têm 2 milhões de encarcerados. Se o silenciamento social desses indivíduos tivesse algum sucesso, era de se esperar a diminuição dos níveis de criminalidade e violência, não? Pois o que se vê é o oposto; a tendência no mundo inteiro é o incremento da violência pelo fracasso das promessas do capitalismo. Da mesma forma, o silenciamento da livre expressão de teses contrárias ao nosso entendimento jamais teve sucesso. O proibicionismo sempre fracassou como instrumento pedagógico. Mas cabe lembrar que “Vamos matar o presidente!!não é uma opinião, mas um claro incitamento ao crime. Confundir isso é uma constante naqueles que não gostam da liberdade de expressão. Estes são os mesmo que dizem que gritar “fogo!!!” em um cinema lotado deveria ser proibido, pois colocaria todos em risco, mas sem compreender que “fogo” não é opinião e não expressa uma perspectiva subjetiva e particular do mundo. Essa metáfora é usada até hoje por juristas que desejam limitar a liberdade de expressão, dizendo que ela não pode ser “absoluta”, mas falhando em determinar a quem cabe a decisão final.

Estes que aceitam a “censura do bem” acreditam que ela é justa porque partem da crença que possuem a perspectiva correta do mundo e por isso não haveria problema em silenciar os “errados”. Isso muda de figura quando alguém, um poderoso, um ditador ou um ministro direitista consegue impedi-lo de expressar suas ideias “corretas”.

Aí talvez aí resolva voltar às ruas para exigir liberdade.

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