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Censura

Eu me acostumei a ver os humoristas brasileiros – em especial os stand-up da última geração – sendo acusados de fazer bullying contra grupos oprimidos. Pela vigência do “politicamente correto” com o tempo criaram-se lugares fechados, vedados ao humor, espaços proibidos às piadas, pois estariam ligados ao sofrimento de grupos por sua etnia, orientação sexual, identidade de gênero, deficiências físicas, etc. Aliás, praticamente TODOS os programas de humor dos anos 80 e 90 seriam proibidos atualmente.

É compreensível esse movimento. A empatia nos impulsiona a tentar proteger essas pessoas, como uma mãe faria com seus filhos. Este para mim é o padrão “maternal”, que protege criando uma cápsula da amor protetivo, impedindo as agressões que vem de fora. Por esta perspectiva, a censura poderia ser aplicada a qualquer, desde que esteja fazendo zombarias que incluíssem esses grupos. Seria uma “censura do bem”, para proteger sujeitos fragilizados dos ataques de uma cultura degenerada e excludente.

Apesar de entender, sempre me posicionei de forma absolutamente contrária a esta proposta. Não acredito que, em médio e longo prazos, qualquer censura possa ser benéfica. A censura sempre é a imposição de força de um grupo sobre a liberdade de expressão de um sujeito ou de coletivos. Da mesma forma como não existe “ditador do bem”, a censura falha em seu intento principal de livrar a sociedade de uma ideia que tenta se expressar, e com o tempo – por melhores que sejam suas intenções – ela mostra seu caráter opressivo e ineficiente.

O que é recalcado não desaparece, e sempre se fortalece.

Danilo Gentili foi um dos principais comediantes atacados por grupos identitários. Sofreu processos, ataques e violências por contar piadas. Apesar de ele estar no ponto oposto ao meu no espectro político, creio que ele está correto em sua perspectiva sobre o humor. Ele é vítima da censura que uma parte da esquerda faz e se tornou incansavelmente perseguido pelos identitários e pelas patrulhas de costumes, algo absolutamente medieval. A luta pela “hegemonia da ofensa” que ele denuncia é real, mas é preciso ser corajoso para se impor contra ela.

As punições que os stand-up receberam nos últimos anos são a imagem mais clara da absoluta falta de respeito com a liberdade de expressão que existe no Brasil. Acreditar que uma piada possa ser proibida daria arrepios na espinha de qualquer liberal que aceita as liberdades individuais como elemento fundador da democracia, mas no Brasil recebe aplausos até daqueles que repudiam o fascismo e se se acreditam democratas. Censurar uma música do Chico Buarque ou uma piada tosca do Rafinha Bastos tem o mesmo peso, pois na censura não há debate sobre o mérito e a qualidade da obra. Portanto, deveríamos reagir com a mesma energia contra qualquer uma destas arbitrariedades.

O grande problema com a proteção aos grupos “frágeis” é que a blindagem destes grupos – mulheres, gays, negros, deficientes, trans, etc – sobre o que se pode – ou não – dizer gera mais exclusão do que algum efeito pedagógico. Uma pessoa sobre a qual não podemos brincar com suas falhas (como fazemos todos os dias com filhos, netos e amigos) é alguém diferente de nós, frágil, intocável. Estes grupos passam a carregar o status de crianças, frágeis demais, demandantes de proteção. Existe um preço a ser pago se alguém se considera (ou é considerado) acima das críticas – ou abaixo delas. Se você não pode brincar com suas características, não vai conseguir proximidade. Entre os próprios protegidos existe reação, pois que o preço da proteção e a eterna imaturidade.

“Ahhh, mas negros, gays, loiras etc eram humilhados com piadas que os diminuíam”. Isso é verdade, mas a maneira de lidar com esse problema não pode ser a repressão, que só piora a exclusão – como bem nos ensinou Freud. A forma mais justa é, diante de um ataque contra estes grupos, valorizar o fato de alguém ser mulher, ser gay, ser negro, ser loira ou ter alguma deficiência e não excluí-los das piadas, pois estas auxiliam na criação de um fator especial nas comunidades humanas: a intimidade. Além disso, todos nós aprendemos desde muito cedo a diferenciar as piadas e seus contextos, em especial reconhecer quando a piada é um simples veículo usado para um ataque preconceituoso. Esta sim é deletéria, mas mesmo ela não se extermina com censura, apenas com educação e convivência. Aliás, o grande elixir para curar o preconceito é esse: jamais segregar, sempre estimular o conviver, que é a grande arma para derrubar os muros entre todos nós.

