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Democracia

Tive uma ideia para criar a democracia perfeita no mundo, até para ser aplicada até aqui no Brasil. Imagine um país que criasse um sistema baseado no capitalismo, na propriedade privada e no lucro. Estes elementos seriam dogmas, imutáveis, não passíveis de discussão; uma sociedade de classes cristalizada para todo o sempre. Para controlar este sistema criamos um partido formado de proprietários, industriais, grandes fazendeiros, agentes do sistema financeiro; banqueiros e latifundiários. Esses representarão menos de 5% da população, mas terão controle sobre 100% do país. Esse grupo se manterá no poder indefinidamente porque nosso sistema vai dificultar (na prática impedir) qualquer forma de acesso a um representante dos outros 95% do povo. O método para obstaculizar candidaturas indesejáveis será através do controle econômico. Qualquer partido para alcançar o poder precisará de muito dinheiro para fazer campanha e se organizar em todos os Estados e cidades, mas o dinheiro será controlado por este partidão gigantesco e milionário, através das indústrias, da publicidade e dos bancos. Isso será uma barreira fatal para 99% de todas as iniciativas.

Esse partidão também controla tudo, desde o judiciário até a mídia, de forma que se um candidato surgido do povo – tipo um negro, um operário, uma jovem pobre, um funcionário público, etc, – alcançar este nível de popularidade, farão campanhas na TV diariamente dizendo que se trata de um ladrão, que roubou uma bicicleta, que tem negócios com bandidos, que mandou a amante abortar etc. Se a campanha não der certo, contratam a peso de ouro juízes e promotores que, por fim, colocam esse dissidente na cadeia, mas antes passam um verniz de legalidade em tudo que foi feito. Essa estratégia é tão inteligente que os pobres e os miseráveis a quem exploram vão fazer campanha para estes ricos, mesmo sendo evidente que o luxo com o qual estes últimos vivem é pago por eles, que se matam – literalmente – de trabalhar para garantir seus privilégios.

“Ah, mas é um partido só!! Isso não garante a diversidade e a alternância de poder. Isso não é democracia”.

Não tem problema algum. Já inventei uma solução: divido esse partidão ao meio e coloco nomes diferentes, para que todos pensem que um nada tem a ver com o outro. Um deles será, por exemplo, “Partido Legalista”, e o outro “Partido da República”. É sabido que os nomes dos partidos não guardam nenhuma relação com seu conteúdo programático, portanto os nomes são, em verdade, irrelevantes. Os dois são exatamente iguais, usam as mesmas ferramentas, se assentam sobre verdades estabelecidas (o capitalismo, o “livre mercado”, o lucro, a sociedade de classes, a expansão, a atitude policialesca sobre o mundo, o ataque a outros países, a exploração dos trabalhadores, a concentração insana de riquezas, o lucro sem controle, etc), mas discutem de forma violenta e agressiva questões periféricas como os pronomes, os banheiros unissex, os direitos gays, os direitos indígenas, o racismo, as campanhas para a comunidade trans, as leis de imigração, leis de proteção às mulheres, etc.

E assim o fazem de uma forma tão intensa e agressiva que todos terão certeza de que esses dois partidos não foram originados daquele partido único, burguês e patronal, e não restará dúvida alguma de que se trata de partidos legitimamente diferentes – e até mesmo antagônicos. Por isso a ação deve ser articulada com a mídia e com o judiciário, para que ninguém desconfie que só um único grupo de pessoas governa esse país desde sempre.

Que acham da minha ideia? Original, não?

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Decisões

Há uns trinta e tantos anos eu estava de plantão em um hospital quando adentraram na emergência dos pacientes baleados. O estado de ambos era crítico. A esposa de um deles contou que o bar onde trabalhavam foi assaltado e seu marido reagiu. Na troca de tiros ele foi atingido na cabeça, mas antes disso conseguiu acertar o bandido que invadiu o estabelecimento.

Eu era um estudante plantonista e fui designado para a neurocirurgia do dono do bar. Meu colega acompanhou o cirurgião para a outra cirurgia, na sala ao lado, a ser feita no assaltante que havia sido atingido no peito.

Ao entrar na sala soube que ambos os casos eram dramáticos. A cirurgia no cérebro é sempre delicada e seria minha primeira vez a acompanhar uma delas como auxiliar. Naquela época já era claro para mim que este tipo de trabalho jamais seria a minha rotina de vida, mas ainda assim era algo excitante e desafiador.

No meio da cirurgia nossa sala foi invadida pela dupla de médicos da sala ao lado. Abraçados e rindo alto gritavam “acabamos com o bandido!!!”. Entre risadas jocosas diziam que a cirurgia havia “corrido com perfeição”, e que suas habilidades foram colocadas à prova “com sucesso”. As risadas foram compartilhadas pelos cirurgiões da minha sala. Eu fiquei confuso…

Não sei o que aconteceu com o nosso paciente, mas lembro de termos terminado a cirurgia com ele vivo. A delicadeza do caso não poderia nos oferecer nenhuma garantia.

Entretanto, a reação dos médicos da sala do lado nunca saiu da minha lembrança. Prefiro acreditar até hoje que o paciente não resistiu à severidade e extensão dos seus ferimentos e que o que se seguiu foi apenas uma manifestação de humor diante do insucesso. Não conseguiria acreditar que médicos deixassem de usar seu talento para salvar uma vida guiados pelas considerações de caráter moral de seus paciente. Um bandido, um terrorista ou o Papa são iguais diante da ética que deve orientar o proceder dos médicos.

Não há nenhuma desculpa para quem revoga seu compromisso com a ética profissional. Os pacientes acreditam que não serão julgados por sua cor, religião ou condição social, inobstante o que tenham feito. Essa é a premissa que suporta a atenção médica. Até na guerra, o ferimento do inimigo vale tanto quanto os dos nossos soldados.

A sensação de estranhamento com esta cena me voltou à memória quando escutei essa semana pessoas defendendo a validade das ações de um juiz que liderava uma cruzada contra um partido. A mesma falha ética, o mesmo desrespeito com os elementos mais basilares da função social que desempenha. O mesmo abuso de poder baseado na crença de sua infalibilidade e superioridade.

Uma medicina que escolhe quem merece viver ou morrer é tão danosa e maléfica quanto uma justiça que decide pela culpa ou inocência baseando-se em valores alheios aos fatos julgados. Sem essa confiança na isenção nenhuma atenção será digna e nenhuma justiça será possível.

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