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Sem autocrítica

Nas redes sociais, logo após os resultados do primeiro turno das eleições de 2026, o sentimento era de surpresa e consternação. Era inacreditável que Lula pudesse estar perdendo o primeiro turno para um “desqualificado” como o filho do ex-presidente. Imediatamente começaram a aparecer as explicações, as interpretações e os culpados. Alguns influencers da esquerda liberal começaram sua campanha para “virar o jogo” com um pedido curioso: “não culpem a esquerda” por esta derrota. Respeitosamente expliquei aos meus amigos que este pedido é absurdo. “Vocês até podem pedir que eu vote em Lula, mas não admito que a resposta para esta derrota seja abolir a autocrítica”, respondi, mesmo sabendo que pouco seria levado em consideração. Além desse pedido, havia a solicitação de que os movimento identitários – feministas, antirracistas, transativistas – fossem poupados dos ataques, pois esta atitude apenas reforçaria o discurso daqueles que nos combatem. “Fogo amigo” diziam eles. Achar que perdemos para “fascistas” é outro erro absurdo do discurso da esquerda. Perdemos porque a esquerda saiu da rua e se tornou chapa branca, elitista e identitária – entre outros erros. O identitarismo tomou conta dos partidos à esquerda do espectro político, enquanto o PT se “endireitava”, colocando os conservadores da burguesia comportadinha e latifundiária em postos chave do governo. Observem o absurdo das falas da Janja (outra responsável pelos erros de comunicação) e vejam as políticas de subserviência ao um discurso anti-científico sobre trans. Isso ofendeu as mulheres do pais, que se obrigaram a chamar a si mesmas de “mulheres-cis”. Quem não percebeu o quanto isso afastou as mulheres simples da esquerda, então não prestou atenção.

“Não é o momento”, diziam eles, e “deveríamos unir forças dentro do campo progressista e popular para evitar o mal maior – a vitória do fascismo”. Esta foi a parte que achei mais insensata. Como eu repito exaustivamente há muitos anos, o identitarismo destruiu a esquerda ao corroer sua vinculação com as lutas operárias. E não foi por acaso: o objetivo das organizações identitárias é exatamente esse, mesmo que muitos dos seus participantes ainda não tenham percebido. Como organização parida nos criadouros do partido democrata, este sempre foi seu objetivo. Percebam como todos os principais nomes da linha de frente dos identitários receberam bolsas para se “aprimorar” nas universidades imperialistas? Manuela, Jean Wyllys, Márcia Tiburi – e muitos outros – foram financiados pelos Estados Unidos para os estudos de gênero ou sobre homossexualidade através de suas agências. E por quê? Porque sabiam que esse modelo de compreensão da realidade é impopular, agressivo, supremacista e anti-povo, mas principalmente porque produz a fragmentação das lutas de classe.

O resultado está aí na nossa cara, e não há como negar que a esquerda identitária se afastou do povo, tornou-se elitista, vendo mais humanidade em minorias supostamente oprimidas do que na grande massa do povo operário brasileiro, cuja opressão é real e econômica. A direita agiu de forma inteligente ao colocar em evidência os identitários e o feminicídio como temas para serem debatidos à exaustão. A maioria da população não concorda com a ênfase dada a estas questões; o pobre da periferia sabe o quanto a polícia mata garotos e estes meninos mortos também são uma tragédia para as famílias. Entretanto, os grupos identitários das universidades, afastados da realidade da gente comum, estabelece como prioridade as “identidades perseguidas e oprimidas”.