Tenho profunda admiração por humoristas que rompem essa barreira. Danilo Gentili tem meu total repúdio por sua postura política, mas minha solidariedade pelo direito de fazer e contar piadas sem a ameaça de ser censurado. Muitos outros humoristas enfrentam o bombardeio da “correção política” e se colocam como linha de frente da ampla e irrestrita liberdade de expressão. Entre eles, Rick Gervais e Dave Chappelle são os melhores exemplos de humoristas do politicamente incorreto, e por isso merecem minha admiração e respeito.

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A burguesia e seus candidatos

Tenho visto muitas queixas sobre os candidatos para as próximas eleições. Leio posts de sujeitos que acreditam que temos uma representatividade desqualificada, feita de subcelebridades, figuras midiáticas, gente sem qualidade e/ou preparo. Queixam-se das candidaturas de atores pornôs, palhaços, cover da Dilma, cosplay do Wolverine, youtuber, ex jogadores de futebol e vôlei, técnico de futebol, humoristas, viúvas de celebridades, cantores de axé, ex BBB, atriz aposentada, filhos de políticos, cantores bregas, etc. Por certo que estas queixas tem um caráter inequívoco de classe, como a dizer que apenas pessoas com “preparo”, curso superior, cultura e refinamento poderiam decidir sobre os destinos das cidades, estados e da nação.

Mas eu pergunto: qual o real problema desses personagens aparecerem na política?? Que tipo de crítica moralista é essa, e ao quê serve? Apesar de haver nestas candidaturas uma supremacia da “notoriedade” sobre o trabalho político, estes candidatos ainda são muito mais representativos do Brasil de verdade do que os playboys, os farialimers, os empresários, os militares, os pastores e seu “rebanho”, os policiais (em especial os justiceiros e fascistas) e os latifundiários do agro que ameaçam o meio ambiente. A mim esta interdição “cultural” é uma imensa tolice, uma forma de excluir as classes populares do debate nacional, um deboche contra o povo brasileiro e suas figuras populares, como se o fato de ser palhaço, jogador de futebol ou cantor fosse indigno e traduzisse uma incompetência para a política.

Tenho certeza que as pessoas que insistem nas críticas à “qualificação” dos candidatos jamais se escandalizaram com o fato de dois terços dos 513 deputados federais eleitos e reeleitos são empresários e profissionais liberais, segundo levantamento feito pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Isto é: dois terços dos representantes no Congresso não vivem de salário!!! Dois terços dos representantes parlamentares, aqueles que lançam e aprovam leis, não pertencem a classe trabalhadora. Na população em geral 10% dos brasileiros são empreendedores, mas no congresso são 66%. Para quem eles irão legislar??

Esses empresários e profissionais liberais vão cuidar da vida e dos proventos de todos brasileiros e exercerão controle sobre uma classe da qual pretendem se distanciar ou dar as costas. Todavia, esse tipo de disparidade típica das democracias liberais – um parlamento de ricos que controlam uma massa de pobres – não causa espanto, sequer nojo ou indignação. Já um ex palhaço parece insuportável.

A melhoria da nossa representatividade política jamais vai ocorrer em um sistema em que o gasto para ser deputado federal é altíssimo, completamente inatingível para um sujeito comum – mesmo da classe média. Um bom exemplo é o da Deputada Feederal Shéridan (PSDB-RR), que teve o valor mais alto na relação entre despesas e número de votos na última eleição (2018). Na disputa por manter sua cadeira no congresso federal ela recebeu 12.129 votos e declarou ter gasto R$ 2,3 milhões. Shéridan desembolsou R$ 190,22 por cada voto que conquistou.

Quem se escandaliza com isso? Por outro lado, o fato do sujeito ter sido atleta, ator pornográfico ou BBB parece ser inaceitável para a sensibilidade dos liberais meritocráticos ingênuos. Parece que ainda acreditamos que a classe burguesa tem melhores condições para gerenciar os destinos de uma nação, e existe um investimento pesado nesta crença. A forma mais simples e popular é debochar das candidaturas populares, de gente simples, de pessoas do povo e iguais a nós, da nossa classe. Quem pode esquecer o fato de que os candidatos do espectro de esquerda são tradicionalmente tratados como “cachaceiros” tão logo pretendam se candidatar?

