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O que (não) fazer

A respeito de exames exagerados e abusivos lembrei da minha velha tese sobre as ecografias, que em nosso meio são de 3 categorias diferentes:

  • Recreativas
  • Sedativas
  • Médicas

A primeira é uma criação cultural relacionada com a angústia criada pela indústria para descobrir tamanhos, formas e genitálias de bebês. A segunda é para oferecer alívio às mulheres bombardeadas pelo terrorismo cultural sobre as barrigas em crescimento. Ambas não tem nenhuma base científica que justifique seu uso; são criações da cultura para vender aparelhos (caros) e fortalecer a dependência das mulheres à “tecnologia redentora”. Apenas o último ultrassom é justificável, mas para ser solicitado precisaria de 3 elementos essenciais: uma pergunta, uma possível resposta e uma ação. Só assim ele poderia ser medicamente útil.

Posso garantir que na obstetrícia 99% (talvez mais) pertencem às primeiras duas categorias. Portanto, inúteis e perigosas. Concordo com a tese de que “exames matam”. Em verdade, palavras também, mas um exame pode fazer com que os julgamentos e a confiança na paciente – e dela consigo mesma – seja destruída ou fatalmente ferida.

Asim sendo, antes de pedir quaisquer exames durante a gestação pense:

  • Além da indústria médica e seus tentáculos (laboratórios, drogas, reagentes, equipamentos, profissionais, etc), quem mais se beneficia desse pedido de exames?
  • É possível que este exames mude sua estratégia no caso? Como? Ou está pedindo só para “ver como está”?
  • Tem validação científica?
  • Vai realmente trazer luz a este caso ou será um desperdício de recursos? É muito caro? Vale a pena o recurso investido?
  • Não seria possível trocar este exame por uma anamnese melhor ou por mais meia hora de prosa?

Pense melhor. Menos é mais…

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Arquivado em Ativismo, Medicina

Decisões

Há uns trinta e tantos anos eu estava de plantão em um hospital quando adentraram na emergência dos pacientes baleados. O estado de ambos era crítico. A esposa de um deles contou que o bar onde trabalhavam foi assaltado e seu marido reagiu. Na troca de tiros ele foi atingido na cabeça, mas antes disso conseguiu acertar o bandido que invadiu o estabelecimento.

Eu era um estudante plantonista e fui designado para a neurocirurgia do dono do bar. Meu colega acompanhou o cirurgião para a outra cirurgia, na sala ao lado, a ser feita no assaltante que havia sido atingido no peito.

Ao entrar na sala soube que ambos os casos eram dramáticos. A cirurgia no cérebro é sempre delicada e seria minha primeira vez a acompanhar uma delas como auxiliar. Naquela época já era claro para mim que este tipo de trabalho jamais seria a minha rotina de vida, mas ainda assim era algo excitante e desafiador.

No meio da cirurgia nossa sala foi invadida pela dupla de médicos da sala ao lado. Abraçados e rindo alto gritavam “acabamos com o bandido!!!”. Entre risadas jocosas diziam que a cirurgia havia “corrido com perfeição”, e que suas habilidades foram colocadas à prova “com sucesso”. As risadas foram compartilhadas pelos cirurgiões da minha sala. Eu fiquei confuso…

Não sei o que aconteceu com o nosso paciente, mas lembro de termos terminado a cirurgia com ele vivo. A delicadeza do caso não poderia nos oferecer nenhuma garantia.

Entretanto, a reação dos médicos da sala do lado nunca saiu da minha lembrança. Prefiro acreditar até hoje que o paciente não resistiu à severidade e extensão dos seus ferimentos e que o que se seguiu foi apenas uma manifestação de humor diante do insucesso. Não conseguiria acreditar que médicos deixassem de usar seu talento para salvar uma vida guiados pelas considerações de caráter moral de seus paciente. Um bandido, um terrorista ou o Papa são iguais diante da ética que deve orientar o proceder dos médicos.