O povo não aceita mais isso. O debate estéril sobre pronomes e de banheiros idem. O trabalhador que acorda cedo – e que vota – está se lixando para estas questões. O identitarismo dividiu a população. Isso é operação de propaganda do imperialismo, mas se a a esquerda não compreender por meio de uma severa autocrítica as razões para esse fracasso teremos que suportar por décadas os governos de milicianos à frente do Evangelistão. Estou percebendo que o furo é mais embaixo, e que a necessária mea-culpa da esquerda ainda vai demorar muito a ocorrer. Se continuarmos a chamá-los de fascistas, colocando a crítica moral como o centro do nosso discurso, continuaremos perdendo. Enquanto não colocarmos o operário, o brasileiro comum, o pobre que vai ao culto, como centrais na nossa luta, afastando-nos do identitarismo que esfacela a sociedade, colocando pobres contra pobres, estaremos nos afundando no poço da arrogância. O PSOL já implodiu, o PDT idem, O centrão – direita limpinha – foi para o fundo do saco. Quem saiu vitorioso foi a extrema-direita, que se mobilizou e ofereceu uma esperança. Nós sabemos o quanto as promessas da direita são excludentes e destrutivas para a nação, mas não há como negar seu apelo popular. A esquerda perdeu porque o povo rejeitou sua politica supremacista e excludente – e isso precisa ser dito.

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Panis et circenses

Vale a pena escutar o que o Renan Santos fala da direita brasileira. Em uma entrevista feita para um podcast nas redes sociais ele descreve de forma muito clara como se organiza o pensamento da direita brasileira. Esta é uma análise muito boa e surpreendentemente lúcida. Renan foi o primeiro sujeito à direita do espectro partidário a admitir que o público médio da direita é muito menos inteligente que o da esquerda. Depois dele, foi a vez de José Medeiros (PL), candidato a senador pelo MS, dizer que seu eleitorado bebe detergente e chama ET com celular. Este é um reconhecimento que tem significado vindo de onde veio.

Neste vídeo ele descreve a direita como “entretenimento” e mostra como Nikolas, Bolsonaro e outros são palhaços cujo objetivo é divertir pessoas nas redes sociais e, acima de tudo, “não fazer nada”. Este, aliás, é o lema da nova direita americana: “nada acontece”. Não é à toa que Nikolas, Bolsonaro Pai, Flávio ou mesmo Zé Trovão têm uma produção parlamentar nula ou pífia. Ou seja: o papel que desempenham, desde o advento das redes sociais, não é “fazer algo”, “criar leis”, “abrir um debate” ou “defender uma proposta” de cunho popular e ligada aos valores da direita. Não, sua função é pura performance e a intenção é produzir um espetáculo circense, colocar peruca, debochar, gritar, invadir a passeata dos adversários, provocar parlamentares da esquerda, fazer selfies…. e mais nada.

Nunca os romanos estiveram tão certos: “panis et circenses”. A frase foi criada pelo poeta romano Juvenal no início do século II d.C., em sua obra Sátira X, e o significado original é uma crítica à falta de interesse da população romana pelas grandes decisões políticas. Na nossa metáfora atualizada, o pão se refere às emendas, milhões direcionados às suas bases eleitorais, comprando votos legalmente – mas de forma imoral. Isso sem falar das emendas secretas que foram um gigantesco escândalo no mundo político, e que ainda continuam a agitar os bastidores de Brasília. Já o circo está nas suas próprias atuações parlamentares, sempre pautadas pelo vazio, pela representação e pela atração de público pela via do divertimento. Flávio Bolsonaro, por sua profunda incapacidade intelectual para esta função, seria uma revivescência do governo “panis et circenses” do pai: espetáculo pastelão, deboche, cercadinho, viagens a Israel, privatizações criminosas e a volta da fome.

Que Deus tenha piedade de nós…

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Trevas e aprendizado

Há muitos anos vi uma palestra do Slavoj Zizek (que tem coisas fantásticas e outras ruins) na qual ele discorria sobre a opção que as esquerdas fizeram nas democracias liberais europeias. Zizek criticava o “bundamolismo” (o termo é meu, não dele) dos partidos socialistas europeus que, ao invés de puxar para o centro, procurando alianças e acertos com a direita, a burguesia e o imperialismo, deveriam ter radicalizando à esquerda, mantendo sua “pureza original”, mesmo que às custas de eventuais derrotas eleitorais.

