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Sectarismos conservadores

Na verdade o fundamentalismo radical é igual em qualquer parte do mundo, é semelhante em TODAS as seitas. Da mesma forma que um fanático de futebol não pode ser diferenciado de pelas cores do seu clube o mesmo se dá nos extremistas de qualquer orientação religiosa. As religiões sempre atuaram na história da humanidade como poderosas forças conservadoras. A igreja católica sempre esteve ao lado dos conquistadores espanhóis patrocinando todos os genocídios que temos conhecimento na América Latina. Hoje os evangélicos são a força por trás dos neofascistas no poder, aqui e nos Estados Unidos.

Apesar de ser válida a generalização, por certo não seria justo esquecer as pastorais surgidas nos últimos anos que tentam verdadeiramente se colocar ao lado dos pobres, mesmo sendo movimentos (ainda) claramente minoritários.

As igrejas assumem, via de regra, o lado do poder e do dinheiro. Os evangélicos e pentecostais, da mesma forma, aliam-se às candidaturas mais à direita, mais vinculadas ao poder econômico e mas explicitamente racistas, mesmo quando a imensa maioria do seu público é composto de negros, pobres, oprimidos e excluídos. Não deveria, portanto, causar qualquer espanto o fenômeno americano, onde mais de 80% dos “white evangelicals” americanos apoiam Trump, um sujeito cuja trajetória pessoal e política é um exemplo de vida OPOSTO aos preceitos cristãos. Com Bolsonaro ocorre o mesmo: um racista condenado e um homofóbico confesso recebe apoio irrestrito de sua última trincheira: a massa de pobres do universo evangélico e pentecostal, mas também de católicos “carismáticos” de direita (Canção Nova) e até de judeus e espíritas.

É importante notar que, apesar do imenso suporte que Trump obtém entre os evangélicos brancos, esse suporte desaba para menos de 30% entre os evangélicos negros. Essa equação nos mostra que por trás dessa vinculação está o racismo, um traço que une Estados Unidos e Brasil numa linha de preconceito e atraso.

Estes dados de apoio a Trump e Bolsonaro demonstram que as religiões “desmoralizadas” – isto é, onde o foco é menos MORAL e espiritual e mais político e pragmático – são as barreiras mais urgentes e complexas a serem conquistadas. Como as esquerdas e os democratas vão lidar com isso será a tônica principal das próximas eleições

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Religião anti corrupção

“Essa religião da limpeza ética e contra a “corrupção” vai continuar existindo até o dia em que ficar explícito e evidente para todos que esse combate moralista é tão falso quanto às pregações furiosas dos pastores cristãos contra a “obscenidade e a luxúria”. Em verdade a “cruzada contra a corrupção” sempre foi usada em momentos de crise do capitalismo. Foi usada por Hitler e Mussolini. Também contra Getúlio, Juscelino, Jango e agora para atacar Lula e o PT. No fundo ela tenta encobrir elementos inconfessáveis do inconsciente coletivo.

Aqui no Brasil, o sentimento racista que foi atiçado com a emergência – ainda que acanhada – das classes populares precisava de uma expressão política. Essa saída veio com o bolsonarismo, onde esse sentimento de exclusão social e racial poderia se expressar de forma travestida, com a roupa da virtude e da lisura na coisa pública. Não é a toa que o Bolsonarismo é mais forte e persistente no “Brasil branco” – Rio Grande do Sul e Santa Catarina – também a parte mais racista do país.

É fácil diagnosticar está falsidade no discurso anti corrupção quando vemos que todas as “outras” corrupções comprovadas que nos cercam não mereceram nenhuma atenção desses mesmos bolsonaristas. Aécio, Temer, Queiroz, Bolsonaros e mesmo a corrupção comprovada da Lava Jato não merecem uma batida sequer de panelas ou uma indignação de qualquer natureza.

Como diria o sociólogo Jessé de Souza, a raiz dessa perseguição às esquerdas é o fato de que elas ensaiaram combater – mesmo que de forma tímida – o verdadeiro mal desse pais: a desigualdade e a injustiça social. Para essa classe média branca e “remediada”, a ascenção dos pobres representa uma ameaça muito maior do que opressão dos ricos. Estes, no Olimpo do capitalismo mais cruel do planeta, acenam para a classe média com a ilusória ascenção meritocrática, tão enganosa quanto as benesses garantidas pelos pastores, prometidas aos dizimistas depois da morte.

É o racismo, nossa ferida mais profunda, o que nos permite aceitar tanta iniquidade e tanta injustiça. Enquanto essa chaga não for cauterizada continuaremos a matar negros e pobres como formigas.”

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A máscara caiu

Branquesia racista se manifestando a pleno nas redes sociais. Aplausos ao governador genocida se escutam por toda parte. Estão se sentindo soltos, não? O que antes era falado apenas em voz baixa – e entre risos – nos churrascos das famílias italianas e alemãs agora é dito abertamente no Facebook. Bolsonaro liberou o que existe de pior em cada um de nós, mas para alguns este é o momento sublime de libertação de todo seu ódio, seu ressentimento e seu racismo mais abjeto.

A turma reacionária abriu a gaveta de baixo da cômoda e tirou de lá a caixinha que se escondia debaixo da pilha de papéis. Dentro dela, entre fotografias obscenas, a máscara do racismo por tanto tempo escondida agora pode ser vestida sem pudor. É “cool” ser preconceituoso; está na moda aplaudir e festejar execuções públicas, em especial de negros e pobres de periferia. É bacana desprezar o meio ambiente e atacar gays e transgêneros. Ser perverso e canalha está na “crista da onda”. Ser mau… é bom.