A revolução do voto não será por aí; ela vai ocorrer pela real participação popular nos destinos do país, e isso jamais vai acontecer na vigência da democracia liberal burguesa. Para isso precisamos de uma revolução e um povo com a necessária consciência de classe para mudar seu destino.

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Rejeição

Há algumas semanas conversei com uma mulher sobre uma série de assuntos relacionados à sua gravidez e, depois de um certo tempo, ela fez um comentário de caráter político que me deixou curioso. Como ela tocou no assunto, resolvi espichar um pouco a conversa para entender onde ela se situava nesse espectro político. Por curiosidade, perguntei:

– Mas afinal, em quem você vai votar?

Ele fez uma cara de quem estava pensando e por fim, respondeu:

– Ainda não escolhi, mas vai ser qualquer um, menos o Lula.

Um pouco surpreso, perguntei a razão de eliminar preliminarmente o ex-presidente de suas preferências, ao que ela explicou:

– Não adianta, não gosto dele. E não adianta tentar me convencer do contrário. O Lula trata as pessoas como se fossem coitadinhas, incapazes, fracas. Eu jamais precisei de ajuda para chegar onde cheguei. Não é porque sou negra que preciso ser tratada como inferior.

Ela era, por certo, uma mulher negra de classe média baixa. Havia estudado, tinha acumulado alguns bens (normais para seu estrato econômico) e tinha seu próprio pequeno negócio. Perguntei como poderia ser essa a visão que tinha de um sujeito simples, nordestino, operário, etc. Na minha cabeça, era pouco compreensível que as pessoas mais prejudicadas por uma estrutura social injusta como a nossa rejeitassem o personagem que mais representa a esperança de reversão dessa dura realidade.

As respostas dela foram tão subjetivas que se tornam até inúteis para uma análise de suas causas. Falou coisas como “O jeito que ele olha para os pobres”, ou “as palavras (falsas) que usa para falar deles”, e até “essa mania de falar da própria mãe, pobre e retirante“. Eu me convenci de que não havia nada em sua fala sobre o que Lula havia feito de errado, mas seu rechaço se fundava sobre o que Lula é: um homem que, reconhecendo as dificuldades do povo mais oprimido – negros, pobres, mulheres, operários, gays, etc – lança sobre eles um olhar de reconhecimento e cuidado, mas que para alguns parece ofensivo.

Perguntei sobre os candidatos ricos, de outras classes sociais, preocupados com suas próprias realidades próximas, e como ela lidava com o fato de que nenhum olhar seria direcionado aos pobres e destituídos. Questionei também se ela entendia que esta rejeição a Lula nos levou a eleger um sujeito racista, homofóbico, misógino e que despreza os pobres e até a própria democracia. Sua resposta foi curiosa:

– Ora, todos são racistas; ele é apenas mais um. O Brasil é um país racista; você, lá no fundo também é – e não adianta negar. Esse presidente ao menos é sincero e verdadeiro. Transparente.

Por fim disse não aceitar nenhum tipo de postura, assim dita, assistencialista. Afinal, não é justo que os outros ganhem “de presente” o mesmo que ela batalhou tanto para alcançar. As ajudas do governo acabavam por diminuir o valor de tudo que ela havia conquistado em sua vida, algo inaceitável e injusto.

Isso me fez lembrar os médicos que reclamavam do pagamento dado às doulas. Um deles, antigo e reacionário membro do conselho médico local, dizia que as doulas eram como “verdureiras”, no sentido de atuarem em uma “profissão” sem qualquer regulamentação, e que seria injusto ganharem bem quando os médicos – após anos de esforço – ganhavam quase o mesmo que elas.

Sim, mais fácil depreciar o trabalho alheio do que reivindicar a valorização do seu.

Quando a esquerda oferece mais equidade e justiça social esta promessa incomoda algumas pessoas por parecer desmerecer suas conquistas, ao menos nesta percepção deteriorada delas. Acreditam que, para que suas coisas ganhem valor, é importante que outros só as obtenham mediante sacrifício.