Não há nenhuma desculpa para quem revoga seu compromisso com a ética profissional. Os pacientes acreditam que não serão julgados por sua cor, religião ou condição social, inobstante o que tenham feito. Essa é a premissa que suporta a atenção médica. Até na guerra, o ferimento do inimigo vale tanto quanto os dos nossos soldados.

A sensação de estranhamento com esta cena me voltou à memória quando escutei essa semana pessoas defendendo a validade das ações de um juiz que liderava uma cruzada contra um partido. A mesma falha ética, o mesmo desrespeito com os elementos mais basilares da função social que desempenha. O mesmo abuso de poder baseado na crença de sua infalibilidade e superioridade.

Uma medicina que escolhe quem merece viver ou morrer é tão danosa e maléfica quanto uma justiça que decide pela culpa ou inocência baseando-se em valores alheios aos fatos julgados. Sem essa confiança na isenção nenhuma atenção será digna e nenhuma justiça será possível.

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O Sofá da Sala

Acabo de ler a nota do governo brasileiro – claramente inspirada pela corporação médica – que tenta impedir o uso do termo “violência obstétrica”, curiosamente na mesma semana em que o presidente, usando a mesma lógica, diz que “racismo é algo raro de ocorrer no Brasil”. A mesma tentativa tola de tirar o sofá da sala imaginando que assim o problema deixaria de existir.

O problema não é o termo utilizado, mas a “misoginia essencial” que permeia a atenção ao parto e nascimento, resultado de 100 séculos de modelo patriarcal a conduzir nossas vidas. Violência obstétrica existe sim – e dói.

Creio que não resta nenhuma dúvida dos interesses por trás dessa manobra; elas visam, em essência, a mudança de narrativa através da supressão de expressões consagradas. Estas são atitudes muito coerentes com o modelo revisionista que se pretende implantar no Brasil de hoje. Assim, não tivemos golpe em 64, mas “governos militares”. Dilma sofreu um “Impeachment” e não outro golpe patrocinado por grupos ressentidos, o que abriu caminho para outras aberrações jurídicas como prender o ex presidente Lula sem apresentar provas.

Desta forma sorrateira o Brasil inaugura oficialmente o uso da “novilingua” acreditando que assim fazendo exterminará como por encanto a violência física e moral a que são submetidas milhões de mulheres no país, algo que o termo – agora suprimido – sempre pretendeu denunciar.

Sabemos que tais iniciativas grosseiras e ofensivas fazem parte da cobrança da dívida que o bolsonarismo tem com a corporação médica. Esta corporação foi parceira de primeira hora nas manifestações golpistas de 2013-16, que culminaram com a queda de Dilma e a prisão de Lula, e posteriormente na eleição de Bolsonaro. Aqui mesmo no sul o sindicato médico já se apressou em mandar uma nota e um vídeo parabenizando o governo Bolsonaro pela proibição. Nenhuma surpresa.

Nada disso deveria nos espantar: a corporação médica mostra seu caráter reacionário de forma explícita desde o surgimento de canais na internet como Dignidade Médica, que disseminam todo o racismo, classismo, preconceitos de cor, raça e orientação sexual há muitos anos. Antes das redes sociais este fenômeno ficava restrito às salas acarpetadas de cafezinho dos hospitais. Agora… os monstros estão todos à solta.

Cabe a nós, ativistas da humanização, mostrar que o combate à violência obstétrica não é obra de “hippies”, “radicais comunistas” ou outras promotoras de “balburdia”, mas de um coletivo de pensadores e ativistas que se debruçam há muitos anos sobre o tema da violência de gênero no Brasil e no mundo. É digno de nota que inclusive elementos progressistas da própria corporação médica reconhecem a justeza do termo – além de sua consagração pelo uso – e entendem a necessidade de fazer algo a respeito dentro da prática cotidiana da obstetrícia, num exercício saudável de autocrítica e visão de futuro..

É importante que os ativistas, que sempre foram a locomotiva a puxar os movimentos articulados pela dignidade no parto e contra a violência obstétrica, se posicionem de forma vigorosa e contundente contra este tipo de iniciativa, denunciando o atraso em conquistas históricas por uma maternidade digna e segura que tal manifestação oficial significa.

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