Zizek ponderava que, ao fazer concessões à direita, distanciando-se do proletariado e do campesinato, os socialistas transformaram-se em partidos eleitorais e burocráticos. Desta forma, foram se afastando paulatinamente de sua origem operária e aos poucos foram perdendo a identidade. O mesmo se aplica às opções feitas pelo PT no Brasil, e é por esta razão que vimos com tanta naturalidade personagens como Tebet e Alckmin circulando na esquerda, como verdadeiros “camaradas”, o que seria impensável se o PT se mantivesse fiel à sua origem.

As vitórias econômicas tímidas do governo de Lula não mobilizaram a população a continuar votando no presidente. Por certo que houve avanços em relação ao desastre bolsonarista anterior, mas no imaginário popular isso não é suficiente. A direita soube (e teve dinheiro para) motivar sua base eleitoral, com o discurso punitivista, falsamente libertário, evangélico e moralista. O Brasil entrará num período longo de trevas, mas acredito que será um excelente aprendizado para as forças progressistas.

Aliás, o fato de Cury ter sido o terceiro colocado nesta eleição – um sujeito sem qualquer história na política e com uma trajetória de coach e escritor de literatura de autoajuda – fala muito sobre o estado da arte da política nacional. Seu livro mais famoso trata de Jesus como “o homem mais inteligente do mundo”. O que desejam dizer os eleitores desse sujeito ao lhe oferecer seu voto? Que mensagem este fato oferece sobre a política, os partidos, as propostas e a conjuntura da nossa democracia burguesa? Talvez essa informação seja tão relevante quanto tentar descobrir as falhas da esquerda.

Sabe o que dá raiva? Ver que o PCO e o Rui Costa Pimenta estavam – mais uma vez – certos sobre o desastre que fatalmente ocorreria quando o PT se mesclou com o identitarismo. Ora, por que um “partido dos trabalhadores” deveria abandonar a pauta do proletariado para apostar em um projeto criado nos laboratórios do imperialismo para dividir a classe trabalhadora? Os sinais eram claros, mas ninguém no PT quis enxergar. Se o identitarismo não for retirado da esquerda ele vai destruir o que ainda resta de luta popular. A politica de “frente ampla” fracassou, tanto na Europa quanto aqui. A esquerda precisa aprender o caminho para oferecer ao povo uma alternativa para se proteger do fim do capitalismo.

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Luto

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr

Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão

E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar

Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar…

Rosa dos Ventos (Chico Buarque)

Se você está deprimido com os resultados das eleições e percebeu que o Brasil deu uma guinada em direção à escuridão, não é hora para desespero. Tenha fé na alvorada, que desde o início dos tempos, repele a escuridão da noite com a luz da manhã. Não chore, ou talvez, só um pouquinho, porque da lágrima brota a esperança. Não esqueça que “a vida é luta renhida. Viver é lutar, que aos fracos abate, mas que os fortes e bravos, só sabe exaltar”. Venha para a luta, para as ruas, calçadas, escolas e hospitais. É no meio do povo que a política assume sua verdadeira face transformadora.

Não desista. Não esmoreça. Assuma sua dor e seu luto. Entenda que uma sociedade justa jamais o será por dádiva, mas pela construção lenta e elaborada de todos, com os naturais avanços e retrocessos que sedimentam as conquistas. Agora é o momento mais adequado para reavaliar o que fizemos e, em especial, o que deixamos de fazer. Para isso, é bom lembrar que:

1. O povo não é burro. Há sabedoria nessas escolhas, mesmo quando nos parecem tolas;
2. Censura jamais será caminho de liberdade. Livre expressão dói, faz barulho, mas é melhor do que o silêncio imposto;
3. Identitarismo é uma força que divide e enfraquece. Fragmentar a luta jamais irá fortalecer nossas propostas;
4. A luta de classes deve ser a prioridade, mesmo quando alguma outra injustiça pontual nos trouxer lágrimas nos olhos e fizer o estômago revirar;
5. Não se faz socialismo apoiando alguns segmentos da classe operária e culpando outros. Esta é a tarefa dos reacionários;
6. O imperialismo hoje festeja, mas cabe a nós darmos o troco. Precisamos estar prontos quando o momento chegar, e…

Quando chegar o momento,
esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido,
esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza de desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada nesse meu penar.