As ideias socialistas geram desde sempre a ilusão de extermínio da meritocracia, como se a justiça que apregoam fosse oferecer “igualdade para os desiguais”. Na verdade apenas promete que ninguém poderá ser privado de suas necessidades fundamentais e que o trabalho deverá ser remunerado com equilíbrio e sem exploração. Porém, diante da proposta de que todos devem ser remunerados com justiça, é chocante ver o quanto de rejeição isso ainda provoca.

Desisti de convencê-la a trocar seu voto, mas ao menos deixei claro que sua escolha era muito mais baseada na aversão à ideia de justiça social e muito menos nos defeitos de Lula. Ou seja, seu preconceito estava mais ligado às virtudes do que às imperfeições do candidato. Por outro lado, percebi que esse tipo de discurso é muito mais prevalente do que se pensa, e que é importante escutar o que estas pessoas têm a dizer.

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Ditaduras

“Mas o Brasil de Lula apoiou ditaduras pelo mundo afora”…

Quem já não escutou esta frase provocativa vindo dos elementos mais afoitos da direita nacional? Quem já não teve que dar explicações para quem acusa os governos socialistas de serem anti democráticos, cruéis e genocidas? Todavia, antes de explicar os governos petistas de terem uma política externa que favoreceu os países em desenvolvimento, cabem alguns esclarecimentos importantes sobre os países mais frequentemente acusados.

Em primeiro lugar, entre as nações que “os comunistas do PT” protegeram por acaso uma delas é Israel, que ocupa com armas a Palestina após uma invasão que expulsou 750 mil habitantes da região há 70 anos? Ou talvez entre estes países favorecidos pelo PT está a Arábia Saudita, uma ditadura feroz apoiada pelos americanos em troca de petróleo, que enforca pessoas em praça pública e em pleno século XX pratica penas de morte por decapitação? Sim, porque ambos estes países são idolatrados por Bolsonaro. Tanto Israel quanto a Arábia Saudita foram visitados recentemente pelo mandatário brasileiros e seus filhos. Porém, aqui cabe uma pergunta: em alguma das “ditaduras” que o PT é acusado de apoiar alguma vez um presidente foi impedido de concorrer por um golpe envolvendo um juiz e procuradores corruptos? Pois, vale lembrar, Bolsonaro se tornou presidente apenas porque o ex juiz Sérgio Moro acertou-se com o departamento de justiça americano, produzindo uma sentença condenada pela totalidade do meio jurídico independente. Este mesmo juiz posteriormente abandona a toga e se transforma no Ministro linha dura e punitivista Bolsonaro – a quem ajudou eleger. Isso pode ser considerado uma democracia?

Mas quando vocês se referem à Venezuela é bom lembrar que este país sofre um brutal embargo americano por ser um bastião da autonomia e da soberania das nações da América Latina. Seu presidente – legitimamente eleito – sofreu diversos atentados contra sua vida por forças reacionárias patrocinadas pelo imperialismo. A Venezuela está longe de ser um país socialista, quanto menos comunista, mas ousou declarar-se livre das imposições americanas para a compra do seu petróleo por preço vil. Esse país tem eleições cada dois anos, economia de mercado, imprensa livre, voto controlado e auditado por dezenas de países. Por que poderíamos chamar a Venezuela de “ditadura” mas nunca nos referimos assim à Colômbia, um país tradicionalmente controlado por uma direita brutal e assassina, associada aos Estados Unidos, onde 199 ativistas dos direitos humanos foram assassinados pelas milícias armadas ligadas ao governo, isso apenas no ano de 2020. Não seria justo chamar de ditadura um país onde lutar pelos direitos de seus compatriotas representa uma sentença de morte?

Se você chama Cuba de “ditadura”, sabia que lá os políticos trabalham de graça para o povo? Os parlamentares em Cuba, de qualquer nível (provincial ou nacional), não possuem qualquer pagamento ou salário. Geralmente seguem atuando em suas áreas/profissões, ao mesmo tempo em que atuam em suas funções legislativas. Outro fato curioso é que não existe nenhuma proibição em Cuba para a fundação de outros partidos; não há lei alguma com essa restrição. Não existe exigência de filiação partidária para a participação política. Por que seria ditadura quando existe total liberdade para organização partidária?

