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Bate boca

A ação do Zé de Abreu foi mesmo exagerada, mas foi reativa. Ele escreveu como quem “bate boca” na rua, baixando o nível, atacando a pessoa mais do que as ideias. Porém, em sua defesa, creio que não há como esperar a mesma civilidade do torturado e do torturador. São pontos diferentes no espectro do debate. O governo atual nos ataca – as minorias em especial – todos os dias, com desrespeito e violência; alguma reação destemperada tinha que surgir, mais cedo ou mais tarde.

Eu também cobro coerência da esquerda, dos negros, das mulheres e dos pobres, mas são eles que estão sendo espancados e mortos pela necropolítica dos fascistas. É natural que as respostas mais indignadas surjam de quem mais sofre, e a classe artística nunca foi tão humilhada quanto agora.

Não basta ter vagina mesmo para exigir ser respeitada. Joice, Bia, Zambelli, Winter e tantas outras bolsonaristas que o digam. Qual a novidade? O mesmo se pode dizer sobre um deputado negro que ataca a comunidade negra. Ele é Capitão do Mato mesmo, pois essa figura representa o negro que combatia ao lado dos opressores escravagistas para manter seus irmãos de cor em cativeiro. A imagem é dura, mas correta. Não basta também ser “homem de cor” para ser digno; é preciso ser consciente e encarar a realidade do genocídio negro no país como uma emergência. É necessário abandonar a farda neoliberal que coisifica seres humanos e os submete aos interesses econômicos da elite financeira branca e lutar pelos seus iguais. Estamos em um momento de crise humanitária. Ficar calado é submeter-se.

Pior do que achar que agora “todos são fascistas” é não enxergar o fascista quando ele dissemina, fomenta, estimula e aplaude o arbítrio e a tortura; o preconceito e o fanatismo. Faltaram exagerados como Ciro e Zé de Abreu na ascenção de Hitler na Alemanha. Houvesse mais como eles e não teríamos sentido na carne o horror que o nazismo produziu por lá.

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Partidos identitários

O que pensar disso? Um partido feminista? Ou seja, um partido de mulheres. O que pensar de um partido que se produz pela exclusão de um gênero? Mas se isso for realidade, por que não um partido só de negros ou gays, pelas mesmas razões? Que tal um só de judeus?

Isso me parece o identitarismo levado às últimas consequências, em uma sociedade de “cada um por si”, pelo seu grupo, cada vez mais isolados com propostas centradas em seus minúsculos segmentos.

Minúsculos mesmo, até porque dentro do “partido feminista” haverá uma ala gay. E também uma ala negra. E dentro dela uma ala negra-gay. E mais uma ala feminista trans. E todas vão se odiar e se combater porque é da natureza humana lutar por visibilidade e espaço. É o que vemos dentro do feminismo, mas também no movimento negro, no socialismo e no liberalismo. A fragmentação infinita leva ao grupo de si mesmo.

Se a luta feminista é válida e nobre ela também é uma luta de mulheres e para mulheres, e não necessariamente uma luta pela sociedade. Para isso existem propostas mais abrangentes que não nos separam em sexo, raça, cor de pele ou religião.

Um partido feminista seria, para mim, uma profunda aberração, tanto quanto o seria um partido negro ou gay.

No meu ver as mulheres deveriam tomar de assalto os partidos centrados em ideias e propostas para a sociedade INTEIRA, e não para um gênero. Também não por qualquer outra identidade. O fato da luta ser “nobre” não torna um partido em seu nome justo ou adequado.

Alias… o partido feminista seria de direita? Esquerda? Pró ecologia? Socialista? Mas… Como votaria uma feminista ferrenha de esquerda num partido feminista de orientação liberal? O que pesaria mais, sua filiação com o feminismo ou sua visão de sociedade? Como se insere este partido na questão da luta de classes?

Um partido feminista, no meu modesto ver, composto apenas por mulheres DE FORMA INSTITUCIONAL (e não como é hoje, onde as mulheres têm pleno acesso, e apenas são menos votadas por questões da cultura patriarcal) é um absurdo. Será nanico exatamente por enxergar a sociedade por um funil de gênero, tão inaceitável quanto um partido constituído apenas por imigrantes, aposentados, negros ou gays. Na minha opinião, é um desserviço ao próprio ideário feminista, que prega pela diversidade e pela inclusão. .

