Aprendendo com o “Inimigo”

Nunca será demasiado ressaltar a importância de conviver em intimidade com os contraditórios, aprender com as diferenças e usá-las como um teste permanente para a solução das dúvidas e desafios que surgem no desenrolar do processo. Mais do que “respeitar as diferenças” é necessário saudá-las, aproximá-las de nós, conviver com elas e retirar delas todo o ensinamento possível. Rechaçar o outro, expurgá-lo, castrá-lo e exilá-lo não ajuda no crescimento de nenhum movimento. Os conflitos, tanto quanto as quedas de um rio, são os propulsores de energia. Sem discussões, por mais que sejam acirradas – e até mesmo duras – não saímos da morosidade paralisante dos consensos. A diferença entre a briga e a discussão é que na segunda dois se propõe a escutar; discutir vem do termo latino “discutere“, que deriva de “quatere” que significa sacudir. Dessa forma, “discutir” significa sacudir algo para separá-lo. Uma discussão é mesmo uma “sacudida”, uma convulsão de ideias e propostas, mas quando as partes aceitam a existência da palavra do outro o processo pode levar a uma conciliação em que os dois polos do debate acabam crescendo e se modificando.
Um dos problemas que eu sempre diagnostiquei na humanização do nascimento era a palestra para os “convertidos”; a fala que se repetia para os mesmos. Ali sempre reinava a paz e evitavam-se os conflitos; perdemos muito tempo com essa ilusão de paz e harmonia. Com a proliferação dos vídeos, peças de teatro e documentários relacionados à problemática do nascimento no mundo ocidental, mudamos um pouco o nosso direcionamento e acabamos por atingir um público mais abrangente, e isso deu um impulso enorme às nossas propostas. Em contrapartida ao crescimento do número de interessados nesse tema, acabamos por criar adversários violentos e até mesmo cruéis, como os fatos recentes puderam comprovar. Todavia, continuamos a entendê-los como “inimigos”, sem entender a possibilidade renovadora que eles nos propiciam. Deixamos de escutar o preceito bíblico que diz que “os inimigos são os teus verdadeiros amigos”, e pecamos por esquecer as palavras de Oscar Wilde: “Devem-se escolher os amigos pela beleza, os conhecidos pelo caráter e os inimigos pela inteligência”. Sim porque a inteligência dos inimigos nos provoca crescimento e fortalecimento.
Talvez esse seja o passo mais complicado para o ativismo, qualquer que seja, dos palestinos, dos grupos homossexuais, dos “verdes” e dos ativistas da humanização: como aprender a compor com os desiguais, instruir-se com suas teses e aceitar avanços lentos e graduais. Para mim a resposta continua sendo a sensibilização afetiva, sobre a qual podemos descarregar uma tonelada de evidências, assim como projetos que coloquem a mulher e sua saúde em primeiro plano.
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