Em 2018 a Comissão Nacional Eleitoral de Cuba ratificou os resultados das eleições gerais. Um total de 85,65% dos eleitores exerceram seu direito ao voto e 7.399.891 de eleitores compareceram às urnas, em uma população de 11 milhões e meio de cubanos. É importante ressaltar que o voto em Cuba não é obrigatório como no Brasil, mas opcional. Cada circunscrição (agrupamento de bairros) escolhe seu candidato em assembleias abertas, o qual irá para as eleições onde todos (cidade/província/país) poderão decidir se aprovam, ou não, por meio de voto facultativo e secreto.

Outro detalhe muito interessante do sistema cubano é que algumas categorias (trabalhadores, mulheres, estudantes e pequenos agricultores) têm cotas no Parlamento, estabelecendo uma diversidade notável na política da ilha. Em 2018 as mulheres detinham 53% das cadeiras da assembleia do povo e os negros 40% – compare isso com os míseros 15% de mulheres e 24% de negros no congresso brasileiro. Esses elementos são o Poder Popular, que preserva o contato permanente entre lideranças e a base. Por que você chama Cuba de ditadura, mas não acha o Brasil uma ditadura onde quem manda são os banqueiros, os rentistas, os latifundiários e as redes de TV? (leia mais nesta reportagem de Jornalistas Livres)

E sobre a Coreia do Norte? Pois existem 3 partidos por lá e você pode ser eleito para a Assembleia Popular sem estar ligado a qualquer um deles, assim como em Cuba. Sabia que, assim como em Cuba, não existe nenhuma pessoa sem moradia ou vivendo em malocas na Coreia do Norte? Sabia que o presidente Kim Jong-Un é apenas chefe do executivo, eleito pela Assembleia do Povo, mas o país tem um sistema legislativo e judiciário independentes?

Não esqueçam que Venezuela, Cuba e Coreia do Norte sofrem embargos brutais, um verdadeiro terrorismo econômico por parte do Império americano, apenas pela ousadia de se declararem independentes do poder central do capitalismo. Estes países enfrentam a escassez de produtos porque sabem que muito pior do que isso é a subserviência aos interesses do países imperialistas. Eles são exemplos de autonomia e soberania, povos altivos que perceberam muito antes do que nós, o valor de serem livres.

Enquanto isso, em nossa democracia liberal, existem mais armas nas mãos de bolsonaristas do que em posse das polícias e forças armadas brasileiras. Apenas Bolsonaro ameaça a ordem instituída dizendo que não vai aceitar o resultado das eleições. Uma democracia em que as Forças Armadas atuam constantemente ameaçando o legítimo desejo popular pode ser descrita desta forma? Pode ser considerada um governo do povo?

Não há dúvidas de que estes países tão atacados por nossa mídia liberal burguesa têm problemas estruturais importantes. É fato que existem problemas sérios até mesmo em relação aos direitos humanos, mas é injusto acusá-los de “regimes ditatoriais” como o fazem os jornais do mundo inteiro sem conhecer sua história, suas particularidades, suas dificuldades, os crimes cometidos contra sua soberania por forças estrangeiras e seu empenho em manter independência dos poderes imperialistas que massacram populações inteiras por todo o mundo. E também é incorreto utilizar as democracias liberais como paradigmas de justeza e transparência quando, por certo, estão muito distantes dessa realidade.

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Justiça desbalanceada

Tenho plena convicção que qualquer dos delitos cometidos por Bolsonaro durante sua vida pública – das rachadinhas, passando pela Val do Açaí, pelos imóveis milionários com pagamento sem origem e até o uso da máquina pública para fazer campanha pessoal no 7 de setembro – seriam crimes inaceitáveis caso tivessem sido cometidos por Lula ou por alguém da esquerda. Esse é o viés da nossa justiça burguesa: pesos diferentes para os crimes na dependência do delito interessar ser punido – ou não.

Para essa justiça uma pedalada passa a ser crime hediondo, mas um criminoso apitar a campainha do presidente antes de matar uma vereadora não parece nada estranho. Também 107 imóveis comprados – metade em dinheiro vivo – não querem dizer nada (quem nunca, né?), mas visitar um apartamento e desistir da compra é algo muito suspeito e merece um julgamento em tempo recorde e uma sentença draconiana.

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