O fato de haver um problema sério e as lutas por equidade e justiça serem nobres e necessárias não impede que as propostas na defesa desses temas possa ser errada. Um partido construído com base na exclusão seria um fracasso. Entretanto, acho surpreendente que algumas pessoas se deixem seduzir por este tipo de identitarismo radical.

Sabe onde encontramos isso? Em Israel. Sabe onde ele se desenvolveu a partir de 1948? Na África do Sul. Na origem havia um sentimento nobre de proteger uma parcela oprimida (judeus na Europa e uma minoria branca da sociedade africaner), mas o que se criou foi monstruoso.

Sabem que na Rússia foi criado um partido dos bebedores de cerveja? Pergunto: o que isso significou de positivo para a política russa?

Um partido deve ser promotor de propostas para a sociedade como um todo e não para representar apenas um segmento dela, mesmo que majoritário!!!

Eu não vejo nenhum problema em que as mulheres criem movimentos, ONGs, frentes parlamentares, associações cívicas e o escambau. O que não posso aceitar é um PARTIDO cuja proposta seja EXCLUDENTE (olha o Paulo Freire aí de novo) e que governe apenas para a parcela a qual representa.

Alias… quem diz isso é Bolsonaro quando vocifera “As minorias devem se curvar às maiorias”. É Bolsonaro que diz governar apenas para quem votou nele. Um partido feminista é um partido para as MULHERES e não para a sociedade. Isso, no meu modesto ver, é inaceitável e agride as próprias bases do feminismo.

Como eu já disse, apesar de ser uma trajetória lenta, negros, mulheres e gays deveriam tomar de assalto os parlamentos através das agremiações políticas e por meio de propostas para a sociedade, e não apenas através de sua visão identitária.

“Ahhh, mas é demorado. Ahhh mas o mundo é machista”. É verdade, mas um partido como esse jamais acabaria com o machismo. Pelo contrário, produziria um efeito rebote contrário na sociedade.

A propósito… É claro que há espaço nos partidos para as mulheres!!! Por lei 30% dos candidatos precisam ser mulheres!!! Muitas são catadas à unha para preencher as vagas. O problema é a relutância das próprias mulheres em votar em mulher, mas isso não termina com decreto, e sim com educação, paciência, formação e combate sistemático ao modelo patriarcal excludente da sociedade.

Creio mesmo que os políticos fazem menos do que deviam, mas são votados por gente que não se importa muito com isso. As minorias deveriam se revoltar, mas não através de projetos anti democráticos ou excludentes. Aliás…. essa é a visão anti política de Bolsonaro. “Já que os políticos são uma porcaria vamos governar de forma autoritária e com militares”.

É isso que queremos?

Para exigir respeito não é necessário criar um partido excludente. Isso é absurdo. Além do mais é da ESSÊNCIA dos partidos DOMINAR a cena política para implementar suas ideias para toda a população – e não apenas uma parte dela, mesmo que majoritária.

A criação de um partido de mulheres, feminista e excludente é, para mim, um anátema e uma quimera. Não é a toa que foi rejeitado pelas democracias de todo o mundo. Um partido assim seria como o Nasionale

Não se acaba com a violência com mais violência e não se extermina a exclusão com mais exclusão. Paz e inclusão são as respostas, mesmo quando mais são reconhecidamente mais demoradas.

Os “homens cis” adorariam esse partido. Finalmente poderão dizer que seus medos tinham fundamento. Dirão, e com razão, que as mulheres ameaçam a democracia criando um partido que, se for vitorioso, governará apenas para uma parcela da população, marginalizando metade do país – que jamais poderá participar das decisões.

Pensem nisso…

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Abolicionismo

*Bota na cadeia e joga fora a chave!!!*

Peço humildemente que pensem um pouco sobre o uso dessa retórica para se referir às personalidades das quais discordamos no cenário atual. Creio que é importante que troquemos esse discurso agressivo de exigir a prisão dos nossos adversários. Não importa quem sejam; ninguém precisa ir para a prisão e perder seu bem mais valioso: a liberdade.