Abrimos a caixa dos nossos sentimentos mais baixos. Estamos nos tornando o país mais pervertido do planeta. Somos a escória do mundo. A banalidade do mal triunfa enquanto a solidariedade agoniza.

A máscara caiu…

Somos o país onde a escravidão mais resistiu e seremos o último a apagá-la de nosso cotidiano. O mesmo racismo que motivou as massas na Alemanha à destruição é o motor das manifestações que comemoram morte e extermínio – de gentes e natureza.

Só a catástrofe salvou a Alemanha. Só a catarse nazista limpou este país do racismo e do desprezo aos outros povos. Acredito que o Brasil terá o mesmo destino; só uma hecatombe provocada pela indignação coletiva de pretos, pobres, periféricos, favelados e a gigantesca legião de desprezados fará a limpeza que o país precisa.

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Cesarianas e classe social

Durante os anos 90 eu atendi um parto, num hospital de periferia, que eu nunca esqueci pelos seus significados sobre o dilema das cesarianas. Os pacientes deste hospital eram egressos de uma vila popular muito pobre do cinturão que cerca Porto Alegre. No entanto, este parto em especial, era de uma família levemente mais abonada. Não traziam nas roupas ou nas palavras os estigmas da pobreza que eu estava acostumado a ver em quase todas as outras famílias que procuravam o centro obstétrico. O pai do bebê a nascer estava presente e a gestante tinha um pouco mais de idade do que a adolescência habitual.

Depois de admitida em trabalho de parto inicial o esposo me chamou para falar. Perguntou, de forma respeitosa e com palavras bem escolhidas, como estava sua esposa e o que deveria esperar para as próximas horas. Eu lhe respondi que estava tudo bem e que o parto só deveria ocorrer em várias horas. Ele aquiesceu com a cabeça e me cumprimentou, avisando que iria embora e voltaria mais tarde. Voltei para minha sala, mas antes que eu pudesse fechar a porta ele bateu no meu ombro e disse:

– Desculpe, doutor. Esqueci de dizer que, se precisar fazer uma cesariana, dinheiro não será o problema. Somos pobres, mas temos condições de arranjar o que o senhor cobrar.

Expliquei a ele que aquele era um hospital público, e que nenhum tipo de pagamento era necessário, muito menos permitido, mas que ele tivesse confiança que tudo faríamos de melhor para sua esposa e seu bebê. Porém, aquele homem assustado havia me mostrado que o parto normal de sua esposa significava não uma opção pela segurança e pelas boas práticas – o que verdadeiramente é – mas a submissão a um modelo imposto pela sua condição de pobre. As cesarianas ocupavam em seu imaginário “aquilo que se pode escolher quando se é de outra classe“.

A raiz da epidemia de cesarianas no Brasil está na divisão de classes. As pessoas não fazem escolhas racionais nesse campo. Muitos casais compram um convênio médico logo após casarem apenas para serem atendidos de forma “diferenciada” no parto. Cesarianas servem como símbolos de status que a classe média utiliza para se afastar do que significa ser pobre, “a quem não cabe escolha“. Para mudar esta tragédia no Brasil é fundamental mudar a imagem que todos temos da cesariana e do parto normal, desvinculando a escolha cirúrgica de uma opção pela segurança e como emblema de ascensão social.

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Sustentação

O que me entristece e preocupa não é o fato de que Bolsonaro seja racista, machista, homofóbicos e um completo incompetente, mas o fato de que tantas pessoas parecem não se importar com isso, sequer com o flagrante nepotismo da indicação de seu filho para a embaixada nos Estados Unidos. Para além disso, o que me espanta é o número de cidadãos que reconhecem a corrupção de Moro, Dalanhol, Gebran, Dodge, Fux, Barroso e até Toffoli, mas parecem não dar a menor importância para o fim da democracia. Pelo contrário, até celebram sua morte insidiosa.

Bolsonaro um dia deixará de ser presidente, assim como essas figuras do judiciário que dão suporte legal ao arbítrio; todavia, as pessoas comuns que apoiam o desmonte civilizatório no Brasil continuarão por aqui. Assim, fica claro que todos os gritos e marchas contra a corrupção que marcaram o país desde 2013 eram tão somente uma gigantesca cortina de fumaça a esconder nossas verdadeiras motivações inconfessas.

O que motivou essa população branca e de classe média contra os governos anteriores e seu desejo de “renovação” na política foi a ideia compartilhada com os votantes de Trump: “queremos nosso país de volta”. Um país onde todos saibam seu lugar, como sempre foi. Empregados e patrões. Ricos e pobres. Um país onde negro é negro, branco é branco, família é pai e mãe, meninos vestem azul e meninas rosa. Essas ilusórias certezas diante de um mundo de fronteiras incertas são as verdadeiras motivações que nos jogam nos cultos à personalidade e nas seitas, que são a melhor definição para o trumpismo e o bolsonarismo.

Assim como nos Estados Unidos somos herdeiros de uma nação cuja fratura formativa é a escravidão. Ela se manifesta de forma dissimulada na interação social, mas continua sendo a base de onde tiramos os nossos conceitos. Não é à toa que a “direita chucra” (para usar a expressão de Reinaldo Azevedo) costuma chamar os petistas e membros do MST de “vagabundos” , com o mesmo tipo de desprezo que tinham pelos negros escravos. Sem a cura dessa ferida seremos eternamente condenados a um destino violento, dividido e injusto.

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