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Mandato dos Sete Montes

A revolução comunista precisa ultrapassar essa Constituição e criar uma nova carta magna para o Brasil. Enquanto isso não ocorre, a decadência do modelo capitalista vai produzindo o absurdo e o bizarro cotidianamente. Entretanto, essa guerrilha aberta entre católicos e protestantes – simulando a luta ancestral da Irlanda – eu deixo para os religiosos debaterem. Nós que somos comunistas não adoramos ídolos, sejam eles Nossa Senhora ou Bolsonaro.

Cabe, todavia, um alerta. O Brasil, nas mãos do Flávio Rachadinha, pretende se tornar uma grande Israel, que alguns tanto admiram. Com isso a morte dos “palestinos brasileiros” – os pretos e pobres das favelas – será naturalizada, da mesma forma como é o destino de milhares em Gaza. Ou a direita nunca suspeitou do amor que a família Bolsonaro sempre devotou ao racismo e ao supremacismo de Israel?

Aliás, até eles mesmo sabem que a luta do Flávio contra os católicos e seus símbolos não é de agora. Flávio e Jair Bolsonaro – ambos católicos de formação – uniram-se à rafuagem evangélica mais apodrecida e corrupta, como Edir, Malafaia, Waldemiro e quetais, com evidentes propósitos eleitorais. Por trás disso, a Teologia do Domínio, o poder político para a “Gang do Templo”, com o objetivo de criar um grande Evangelistão, que nada deverá ao Talibã em termos de violência moralista e conservadora.

Segundo os defensores do “Mandato dos Sete Montes”, entre eles essa turminha evangélica sionista brazuca (que se enche de grana com turismo chinelão para Israel), os cristãos deveriam ocupar posições estratégicas nesses campos para transformar a sociedade conforme valores cristãos. A ideia central é que a sociedade estaria organizada em sete grandes áreas de influência, simbolizadas como “montes”:

Família
Religião
Educação
Governo e política
Mídia e comunicação
Artes e entretenimento
Economia e negócios

Na formulação mais branda – que se poderia chamar de identitária ou representativa – isso significa apenas participar e exercer influência. Na versão mais radical ou “dominionista”, significa conquistar o controle das instituições e submeter a vida pública a uma determinada interpretação do cristianismo. Quando Tariflávio diz que vai “entregar o Brasil a Jesus Cristo”, isso é a formulação “hard core” de dominação do pensamento nacional, que regride ao século XIX e institui uma religião oficial no Estado – outrora laico. Não há outro termo senão “retrocesso maligno”.

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Esquerda e Direita

Direita e esquerda são irmãos

Que se atacam como inimigos

Se ofendem e lastimam

Na fogueira das paixões

Seus corações pegam fogo e depois

Não há nada que os apague

Mas no fundo são duas peças

da mesma engrenagem.

Para os dois cabe cuidar

Da saúde combalida do velho

Cuja vida está por um fio

Os dois brigam, se mordem

Latem e se xingam

Porque não sabem que o velho

Já não tem mais nenhum tostão

Pois a fortuna de outrora

Que o fazia luzir e girar

Foi gasta em remédios

Para uma doença sem cura

Agora só resta dela

A arrogância e o fulgor

Que embala sua memória.

E o medo, que não disfarça

De que os dois irmãos

Um dia descubram

Seu segredo.

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Novidade eleitoral

Parece que apareceu o candidato ideal para os religiosos envergonhados. Sim, aquela turma “do bem”, que é caridosa, que ajuda os pobres, que se emociona com filmes da sessão da tarde, que colabora na Igreja, que doa roupas na sociedade espírita, que toma passe no terreiro, que tem amigos negros e um parente gay. Chegou o cara para os “nem-nem”, o sujeito que pode nos livrar de votar no filho do miliciano, o mesmo que está por trás do crime organizado, totalmente entranhado nas milícias, envolvido no Dark Horse (O Pangaré Preto) e que se borra quando fica nervoso.