Nenhum criminoso se cura numa prisão e a sociedade não melhora quanto mais construímos cadeias e presídios. Presídios são como avenidas: abri-las não melhora o tráfego, pois convida mais motoristas a dirigir por elas. Presídios apenas produzem a reciclagem de criminosos, que são o produto inexorável de uma sociedade intrinsecamente injusta.

Vamos deixar de lado por um breve instante os assassinos cruéis e os perversos, que são muito menos do que 0.1% dos prisioneiros, e focar na grande massa de apenados que lá estão pelo apartheid social e racial do nosso planeta. Sobre estes sujeitos – cujo afeto foi destruído por vivências precoces catastróficas – precisamos descobrir alternativas que não se choquem com os direitos humanos, mas que protejam a sociedade.

Mandar “prender, matar e arrebentar” é o discurso de personagens como Moro e Dalanhol e de boa parte da blogosfera nazifascista. É o discurso fascista travestido de “justiça depurativa”. Essa é a fala da direita punitivista – botar os maus na cadeia para sobrarem apenas os “cidadãos de bem” – invariavelmente brancos e de classe média. Nós da esquerda progressista precisamos oferecer uma alternativa humanista, solidária e compreensiva melhor do que esta.

E isso não tem NADA a ver com abrir mão da necessária indignação com o estado de coisas contemporâneo!!! Se me permitem a audácia, peço que comecemos a nos expressar de uma forma mais justa e em sintonia com nossa visão de mundo. Precisamos exigir que as pessoas que destroem nosso país “sejam responsabilizadas“, que “paguem pelo seu erro“, ou que “ofereçam o devido ressarcimento à sociedade pelo mal que fizeram“, mas sem continuar incluindo em nosso discurso os métodos desumanos e medievais que não representam os ideais de solidariedade e fraternidade que trazemos ao debate com nossas propostas e ideias.

Não se associar ao discurso malévolo da direita fascista e dos punitivistas racistas é uma ferramenta fundamental para mudar a narrativa de forma global e, assim, mostrar o quanto a violência gera apenas mais violência e não nos oferece nenhuma solução para os dilemas sociais.

Uma sociedade sem prisões é uma utopia da esquerda – solidária, humana e justa. Cabe a nós devolvermos toda essa violência com uma postura superior e acolhedora.

Abolicionismo penal já!!
Por um mundo SEM prisões!!

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Dois Estados

Israeli citizens hold Israeli flags and banners during a rally in Tel Aviv on April 19, 2016 to support Elor Azria, an Israeli soldier recently charged with manslaughter after shooting a prone and wounded Palestinian assailant in the head. The rally, attended by an estimated 5,000 people, was a source of controversy in Israel where the top brass have condemned Azria’s actions while far-right supporters and politicians urged his release. / AFP PHOTO / JACK GUEZ

Caros amigos…

Não vai chegar nenhuma solução de “Dois Estados” para a Palestina; não me tomem por ingênuo. Essa solução é uma mentira construida pelo Estado Sionista para enganar o mundo todo. Os acordos de Oslo e Camp David seguiram este mesmo roteiro farsesco, onde desejo sempre foi a supressão da população nativa e original pelo genocídio sistemático (desde 1948 milhões de Palestinos já foram mortos pelas forças de ocupação) e pela limpeza étnica, através das prisões desumanas (inclusive de mulheres e crianças) e pela simples expulsão – como no Nakba – que é um processo, não um evento.

Sim, eu sei o significado de Holocausto e posso lhes garantir que não é uma palavra que só pode ser usada para as mortes de judeus. Houve um holocausto na Armênia, outro na China ocupada, na Coreia, no Congo sob o regime de Leopoldo da Bélgica, nas populações nativas das Américas e agora testemunhamos um massacre na Palestina – que tem o direito de ser chamado de holocausto, por ter o racismo como principal motivação.

Não haverá “democracia” na Palestina enquanto existir um regime de Apartheid e de caráter segregacionista como o sionismo. Não há mais como tapar o sol com a peneira. Abram os jornais e pesquisem na Internet e vejam como o MUNDO INTEIRO já acordou para a vergonha de uma etnocracia racista – a última experiência de colonialismo a sobreviver no mundo atual.

