O Poder Feminino

Rafael Bublitz nasceu há 16 anos em um parto domiciliar na cidade de Porto Alegre. Sua mãe teve os filhos em sua própria casa pela absoluta impossibilidade de se transferir para um hospital. Nunca houve tempo para isso; seus cinco filhos nasceram no aconchego do acanhado apartamento no bairro Cristal. Seus trabalhos de parto não contavam mais do que poucos minutos, e quando ao anoitecer o telefone gritava em minha casa era apenas para anunciar um fato já consumado: “Ela acabou de ganhar o bebê, doutor”, me repetia – sempre com a mesma entonação que misturava assombro e alegria – o seu orgulhoso marido Álvaro. De tão impactado fiquei ao testemunhar estes nascimentos percebi que era necessário contar a história desses partos, tão puros, simples, rápidos e fáceis. Precisava dizer que o nascimento podia ser entendido de outra maneira, visto por uma ótica mais suave e lírica, e que talvez a forma técnica, fria e impessoal com a qual tratamos as mulheres nesse momento tão especial seja um dos mais importantes fatores para a “desumanização” de um momento tão rico em significados e formas de expressão. Convencido da importância de não deixar que as histórias se percam no vazio das palavras não ditas, o nascimento de Rafael foi descrito no meu primeiro livro “Memórias do Homem de Vidro – Reminiscências de um Obstetra Humanista” no capítulo “Madalena e os Mistérios do Nascer”.

Hoje “Madalena”, nome fictício da verdadeira mãe de Rafael, veio ao meu consultório com um sorriso no rosto e um jornal na mão. Queria me mostrar o que Rafael tinha escrito. O texto de seu filho havia sido selecionado entre centenas de alunos do ensino médio em um concurso literário cujo tema era “Amélia”. Sim, aquela mesma da música do Mário Lago. O tema, que se escondia por detrás do título, era a “mulher” e sua nova posição na sociedade contemporânea individualista e ocidental. Um imenso desafio para um garoto de 16 anos que sonha estudar direito. Pois Rafael resolveu tratar desse assunto abordando o “Poder Feminino”, e – talvez mesmo sem o perceber – fez uma linda homenagem à mãe poderosa e valorosa que, num ato de coragem e ousadia, recebeu seus filhos neste mundo como cidadãos, e não como pacientes. Mesmo que o essencialismo de Rafael possa ser criticado, quando fala que “o papel feminino se define pela capacidade de ser mãe”, creio que sua exaltação da maternidade como expressão legítima do poder feminino é digna de elogios. Rafael Bublitz tem apenas 16 anos, e isso explica alguma falha, mas o que se mostra evidente é que um nascimento digno e respeitoso carrega consigo consequências que ultrapassam a nossa experiência imediata, produzindo um “imprint” indelével que marcará a alma por toda a existência.

Abençoadas sejam para sempre, todas as “Madalenas” que despertam para a importância de um nascimento pleno de PAZ.

Ao lado, o texto de Rafael Bublitz publicado no Jornal Zero Hora em 8 de agosto de 2012:

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