A sua chegada também ajuda quem não quer votar na esquerda, não porque seu candidato se afastou do povo, “endireitou-se”, buscou alianças espúrias com as elites predatórias, frustrou expectativas, não melhorou a condição da classe média e não incentivou a transformação radical do país na direção do socialismo. Não, isso é menos importante do que evitar que um candidato retirante nordestino e sem curso superior venha a ganhar novamente eleições, até porque do nordeste seus eleitores só curtem as praias e nem gostam muito “daquela gente”.

Talvez esse candidato também não confie na entrega do Brasil no colo dos americanos e a consequente perda da autonomia e soberania nacionais. Por outro lado, é possível que esse candidato acredite que a esquerda no poder pode nos levar ao “comunismo”, mesmo com um presidente explicitamente anti-comunista. Certamente ele se equilibra bem sobre o muro. E sobre o identitarismo, ele já veio com a fórmula perfeita: tecnologia, usando drones para pegar maridos abusivos. Que sacada!!

Esse cara, pelo vazio de suas propostas, pela falta de talento político, pela superficialidade de sua literatura de autoajuda e pela sua inexperiência no trato com a coisa pública, é o candidato ideal para os místicos, os “Jesus te ama”, a turma do “amor vencerá”, do empreendedorismo oportunista e para o pessoal do “pensamento positivo”. Ao mesmo tempo em que exalta o “espírito empreendedor”  para transformar todo brasileiro pobre em dono de “start up”, ele enxerga o comunismo como uma ameaça por demais radical, mesmo que possa melhorar a vida de 90% dos brasileiros. Não há como saber ainda, mas é possível que seu sonho molhado seja que o nosso atual presidente seja sequestrado pelos americanos e seu sucessor possa oferecer aos invasores nossas riquezas. Sem lutas e revoluções, usando apenas a ferramenta do amor. 

Enquanto isso, o candidato diferente de tudo isso que encontramos nas entrevistas da Globo, e que deseja romper com a divisão da sociedade em classes, a propriedade privada dos meios de produção e que luta por uma sociedade justa e solidária não tem espaço para oferecer sua alternativa ao grande público. Para a Globo e o TSE, esse candidato é “apimentado” demais para o capitalismo brasileiro.

 Veremos onde isso vai dar…

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Milícias e Escândalos

Sabem porque eu acho que revelar as ligações do Flávio com o crime organizado e as milícias não vai surtir um grande efeito eleitoral? Na verdade, creio que estas ligações com o submundo não produzem nenhum efeito deletério para as candidaturas da direita. Digo isso porque o brasileiro médio não acha a milícia uma coisa ruim. Lembram do Bolsonaro exaltando os grupos de extermínio da Bahia e convidando para virem ao Rio estabelecer seu domínio? Na época quem reclamou? Quem se escandalizou? Quem deu voz de prisão a ele? O mesmo com os elogios ao Brilhante Ustra. Quem agiu em nome da democracia e dos direitos humanos? Quem bradou contra esse crime?

Poucos….

No Brasil, e em muitos outros lugares, as pessoas não são contra a tortura e o extermínio feitos pela polícia. Olhem os comentários nas notícias de linchamentos de assaltantes, ou dos ladrões que foram perseguidos pela vítima e morreram atropelados por furtarem um celular. Lembrem do governador “Na cabecinha Witzel” e seu elogio à execução sumária e os pulinhos ridículos de comemoração? O brasileiro médio deplora a tortura que sofre, e pelas múltiplas formas que ela lhe atinge, mas não a tortura aplicada aos outros – em especial pretos e pobres.