O modelo de dois estados foi BOICOTADO por Israel com as invasões sistemáticas da “linha verde” – os limites de 1967 – e a multiplicação dos assentamentos ilegais, que continuam até hoje. A demolição continuada de casas e vilas inteiras de palestinos teve sua velocidade acelerada nos últimos anos com os governos de extrema direita, mas não há nenhuma hipótese de que um governo sionista de esquerda faria diferente – e a história prova que nunca o fizeram.

Democracia, meus caros, só com um estado multinacional, com voto abrangente para a população palestina, com o reconhecimento do árabe como língua nacional – junto com o hebraico – com escolas mistas, com liberdade religiosa e com governos democraticamente eleitos por todos que lá vivem.

Não venham com conversinhas. Façam o dever de casa primeiro. Não esqueçam que o maior parceiro da barbárie fascista do Brasil é exatamente Israel e seu fascismo.

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Consciência de Classe

Marx dizia que a identificação de classe de um sujeito é onde ele está, e não de onde veio. Para reconhecer-se como originário de uma classe à qual não mais pertence é necessário um esforço que só se produz com uma enorme dose de humildade. Tenho conhecidos próximos cuja origem é muito simples, próxima até da pobreza, mas suas habilidades, talentos e uma boa dose de ajuda externa os fizeram subir na escala social. Em sua história pessoal nota-se uma mistura de aspirações, capacidades e privilégios ocultos que produziram a potencialização de suas chances de sucesso.

Hoje são sujeitos de classe média alta, com curso superior e viajam pelo mundo inteiro. Não são ricos, pois essa classe dificilmente permite intrusos. Todavia, apesar da origem cercada de muitas necessidades, ostentam um olhar aristocrático, um desprezo pelo Brazil, uma visão superior e um rechaço à toda e qualquer iniciativa de equidade social. Odeiam o PT e as “esmolas” oferecidas em nome da distribuição de renda. As esquerdas são, para eles, antros de fracassados e invejosos. “Façam como eu“, dizem eles, sem reconhecer a imensa ajuda que obtiveram de circunstâncias e pessoas diversas em suas vidas, ajudando-os, assim, a alcançar e usufruir do estrato social em que se encontram.

Muitos são o espelho fiel do “oprimido que se identifica com o opressor“, a velha história do sujeito que, ao alcançar o tão sonhado sucesso, esquece sua origem, seu sotaque, suas histórias, sua família, sua vila e sua memória. “Eu venci, e tudo isso devo apenas a mim”.

Isso me faz lembrar a antiga piada do anglófilo brasileiro, cujo sonho era ser um perfeito britânico e morar em Londres. Depois de uma vida inteira estudando o idioma, os dialetos londrinos, a culinária, sua história e geografia, visita a cidade pela primeira vez. Deslumbrado com o cenário, sai à rua vestindo um casaco de tweed, uma calça de lã, um chapéu anos 40 e assim desfila pelas calçadas próximas de Picadilly Circus. Depois desse mergulho no coração da capital do Império Britânico resolve voltar ao hotel e gesticula para um táxi, um black cab, modelo Austin FX4, pintado de preto e levemente azulado, característico de Londres.

Qual não foi sua surpresa quando, ao entrar no carro, o motorista volta o pescoço para trás e comenta:

– Fala patrício!! Deixa eu adivinhar… paulista? Mineiro? Ou será catarina? Gaúcho talvez? Deixa ver…. gremista ou colorado?

Estupefato e desapontado, nosso herói exclama:

Bloody hell, my dear!!! Como você descobriu que eu era brasileiro antes mesmo de falar qualquer coisa??? For God’s sake!!! How disappointing…

O motorista “brazuca” dá uma risada e diz:

– Olha, veja bem… o chapéu está ótimo, o guarda chuva perfeito, o casaco trespassado de tweed muito chique, a gravata, o lenço branco no bolso, tudo maravilhoso, mas….. aquela coçadinha no saco parado na esquina revelou na hora qual o seu verdadeiro CEP…

Para os meus amigos, novos ricos e esnobes, que debocham das lutas sociais e desprezam sua origem humilde, a coçadinha no saco é a falta de consciência de classe. Ela é a marca mais persistente de subdesenvolvimento…

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