O mesmo ocorre com a ligação aos grandes escândalos financeiros, como a ligação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Para boa parte do eleitorado da direita brasileira, esse envolvimento apenas demonstra o poder do candidato, capaz de influenciar a pauta nacional e movimentar somas gigantescas. O fato de solicitar intervenção americana na soberania brasileira também é um sinal de poder. De acordo com as definições modernas, que nos permitem chamar os tempos atuais de “A era dos Canalhas“, Flávio Bolsonaro incorporaria os elementos do herói neoliberal, sem caráter e sem escrúpulos, mas vitorioso no embate pelo poder. 

Não quero criminalizar a sensação de insegurança do povo e o alívio que um extermínio do “mal” ilusoriamente oferece, mas não podemos ser ingênuos de acreditar que somos um povo pela paz. Ofereçam milicianos e muitos vão aplaudir. Diante de um sujeito imoral e canalha, muitos vão acreditar que se trata da melhor escolha. Mortes causadas pela polícia da mesma forma passam a ser celebradas. Enquanto tivermos uma sociedade de classes haverá insurgentes contra sua injustiça estrutural, e essa reação fará o pobre achar que estará mais seguro sendo “protegido” por milicianos e contraventores. 

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Pureza e Depravação

Vejo os ataques ao Lula pelos crimes mais variados. Estes ataques são, em geral, ataques à esquerda e são a marca registrada da direita no mundo todo – pânico moral, China, costumes, Coreia Popular, Cuba, corrupção, inchaço da máquina publica, “quebradeira” de estatais, Estado desequilibrado, financiamento a ditaduras e ditadores, impostos, inflação. A lista é muito grande, mas se concentra nestes temas. Porém, as críticas tendem a se direcionar muito pouco para a estrutura do Estado e muito sobre os valores de caráter dos governantes.

Para o pessoal de direita eu costumo perguntar se diante de tantas e variadas falhas morais o melhor seria votar nos candidatos da direita, como Flávio Bolsonaro. Eu questiono: essas máculas que vocês enxergam nos governos Lula não ocorreram também no período recente de Temer/Bolsonaro? Não houve escândalos de corrupção? As estatais cumpriram sua função? Não houve inflação? Não houve aparelhamento? Não houve desvios? O Brasil teve um surto de progresso? Ninguém roeu osso? Não voltamos ao mapa da fome? Não sucateamos de propósito as universidades? A educação foi valorizada? Ou seja, você acredita que Lula e as esquerdas são o mal a ser evitado, e isso porque as pessoas corruptas, incompetentes e de má índole escolhem naturalmente o viés de esquerda para atuarem. No seu modo de ver, as pessoas “direitas” escolhem os partidos à direita, é isso?

Eu sou um sujeito crítico aos governos do Lula e do PT, mas não perco meu tempo centrando minhas críticas nos aspectos morais. Prefiro criticar a tendência dos governos petistas em pender para a direita, deixando de lado as reformas necessárias em direção aos valores socialistas e ao desenvolvimento centrado na atuação firme do Estado. A análise “moral” serve apenas aos interesses de quem não quer debater política e nem a estrutura do Estado. As avaliações de ordem moral só proliferam porque existe a crença de que as opções políticas do sujeito são conectadas aos seus valores mais profundos, aqueles que moldam seu caráter. Assim o Lula seria um ladrão inveterado como uma marca de personalidade, algo que o acompanha desde o princípio de sua vida pública – mesmo que tenha sido impossível encontrar o fruto de tantos roubos nos últimos 40 anos de pente fino sobre a vida do presidente.

Por outro lado, à direita concentram-se as pessoas de bem, que jamais aceitariam fazer negócios com ditaduras e ditadores – tipo monarquias absolutistas do Oriente Médio, ou com um país que nos últimos anos matou, de forma direta ou indireta, por volta de 4.7 milhões de pessoas em 8 países diferentes. Curiosamente, este país é governado pela direita há 250 anos, o que torna difícil sustentar esta afirmação. Outra característica da direita é falar de “paz”, mas fica estranho ao se ver a adoração que nutrem pelo Estado de Israel, um país governado pela extrema direita e protagonista de um massacre onde 75 mil pessoas foram mortas diretamente desde 2023, sem falar nos que já morreram e os que ainda estão morrendo de fome e por falta de assistência médica. O número, segundo o jornal médico The Lancet, chega a 190 mil. Eu citei dois países que, não por acaso, são os paradigmas da direita mundial e são amados e exaltados pela direita brasileira. Fica difícil olhar para a divisão política do mundo e encontrar virtudes morais em um lado enquanto no outro só vemos decrepitude, incompetência e devassidão. Quando olhamos para os exemplos admirados pela direita cabe a pergunta: é isso que vocês querem para o Brasil?

E sobre “competência”, também fica complicada esta divisão quando a China – a “ditadura” do PCC – tem salários médios muito maiores que os do Brasil e Estados Unidos, é o país mais avançado do mundo, tem um sistema democrático muito mais avançado que o ocidental, há mais liberdade e mudanças estruturais no governo são frequentes. Porém, a “esquerda” governa o país há quase 80 anos. Em 1949 era o pais mais pobre do mundo, em 1997 tinha o PIB igual ao do Brasil, e hoje já é dez vezes maior do que o do nosso e quase igual ao americano. Por isso, é muito difícil entender a separação moral que fazem entre a direita e a esquerda quando os exemplos que encontramos no mundo não estão em sintonia com a ideia de pureza da direita e de depravação da esquerda.

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Discurso de Ódio e Direitos Absolutos

Perceberam como o uso da expressão “nenhum direito é absoluto” sempre aparece quando se torna necessário encobrir uma ilegalidade ou um abuso cometido contra direitos fundamentais – em especial o direito de livre expressão? Tipo, rejeitam a fala de um sujeito ou sua manifestação controversa e, na ausência de argumentos satisfatórios, apresentam o silenciamento, argumentando que este preceito constitucional nao pode ser “levado aos extremos”, e que não é um “direito absoluto”.

Outra forma de atacar a liberdade é acusar as críticas ferozes de serem “discursos de ódio”. E desde quando o ódio passou a ser proibido? Como estes “arautos da paz” acreditam que os países e os povos se libertaram da opressão e da escravidão? Por acaso creem que as tiranias – todas elas – foram abolidas com discursos, abaixo-assinados ou tapinhas nas costas? Como negar a potência transformadora do ódio para remover estruturas recalcitrantes e opressivas? Por qual razão achamos razoável criminalizar a inevitável aspereza das palavras, as adjetivações duras e os ataques severos, se isso faz parte da linguagem humana?

Pois eu afirmo que as acusações de “discurso de ódio” e a defesa da inexistência de “direitos absolutos” são estratégias conservadoras, usadas para que verdades nao venham à tona – ou demorem a aparecer na superfície do discurso. A falácia do “discurso de ódio” é amplamente usada para bloquear as críticas ao Estado Terrorista de Israel, criando a ideia de que a mera análise crítica e acusatória ao colonialismo na Palestina é um ato racista e moralmente condenado. O mesmo ocorre com os outros identitarismos, onde criticar mulheres, negros, trans ou gays virou crime de ódio, mesmo que as críticas sejam direcionadas exclusivamente à sua atuação profissional ou política. E se o sujeito reclama do cerceamento do seu direito de expressão recebe como resposta: “nenhum direito é absoluto” e pronto.

Um projeto político que não encare de frente a proteção do sagrado direito de livre manifestação não pode ser considerado de esquerda, e muito menos socialista. Quem prioriza seus vínculos identitários, colocando-os acima da plena liberdade, sem estes subterfúgios oportunistas, não terá moral para reclamar quando sua voz for definitivamente silenciada.

Como dizia Rui Costa Pimenta, sou do tempo que a mentira era combatida com a verdade, não com a censura.

* As imagens que ilustram esta postagem são do tempo em que eu, ainda menino, acreditava no fim definitivo da censura. Acervo da UFRGS.

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